segunda-feira, agosto 14, 2006

COMIDA RÁPIDA

Nova proposta de animação da Dreamworks, que gerou há meses o mediano "Madagáscar", "Pular a Cerca" (Over the Hedge) alia às obrigatórias doses de humor uma vertente de mensagem ecológica, apostando num argumento simples mas com uma curiosa sátira ao consumismo.

A premissa parte do final da hibernação de um grupo de animais de um bosque, que ao acordarem se surpreendem quando percebem que o local onde sempre viveram começa a ser ocupado por estranhos e inesperados vizinhos.

Um amigo recente, o guaxinim RJ, explica-lhes que as suas novas companhias são uns seres conhecidos como "humanos" e desde logo causa entusiasmo ao apresentar as potencialidades que estes oferecem, nomeadamente os tentadores e ilimitados armazenamentos de comida.
Contudo, esta auspiciosa descoberta será marcada por episódios conturbados, uma vez que os planos de RJ são mais obscuros do que este dá a entender, e embora a tartaruga Verne, líder do grupo, suspeite das suas intenções, todos os elementos não hesitam em apoiar o novo membro.

Tim Johnson e Karey Kirkpatrick conseguem aqui uma obra que não traz nada de novo à linguagem da animação digital mas não deixa por isso de ser uma agradável surpresa, valendo pelo argumento imaginativo q.b., pelas personagens suficientemente divertidas e algumas sequências carregadas de uma energia contagiante, disparando gags que se adequam tanto ao público infantil como ao adulto.

Explorando por um lado a habitual temática dos laços de amizade e da importância da família a par de questões actuais como a protecção do ambiente ou o materialismo, "Pular a Cerca" tem ainda como mais-valia o sólido trabalho de vozes (a cargo de nomes como Bruce Willis, Steve Carell ou Nick Nolte), e se dificilmente ficará como um marco na animação é, pelo menos, um dos filmes mais divertidos de 2006, que entretém sem insultar a inteligência do espectador.

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

sexta-feira, agosto 11, 2006

AMORES DE VERÃO (5): LUSCIOUS JACKSON

É sexta-feira, por isso nada melhor do que música de praia para antecipar o fim-de-semana. Assim sendo, fica aqui uma recordação, em formato videoclip, para "Electric Honey", o derradeiro álbum das saudosas Luscious Jackson (mais ninguém acha que a menina do meio é a gémea separada à nascença da Maria Rueff?).

O VIRA-PÁGINAS

Notabilizado por obras como "A Linguagem Perdida dos Guindastes", "Dança de Família", o norte-americano David Leavitt tem desenvolvido na sua escrita complexas reflexões acerca das dificuldades das relações familiares, da inadaptação ou da identidade (onde o carácter sexual tem muitas vezes um papel determinante), questões geralmente abordadas com sensibilidade e subtileza que lhe permitiram tornar-se num dos escritores mais estimulantes das últimas décadas.

"O Corpo de Jonah Boyd" (The Body of Jonah Boyd), editado em 2004, dá continuidade à exploração dessas temáticas e narra a relação de Denny, secretária de um profesor universitário, com a família deste, alicerçando-se sobretudo nos eventos decorrentes de um jantar de acção de graças no final dos asnos sessenta onde um dos convidados, o aclamado escritor Jonah Boyd, perde os manuscritos com material para a sua próxima obra.

O livro centra-se no retrato que a protagonista faz sobre a família Wright, que a acolhe como amiga e confidente mas na qual nunca se sente verdadeiramente integrada, e também na história de suspense que gira em torno do destino dos cadernos de apontamentos perdidos, na qual Ben, o filho mais novo do clã, aspirante a escritor, e Anne, esposa de Boyd, desenvolvem um jogo marcado pela manipulação e ambição durante anos.

Através dos comentários de Denny (a narradora), Leavitt oferece perspectivas acerca das contingências da célula familiar a par de outras dedicadas ao acto da criação artística, em particular da marca autoral, do plágio ou das origens do talento.
Esta combinação torna "O Corpo de Jonah Boyd" numa obra intrigante ao início, mas acaba por revelar-se algo frustrante.
A caracterização da família Wright não só não acrescenta muito às de outras famílias que Leavitt já criou como fica consideravelmente abaixo destas, uma vez que as personagens não são muito envolventes nem sequer exploradas com a tridimensionalidade habitual no autor.
Há momentos conseguidos, mas o livro nunca permite que os Wright, exceptuando Ben, sejam mais do que figuras sem grande espessura e cujo rumo dificilmente inquietará o leitor.

Outro problema são as peripécias que envolvem os textos de Boyd, que à partida prometiam uma narrativa surpreendente mas apenas enveredam por domínios mais previsíveis do o que se esperaria num trabalho do habitualmente ousado Leavitt, despoletando ainda um desenlace forçado para a protagonista.

Desapontante e pouco inspirado, "O Corpo de Jonah Boyd" não chega a ser um tíulo desprovido de méritos, pois a escrita de Leavitt mantém-se absorvente e acessível, mas apesar de momentos com observações oportunas a ausência de risco do resultado geral é evidente.
Assim, este não chega a ser um mau livro mas fica limitado a um objecto menor na obra do autor, a milhas da memorável ressonância emocional de um "Enquanto a Inglaterra Dorme" ou mesmo de títulos mais modestos, mas consistentes, como "Equal Affections" ou "O Vira-Pautas". Moderadamente interessante para os seguidores do escritor, contudo longe de constar entre as melhores portas de entrada para aqueles que pretendam conhecê-lo.
E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

quinta-feira, agosto 10, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "SUPER-HOMEM: O REGRESSO"

Aquele que é, provavelmente, o super-herói mais famoso de sempre regressou às aventuras na sétima arte e chega hoje a salas nacionais.
"Super-Homem: O Regresso" (Superman Returns) narra as peripécias de Clark Kent e do seu alter-ego após os acontecimentos decorridos na segunda adaptação cinematográfica, realizada por Richard Lester em 1980, e foca o retorno do protagonista à Terra após cinco anos de exílio, onde descobre que muito mudou durante a sua ausência.
Desta vez é Bryan Singer que ocupa o cargo de realizador, o que é especialmente promissor tendo em conta os resultados que conseguiu com a passagem dos X-Men para o grande ecrã, e o elenco conta com Brandon Routh, Kate Bosworth e Kevin Spacey nos papéis principais.

Outras estreias:

"A Poeira do Tempo", de Robert Towne
"Desastre", de Roy T. Wood
"Os Amantes Regulares", de Philippe Garrel

FEBRE DE QUARTA À NOITE

Featuring: "Miami Vice", candidato a filme mais cool do ano (e confirma-se, é mesmo bom, Mann não desiludiu), e não menos cool foi o encontro acidental, mas muito bem-vindo, com a jazz session de tributo a Coleman Hawkin no Bicaense Café. Só houve um senão, ter dormido duas horas e meia esta noite, mas o programa e a companhia compensaram. A repetir, ok par, sunday e space (nice meeting you)?

quarta-feira, agosto 09, 2006

AMORES DE VERÃO (4): BECK

Hey, my sun-eyed girl

Beck - "Girl"

CRIME E CASTIGO

À partida, e tendo em conta o trailer e restante material promocional, "Há Dias de Azar..." (Lucky Number Slevin) não parecia ser mais do que um blockbuster igual a tantos outros, que pouco ou nada acrescenta ao cinema ou a quem o vê, aparentando ser mais um concentrado de sequências de acção acompanhadas por alguns one-liners supostamente cómicos.

No entanto, e como por vezes as primeiras impressões enganam, esta película de Paul McGuigan consegue ser mais inventiva e imprevisível do que grande parte dos produtos do género, mérito de um argumento que de início se limita a seguir uma segura rotina mas que a meio do filme aposta numa arriscada, mas bem sucedida, mudança de registo, habilitando-se a retirar o tapete debaixo dos pés aos espectadores mais incautos.

Se o argumento é engenhoso, "Há Dias de Azar..." convence também em praticamente todos os outros aspectos, seja na realização e montagem fluídas q.b., capazes de gerar uma atmosfera carregada de coolness e energia cinética sem enveredar por um enjoativo estilo de videoclip; na construção das personagens, que apesar de esquemáticas se adaptam com eficácia a um enredo onde a vingança se interliga com o humor; ou na direcção de actores, pois o elenco é muito equilibrado e proporciona alguns desempenhos deliciosos por parte de gente como Morgan Freeman, Ben Kingsley, Bruce Willis, Stanley Tucci, Lucy Liu e Josh Hartnett, este último na pele do azarado protagonista que se vê envolvido num conflito entre dois chefes do submundo nova-iorquino.

De resto, os frequentes flashbacks não se tornam cansativos nem incongruentes, devido a um final que consegue atar com competência as pistas que vão sendo lançadas, e os diálogos são certeiros e irónicos, originando uma dose generosa de gags.
O filme só falha para quem levar demasiado a sério a moral de algumas personagens, ainda que "Há Dias de Azar..." pretenda (e ainda bem) ser mais um consistente entretenimento pipoqueiro do que um estudo psicológico sobre os abismos da esfera humana.

Longe de essencial, "Há Dias de Azar..." é contudo um blockbuster bastante satisfatório, com uma inteligente mistura de suspense e humor e reminiscências (mais do que assumidas) de filmes de Hitchcock, Tarantino e das aventuras de James Bond.
A par de "Kiss Kiss Bang Bang" e "Medo de Morte", é uma das refrescantes surpresas de 2006 capaz de dar novo fôlego aos códigos do crime noir, e tal como nesses casos a vertente comercial não anula, felizmente, a criativa.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

terça-feira, agosto 08, 2006

NÃO HÁ COINCIDÊNCIAS

Estreando-se na realização com "O Oposto de Sexo" (1998), uma comédia negra apenas curiosa, e apresentando uma banal segunda obra, "Bounce - Um Acaso com Sentido" (2000), drama com Ben Affleck e Gwyneth Paltrow, o norte-americano Don Roos consegue, na sua terceira longa-metragem, "Finais Felizes" (Happy Endings), o seu trabalho mais interessante até à data.

Caracterizado por alguns como um sucedâneo de "Magnolia" devido à sua estrutura narrativa em mosaico, que se debruça sobre as vidas entrecruzadas de diversas personagens, a película fica-se por aí nos paralelismos com essa obra de Paul Thomas Anderson (que, de resto, nem foi pioneira em filmes com esses moldes), uma vez que adopta um tom mais espirituoso e mordaz, complementando o drama com uma carregada dose de humor ácido.

Centrado em três personagens, que por sua vez se cruzarão entre si e com muitas outras, "Finais Felizes" propõe um perspicaz e por vezes surpreendente olhar sobre as relações humanas, sejam estas amorosas ou familiares, onde a mentira, a manipulação e a traição coabitam com a cumplicidade, o perdão e a redenção.

Embora a maioria das personagens sejam interessantes, o excesso destas obriga a que nem todas sejam exploradas da forma que merecem, ainda que a duração do filme ultrapasse as duas horas (que nunca se tornam cansativas devido ao ritmo vitaminado e envolvente).
O notável elenco ajuda a que as experiências retratadas sejam ainda mais próximas do espectador, através das inquietações de Lisa Kudrow, da obstinação de Maggie Gyllenhaal, do cinismo de Steve Coogan, da rebeldia de Jesse Bradford ou da vulnerabilidade de Jason Ritter, cujos contrastes de personalidades despoletam sequências de uma subtil ambiguidade moral e emocional.

O imaginativo (mas nem sempre oportuno) recurso a legendas que ofecerem informação complementar à acção e a meritória banda-sonora, onde constam canções dos Calexico, Black Heart Procession ou da própria Maggie Gyllenhaal, contribuem também para um balanço bastante positivo, adicionando "Finais Felizes" à lista de filmes a ver neste Verão.
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

domingo, agosto 06, 2006

AMORES DE VERÃO (3): MADONNA

How could it hurt you when it looked so good?
Abaixo, o vídeo da remistura de Jacques Lu Cont para "Hollywood", e aqui uma versão punk-esgrouviada do tema pelos brasileiros Cansei de Ser Sexy (embora pareça ter sido feita pelas Le Tigre).

sábado, agosto 05, 2006

VIDAS PRIVADAS

Segundo filme da catalã Isabel Coixet estreado em salas nacionais (o primeiro foi “A Minha Vida Sem Mim”, em 2004), “A Vida Secreta das Palavras” (The Secret Life of Words) é um contido drama onde se entrecruzam os percursos de Hanna, uma jovem misteriosa que vai trabalhar para uma plataforma petrolífera como enfermeira durante as férias, e de Josef, o doente que está entregue aos seus cuidados, vitimado num incêndio nesse local.

A solidão e os fantasmas de acontecimentos passados surgem como elo unificador dos dois protagonistas, cuja relação começa por ser difícil devido à forma díspar como ambos agem: ela recolhida num silêncio irascível, ele apoiado em recorrentes comentários espirituosos ou mesmo jocosos.

Aos poucos, Coixet vai tecendo uma cumplicidade crescente entre estas duas figuras, entregues uma à outra no meio do vazio que as envolve. Revelando um apurado sentido de observação na forma como aborda as peculiaridades dos sentimentos e relações, a realizadora impõe ao filme um ritmo lento, mas apropriado aos contornos desta história, gerando uma aura intimista e envolvente.

Os cenários, quase sempre apenas os da plataforma petrolífera, reforçam a carga minimalista da película e o modo como a câmara os capta ajuda a consolidar uma atmosfera singular, um limbo espacial habitado por outcasts desintegrados.
Contudo, quando a acção deixa este espaço, “A Vida Secreta das Palavras” vai perdendo a subtileza e unicidade que mantinha até então, entrando em domínios mais convencionais pelo modo algo desapontante como desenvolve o relacionamento dos protagonistas e por um meritório, mas algo forçado, carácter panfletário de mensagem política/social.
Outro problema é a dispensável voz off, intrusiva e desnecessariamente explicativa, que interrompe fulcrais sequências marcadas pelo silêncio.

Estas fragilidades retiram à película alguma da sua força, mas não diluem a boa impressão que Coixet deixa nem as soberbas interpretações de Sarah Polley (uma das mais talentosas e subvalorizadas jovens actrizes de hoje, magnífica na meticulosa composição da lacónica Hanna) e Tim Robbins (carismático num papel difícil, ainda que perca o fôlego já no final), assim como não impedem que “A Vida Secreta das Palavras” seja ainda um filme adulto, belo e honesto, a merecer atenção e entrega.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

sexta-feira, agosto 04, 2006

PRESSÃO ALTA

Estava eu no final desta manhã a ouvir "Apply Some Pressure", dos Maxïmo Park, quando parei num sinal vermelho e, poucos segundos depois, um camião “aplicou”, literalmente, “alguma pressão” ao meu carro, quando embateu neste sem sequer travar.
Resultado: traseira do automóvel esmagada (e de difícil reparo, logo depois do carro ter passado na inspecção dois dias antes e de ter tido remodelações há três), dores na coluna e direito a transporte de maca para o Hospital, seguido de estadia no mesmo ao longo de toda a tarde para exames.
Felizmente, tirando algum mau-estar inicial devido ao impacto, saí praticamente incólume, e embora tenha sido um último dia de férias longe de idílico é certo que poderia ter sido bem pior.
Primeiro uma televisão, agora um camião, por este andar ou me torno eremita ou qualquer ainda dia recebo uma visita indesejada de um arranha-céus ou de um avião (síndrome Donnie Darko?).

MARÉS VIVAS

Remake do filme-catástrofe “A Aventura do Poseidon”, realizado por Ronald Naeme em 1972, “Poseidon” começa com o naufrágio de um navio de luxo em alto mar e segue depois as peripécias dos poucos sobreviventes, que terão de trabalhar em conjunto para saírem vivos do barco antes que este fique totalmente submerso.
Esta premissa simples e pouco ambiciosa orienta uma película que, longe de inovadora, consegue ser uma aceitável proposta de um género já pouco revisitado.

O realizador de serviço, Wolfgang Petersen, tem cimentado um percurso algo indistinto dentro do cinema de acção, contando com alguns sucessos comerciais como os banais “Na Linha do Fogo” (1993) e “Air Force One” (1997), ou o mais prestigiado “Das Boot” (1981). Não será “Poseidon” que lhe permitirá ultrapassar o estatuto de tarefeiro por vezes competente, mas pelo menos eleva-se acima de muitos blockbusters ultrajantes que costumam disseminar-se pelas salas com a chegada do Verão.

É certo que o argumento é esquemático e previsível, que as personagens não possuem grande espessura e que não há aqui cenas de antologia que tornem o filme digno de nota, mas Petersen é capaz de gerar uma obra que, mesmo com estas óbvias limitações, é interessante de seguir.
Uma eficaz gestão do ritmo, com escassa palha narrativa, um trabalho de câmara que, não sendo muito inventivo, é feliz na implementação de uma atmosfera claustrofóbica e sufocante, e efeitos especiais pouco intrusivos mas com algum sentido de espectáculo concedem a “Poseidon” alguma solidez, que compensam a estrutura de videojogo do argumento (tão maquinal como os espaços em que a acção decorre) ou o desperdício de actores como Richard Dreyfuss ou Josh Lucas.

Não é muito, mas acaba por se mais do que se esperaria, oferecendo ocasionais boas sequências de suspense onde são testados os limites físicos e psicológicos das personagens (embora a abordagem destes seja superficial).
Um pequeno entretenimento a considerar, ainda que dentro do género Petersen apresente um objecto uns furos abaixo de “O Dia Depois de Amanhã”, do também alemão Roland Emmerich, que permanece ainda como o melhor filme-catástrofe dos últimos tempos.
E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

quinta-feira, agosto 03, 2006

AMORES DE VERÃO (2): KELIS

Ai Kelis, Kelis...

Kelis... good stuff, indeed...

ESTREIA DA SEMANA: "MIAMI VICE"

Miami Vice

Numa semana de poucas estreias, a chamada de atenção vai para "Miami Vice", o regresso de Michael Mann à realização depois de "Colateral". Adaptação para o grande ecrã da série homónima, é protagonizada por dois dos actuais nomes quentes de Hollywood, Colin Farrell e Jamie Foxx. Se seguir os moldes das aventuras televisivas e dos filmes a que o cineasta nos habituou, é um concentrado de estilo e energia, ideal para estes dias de silly season.

Outras estreias:

"Capuchinho Vermelho: A Verdadeira História", de Cory Edwards
"Romance & Cigarros", de John Turturro

quarta-feira, agosto 02, 2006

COMÉRCIO EMOCIONAL

Com um olhar ácido e nada condescendente sobre as relações humanas contemporâneas, interligadas com o consumismo, egoísmo, dependência e hedonismo, “Shopping and Fucking”, do britânico Mark Ravenhill, está em cartaz na Casa d’Os Dias da Água, na Estefânia, até ao próximo dia 6, numa encenação de Carlos Afonso Pereira.

A peça, assente nas experiências de cinco personagens (interpretadas por Anabela Brígida, pelo próprio Carlos Afonso Pereira, Carlos Vieira, Miguel Moreira e Romeu Costa), debruça-se no modo como estas tentam colmatar a solidão e a falta de comunicação, encontrando no consumo a resposta – mas não necessariamente a solução - mais imediata para as suas inquietações e dilemas. Consumo, que, se engloba produtos vários, inclui também as próprias relações humanas, aqui tratadas como mais uma mercadoria, algo meramente utilitário e, em última instância, tão descartável como uma refeição de fast-food ou um chocolate.

Shopping and Fucking

Entre assaltos a lojas, ataques de padrastos sem pudor, desafios de verdade ou consequência, relações a três, jogos de máscaras, conversas em linhas eróticas ou ofertas de ecstasy em discotecas, condimentados pela música de Madonna, Garbage ou Goldfrapp, “Shopping and Fucking” propõe uma dissecação da identidade e das contradições do âmago humano, sendo as conclusões muito pouco esperançosas e redentoras.

As personagens, todas contaminadas por um estado de apatia emocional, são utensílios indefinidos e maleáveis, que vão sendo encarnadas pelo elenco transferindo-se de actor para actor. Estes vagueiam pelas duas salas que acolhem o espectáculo, mantendo-se perto do público mas nunca chegando a interagir com este, contando com poucos adereços e orientando assim a atenção dos espectadores para o texto.

Contando com uma apreciável dose de experimentalismo e desafio pelas opções cénicas pouco convencionais, “Shopping and Fucking” não surpreende tanto na forma como aborda os seus temas, a espaços estimulante mas que como um todo resulta repetitiva e traída pelo excesso de pretensão.
Se por um lado se concentra em questões pertinentes e actuais, torna-se numa peça cansativa uma vez que as personagens nunca chegam a envolver (a frivolidade destas é intencional, mas é preciso mais para lhes conferir tridimensionalidade) e algumas cenas são demasiado herméticas. Ficam as intenções e pontuais momentos inspirados, o suficiente para que o resultado final seja interessante, mas ainda assim falhado.
E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

terça-feira, agosto 01, 2006

AMORES DE VERÃO: HOLE

Hole

Que tal uma passagem por "Malibu" e recordar o (excelente) último álbum dos Hole, "Celebrity Skin"? Sei que há alguém não vai recusar :P

PAI PARA MIM… MÃE PARA TI

Noah Baumbach conta já com três filmes no seu curriculum de realizador, mas “A Lula e a Baleia” (The Squid and the Whale) é o primeiro que chega a salas nacionais, e ainda bem, uma vez que, a julgar pelo que oferece, revela um cineasta interessante e instiga a curiosidade para a descoberta das suas obras anteriores.

Vencedor dos prémios de Melhor Argumento e Melhor Realização em Sundance e nomeado para o Óscar de Melhor Argumento Original, o filme é um seguro e perspicaz melodrama familiar com toques de comédia (quase sempre amarga), percorrendo territórios próximos dos de alguns realizadores indie – Kenneth Lonergan, Burr Steers ou Wes Anderson, que assume aqui o cargo de produtor - que têm gerado outras dramedies acerca das dificuldades das relações humanas, do crescimento ou de conflitos geracionais.

Se por um lado Baumbach não apresenta nada que se distancie muito da linguagem desses outros nomes, propõe aqui um atento e credível retrato dos laços familiares, apoiando-se numa escrita sólida e complexa, que tanto apela ao riso subtil como a uma inquietante sensibilidade, vincada pelo verismo das situações quotidianas.

A Lula e a Baleia

A acção decorre no Brooklyn dos anos 80 e segue o divórcio de um casal da classe média alta, ele professor universitário e escritor em declínio, ela escritora aspirante, cuja separação é recebida pelos dois filhos adolescentes num misto de surpresa e angústia, e desde logo cada um toma partido de um dos seus progenitores.

Com base nesta premissa, Baumbach constrói um conseguido estudo de personagens, todas ambivalentes, verosímeis e perdidas após a dolorosa desagregação familiar. Especialmente interessante é o desenvolvimento das mais jovens, tanto do filho mais velho, Walt (Jesse Eisenberg), fascinado pela figura paterna, e sobretudo do mais novo, Frank (Owen Kline, excelente revelação), cuja rebeldia da entrada na adolescência é reforçada pela conturbada situação familiar.
As prestações dos veteranos – e subvalorizados - Jeff Daniels e Laura Linney na pele dos pais são outras mais-valias para o filme, que só não surpreendem porque estão ao elevado nível interpretativo habitual, e a cada vez mais omnipresente Anna Paquin contribui também num pequeno mas importante papel de aluna espevitada.

“A Lula e a Baleia” só peca por saber a pouco, dado que os seus 81 minutos de duração impõem que o desenlace seja algo abrupto e não tão bem resolvido como poderia. Fosse uma obra de maior fôlego e talvez constasse entre as mais estimulantes do ano, assim é uma das que vale a pena conhecer mas que deixa a impressão de objecto inacabado.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

segunda-feira, julho 24, 2006

ADEUS QUE ME VOU EMBORA...

... mas volto na próxima semana. Depois da recente overdose de concertos, está na hora de aproveitar os ares do Verão (the beach says yeah, yeah, yeah, yeah, yeah). Divirtam-se que eu também vou tentar fazer por isso ;)

domingo, julho 23, 2006

THE STROKES DEIXAM O PALCO EM FOGO

No passado sábado, o festival Lisboa Soundz, na sua segunda edição, voltou ao Terrapleno de Santos e trouxe a palco, a partir do início da tarde, uma oferta musical ecléctica cujo auge consistiu no concerto dos Strokes, a portentosa estreia da banda nova-iorquina em Portugal.

You Should Go Ahead

Por volta das 17 horas, coube aos portugueses You Should Go Ahead iniciar o ciclo de actuações do dia, apresentando ao ainda escasso público presente alguns dos temas do seu primeiro disco, de título homónimo. Tal como muitas das novas bandas de hoje, recolhem influências do pós-punk e, embora se assemelhem por vezes em demasia a uns The Futureheads ou We Are Scientists (um dos nomes inicialmente anunciados para o festival e cujo single "Nobody Move, Nobody Get Hurt" rodou incessantemente nos intervalos dos concertos), contam já com algumas boas canções, de que foram exemplo "Like When I Was Seventeen" ou "Wake Up Song".
Pena o deslize do vocalista no final, que terminou de forma infeliz um concerto competente ao reagir, com alguma teimosia, ao facto de parte do público se manter distante do palco, apesar dos seus apelos.

Howe Gelb

Distanciando-se das guitarras dos YSGA, Howe Gelb & The Gospel Choir trouxeram ao recinto sonoridades entre o blues, o alternative country e o gospel, em histórias da América profunda sob a forma de canção partilhadas pelo vocalista, a maioria temas seu recente álbum, "'Sno Angel Like You".
Com uma atitude afável e descontraída, Gelb obteve uma prestação carismática, e apesar do calor que se fazia sentir concentrou a atenção de uma considerável faixa de espectadores. Um nome a considerar para futuros espectáculos, de preferência num espaço mais intimista.

Isobel Campbell

Não tão conseguida foi a presença de Isobel Campbell (pontualmente acompanhada por Eugene Kelly), cujas canções de "Ballad of the Broken Seas" tiveram pouco impacto perante um público que reagiu quase sempre com indiferença.
Contrariamente aos Belle and Sebastian, cujo concerto da semana passada no Coliseu de Lisboa foi marcado pela constante interacção com os os espectadores, a postura da sua ex-vocalista foi tão discreta e apaziguada que a sua indie pop(zinha) de travo folk passou quase despercebida, assinalando um compasso de espera que não custou a passar mas que também não trouxe nada de muito estimulante.

Los Hermanos

Ainda menos interessante foi o concerto seguinte, uma vez que os brasileiros Los Hermanos, ainda que tenham evitado o inenarrável "Anna Júlia", não foram capazes de dar vida a um conjunto de canções banais e indistintas. O seu rock vitaminado mas desinspirado conquistou a adesão de alguns, contudo ficou como um dos momentos mais fracos do festival.

She Wants Revenge

Com a chegada da noite, chegaram também os She Wants Revenge, na apresentação do seu disco de estreia homónimo. O projecto divide opiniões, sendo encarado por uns como mero copista da linguagem de uns Joy Division e demais bandas new-wave, mas é também defendido por outros, que aqui encontram uma envolvente receita aglutinadora de referências, devidamente recontextualizadas num conjunto de canções que exprimem o presente.
Tendo em conta a receptividade do público, a maioria dos espectadores enquadrava-se no segundo grupo, e o concerto foi o que registou, até então, uma maior concentração em torno do palco. Mesmo com alguns exageros no volume do som e da redundância das composições da banda, elevou-se acima do balanço morno dos espectáculos anteriores, oferecendo um dançável rock soturno e urbano que, longe de revolucionário, registou suficientes bons momentos.

Dirty Pretty Things

Já os Dirty Pretty Things trouxeram a insipidez de volta ao palco, numa prestação acelerada e directa que não disfarçou a ausência de canções dignas de nota, tirando a eventual excepção do single 'Bang Bang You're Dead'.
O grupo, nascido das cinzas dos Libertines, é mais um dos protegidos de grande parte da imprensa britânica mas que, tal como outros habitualmente incensados, não contém méritos que justifiquem tal distinção, revelando-se cansativo e previsível.

The Strokes

Depois de uma série de concertos entre o medíocre e o mediano ao longo do dia, os Strokes provaram que mereceram o estatuto de cabeças-de-cartaz do festival, naquela que foi de longe a actuação mais convincente da noite.
Com refrões contagiantes, uma energia recorrente e um alinhamento bem estruturado, que incidiu no terceiro álbum "First Impressions Of Earth" sem ignorar os anteriores, a banda nova-iorquina evidenciou porque é que é um dos mais interessantes nomes do cenário musical actual.
O segredo talvez esteja na sensibilidade pop com que o grupo contamina até as suas canções mais abrasivas, originando melodias irresistíveis e vibrantes que, não sendo a salvação do rock, também não deixam que este morra tão depressa. E houve muitas assim na noite de sábado, desde o início, com efusivo "Juicebox", ou noutros momentos de descarga como "Heart in a Cage", "The Ize Of The World" ou "Vision of Division".
Felizmente não faltou a excelente e demolidora "Reptilia", provavelmente a melhor canção do grupo, aqui superada por uma brilhante "Hard to Explain", cujos altos níveis de adrenalina se disseminaram pelo agitado público. Os já clássicos "Last Nite" e "You Only Live Once" foram cantados por vários espectadores em claro entusiasmo, que se manteve até ao muito aplaudido encore com o frágil "12:51", o intempestivo "New York City Cops" e o estridente "Take It Or Leave It".
Julian Casablancas, para além do registo vocal carismático à altura do coeso turbilhão de guitarras, bateria e baixo, provou ser um bom mestre de cerimónias, agradacendo frequentemente ao público e apresentando uma postura descomprometida e animada, com algumas piadas pelo meio, afirmando, no final, ter ficado orgulhoso por ter encerrado a sua digressão perante um público tão satisfatório. A julgar pelas reacções de muitos espectadores, o sentimento terá sido recíproco.


The Strokes - "Reptilia"

sábado, julho 22, 2006

PICAR O PONTO COM (ALGUMA) MESTRIA

De regresso a Portugal, os norte-americanos Pixies actuaram ontem no Pavilhão Atlântico, em Lisboa, após duas presenças relativamente recentes em palcos nacionais (no Super Bock Super Rock de 2004 e no Festival Paredes de Coura de 2005). O concerto contou com cerca de cinco mil espectadores de várias faixas etárias, entre admiradores veteranos e novos fãs, que ali (re)encontraram uma das referências incontornáveis do rock alternativo de finais de 80 e inícios de 90.

Desde o início, com o marcante "Bone Machine", até ao final a cargo do hit (talvez o único dos Pixies) "Here Comes Your Man", o espectáculo proporcionou cerca de uma hora e meia assente num alinhamento longe de inesperado, mas irrepreensível, que desde logo envolveu o público e foi fomentando a sua entrega.

O álbum de originais mais recente do grupo, "Trompe Le Monde", data de 1991, editado dois anos antes da separação que ditou um silêncio interrompido em 2004, quando o quarteto formado por Frank Black, Kim Deal, David Lovering e Joey Santiago regressou aos palcos, mas não aos discos.
O facto do concerto não apresentar inéditos no alinhamento não foi, no entanto, problemático, até porque o grupo é um dos raros casos em que quase todas as suas composições ganharam já o estatuto de intemporais, e se dúvidas houvesse acerca disso a noite de ontem foi bastante esclarecedora.

Grande parte dos espectadores acompanhou com devoção as palavras cantadas por Frank Black, centradas em letras tão esquizofrénicas, díspares e inquietantes como as singulares melodias geradas pela banda, misto certeiro de experimentalismo e concisão que nunca deixam de ser estranhamente acessíveis e viciantes.

Diz quem lá esteve que os Pixies não são capazes de repetir o efeito da sua estreia em salas nacionais, em 1991, e de facto a noite de ontem apresentou uma banda que, apesar de se ter mostrado sempre consistente em palco, demorou a demonstrar entusiasmo, interpretando canções de grande calibre em piloto automático, sem falhas mas também sem grandes riscos. Não que isso tenha impedido uma forte adesão do público, incansável nos constantes aplausos, sobretudo o da plateia, o que mais saltou e dançou ao som da vertiginosa sucessão de canções.

Entre os pontos altos, ficam na memória "Gouge Away", a assinalar o primeiro grande momento da noite, o belíssimo "Monkeys Gone to Heaven" ou o não menos obrigatório "Where is My Mind". "Debaser" suscitou também uma energia contagiante, "Gigantic" concedeu algum protagonismo vocal a uma sorridente Kim Deal, o catchy "La la Love You" incitou ao assobio colectivo (no bom sentido), e o embalo elíptico de "Hey" deu origem a uma aura quase solene, assim como o atmosférico "No. 13 Baby".
O maior pico de intensidade registou-se, contudo, na tensão gutural da incisiva "Tame", brilhante pequena grande canção onde os Pixies mostraram a garra que poderia ter estado mais presente no resto do espectáculo. Um concerto a recordar e longe de decepcionante, de qualquer forma, mas convenhamos que com canções destas também era difícil falhar.

A abertura da noite coube aos portugueses Vicious 5, numa curta mas segura prestação que os confirma como um dos novos nomes do rock nacional a ter em conta.
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

Pixies - "Monkey Gone to Heaven (Live)"

sexta-feira, julho 21, 2006

FRIDAY NIGHT FISH

Logo à noite devo andar por aqui, assim como uns quantos bloggers, alguém quer ir? Para mais informações sobre a Calling at Omaha vejam o blog do organizador.

É AGORA OU NUNCA

Dando continuidade a um conjunto de seis peças encenadas há dois anos por Tiago Rodrigues no Teatro Maria Matos, "Urgências 2006" está novamente em cena no mesmo espaço mas conta agora com onze pequena histórias, como se se tratasse de uma selecção de curtas-metragens para teatro, todas inspiradas pela questão "O que tens de urgente para me dizer?".

Escritas por Filipe Homem Fonseca, João Quadros, Luís Filipe Borges, Nelson Guerreiro, Nuno Artur Silva, Nuno Costa Santos, Patrícia Portela, Pedro Mexia, Pedro Rosa Mendes, Susana Romana e Tiago Rodrigues (que acumula os cargos de encenador e actor), as peças oferecem fugazes retratos do quotidiano contemporâneo, não raras vezes de situações-limite onde cada minuto pode ser decisivo para alterar radicalmente o destino das personagens.
Estas são interpretadas por um elenco coeso e versátil, onde constam Cláudia Gaiolas, Iolanda Laranjeiro, Joaquim Horta, Luís Mestre, Margarida Cardeal, Sofia Grillo, Tónan Quito e Tiago Rodrigues, todos eles convincentes e capazes de reforçar a intensidade dos textos.

"Urgências 2006" é uma peça arriscada, que a espaços deixa o espectador descoordenado no meio dos contrastes e mudanças de tom, sobretudo nos momentos iniciais, os mais marcados pelo acelerado caleidoscópio sons e acções, com um palco quase despido onde os actores se deslocam num intrigante alvoroço.

Contudo, no meio destes jogos do acaso, vincados pela efemeridade das relações humanas, por encontros e desencontros onde a solidão parece ser o denominador comum, há retratos a reter e admirar.
É o caso de "Coro dos amantes a caminho do hospital", um dos mais belos e comoventes, onde a sensibilidade da escrita de Tiago Rodrigues e as superlativas interpretações de Cláudia Gaiolas e Tónan Quito se fundem para originar um desencantado olhar sobre as armadilhas da vida e a união conjugal.
Não menos intenso é "O lado bom", de Filipe Homem Fonseca, com um arrebatador monólogo de Margarida Cardeal ancorado num duelo entre o cansaço (ou ódio) do dia-a-dia e a chegada da maternidade indesejada.
A actriz apresenta-se noutro registo em "Última chamada", de Luís Filipe Borges, onde contracena com Tónan Quito numa conversa de aeroporto que adquire contornos larger than life, misto de comédia romântica com diálogos afiados e um travo de "Antes do Amanhecer", de Richard Linklater.

Também interessantes são "I tuning", de Nuno Artur Silva (frenética reflexão sobre a cultura digital); "Bolas de neve", de Susana Romana (centrado na culpa e no poder do acaso); "1963", de Pedro Mexia (que explora fantasmas sexuais); e "Trabalhador independente", de Nuno Costa Santos (com a precaridade laboral em jogo), mas as outras peças expõem mais limitações, originando um todo desigual, o que não é propriamente inesperado num projecto com a participação de diversos autores e perspectivas.
Não obstante o nível desigual das suas curtas, o balanço de "Urgências 2006" acaba por ser positivo, e por isso esta experiência, apesar de não ser urgente (pelo menos nem sempre), merece ser descoberta e partilhada.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

quinta-feira, julho 20, 2006

BATAM PALMAS E DIGAM "YEAH!"

"Prefiro o calor", revelou o vocalista Stuart Murdoch, numa das muitas declarações que fez ao público, a propósito da comparação do clima de Portugal com o da Suécia, um dos países onde actuaram recentemente.
E o calor foi mesmo um dos elementos nucleares do concerto de ontem dos Belle and Sebastian no Coliseu de Lisboa, não só pelas altas temperaturas que se faziam sentir mas sobretudo devido ao calor humano que emanou de um contacto recíproco e constante entre a banda e o público.
É difícil avaliar quem foi mais dedicado, se os elementos do grupo, com uma boa-disposição e simpatia contagiantes, ou os espectadores, grande parte deles frenéticos e claramente arrebatados canção após canção.

Actuando perante um auditório longe de esgotado, mas bem preenchido, o colectivo escocês veio apresentar ao vivo o seu mais recente disco, "The Life Pursuit", editado este ano, mas o alinhamento do espectáculo não esqueceu marcos de registos anteriores, desde álbuns a EPs, como "The Boy With The Arab Strap" ou "If You're Feeling Sinister".

A sua indie pop primaveril e agridoce, com letras simultaneamente irónicas e melancólicas, obteve reacção imediata de um público que foi embalado pela carga upbeat das melodias logo desde os primeiros minutos.
A própria postura da banda ajudou à consolidação de um ambiente festivo, uma vez que todos os músicos evidenciaram entusiasmo e entrega, em particular o vocalista, imparável durante toda a noite. Um dos momentos altos foi, de resto, quando Murdoch convidou uma espectadora para dançar com ele no palco, comprovando que, para além de ser convincente como cantor, também ganha pontos como entertainer.

Animando os muitos fãs ao longo de duas horas, os Belle and Sebastian levaram a uma rendição quase incondicional. Contudo, para quem não é especial admirador do grupo a receita desta pop vibrante - regada com palminhas recorrentes e insistindo frequentemente na temática boy meets girl - pode revelar-se cansativa, até porque o cardápio sonoro não é especialmente versátil, apesar da diversidade de instrumentos (entre guitarras, trompetes, xilofones ou pianos).

Em registo diametralmente oposto actuaram os portugueses Pop Dell'Arte, que tiveram a seu cargo o aquecimento da noite. A banda de João Peste proporcionou um concerto competente, ainda que com uma atitude bem mais discreta e contida do que a dos Belle and Sebastian, limitando-se a apresentar canções como "Querelle" ou "Ilogic Plastik" sem encetar grandes contactos com o público. A que resultou melhor terá sido "O Amor É… Um Gajo Estranho", cujo estranho magnetismo gerou o momento mais denso e intrigante.
E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL
Belle and Sebastian - "Step Into My Office"

quarta-feira, julho 19, 2006

A TERCEIRA MUTAÇÃO

De entre as várias personagens dos comics norte-americanos adaptadas para cinema ultimamente, os X-Men são dos que têm tido um percurso mais estimulante, muito por culpa do realizador dos dois primeiros filmes, Bryan Singer.

Respeitando a essência dos mutantes da Marvel e doseando eficazmente acção, ficção científica, drama e algum humor, condimentando-os com um interessante subtexto sobre a tolerância e a reacção à diferença (elemento nuclear no Universo X), Singer fez de "X-Men" e, sobretudo, do soberbo "X-Men 2" (AKA X2), dois dos melhores filmes de super-heróis dos últimos anos, sendo apenas superados, embora por pouco, pela saga do "Homem-Aranha", de Sam Raimi.

O hábil realizador já não se ocupou, contudo, de "X-Men - O Confronto Final" (X-Men: The Last Stand), o aguardado final da trilogia, devido ao seu envolvimento no mais recente filme do Super-Homem, facto que levou a que o desfecho da série fosse trabalhado por Brett Ratner, cujos créditos na direcção de películas inconsequentes como "Hora de Ponta" não sugeriam nada muito auspicioso.

Ora, apesar dessa suspeita, que em parte se confirma, "X-Men - O Confronto Final" é afinal um muito digno último capítulo da série, uma vez que, mesmo com algumas cedências e facilitismos, Ratner mantém-se conceptualmente quase sempre próximo da visão de Singer, ainda que sem a mesma subtileza e sofisticação.

Angel

Ao contrário do que ocorreu, por exemplo, com as adaptações de Batman na década de 90, onde as perspectivas de Tim Burton e Joel Schumacher nao poderiam colidir mais, aqui a mudança de realizador não prejudica tanto a saga, ainda que Ratner não evite tropeços que evidenciam o seu estatuto de tarefeiro.

O filme peca pelo excesso de efeitos especiais, tentando impressionar através de megalómanas sequências de acção (cuja mais gritante é a da ponte), factor que por vezes se impõe ao desenvolvimento dos dilemas das personagens, alvo de abordagens mais superficiais do que nos episódios anteriores.
O excesso de personagens já era um dos elementos que mais prejudicava a saga, mas aqui torna-se ainda mais problemático pois há muitas novas caras que não chegam a ter uma participação digna de nota, caso do Anjo, uma das mais esperadas que se limita a fazer breves aparições, e principalmente de Colossus, que apesar de admirado por muitos fãs é apenas um mero figurante.

Pior ainda é o facto de personagens com alguma relevância nos dois filmes anteriores, como Cyclops ou Rogue, serem aqui subaproveitadas de forma a conceder mais tempo de antena a Wolverine e Storm. A vantagem é que estes dois últimos acabam por ter um desenvolvimento interessante, em especial Storm, que tem finalmente um papel com impacto, supostamente devido a exigências contratuais de Halle Berry (que ainda não parece ser a melhor escolha para a heroína, ainda que esteja mais convincente do que antes).

X-Men: The Last Stand

O argumento apresenta também desequilíbrios, uma vez que aglomera vários enredos que na banda-desenhada eram independentes, desde a marcante saga da Fénix (interligada com a ambição e a sede de poder), até à "cura" para o gene mutante (que obriga algumas personagens a questionar a sua natureza), passando pelo contacto com a comunidade Morlock, um grupo de mutantes que vivem isolados, ou pela reformulação da equipa.

Estas histórias dariam, por si só, material para uma nova trilogia, por isso condensá-las num filme que não chega a atingir as duas horas de duração era uma missão ingrata. Ratner não é mal sucedido, pois consegue interligá-las sem que o resultado pareça forçado, porém nenhuma é abordada com a complexidade que merecia, tornando "X-Men - O Confronto Final" numa obra repleta de ideias muito interessantes que, infelizmente, não têm - e dificilmente poderiam ter apenas num filme - concretização à altura.

Se na carga dramática a película poderia ter ido mais longe, caso explorasse mais a fundo as personagens e o argumento, enquanto entretenimento ultrapassa, contudo, qualquer outro blockbuster de 2006, já que nunca perde o ritmo e apresenta sequências de acção e ideias visuais mais criativas do que as da concorrência, a que não são alheias as apelativas habilidades mutantes.
E também não são muitos os filmes-pipoca que podem orgulhar-se de contar com um elenco tão talentoso, onde brilham Hugh Jackman (mais uma vez desenvolto e carismático como Wolverine), Ian McKellen (exímio na composição de um austero e obstinado Magneto), Patrick Stewart (dificilmente haveria alguém mais apropriado para Xavier) ou Kelsey Grammer (perfeito como o ponderado Beast, a mais conseguida das novas personagens), assim como actores mais jovens mas promissores como Anna Paquin (uma das melhores actrizes da nova geração, mas aqui com pouco para fazer), Ellen Page (a co-protagista de "Hard Candy", segura no papel da perspicaz Kitty Pride), Aaron Stanford (um Pyro intenso e sombrio) ou Shawn Ashmore (cujo ar de boy-next-door é apropriado para Iceman).

Wolverine

Ficando aquém da coesão narrativa, fluidez da realização e imbatível energia de "X-Men 2", "X-Men - O Confronto Final" é ainda um sólido capítulo final para uma saga que, sem revolucionar, não deixa de ter uma consistência apreciável.
Embora o filme tenha sido promovido como o último da série, o final em aberto e algumas pontas soltas do argumento deixam espaço para novos desenvolvimentos (e spin-offs centrados em Wolverine e Magneto estão já em preparação). Se forem tão satisfatórios como até aqui, valerá a pena ir ver mais aventuras mutantes no grande ecrã.
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

terça-feira, julho 18, 2006

A BANDA QUE VEIO DO FRIO

Num Verão mais quente do que o habitual em terras lusas, a actuação de uma banda oriunda da Islândia era uma proposta no mínimo curiosa, já que as sonoridades assentes em atmosferas glaciares dos Sigur Rós não tinham contraponto no tórrido clima que envolve Lisboa, cidade que acolheu o grupo no Pavilhão Atlântico no domingo passado.

O colectivo, que passou já por palcos portugueses na apresentação dos muito aclamados "Ágætis Byrjun" e "()", trouxe agora na bagagem o seu mais recente álbum de originais, "Takk...", editado em 2005 e que fora também motivo de um concerto no Coliseu de Lisboa nesse mesmo ano.

O quatro disco do grupo introduziu tonalidades mais abrasivas ao som da banda, que emergem inesperadamente entre plácidos cenários etéreos, e por isso a noite de ontem viveu muito desse confronto entre momentos de distorção das guitarras e outros de teor mais contemplativo e sereno.

Sigur Rós no Pavilhão Atlântico

Essa combinação híbrida gerou momentos de invulgar beleza, caso de "Glósoli", o primeiro tema, onde o grupo actuou atrás de uma cortina que tapava o palco, e de quase todos as outras canções da primeira metade do espectáculo. Não tão absorventes foram os episódios finais, marcados por sonoridades mais tranquilas, por vezes sonolentas, longe do notável sentido de urgência presente nos momentos iniciais (a excepção foi "Popplagið", o visceral encore, uma magnífica erupção de descarga que rompeu com a crescente monotonia entretanto instalada).

Os desequilíbrios do alinhamento não impediram que a noite não tenha oferecido várias situações encantatórias, provenientes de uma música de difícil catalogação - ora ambiental, ora próxima do pós-rock, ora dream pop - que se aproxima de domínios dos Mogwai, Slowdive ou Brian Eno sem prescindir de claros sinais de personalidade.

Ao longo de cerca de duas horas, a frágil e expressiva voz de Jónsi Birgisson, através do idioma hopelandish, criado pela banda, embalou um público dedicado que aplaudiu sempre de forma efusiva cada canção (inclusive com ocasionais e dispensáveis acessos de histeria).
Além do som, também a vertente visual foi conseguida, tanto pelas imagens projectadas como pela eficaz coordenação das luzes com as canções, evidenciando um cuidado trabalho cenográfico.

Sigur Rós no Pavilhão Atlântico

Apesar de um espaço como o Pavilhão Atlântico parecer à partida pouco apropriado para que a aura intimista da música dos Sigur Rós se dissemine, o facto do palco estar situado a meio contribuiu para que o efeito não se perdesse por completo.

No final, os elementos do grupo e os restantes músicos que os acompanharam regressaram a palco para uma vénia colectiva, encerrando de forma sedutora a digressão centrada em "Takk...". O título do álbum foi então projectado, o que é especialmente significativo por se tratar do termo islandês para "obrigado".

Antes dos Sigur Rós actuaram as igualmente islandesas Amiina, quarteto electroacústico cujas sonoridades delicadas e angelicais funcionaram enquanto agradável aperitivo antes da chegada dos seus conterrâneos (em cujo concerto também participaram). Embora algo estática, a prestação da banda proporcionou momentos de uma frágil beleza que felizmente teve continuidade durante o resto da noite.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

Sigur Rós - "Glósóli"

domingo, julho 16, 2006

CASA DE PÂNICO

Um dos filmes independentes que mais burburinho tem gerado ultimamente, acolhido com entusiasmo em festivais como o de Sundance, "Hard Candy" é a estreia nas longas-metragens de David Slade, mais um realizador com experiência na área da publicidade, territórios que já revelaram talentos marcantes como David Fincher ou Mark Romanek.

A acção da película concentra-se quase exclusivamente em duas personagens, Hayley, uma rapariga de 14 anos, e Jeff, um reputado fotógrafo trintão. Após poucas semanas de conversas através da Internet, os dois decidem conhecer-se pessoalmente num café e, pouco depois, encontram-se já em casa dele, e a partir daqui "Hard Candy" torna-se numa tensa e inquietante experiência não só para os dois protagonistas (em especial para Jeff), mas também para o espectador.

Tema delicado e polémico, a pedofilia tem sido alvo de abordagem recente noutros filmes independentes, casos de "O Condenado" ou "L.I.E. - Sem Saída", mas enquanto esses se aproximavam do drama "Hard Candy" envereda mais por domínios do thriller, funcionando enquanto um prodigioso exercício de estilo sem deixar de ser um acutilante estudo sobre a ambiguidade moral.

A câmara de Slade movimenta-se com desenvoltura e criatividade, proporcionando muitos momentos de impressionante impacto visual. O filme contém fluência e energia na realização (que consegue ser vibrante sem conter tiques de videoclip acelerado), um estupendo trabalho de fotografia e uma rigorosa atenção aos cenários e ambientes (vejam-se os decors do apartamento de Jeff), que lhe conferem uma rara elegância formal, e o ritmo da narrativa raramente falha, emanando uma estranha envolvência.

Contudo, apesar deste perfeccionismo estético, "Hard Candy" não é tão equilibrado no argumento, que apesar de interessante tem um desenvolvimento cuja credibilidade é questionada em algumas cenas, em particular no forçado e maniqueísta desenlace, deitando por terra a ambivalência moral presente em grande parte da película.

Parte do problema do argumento prende-se com a personagem de Hailey, demasiado camaleónica e cujas motivações são apenas sugeridas mas não reveladas, e se essa aura enigmática funciona até certa altura mostra-se algo frustrante no final do filme.
Aplauda-se, no entanto, a soberba interpretação da jovem Ellen Page, perfeita no misto de fragilidade, genialidade e calculismo, destacando-se automaticamente como uma das grandes revelações do ano. Patrick Wilson é igualmente exemplar na composição do (inicialmente) tranquilo e discreto Jeff, embora o seu desempenho não seja tão surpreendente pois o actor já tinha dado provas de talento na mini-série "Anjos na América".

Ficando aquém do grande filme que os primeiros minutos sugerem, "Hard Candy" não deixa de ser uma boa surpresa, possuindo algumas sequências de antologia que seduzem pela sua palpável carga sufocante (não querendo revelar muito, diga-se apenas que a melhor de todas arrisca-se a deixar de rastos os espectadores do sexo masculino). Uma obra desequilibrada, mas merecedora de atenção.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

sexta-feira, julho 14, 2006

MAIS LOGO: DISCO SOUND(+VISION)

Discos Voadores @ Incógnito

MR. E MRS. HUNT

Depois das adaptações para cinema a cargo de Brian DePalma e John Woo, o realizador escolhido para "Missão: Impossível 3" (Mission: Impossible III), terceiro filme inspirado na mítica série televisiva, foi alguém que iniciou precisamente o percurso no pequeno ecrã e que testa agora terittórios da sétima arte, J. J. Abrams.
Responsável por dois duas das mais aclamadas produções televisivas do momento - as séries "A Vingadora" e, sobretudo, "Perdidos" -, Abrams trouxe nova vida a narrativas vincadas pelo suspense, espionagem e acção, o que à partida fazia dele uma opção promissora para se ocupar de um filme destes.

Contudo, por vezes até no melhor pano cai a nódoa, e a estreia do realizador nas longas-metragens está longe de ser tão auspiciosa como a sua experiência televisiva. Não que "Missão: Impossível 3" seja desastroso, apenas não acrescenta nada de novo nem ao cinema nem à série, limitando-se a seguir, com competência mas sem chama, um formato por demais visto em tantas outras películas de acção.

Há tentativas de mudança, é certo, entre as quais o esforço numa maior humanização do protagonista Ethan Hunt ou a inclusão dos seus colegas de equipa (embora a série televisiva se centrasse num grupo, os dois filmes anteriores ignoraram esse facto).

Estas alterações são, no entanto, muito ténues, uma vez que a personagem principal se mantém tão genérica como antes, já que o facto de ter uma relação amorosa que lhe concede automaticamente maior densidade emocional. Quanto aos elementos da equipa, são ainda menos desenvolvidos, pois Abrams usa-os como meros gadgets do argumento.

O que se aproveita são mesmo as quase sempre eficazes e pontualmente emocionantes sequências de acção, onde o realizador mostra que no departamento de explosões, riscos e perseguições consegue gerar momentos de efervescente energia cinética sem enveredar por irritantes exercícios de pirotecnia balofa nem enjoativos tremeliques da câmara.

Se isso bastar, então "Missão: Impossível 3" nem funciona enquanto má proposta de entretenimento pipoqueiro e livre de pretensões, mas não deixa de ser uma pena vê-lo desperdiçar actores como Laurence Fishburne e Jonathan Rhys-Meyers (aqui transformados em bonecos sem alma) ou Philip Seymour Hoffman (que compõe um vilão interessante mas com escasso tempo de antena).

O protagonismo volta a ser dado a um Tom Cruise igual a si próprio, exemplar nas cenas de maior dinamismo mas que, para além disso, se limita a viver uma básica e forçada história de amor com uma indistinta Michelle Monaghan.

Enfim, tendo em conta a baixa fasquia da maioria da concorrência dentro do género, o filme cumpre, mas a julgar pelos nomes envolvidos esperava-se mais do que uma mediania bem oleada porém pouco substancial.

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

quinta-feira, julho 13, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "FINAIS FELIZES"

Desdobrando-se entre a comédia e o drama, "Finais Felizes" (Happy Endings) é uma crónica urbana sobre várias e díspares relações humanas, e segue três histórias onde o amor e as novas famílias se interligam. Don Roos ("O Oposto de Sexo", "Bounce - Um Acaso com Sentido") ocupa-se da realização, mas o maior destaque vai mesmo para o elenco, onde constam nomes como Lisa Kudrow, Laura Dern, Steve Coogan, Maggie Gyllenhaal ou Jesse Bradford.

Outras estreias:

"A Honra do Dragão", de Prachya Pinkaew
"Assombrados - Uma História Americana", de Courtney Solomon
"Diários da Bósnia", de Joaquim Sapinho
"Edison", de David J. Burke
"Pular a Cerca", de Tim Johnson e Karey Kirkpatrick
"Tara Road - Vidas Trocadas", de Gillies MacKinnon
"Tristão e Isolda", de Kevin Reynolds

quarta-feira, julho 12, 2006

WHO'S GONNA WATCH YOU DIE?

Nada contra "Breathe", de Sia, a bela canção que serviu de excelente banda-sonora ao final de "Sete Palmos de Terra", mas "What Sarah Said", dos Death Cab for Cutie, também não combina nada mal com a despedida da família Fisher. Ora confiram lá aqui em baixo:

Death Cab for Cutie - "What Sarah Said"

A FILHA PRÓDIGA

Ancorado sobretudo nas interpretações seguras de um elenco coeso e na sensibilidade de um argumento que, sem trazer nada de novo, consegue ser envolvente, "Estranhos em Casa" (Winter Passing) é uma interessante primeira-obra que permite adicionar Adam Rapp, oriundo das esferas do cinema independente, ao grupo de realizadores norte-americanos promissores.

Este estudo de personagens narra o percurso de Reese, uma jovem actriz que viaja de Nova Iorque até ao Michigan, a sua terra-natal, de encontro ao seu pai, Don Holden, um escritor aclamado mas cujo frágil estado de saúde o convida ao isolamento e depressão, reforçada pela morte recente da esposa.

Embora inicialmente a deslocação de Reese se deva a uma tentadora proposta de publicação de uma série de cartas trocadas entre os seus pais, guardadas na garagem da sua antiga casa, a estadia reserva-lha algumas surpresas, entre as quais a presença de dois novos inquilinos: Shelly, uma discreta jovem inglesa, ex-aluna de Don, e Corbit, um recatado músico amador.

É na interacção destas quatro personagens que "Estranhos em Casa" se concentra, e se o seu desenvolvimento não é especialmente imprevisível, longe disso - não há grandes inovações nas abordagens das temáticas do regresso a casa, dos laços que se formam entre outcasts ou das dores das relações entre pais e filhos -, tal não compromete que este se destaque enquanto um drama sóbrio e inteligente, de clara escola indie.

Melancólico mas caloroso, marcado por atmosferas outonais, o filme seduz pela realização escorreita de Rapp, pela recomendável banda-sonora (a cargo de nomes como os Kingsbury Manx, Azure Ray, Deadsy, Low ou Smog) e pela equilibrada carga dramática para a qual contribui a valorosa entrega dos actores, desde a protagonista Zooey Deschanel, que compõe a contraditória e impulsiva Reese, até aos não menos determinantes Ed Harris (competente como escritor à beira do colapso), Amelia Warner (soberba na pele da idealista e luminosa Shelly) e Will Ferrell (que finalmente tem a seu cargo uma personagem e prestação suportáveis).

Não pretendendo ser mais do que uma obra sincera e modesta, "Estranhos em Casa" centra-se no essencial: contar uma boa história de forma entusiasmante, e o resultado é francamente positivo. Não apresenta trunfos que o tornem num filme ímpar, mas permite afirmar que Adam Rapp começa bem.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

terça-feira, julho 11, 2006

Para quem não viu o episódio de ontem, ou para quem viu mas quer repetir (como eu), fica aqui a sequência final da melhor série (ou melhor, indie soap opera) dos últimos anos. Cuidado porque pode causar vício e, sobretudo, desidratação ocular.

segunda-feira, julho 10, 2006

TUDO ACABA

Hoje, às 22h30, na 2:

sexta-feira, julho 07, 2006

CANÇÕES DE EMBALAR

Se nos anos 90 o trip-hop e o downtempo geraram alguns dos discos mais refrescantes e originais do fim do milénio, nos tempos mais recentes esses (sub)géneros não têm sido trabalhados de forma especialmente cativante, antes utilizados de forma redundante e que parece confirmar o seu esgotamento.

Uma das excepções que apresenta traços desses domínios sem no entanto se limitar a enveredar por lugares-comuns é o disco de estreia dos noruegueses Flunk, "For Sleepyheads Only", um dos mais sedutores e cativantes de 2002.

Atmosférico e contemplativo, o álbum sabe aliar uma escrita sólida a uma segura manipulação de elementos electrónicos, apresentando um conjunto de canções marcadas por uma considerável carga cinemática e paisagista.

"Blue Monday", versão para o tema homónimo dos New Order, substitui o dinamismo rítmico do original por cenários de agradável placidez, assemelhando-se ao que os Nouvelle Vague tornariam em fórmula dois anos depois. "See Through You", outro dos momentos altos, interliga também de forma inspirada a delicada voz de Anja Øyen Vister (próxima das de Björk ou Emiliana Torrini) e insinuantes texturas dream pop, assim como "Your Koolest Smile" e "Distortion", caracterizados por uma ténue melancolia.

Os ambientes tensos e enigmáticos do brilhante "Syrupsniph" apostam em territórios mais sombrios, enquanto que "Kebab Shop 3 AM", enérgico e repetitivo, faz lembrar o contagiante single "Eple", dos conterrâneos Röyksopp, e não perde nada na comparação. "Indian Rope Trick" aproxima-se do asian underground, assemelhando-se a Nitin Sawhney no seu melhor, e "I Love Music", com uma apelativa mistura de vozes sampladas e guitarras, funciona bem como uma tranquila mas dançável entrada para o disco.

Embora se aproxime de outras referências, "For Sleepyheads Only" não as usa como mero objecto de decalque mas enquanto fonte inspiradora para a construção de um disco versátil e aglutinador, que acaba por encontrar um espaço próprio. Não fossem pontuais momentos como "Miss World" ou "Magic Potion", interessantes mas menos do que os demais (aproximando-se da mediania de uns Zero 7 ou Thievery Corporation), e esta estreia poderia ter sido ainda mais auspiciosa. A (re)descobrir (página no myspace).
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

quinta-feira, julho 06, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "EU, TU E TODOS OS QUE CONHECEMOS"

A primeira longa-metragem de Miranda July, "Eu, Tu e Todos os que Conhecemos" (Me and You and Everyone We Know) é um dos filmes indie que mais burburinho tem gerado nos últimos tempos, como o atestam os prémios em Cannes ou Sundance.
À partida não parece ter nada que o distinga de outros retratos agridoces dos subúrbios, assunto já mais do que explorado em muitos títulos do cinema independente norte-americano, mas ainda assim não convém deixá-lo passar ao lado.
Com experiência em várias áreas artísticas, desde a música à escrita, July assina aqui o seu filme de estreia mas possui no currículo outros trabalhos como realizadora, como o videoclip "Get Up", das recém-extintas Sleater Kinney, que pode ser visto aqui:

Outras estreias:

"As Filhas do Botânico", de Sijie Dai
"O Diabo a Quatro", de Alice de Andrade
"Poseidon", de Wolfgang Petersen
"Separados de Fresco", de Peyton Reed

segunda-feira, julho 03, 2006

REFÚGIOS NO CINEMA

Respondendo à proposta do Franscisco Mendes, manifesto aqui a minha adesão à corrente de solidariedade com o ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados), ou UNHCR, no original.
Um refugiado é definido como sendo uma pessoa que teve de abandonar o seu país devido a um receio fundado de perseguição em virtude da sua raça, religião, nacionalidade, opinião política ou pertença a um determinado grupo social, não podendo ou não querendo regressar. O ACNUR ajuda os refugiados de todo o planeta e foi criado em 1951 pela Assembleia-geral das Nações Unidas.

'Shooting Dogs - Testemunhos de Sangue'

Relacionando esta questão a um dos temas principais deste blog, o cinema, destaco dois filmes estreados este ano entre nós que, de uma forma ou de outra, acabam por abordar situações que envolvem refugiados.
"Shooting Dogs - Testemunhos de Sangue", de Michael Caton-Jones, é um surpreendente filme de guerra ambientado no Ruanda, abordando, de forma inteligente e emotiva, os massacres aí decorridos há cerca de dez anos.
"Sem Destino", do húngaro Lajos Koltai (ainda em exibição), embora não acrescente muito a outras películas centradas no Holocausto, impõe-se como um contundente e respeitável grito de alerta acerca dos efeitos da intolerância.
Só é pena que ambas as obras se arrisquem a passar ao lado de muitos, pois para além de estarem acima da média evidenciam também como o cinema pode ter uma função social sem que tal comprometa a sua vertente artística. Convido todos os bloggers que leiam este post a contribuirem para a continuidade da corrente.

'Sem Destino'

domingo, julho 02, 2006

IRMÃO, ONDE ESTÁS?

Alvo de algum culto por onde tem passado, a que não será alheio o facto do seu argumento e banda-sonora serem da autoria de Nick Cave, “Escolha Mortal” (The Proposition) recupera alguns dos cânones do western, género quase esquecido nos dias de hoje, para contar uma história amarga história de vingança, traição e dor ambientada na Austrália de finais do século XIX.

Centrado no dilema de um criminoso que, para conseguir que o seu irmão mais novo escape à pena de morte, terá de matar o mais velho, um assassino cruel e impiedoso, o filme segue em paralelo a relação do capitão local e da sua esposa, estas as duas únicas figuras que conseguem gerar alguma empatia.
É precisamente pela falta de empatia que a maioria das suas personagens despoleta que “Escolha Mortal” resulta numa obra desequilibrada, pois o desenrolar das peripécias que envolvem os irmãos Burns, além de ser algo previsível, não emana grande carga emocional, arriscando-se a que o destino destes se torne indiferente para o espectador.

As interpretações também nem sempre ajudam, já que Guy Pearce apresenta um registo apático e inexpressivo, compondo uma personagem determinante mas de escassa espessura, Richard Wilson limita-se a ser histérico e a fazer pose de coitadinho no papel de irmão mais novo e apenas Danny Huston, que encarna o implacável líder do gang de assassinos, é o único do trio a estar à altura do que lhe é pedido.
Ray Winstone e Emily Watson oferecem desempenhos mais convincentes, mas infelizmente as suas personagens, apesar de serem interessantes, carecem de maior desenvolvimento.

É pena que o argumento e a construção de personagens sejam pouco mais do que esquemáticos, porque nos outros aspectos “Escolha Mortal” é bastante conseguido. A realização segura de John Hillcoat proporciona uma atmosfera claustrofóbica e hostil, apropriada à amoralidade e inquietação que caracteriza a maioria das figuras do filme. A impressionante fotografia de Benoît Delhomme é fulcral para a consolidação dos ambientes tórridos e áridos, assim como a reconstrução de época, minuciosa e verosímil. Já a banda-sonora de Nick Cave, não sendo um assombro, é suficientemente intrigante e adequada às atmosferas do filme, entre o brutal e o poético.

Contudo, como esta intensidade visual e sonora raramente tem contraponto em sequências com uma carga dramática ao mesmo nível, “Escolha Mortal” não ultrapassa a fasquia do filme curioso, o que é especialmente lamentável tendo em conta que, com alguns acertos no argumento e no ritmo da narrativa, poderia ter ascendido a um patamar bem superior.
E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL