quarta-feira, julho 19, 2006

A TERCEIRA MUTAÇÃO

De entre as várias personagens dos comics norte-americanos adaptadas para cinema ultimamente, os X-Men são dos que têm tido um percurso mais estimulante, muito por culpa do realizador dos dois primeiros filmes, Bryan Singer.

Respeitando a essência dos mutantes da Marvel e doseando eficazmente acção, ficção científica, drama e algum humor, condimentando-os com um interessante subtexto sobre a tolerância e a reacção à diferença (elemento nuclear no Universo X), Singer fez de "X-Men" e, sobretudo, do soberbo "X-Men 2" (AKA X2), dois dos melhores filmes de super-heróis dos últimos anos, sendo apenas superados, embora por pouco, pela saga do "Homem-Aranha", de Sam Raimi.

O hábil realizador já não se ocupou, contudo, de "X-Men - O Confronto Final" (X-Men: The Last Stand), o aguardado final da trilogia, devido ao seu envolvimento no mais recente filme do Super-Homem, facto que levou a que o desfecho da série fosse trabalhado por Brett Ratner, cujos créditos na direcção de películas inconsequentes como "Hora de Ponta" não sugeriam nada muito auspicioso.

Ora, apesar dessa suspeita, que em parte se confirma, "X-Men - O Confronto Final" é afinal um muito digno último capítulo da série, uma vez que, mesmo com algumas cedências e facilitismos, Ratner mantém-se conceptualmente quase sempre próximo da visão de Singer, ainda que sem a mesma subtileza e sofisticação.

Angel

Ao contrário do que ocorreu, por exemplo, com as adaptações de Batman na década de 90, onde as perspectivas de Tim Burton e Joel Schumacher nao poderiam colidir mais, aqui a mudança de realizador não prejudica tanto a saga, ainda que Ratner não evite tropeços que evidenciam o seu estatuto de tarefeiro.

O filme peca pelo excesso de efeitos especiais, tentando impressionar através de megalómanas sequências de acção (cuja mais gritante é a da ponte), factor que por vezes se impõe ao desenvolvimento dos dilemas das personagens, alvo de abordagens mais superficiais do que nos episódios anteriores.
O excesso de personagens já era um dos elementos que mais prejudicava a saga, mas aqui torna-se ainda mais problemático pois há muitas novas caras que não chegam a ter uma participação digna de nota, caso do Anjo, uma das mais esperadas que se limita a fazer breves aparições, e principalmente de Colossus, que apesar de admirado por muitos fãs é apenas um mero figurante.

Pior ainda é o facto de personagens com alguma relevância nos dois filmes anteriores, como Cyclops ou Rogue, serem aqui subaproveitadas de forma a conceder mais tempo de antena a Wolverine e Storm. A vantagem é que estes dois últimos acabam por ter um desenvolvimento interessante, em especial Storm, que tem finalmente um papel com impacto, supostamente devido a exigências contratuais de Halle Berry (que ainda não parece ser a melhor escolha para a heroína, ainda que esteja mais convincente do que antes).

X-Men: The Last Stand

O argumento apresenta também desequilíbrios, uma vez que aglomera vários enredos que na banda-desenhada eram independentes, desde a marcante saga da Fénix (interligada com a ambição e a sede de poder), até à "cura" para o gene mutante (que obriga algumas personagens a questionar a sua natureza), passando pelo contacto com a comunidade Morlock, um grupo de mutantes que vivem isolados, ou pela reformulação da equipa.

Estas histórias dariam, por si só, material para uma nova trilogia, por isso condensá-las num filme que não chega a atingir as duas horas de duração era uma missão ingrata. Ratner não é mal sucedido, pois consegue interligá-las sem que o resultado pareça forçado, porém nenhuma é abordada com a complexidade que merecia, tornando "X-Men - O Confronto Final" numa obra repleta de ideias muito interessantes que, infelizmente, não têm - e dificilmente poderiam ter apenas num filme - concretização à altura.

Se na carga dramática a película poderia ter ido mais longe, caso explorasse mais a fundo as personagens e o argumento, enquanto entretenimento ultrapassa, contudo, qualquer outro blockbuster de 2006, já que nunca perde o ritmo e apresenta sequências de acção e ideias visuais mais criativas do que as da concorrência, a que não são alheias as apelativas habilidades mutantes.
E também não são muitos os filmes-pipoca que podem orgulhar-se de contar com um elenco tão talentoso, onde brilham Hugh Jackman (mais uma vez desenvolto e carismático como Wolverine), Ian McKellen (exímio na composição de um austero e obstinado Magneto), Patrick Stewart (dificilmente haveria alguém mais apropriado para Xavier) ou Kelsey Grammer (perfeito como o ponderado Beast, a mais conseguida das novas personagens), assim como actores mais jovens mas promissores como Anna Paquin (uma das melhores actrizes da nova geração, mas aqui com pouco para fazer), Ellen Page (a co-protagista de "Hard Candy", segura no papel da perspicaz Kitty Pride), Aaron Stanford (um Pyro intenso e sombrio) ou Shawn Ashmore (cujo ar de boy-next-door é apropriado para Iceman).

Wolverine

Ficando aquém da coesão narrativa, fluidez da realização e imbatível energia de "X-Men 2", "X-Men - O Confronto Final" é ainda um sólido capítulo final para uma saga que, sem revolucionar, não deixa de ter uma consistência apreciável.
Embora o filme tenha sido promovido como o último da série, o final em aberto e algumas pontas soltas do argumento deixam espaço para novos desenvolvimentos (e spin-offs centrados em Wolverine e Magneto estão já em preparação). Se forem tão satisfatórios como até aqui, valerá a pena ir ver mais aventuras mutantes no grande ecrã.
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

terça-feira, julho 18, 2006

A BANDA QUE VEIO DO FRIO

Num Verão mais quente do que o habitual em terras lusas, a actuação de uma banda oriunda da Islândia era uma proposta no mínimo curiosa, já que as sonoridades assentes em atmosferas glaciares dos Sigur Rós não tinham contraponto no tórrido clima que envolve Lisboa, cidade que acolheu o grupo no Pavilhão Atlântico no domingo passado.

O colectivo, que passou já por palcos portugueses na apresentação dos muito aclamados "Ágætis Byrjun" e "()", trouxe agora na bagagem o seu mais recente álbum de originais, "Takk...", editado em 2005 e que fora também motivo de um concerto no Coliseu de Lisboa nesse mesmo ano.

O quatro disco do grupo introduziu tonalidades mais abrasivas ao som da banda, que emergem inesperadamente entre plácidos cenários etéreos, e por isso a noite de ontem viveu muito desse confronto entre momentos de distorção das guitarras e outros de teor mais contemplativo e sereno.

Sigur Rós no Pavilhão Atlântico

Essa combinação híbrida gerou momentos de invulgar beleza, caso de "Glósoli", o primeiro tema, onde o grupo actuou atrás de uma cortina que tapava o palco, e de quase todos as outras canções da primeira metade do espectáculo. Não tão absorventes foram os episódios finais, marcados por sonoridades mais tranquilas, por vezes sonolentas, longe do notável sentido de urgência presente nos momentos iniciais (a excepção foi "Popplagið", o visceral encore, uma magnífica erupção de descarga que rompeu com a crescente monotonia entretanto instalada).

Os desequilíbrios do alinhamento não impediram que a noite não tenha oferecido várias situações encantatórias, provenientes de uma música de difícil catalogação - ora ambiental, ora próxima do pós-rock, ora dream pop - que se aproxima de domínios dos Mogwai, Slowdive ou Brian Eno sem prescindir de claros sinais de personalidade.

Ao longo de cerca de duas horas, a frágil e expressiva voz de Jónsi Birgisson, através do idioma hopelandish, criado pela banda, embalou um público dedicado que aplaudiu sempre de forma efusiva cada canção (inclusive com ocasionais e dispensáveis acessos de histeria).
Além do som, também a vertente visual foi conseguida, tanto pelas imagens projectadas como pela eficaz coordenação das luzes com as canções, evidenciando um cuidado trabalho cenográfico.

Sigur Rós no Pavilhão Atlântico

Apesar de um espaço como o Pavilhão Atlântico parecer à partida pouco apropriado para que a aura intimista da música dos Sigur Rós se dissemine, o facto do palco estar situado a meio contribuiu para que o efeito não se perdesse por completo.

No final, os elementos do grupo e os restantes músicos que os acompanharam regressaram a palco para uma vénia colectiva, encerrando de forma sedutora a digressão centrada em "Takk...". O título do álbum foi então projectado, o que é especialmente significativo por se tratar do termo islandês para "obrigado".

Antes dos Sigur Rós actuaram as igualmente islandesas Amiina, quarteto electroacústico cujas sonoridades delicadas e angelicais funcionaram enquanto agradável aperitivo antes da chegada dos seus conterrâneos (em cujo concerto também participaram). Embora algo estática, a prestação da banda proporcionou momentos de uma frágil beleza que felizmente teve continuidade durante o resto da noite.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

Sigur Rós - "Glósóli"

domingo, julho 16, 2006

CASA DE PÂNICO

Um dos filmes independentes que mais burburinho tem gerado ultimamente, acolhido com entusiasmo em festivais como o de Sundance, "Hard Candy" é a estreia nas longas-metragens de David Slade, mais um realizador com experiência na área da publicidade, territórios que já revelaram talentos marcantes como David Fincher ou Mark Romanek.

A acção da película concentra-se quase exclusivamente em duas personagens, Hayley, uma rapariga de 14 anos, e Jeff, um reputado fotógrafo trintão. Após poucas semanas de conversas através da Internet, os dois decidem conhecer-se pessoalmente num café e, pouco depois, encontram-se já em casa dele, e a partir daqui "Hard Candy" torna-se numa tensa e inquietante experiência não só para os dois protagonistas (em especial para Jeff), mas também para o espectador.

Tema delicado e polémico, a pedofilia tem sido alvo de abordagem recente noutros filmes independentes, casos de "O Condenado" ou "L.I.E. - Sem Saída", mas enquanto esses se aproximavam do drama "Hard Candy" envereda mais por domínios do thriller, funcionando enquanto um prodigioso exercício de estilo sem deixar de ser um acutilante estudo sobre a ambiguidade moral.

A câmara de Slade movimenta-se com desenvoltura e criatividade, proporcionando muitos momentos de impressionante impacto visual. O filme contém fluência e energia na realização (que consegue ser vibrante sem conter tiques de videoclip acelerado), um estupendo trabalho de fotografia e uma rigorosa atenção aos cenários e ambientes (vejam-se os decors do apartamento de Jeff), que lhe conferem uma rara elegância formal, e o ritmo da narrativa raramente falha, emanando uma estranha envolvência.

Contudo, apesar deste perfeccionismo estético, "Hard Candy" não é tão equilibrado no argumento, que apesar de interessante tem um desenvolvimento cuja credibilidade é questionada em algumas cenas, em particular no forçado e maniqueísta desenlace, deitando por terra a ambivalência moral presente em grande parte da película.

Parte do problema do argumento prende-se com a personagem de Hailey, demasiado camaleónica e cujas motivações são apenas sugeridas mas não reveladas, e se essa aura enigmática funciona até certa altura mostra-se algo frustrante no final do filme.
Aplauda-se, no entanto, a soberba interpretação da jovem Ellen Page, perfeita no misto de fragilidade, genialidade e calculismo, destacando-se automaticamente como uma das grandes revelações do ano. Patrick Wilson é igualmente exemplar na composição do (inicialmente) tranquilo e discreto Jeff, embora o seu desempenho não seja tão surpreendente pois o actor já tinha dado provas de talento na mini-série "Anjos na América".

Ficando aquém do grande filme que os primeiros minutos sugerem, "Hard Candy" não deixa de ser uma boa surpresa, possuindo algumas sequências de antologia que seduzem pela sua palpável carga sufocante (não querendo revelar muito, diga-se apenas que a melhor de todas arrisca-se a deixar de rastos os espectadores do sexo masculino). Uma obra desequilibrada, mas merecedora de atenção.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

sexta-feira, julho 14, 2006

MAIS LOGO: DISCO SOUND(+VISION)

Discos Voadores @ Incógnito

MR. E MRS. HUNT

Depois das adaptações para cinema a cargo de Brian DePalma e John Woo, o realizador escolhido para "Missão: Impossível 3" (Mission: Impossible III), terceiro filme inspirado na mítica série televisiva, foi alguém que iniciou precisamente o percurso no pequeno ecrã e que testa agora terittórios da sétima arte, J. J. Abrams.
Responsável por dois duas das mais aclamadas produções televisivas do momento - as séries "A Vingadora" e, sobretudo, "Perdidos" -, Abrams trouxe nova vida a narrativas vincadas pelo suspense, espionagem e acção, o que à partida fazia dele uma opção promissora para se ocupar de um filme destes.

Contudo, por vezes até no melhor pano cai a nódoa, e a estreia do realizador nas longas-metragens está longe de ser tão auspiciosa como a sua experiência televisiva. Não que "Missão: Impossível 3" seja desastroso, apenas não acrescenta nada de novo nem ao cinema nem à série, limitando-se a seguir, com competência mas sem chama, um formato por demais visto em tantas outras películas de acção.

Há tentativas de mudança, é certo, entre as quais o esforço numa maior humanização do protagonista Ethan Hunt ou a inclusão dos seus colegas de equipa (embora a série televisiva se centrasse num grupo, os dois filmes anteriores ignoraram esse facto).

Estas alterações são, no entanto, muito ténues, uma vez que a personagem principal se mantém tão genérica como antes, já que o facto de ter uma relação amorosa que lhe concede automaticamente maior densidade emocional. Quanto aos elementos da equipa, são ainda menos desenvolvidos, pois Abrams usa-os como meros gadgets do argumento.

O que se aproveita são mesmo as quase sempre eficazes e pontualmente emocionantes sequências de acção, onde o realizador mostra que no departamento de explosões, riscos e perseguições consegue gerar momentos de efervescente energia cinética sem enveredar por irritantes exercícios de pirotecnia balofa nem enjoativos tremeliques da câmara.

Se isso bastar, então "Missão: Impossível 3" nem funciona enquanto má proposta de entretenimento pipoqueiro e livre de pretensões, mas não deixa de ser uma pena vê-lo desperdiçar actores como Laurence Fishburne e Jonathan Rhys-Meyers (aqui transformados em bonecos sem alma) ou Philip Seymour Hoffman (que compõe um vilão interessante mas com escasso tempo de antena).

O protagonismo volta a ser dado a um Tom Cruise igual a si próprio, exemplar nas cenas de maior dinamismo mas que, para além disso, se limita a viver uma básica e forçada história de amor com uma indistinta Michelle Monaghan.

Enfim, tendo em conta a baixa fasquia da maioria da concorrência dentro do género, o filme cumpre, mas a julgar pelos nomes envolvidos esperava-se mais do que uma mediania bem oleada porém pouco substancial.

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

quinta-feira, julho 13, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "FINAIS FELIZES"

Desdobrando-se entre a comédia e o drama, "Finais Felizes" (Happy Endings) é uma crónica urbana sobre várias e díspares relações humanas, e segue três histórias onde o amor e as novas famílias se interligam. Don Roos ("O Oposto de Sexo", "Bounce - Um Acaso com Sentido") ocupa-se da realização, mas o maior destaque vai mesmo para o elenco, onde constam nomes como Lisa Kudrow, Laura Dern, Steve Coogan, Maggie Gyllenhaal ou Jesse Bradford.

Outras estreias:

"A Honra do Dragão", de Prachya Pinkaew
"Assombrados - Uma História Americana", de Courtney Solomon
"Diários da Bósnia", de Joaquim Sapinho
"Edison", de David J. Burke
"Pular a Cerca", de Tim Johnson e Karey Kirkpatrick
"Tara Road - Vidas Trocadas", de Gillies MacKinnon
"Tristão e Isolda", de Kevin Reynolds

quarta-feira, julho 12, 2006

WHO'S GONNA WATCH YOU DIE?

Nada contra "Breathe", de Sia, a bela canção que serviu de excelente banda-sonora ao final de "Sete Palmos de Terra", mas "What Sarah Said", dos Death Cab for Cutie, também não combina nada mal com a despedida da família Fisher. Ora confiram lá aqui em baixo:

Death Cab for Cutie - "What Sarah Said"

A FILHA PRÓDIGA

Ancorado sobretudo nas interpretações seguras de um elenco coeso e na sensibilidade de um argumento que, sem trazer nada de novo, consegue ser envolvente, "Estranhos em Casa" (Winter Passing) é uma interessante primeira-obra que permite adicionar Adam Rapp, oriundo das esferas do cinema independente, ao grupo de realizadores norte-americanos promissores.

Este estudo de personagens narra o percurso de Reese, uma jovem actriz que viaja de Nova Iorque até ao Michigan, a sua terra-natal, de encontro ao seu pai, Don Holden, um escritor aclamado mas cujo frágil estado de saúde o convida ao isolamento e depressão, reforçada pela morte recente da esposa.

Embora inicialmente a deslocação de Reese se deva a uma tentadora proposta de publicação de uma série de cartas trocadas entre os seus pais, guardadas na garagem da sua antiga casa, a estadia reserva-lha algumas surpresas, entre as quais a presença de dois novos inquilinos: Shelly, uma discreta jovem inglesa, ex-aluna de Don, e Corbit, um recatado músico amador.

É na interacção destas quatro personagens que "Estranhos em Casa" se concentra, e se o seu desenvolvimento não é especialmente imprevisível, longe disso - não há grandes inovações nas abordagens das temáticas do regresso a casa, dos laços que se formam entre outcasts ou das dores das relações entre pais e filhos -, tal não compromete que este se destaque enquanto um drama sóbrio e inteligente, de clara escola indie.

Melancólico mas caloroso, marcado por atmosferas outonais, o filme seduz pela realização escorreita de Rapp, pela recomendável banda-sonora (a cargo de nomes como os Kingsbury Manx, Azure Ray, Deadsy, Low ou Smog) e pela equilibrada carga dramática para a qual contribui a valorosa entrega dos actores, desde a protagonista Zooey Deschanel, que compõe a contraditória e impulsiva Reese, até aos não menos determinantes Ed Harris (competente como escritor à beira do colapso), Amelia Warner (soberba na pele da idealista e luminosa Shelly) e Will Ferrell (que finalmente tem a seu cargo uma personagem e prestação suportáveis).

Não pretendendo ser mais do que uma obra sincera e modesta, "Estranhos em Casa" centra-se no essencial: contar uma boa história de forma entusiasmante, e o resultado é francamente positivo. Não apresenta trunfos que o tornem num filme ímpar, mas permite afirmar que Adam Rapp começa bem.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

terça-feira, julho 11, 2006

Para quem não viu o episódio de ontem, ou para quem viu mas quer repetir (como eu), fica aqui a sequência final da melhor série (ou melhor, indie soap opera) dos últimos anos. Cuidado porque pode causar vício e, sobretudo, desidratação ocular.

segunda-feira, julho 10, 2006

TUDO ACABA

Hoje, às 22h30, na 2:

sexta-feira, julho 07, 2006

CANÇÕES DE EMBALAR

Se nos anos 90 o trip-hop e o downtempo geraram alguns dos discos mais refrescantes e originais do fim do milénio, nos tempos mais recentes esses (sub)géneros não têm sido trabalhados de forma especialmente cativante, antes utilizados de forma redundante e que parece confirmar o seu esgotamento.

Uma das excepções que apresenta traços desses domínios sem no entanto se limitar a enveredar por lugares-comuns é o disco de estreia dos noruegueses Flunk, "For Sleepyheads Only", um dos mais sedutores e cativantes de 2002.

Atmosférico e contemplativo, o álbum sabe aliar uma escrita sólida a uma segura manipulação de elementos electrónicos, apresentando um conjunto de canções marcadas por uma considerável carga cinemática e paisagista.

"Blue Monday", versão para o tema homónimo dos New Order, substitui o dinamismo rítmico do original por cenários de agradável placidez, assemelhando-se ao que os Nouvelle Vague tornariam em fórmula dois anos depois. "See Through You", outro dos momentos altos, interliga também de forma inspirada a delicada voz de Anja Øyen Vister (próxima das de Björk ou Emiliana Torrini) e insinuantes texturas dream pop, assim como "Your Koolest Smile" e "Distortion", caracterizados por uma ténue melancolia.

Os ambientes tensos e enigmáticos do brilhante "Syrupsniph" apostam em territórios mais sombrios, enquanto que "Kebab Shop 3 AM", enérgico e repetitivo, faz lembrar o contagiante single "Eple", dos conterrâneos Röyksopp, e não perde nada na comparação. "Indian Rope Trick" aproxima-se do asian underground, assemelhando-se a Nitin Sawhney no seu melhor, e "I Love Music", com uma apelativa mistura de vozes sampladas e guitarras, funciona bem como uma tranquila mas dançável entrada para o disco.

Embora se aproxime de outras referências, "For Sleepyheads Only" não as usa como mero objecto de decalque mas enquanto fonte inspiradora para a construção de um disco versátil e aglutinador, que acaba por encontrar um espaço próprio. Não fossem pontuais momentos como "Miss World" ou "Magic Potion", interessantes mas menos do que os demais (aproximando-se da mediania de uns Zero 7 ou Thievery Corporation), e esta estreia poderia ter sido ainda mais auspiciosa. A (re)descobrir (página no myspace).
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

quinta-feira, julho 06, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "EU, TU E TODOS OS QUE CONHECEMOS"

A primeira longa-metragem de Miranda July, "Eu, Tu e Todos os que Conhecemos" (Me and You and Everyone We Know) é um dos filmes indie que mais burburinho tem gerado nos últimos tempos, como o atestam os prémios em Cannes ou Sundance.
À partida não parece ter nada que o distinga de outros retratos agridoces dos subúrbios, assunto já mais do que explorado em muitos títulos do cinema independente norte-americano, mas ainda assim não convém deixá-lo passar ao lado.
Com experiência em várias áreas artísticas, desde a música à escrita, July assina aqui o seu filme de estreia mas possui no currículo outros trabalhos como realizadora, como o videoclip "Get Up", das recém-extintas Sleater Kinney, que pode ser visto aqui:

Outras estreias:

"As Filhas do Botânico", de Sijie Dai
"O Diabo a Quatro", de Alice de Andrade
"Poseidon", de Wolfgang Petersen
"Separados de Fresco", de Peyton Reed

segunda-feira, julho 03, 2006

REFÚGIOS NO CINEMA

Respondendo à proposta do Franscisco Mendes, manifesto aqui a minha adesão à corrente de solidariedade com o ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados), ou UNHCR, no original.
Um refugiado é definido como sendo uma pessoa que teve de abandonar o seu país devido a um receio fundado de perseguição em virtude da sua raça, religião, nacionalidade, opinião política ou pertença a um determinado grupo social, não podendo ou não querendo regressar. O ACNUR ajuda os refugiados de todo o planeta e foi criado em 1951 pela Assembleia-geral das Nações Unidas.

'Shooting Dogs - Testemunhos de Sangue'

Relacionando esta questão a um dos temas principais deste blog, o cinema, destaco dois filmes estreados este ano entre nós que, de uma forma ou de outra, acabam por abordar situações que envolvem refugiados.
"Shooting Dogs - Testemunhos de Sangue", de Michael Caton-Jones, é um surpreendente filme de guerra ambientado no Ruanda, abordando, de forma inteligente e emotiva, os massacres aí decorridos há cerca de dez anos.
"Sem Destino", do húngaro Lajos Koltai (ainda em exibição), embora não acrescente muito a outras películas centradas no Holocausto, impõe-se como um contundente e respeitável grito de alerta acerca dos efeitos da intolerância.
Só é pena que ambas as obras se arrisquem a passar ao lado de muitos, pois para além de estarem acima da média evidenciam também como o cinema pode ter uma função social sem que tal comprometa a sua vertente artística. Convido todos os bloggers que leiam este post a contribuirem para a continuidade da corrente.

'Sem Destino'

domingo, julho 02, 2006

IRMÃO, ONDE ESTÁS?

Alvo de algum culto por onde tem passado, a que não será alheio o facto do seu argumento e banda-sonora serem da autoria de Nick Cave, “Escolha Mortal” (The Proposition) recupera alguns dos cânones do western, género quase esquecido nos dias de hoje, para contar uma história amarga história de vingança, traição e dor ambientada na Austrália de finais do século XIX.

Centrado no dilema de um criminoso que, para conseguir que o seu irmão mais novo escape à pena de morte, terá de matar o mais velho, um assassino cruel e impiedoso, o filme segue em paralelo a relação do capitão local e da sua esposa, estas as duas únicas figuras que conseguem gerar alguma empatia.
É precisamente pela falta de empatia que a maioria das suas personagens despoleta que “Escolha Mortal” resulta numa obra desequilibrada, pois o desenrolar das peripécias que envolvem os irmãos Burns, além de ser algo previsível, não emana grande carga emocional, arriscando-se a que o destino destes se torne indiferente para o espectador.

As interpretações também nem sempre ajudam, já que Guy Pearce apresenta um registo apático e inexpressivo, compondo uma personagem determinante mas de escassa espessura, Richard Wilson limita-se a ser histérico e a fazer pose de coitadinho no papel de irmão mais novo e apenas Danny Huston, que encarna o implacável líder do gang de assassinos, é o único do trio a estar à altura do que lhe é pedido.
Ray Winstone e Emily Watson oferecem desempenhos mais convincentes, mas infelizmente as suas personagens, apesar de serem interessantes, carecem de maior desenvolvimento.

É pena que o argumento e a construção de personagens sejam pouco mais do que esquemáticos, porque nos outros aspectos “Escolha Mortal” é bastante conseguido. A realização segura de John Hillcoat proporciona uma atmosfera claustrofóbica e hostil, apropriada à amoralidade e inquietação que caracteriza a maioria das figuras do filme. A impressionante fotografia de Benoît Delhomme é fulcral para a consolidação dos ambientes tórridos e áridos, assim como a reconstrução de época, minuciosa e verosímil. Já a banda-sonora de Nick Cave, não sendo um assombro, é suficientemente intrigante e adequada às atmosferas do filme, entre o brutal e o poético.

Contudo, como esta intensidade visual e sonora raramente tem contraponto em sequências com uma carga dramática ao mesmo nível, “Escolha Mortal” não ultrapassa a fasquia do filme curioso, o que é especialmente lamentável tendo em conta que, com alguns acertos no argumento e no ritmo da narrativa, poderia ter ascendido a um patamar bem superior.
E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

quinta-feira, junho 29, 2006

QUANDO O CÉU DESCEU À TERRA

Na sua segunda actuação a solo em Portugal (a primeira foi no Festival do Sudoeste do ano passado), a britânica Lou Rhodes cativou o público presente ontem na Aula Magna, em Lisboa, com a apresentação do seu disco de estreia em nome próprio, "Beloved One".

A ex-vocalista dos Lamb não conta agora com as surpreendentes programações rítmicas de Andy Barlow, substituindo o experimentalismo electrónico de drum n' bass e trip-hop por serenas atmosferas acústicas próximas de uma folk agridoce, entre o primaveril e o outonal, mas a empatia com o auditório não deixou de se evidenciar.

De resto, esse registo marcado pela simplicidade notou-se logo quando a cantora entrou em palco, envergando um vestido branco bem distinto dos trajes mais irreverentes que caracterizavam a sua imagem nos Lamb.
Bem acompanhada por cinco elementos em palco, Lou Rhodes proporcionou uma tranquila e acolhedora hora e meia onde revelou uma envolvente faceta de storyteller, comunicando naturalmente com os espectadores e contando-lhes episódios curiosos do quotidiano, chegando a brincar com o facto do público aplaudir antes das canções terminarem.

Foi, de resto, esse misto de disponibilidade, simpatia e modéstia que fez deste um espectáculo convincente, compensando a mediania e banalidade de algumas composições, a milhas da criatividade dos melhores momentos da carreira dos Lamb.
Contudo, se a nível da escrita o cardápio musical foi irregular, a voz da cantora continua excepcionalmente cristalina e expressiva, e não foram poucos os episódios dominados por uma intensa carga emocional.
Em "No Re Run", "Beloved One", "Why" ou no inédito "All We Are", os resultados desta união foram particularmente ricos, despoletando um encantatório ambiente bucólico com uma vocalista em estado de graça. Menos absorventes foram "Tremble" ou "To Survive", entre outras canções monótonas e pouco inspiradas que desequilibraram o alinhamento.

Apesar da maioria dos temas terem sido bem recebidos pelo público que ocupava a relativamente concorrida, mas longe de esgotada Aula Magna, nos encores é que surgiram focos de maior agitação.
Do primeiro constaram o belo e angelical "Bloom" e o popular "Gabriel", o single mais mediático dos Lamb que os espectadores acompanharam de pé e com palmas. Dispensava-se, no entanto, esta escolha, não só por ser previsível mas sobretudo porque a banda possui na sua discografia canções bem mais estimulantes. É o caso da que encerrou o concerto, "Lullaby", do magnífico "Fear of Fours", apresentada com roupagens acústicas, que suscitou um dos picos emocionais da noite, lembrando o fulgor e vibração de outros tempos.

Antes de Rhodes actuou o islandês Oddur Runarsson, ex-guitarrista dos Lamb cujo disco de estreia será lançado pela editora da cantora, a Infinite Bloom. Praticante de uma pop intimista e acessível, manteve uma postura simpática e iniciou a noite de forma competente, mas sem rasgos nem sinais particulares.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

Lamb - "All in Your Hands (Live)"

ESTREIA DA SEMANA: "A VIDA SECRETA DAS PALAVRAS"

Vencedor dos Goyas para Melhor Filme, Melhor Realização e Melhor Argumento, "A Vida Secreta das Palavras" (The Secret Life of Words) é o mais recente filme de Isabel Coixet, realizadora de "A Minha Vida Sem Mim".
Tal como a sua antecessora, esta nova obra é um drama protagonizado pela canadiana Sarah Polley (uma das jovens actrizes mais subvalorizadas do momento), e desta vez o elenco integra também Tim Robbins e Javier Cámara (um dos actores de "Fala com Ela", de Almodóvar").
A acção segue a relação de cumplicidade que se segue entre uma jovem incumbida de tratar de um homem de meia idade temporariamente cego numa plataforma petrolífera. Uma potencial surpresa a confirmar...

Outras estreias:
"Carros", de John Lasseter
"Chamada de Um Estranho", de Simon West
"História de Duas Irmãs", de Kim Ji-woon, o realizador de "Doce Tortura"

terça-feira, junho 27, 2006

POSTO DE ESCUTA

"Black Holes and Revelations", o mais recente álbum dos britânicos Muse, já pode ser ouvido na íntegra no myspace da banda. O sucessor de "Absolution" até começa bem, com temas fortes como "Take a Bow", o primeiro single "Supermassive Black Hole" ou o grandioso "Map of the Problematique", mas infelizmente o resto do disco não parece estar à altura das canções iniciais.
Mesmo assim recomenda-se a audição, até porque as primeiras impressões são por vezes enganadoras e nem todas as bandas podem gabar-se de ter um vocalista do calibre de Matt Bellamy.

QUOTIDIANO ANGUSTIANTE

Na altura do seu lançamento nos EUA, em Janeiro de 2006, "Bubble" tornou-se mais mediático pela vertente inovadora da sua distribuição do que propriamente pelo seu valor enquanto filme.
Alvo de uma estratégia incomum, a película foi disponibilizada nos cinemas, na televisão em DVD com intervalos de poucos dias, numa atitude ousada por parte de Steven Soderbergh que sugere uma nova lógica de mercado.

Se o cineasta já era conhecido pelo seu percurso imprevisível e experimental, cimenta ainda mais esse estatuto, reforçado pelo facto do filme ter sido rodado em vídeo digital de alta definição, de contar com actores não-profissionais e de ser o primeiro de uma série de seis que serão produzidos e distribuídos da mesma forma.

Não é a primeira vez que Soderbergh gera um filme de baixo orçamento, uma vez que quer a sua aclamada estreia, "Sexo, Mentiras e Vídeo", quer outros projectos seguintes, caso de "Full Frontal - Vidas a Nú", não poderiam estar mais longe de produções com somas astronómicas. O segundo, contudo, pouco mais era do que um home video em que o realizador se divertia com estrelas como Julia Roberts ou Brad Pitt, um objecto curioso mas tão inane como o mais rentável e popular "Ocean's Eleven", exercício de estilo cujo cast de luxo não compensava a falta de substância.

Versátil e desigual, a filmografia de Soderbergh contém, no entanto, objectos mais desafiantes, e felizmente "Bubble" é um deles, já que por detrás de todo o aparato do lançamento encontra-se de facto um trabalho consistente.

Alicerçado no quotidiano de três operários de uma fábrica de bonecas algures no Ohio, o filme segue a sua rotina diária, marcada pela apatia e falta de perspectivas, e a rede de relações que se se desenvolve entre o trio.
Martha, uma quarentona obesa e solitária, divide o seu tempo entre o pai paralítico, de quem cuida, e o trabalho, onde praticamente só contacta com o tímido e circunspecto Kyle, cerca de 20 anos mais novo, que vive em casa da mãe enquanto poupa dinheiro para mudar de vida. A relativa proximidade dos dois colegas é ameaçada quando Rose, a nova e enigmática operária, começa a almoçar com eles, levando a que Martha se sinta cada vez mais ignorada e subestimada.
Se a partir daí o dia-a-dia se torna mais claustrofóbico, a tensão aumenta quando ocorre um homicídio na noite em que Kyle e Rose saem juntos e Martha toma conta da pequena filha da sua mais recente colega (e rival).

Mais do que relatar as peripécias de um triângulo amoroso ou do que se esgotar nos modelos de suspense whodunit, "Bubble" ofecere um seco, duro e muito pessimista retrato da falta de esperança de figuras white trash da América profunda.

Tão cru e cortante como muitos dos filmes do movimento Dogma 95, dos quais se aproxima pelo seu carácter lo-fi (as casa e roupas são as dos próprios actores, os diálogos são improvisados, o recurso à banda-sonora é escasso), o filme desenvolve-se a um ritmo moroso, mas estranhamente hipnótico, edificando uma sufocante aura realista onde predominam também traços do cinema documental.

Os recorrentes planos fixos e a atenção ao detalhe, aliados à determinante - e brilhante - prestação dos actores (ninguém diria que Debbie Doebereiner, Dustin James Ashley e Misty Dawn Wilkins são amadores), contribuem também para que "Bubble" se distinga enquanto um sóbrio, inteligente e desconfortável estudo de personagens, que nunca descura a complexidade humana.

Soderbergh, que para além da realização tem aqui a seu cargo a montagem e fotografia, assina uma obra que segue, e bem, a política do less is more, onde tudo se joga nos desencantados olhares dos actores e na espontaneidade dos diálogos.
Dispensando moralismos e optando por um olhar clínico, "Bubble" não é um objecto extraordinário mas tem a vantagem de se afastar do experimentalismo oco e auto-indulgente presente em parte da filmografia do realizador, afirmando-se como uma recomendável proposta indie, ainda que dificilmente gere consensos.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

BLINKS & LINKS

sábado, junho 24, 2006

AVANCEM

Este sábado, os You Should Go Ahead, uma das promissoras novas bandas nacionais, actuam no Clube Mercado, em Lisboa, pelas 23 horas, e a entrada é gratuita. Em destaque estará o recém-editado álbum de estreia homónimo e como aperitivo fica aí o videoclip do primeiro single, "Like When I Was Seventeen". E há mais para ouvir no myspace do grupo.

sexta-feira, junho 23, 2006

quinta-feira, junho 22, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "A CASA DA LOUCURA"

Depois do interessante "Young Adam", o escocês David Mackenzie regressa com "A Casa da Loucura" (Asylum) e foca, mais uma vez, uma teia de relações obsessivas e esquizofrénicas, interligando o amor e a morte.
Esta história da esposa de um psiquiatra e do seu caso com um dos doentes deste, decorrida na Inglaterra dos anos 50, baseia-se no (apenas curioso) romance homónimo de Patrick McGrath, o mesmo autor de "Spider", adaptado para cinema por David Cronenberg. O elenco inclui dois dos melhores actores britânicos de hoje, Natasha Richardson e Ian McKellen.

Outras estreias:

"Klimt", de Raoul Ruiz
"O Rei", de James Marsh
"Para Sempre", de Alessandro Di Robilant
"Samaritana", de Kim Ki-duk
"Sem Destino", de Lajos Koltai
"Tideland - O Mundo ao Contrário", de Terry Gilliam
"Velocidade Furiosa - Ligação Tóquio", de Justin Lin

quarta-feira, junho 21, 2006

TIREM-NA DESTE FILME

Uma das convidadas internacionais do Lisbon Village Festival, Mia Farrow, deu hoje uma conferência de imprensa ao início da tarde (ver mais aqui). Foi simpática e esteve quase sempre bem, excepto quando disse que o mais recente filme em que participa, "O Génio do Mal", não pretende ser uma obra-prima mas é um bom entretenimento. Não é mesmo uma obra-prima, estamos de acordo, mas de bom entretenimento também não tem nada. Fui vê-lo hoje à tarde e foi quase tão mau como ter de assistir ao jogo de futebol que decorria na mesma altura.

A MALTA DO BAIRRO

Goste-se ou não, Larry Clark tem proporcionado um dos mais pessoais, idiossincráticos e pungentes olhares sobre parte da juventude contemporânea, em filmes cuja controvérsia o tornaram num dos cineastas mais aclamados e, simultaneamente, repudiados dos últimos anos.

"Wassup Rockers - Desafios de Rua", o seu título mais recente, possui alguns dos traços reconhecíveis que ajudaram a consolidar o seu nome, mas surpreende ao não apostar numa crueza tão denunciada como a que se verificava em "Ken Park - Quem És Tu?" ou "Kids - Miúdos", sobretudo por evitar cenas de sexo vincadas por um voyeurismo excessivo e gratuito, uma das suas marcas registadas e algo que os seus detractores criticam frequentemente nas suas obras.

Embora mantenha, principalmente nos momentos iniciais, uma considerável carga realista, esta crónica das peripécias quotidianas de um grupo de adolescentes latino-americanos de um bairro problemático de Los Angeles vai adoptando tons cada vez mais caricaturais, tornando o filme numa sátira cáustica, por vezes grotesca, e bastante desequilibrada.

"Wassup Rockers - Desafios de Rua" começa se debruçar sobre o dia-a-dia de sete amigos de South Central, que têm a particularidade se identificarem com a subcultura punk-rocker e skater e não com aquela ligada ao hip-hop, que predomina na área em que habitam.
Aproximando-se do cinema documental, a primeira metade do filme apoia-se na naturalidade das interpretações dos jovens não-actores e nas suas conversas banais mas verosímeis, gerando um curioso retrato onde a habitual acidez de Clark dá espaço a uma inesperada candura.

Essa sugestão de tridimensionalidade é, contudo, interrompida quando o grupo de jovens viaja até Beverly Hills para praticar skate, e aí o filme revela o seu verdadeiro programa, estabelecendo um contraste entre estes adolescentes suburbanos e marginais e os mais abastados e refinados dos bairros ricos.
Clark não hesita em tomar partido dos primeiros, ridicularizando os segundos e, por extensão, a comunidade em que se inserem, que é aqui caracterizada como fútil, hipócrita, cínica e frívola.
Um retrato pouco subtil e original, é certo, mas o absurdo de certas situações que se desenrolam numa narrativa espartana e imprevisível fornece sequências estranhamente cómicas, tornando "Wassup Rockers - Desafios de Rua" num exercício paródico que, apesar de óbvio, ganha alguma simpatia pelo seu descaramento (os graus de irrisão chegam a lembrar domínios de John Waters).

No meio deste inconstante olhar offbeat, não raras vezes inconsequente (para quê tantas intermináveis sequências de skate?), salientam-se alguns pequenos episódios de inesperada sensibilidade, como o da conversa na cama entre um rapaz latino e uma rapariga de Beverly Hills, que mostram aquilo que o filme poderia ser caso optasse por uma maior complexidade. Assim, é uma obra com interesse mas limitada por uma abordagem tão superficial como supostamente o é a comunidade que critica.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

O PRIMEIRO FESTIVAL DE VERÃO

O 1º Festival de Cinema Digital da Europa, Lisbon Village Festival, realiza-se entre 21 e 25 de Junho e, para além da sétima arte, a iniciativa dedica-se ainda à fotografia digital ou à pintura, entre outras áreas artísticas que têm sofrido influências das novas tecnologias.

Os filmes serão exibidos no Cinema São Jorge, no Teatro Maria Matos e no Teatro São Luiz e as exposições encontram-se já espalhadas por várias galerias da capital.

Os cerca de trinta filmes em destaque dividem-se entre a Competição internacional de longas-metragens, a Competição internacional de curtas-metragens e a Mostra de obras do Skip City International D-Cinema Festival.
Das exibições especiais, salientam-se as ante-estreias dos mais recentes títulos de Pedro Almodóvar, "Volver", e de Steven Soderbergh, "Bubble", os cineastas mais mediáticos do programa do festival.

BLINKS & LINKS

Obrigado aos responsáveis pelos blogs Burn in the Spotlight, Grandes Sons, More All of Me e Universos Cinobibliomusicais por me blinkarem ;)

terça-feira, junho 20, 2006

NAS TEIAS DA CORRUPÇÃO

Claude Chabrol tem evidenciado, nos seus últimos filmes, poucos traços da ousadia que o distinguiu enquanto nome-chave da Nouvelle Vague, incidindo quase sempre nos mesmos temas e ambientes com maior ("A Dama de Honor") ou menor ("No Coração da Mentira") eficácia.

"A Comédia do Poder" (L`Ivresse du Pouvoir) é mais uma película que vem confirmar essa tendência, pouco ou nada acrescentando à filmografia do cineasta mas contendo, ainda assim, algum interesse.

O filme é um olhar sobre os meandros da política, do mundo empresarial e dos laços ilícitos que se geram entre estas esferas, sendo aqui investigados por uma austera, impiedosa e dedicada juíza cuja determinação em denunciar um caso de corrupção acaba por perturbar a sua frágil vida privada.

Misto de thriller e drama conjugal embalado por uma fina camada de humor negro, "A Comédia do Poder" é um título que emana inteligência e competência, mas que raramente consegue elevar-se acima da média.
Os diálogos astutos e subtis e as não menos sólidas interpretações (em particular a de Isabelle Huppert) são trunfos valiosos, no entanto a realização algo indistinta e, sobretudo, o argumento irregular não permitem que o filme forme um todo consistente.

Suficientemente envolvente quando se dedica às situações da rotina familiar da protagonista, tanto à falta de comunicação desta com o marido como à intrigante relação que mantém com o sobrinho (sendo esta a que fornece as melhores cenas), "A Comédia do Poder" é uma obra menos conseguida quando se limita a proporcionar mais uma estafada perspectiva sobre um inquérito judicial que apenas leva a um já visto e revisto conflito de poderes e interesses, abordado de uma forma tão plausível quanto previsível.

Longe do desastre, é certo, mas ficando também muito aquém do brilhantismo, o filme é um objecto curioso que peca por não funcionar plenamente enquanto entretenimento nem como fonte de reflexão. A ver, mas com reservas.

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

sábado, junho 17, 2006

QUEM NUNCA TEVE UM DIA ASSIM?

Hoje eu nao vou sair de casa
Hoje eu nao pisar na rua
Hoje eu nao vou trocar de roupa
Nao vou sair de casa
Hoje eu nao quero ver a rua
Hoje eu nao quero confusao
Hoje eu nao quero ver pessoas
Nao vou sair de casa

Acho um pouco bom

Hoje eu vou ficar ouvindo musica
Hoje eu vou ficar aqui dançando
Hoje eu vou ficar aqui na minha
Eu vou ficar sozinha
Hoje eu vou ficar aqui dançando
Hoje eu vou ficar aqui dançando
Hoje eu vou ficar aqui dançando

Ah tá !

Acho um pouco bom

(trim !!)

Ah nao vou entender
(trim !!)
Eu nao vou atender
(trim !! trim !!)
Eu nao quero atender !
(trim !!)

"Acho um pouco bom"
Cansei de Ser Sexy

sexta-feira, junho 16, 2006

O SUBÚRBIO É UM LUGAR ESTRANHO

Se o cinema independente norte-americano tem oferecido algumas das mais criativas obras da sétima arte dos últimos anos, por outro lado também tem proporcionado títulos que pouco mais fazem do que compilar, de forma algo impessoal, uma série de códigos e traços identitários que se foram gerando dentro desses domínios.

“Os Amigos de Dean” (The Chumscrubber), primeira longa-metragem de Arie Posin, está algures entre esses dois extremos, uma vez que apesar de sequências inventivas e várias boas ideias acaba por não acrescentar muito a quem já tenha visto películas como “Donnie Darko”, de Richard Kelly, ou “Beleza Americana”, de Sam Mendes, duas referências próximas.
Tal já ocorria com o também recente “Chupa no Dedo”, de Mike Mills, que raramente era capaz de afirmar um espaço próprio, e cujo título original, “Thumbsucker”, é facilmente associável ao de “Os Amigos de Dean”.

Mais uma perspectiva sobre os subúrbios e o carácter falacioso das aparências dos seus habitantes, o filme tem como mote o suicídio de um adolescente, Troy, e as ramificações que esta morte despoleta entre os colegas, familiares e vizinhos deste.
Dean é o primeiro a ter conhecimento do trágico destino do amigo, mas mal consegue lidar com os seus sentimentos quando os pais são incapazes de fazer mais do que recomendar-lhe medicamentos contra a depressão e as reacções dos seus colegas à notícia variam entre a indiferença e o escárnio.
Três destes fazem chantagem com o protagonista de forma a recuperar doses consideráveis de drogas que Troy tinha escondidas e que só Dean sabe onde se encontram, mas aquilo que começa como uma aparente brincadeira acaba por adoptar contornos mais sérios e preocupantes (aproximando-se de “Uma Pequena Vingança”, de Jacob Aaron Estes, ou “Bully – Estranhas Amizades”, de Larry Clark).

Ao longo deste jogo de equívocos e pressões, Arie Posin oferece um olhar sobre as relações familiares, as normas sociais, a solidão e o crescimento, tendo como palco um subúrbio aparentemente normal mas que se revela um tenso micro-universo.
A espaços intrigante, noutros momentos inconsequente, “Os Amigos de Dean” sofre da sua frágil combinação de drama realista com comédia de costumes hiperbólica. Se há por aqui algumas personagens complexas, outras não vão além da caricatura, que se destinam apenas a ser alvo de sátira ao consumismo, narcisismo ou alienação.

Actores como Ralph Fiennes, Rita Wilson e Carrie-Anne Moss mereciam papéis mais trabalhados, mas em contrapartida os jovens Jamie Bell (seis anos depois de “Billy Elliot”) e Camilla Belle (a filha de Daniel Day-Lewis em “A Balada de Jack e Rose”) confirmam o seu talento interpretativo com personagens mais desenvolvidas e entusiasmantes.
O desempenho de Jamie Bell é provavelmente o melhor do filme, sendo capaz de tornar o protagonista na personagem mais sensível e afastando-se dos tiques de jovem introspectivo e marginal que poderiam debilitá-la.
Glenn Close, entre os nomes veteranos, merece igualmente destaque, tornando-se comovente ao encarnar uma mãe cuja perda do filho a lançou num (ou evidenciou o seu) limbo existencial.

Para além do elenco, “Os Amigos de Dean” tem na banda-sonora outro dos seus atractivos, tanto pelas canções de bandas como os Snow Patrol, The Like e Placebo (“A friend in need is a friend indeed/ A friend with weed is better”, versos da canção “Pure Morning”, não poderiam ser mais apropriados), como pela expressiva partitura instrumental de James Horner, que acompanha alguns dos picos dramáticos da acção, como o sublime segmento que segue a solidão de várias personagens e que culmina na cena em que Jamie Bell observa Glenn Close no jardim.

Com um argumento menos indeciso quanto ao tom a adoptar e algumas personagens melhor delineadas, “Os Amigos de Dean” poderia ser uma soberba estreia por parte de Arie Posin e candidato a clássico indie. Assim, fica-se por uma muito interessante primeira obra, mas também frustrante por não consumar o brilhantismo que se manifesta pontualmente. Um bom começo e um título estimável, de qualquer forma.

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

quarta-feira, junho 14, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "A LULA E A BALEIA"

Distinguido no Festival de Sundance com os prémios de Melhor Realização e Melhor Argumento, "A Lula e a Baleia" (The Squid and the Whale) é um drama familiar centrado num casal à beira do divórcio e na forma como os seus dois filhos adolescentes reagem a esta decisão.
Aparentemente a premissa não traz nada de novo, mas o cinema independente costuma surpreender partindo de situações do quotidiano e o facto do elenco incluir nomes como Jeff Daniels e Laura Linney desperta, no mínimo, alguma curiosidade.

Outras estreias:

"Com a Casa às Costas", de Barry Sonnenfeld
"Estranhos em Casa", de Adam Rapp
"Ritmo e Sedução", de Liz Friedlander
"Um Toque de Canela", de Tassos Boulmetis

terça-feira, junho 13, 2006

PERSEGUIDOS PELO PASSADO

Em 2003, os Placebo interromperam, com “Sleeping With Ghosts”, um percurso marcado por um nível de qualidade crescente de disco para disco, expondo alguma estagnação e não acrescentando muito a uma personalidade que, apesar de singular, começou a tornar-se cansativa.

Três anos depois, o trio regressa com “Meds” e constata-se que esses sintomas de repetição voltam a manifestar-se, desta vez de forma ainda mais evidente e com resultados menos profícuos. Exemplo disso é “Because I Want You”, o primeiro single, uma canção esquemática com uns Placebo em piloto-automático, bem longe da frescura e efervescência dos tempos de “Nancy Boy”, “You Don’t Care About Us” ou “Taste in Men”.

Felizmente, nem todos os temas do disco são tão insípidos como este primeiro avanço, mas também nenhum está à altura dos melhores momentos de registos anteriores. A canção que dá título ao disco, com a participação de Alison Mosshart, dos The Kills, inicia-o de forma cativante, mantendo o sentido de urgência e a carga dramática pelos quais os Placebo se notabilizaram, num momento curto mas incisivo.
“Drag” é igualmente escorreito e directo, mas poderia constar do álbum de estreia, e “Post Blue”, apesar das semelhanças com “English Summer Rain”, também é um atestado de eficácia e dinamismo.

O viciante “One of a Kind” apresenta uma feliz interligação com a electrónica, em que o grupo tem apostado ultimamente mas de forma desigual, e “Blind” e “In the Cold Light of Morning”, atmosféricos e melancólicos, são belos episódios ritmicamente mais apaziguados mas não desprovidos de vibração emocional. Semelhante intensidade encontra-se em “Song to Say Goodbye”, que fecha "Meds" em alta, combinando apelo pop e uma genuína vulnerabilidade.
É certo que nestes temas os Placebo não inovam, mantendo a sonoridade que os caracteriza e abordando questões já sobre-exploradas nos quatro álbuns anteriores – maioritariamente ligadas às drogas, solidão, sexo e desilusões amorosas –, mas tal não impede que as canções não sejam sólidas e convincentes.
O mesmo já não se pode dizer de passos em falso como “Follow the Cops Back Home” e “Pierrot the Clown”, baladas indistintas e preguiçosas; “Broken Promise”, desapontante colaboração com Michael Stipe, dos R.E.M.; ou “Space Monkey” e “Infra Red”, que não destoariam num disco dos one-hit wonders Babylon Zoo (o que não é propriamente auspicioso).

Dadas as aventuras paralelas de Brian Molko com projectos como os Alpinestars, Timo Maas ou Trash Palace (cujo mentor, Dimitri Tikovoi, colabora aqui com o trio como produtor), esperar-se-ia que pelo menos as texturas electrónicas proporcionassem algum valor acrescentado ao álbum, mas tal só ocorre pontualmente.

Mais acessível, genérico e linear do que os seus antecessores, “Meds” ainda consegue impor-se como um registo interessante, pois os momentos banais não chegam a superar os recomendáveis, mas é o menos coeso e desafiante da discografia da banda. Espera-se que os Placebo não venham a tornar-se tão inócuos como o fármaco ao qual adoptaram o nome, mas com discos hesitantes como este é difícil afastar essa suspeita.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM




Placebo - "Song to Say Goodbye"

segunda-feira, junho 12, 2006

FECHO DE EDIÇÃO

A Feira do Livro de Lisboa acaba já amanhã. É feriado na capital, por isso pelo menos os lisboetas não têm desculpa para não passar por lá, caso ainda não o tenham feito, sobretudo quando há livros tão baratos (desde 2 Euros, ou mesmo menos). Só consegui ir lá hoje e apostei nos quatro acima. Pena constatar que o evento já não cativa multidões :(

domingo, junho 11, 2006

JOGO DE LÁGRIMAS (E DE RISOS)

Com uma obra tão diversificada quanto desequilibrada, Neil Jordan apresenta em “Breakfast on Pluto” mais um título a acrescentar ao grupo dos seus filmes recomendáveis.
Crónica do percurso errático de Patrick Braden, um jovem que desde cedo sentiu predilecção por roupas femininas e que acaba por adoptar o nome “Kitten”, a película segue a viagem física e emocional do seu protagonista e a forma como este e os outros reagem à descoberta da sua identidade.

Kitten está determinada a encontrar a sua mãe, que a abandonou quando era ainda uma recém-nascida, e esta busca influencia todo o seu crescimento, tornando-se com o passar dos anos num sonho de difícil concretização mas que nunca deixa de ser perseguido obstinadamente.

Se a abordagem da transexualidade tem inspirado alguns filmes de esferas independentes – sendo dois dos mais recentes “Transamerica” ou “20 Centímetros” -, Neil Jordan prova aqui que o tema está longe de se esgotar e oferece uma perspectiva própria, unindo traços do realismo britânico com um formato que se aproxima de um conto de fadas on acid.

Decorrendo maioritariamente na Londres da década de 70, “Breakfast on Pluto” é um excêntrico melting pot, já que Kitten envolve-se com a prostituição, terrorismo, bandas rock e espectáculos de ilusionismo, vivendo experiências vincadas pela imprevisibilidade (e alguma implausibilidade).

Inventivo, mas também irregular, o filme assenta numa narrativa episódica, de atmosferas díspares (mas frequentemente kistch), que nem sempre é capaz de equilibrar as constantes oscilações entre o drama e o humor.
Ainda assim, Jordan nunca deixa de ser eficaz e faz com que as mais de duas horas de duração da película não se tornem cansativas, proporcionando uma realização engenhosa, uma banda-sonora tão colorida como a fotografia e aproveitando a solidez do elenco.

Cillian Murphy, no papel de protagonista, defende a personagem mais interessante com o desempenho mais forte, compondo uma Kitten que se entrega sempre ao idealismo independentemente do caos que a rodeia. O actor comprova aqui novamente a sua versatilidade, depois de já ter encarnado personagens tão diferentes em títulos como “Intervalo”, “Batman – O Início” ou “Red Eye”.

Muitas vezes aliciante, “Breakfast on Pluto” não chega contudo a entrar na lista de obras superiores, uma vez que o argumento demasiado disperso, alguma irreverência gratuita e o papel quase decorativo da maioria das personagens secundárias o impedem de ir mais longe.
O filme peca também por, à semelhança do seu protagonista, não se levar muito a sério, o que se por um lado ajuda a consolidar a sua vertente escapista dificulta uma abordagem consistente das temáticas complexas em que incide.
Estas debilidades são compensadas, no entanto, pelo brilhantismo que se regista a espaços, e que faz com que “Breakfast on Pluto”, apesar de apostar mais na forma do que no conteúdo, ainda conste nas boas experiências cinematográficas de 2006.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

quinta-feira, junho 08, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "HARD CANDY"

Primeira obra de David Slade, mais um realizador que se aventura no cinema depois de apostar nos videoclips, "Hard Candy" é um dos filmes independentes mais elogiados do ano, tendo sido um dos mais aclamados do último festival de Sundance.
A acção segue o encontro de uma adolescente com um homem mais velho, um fotógrafo que conheceu através de um chat na Internet, sendo convencida a ir depois para o apartamento deste. Contudo, segundo o que se diz, nem tudo é o que parece nesta película, por isso espera-se algo desafiante e imprevisível, características presentes nos melhores filmes indie.

Outras estreias:

"Astérix e os Vikings", de Stefan Fjeldmark e Jesper Møller
"Inconscientes", de Joaquín Oristrell
"Loucuras de Um Génio", de Jeff Feuerzeig
"Murderball - Espírito de Combate", de Dana Adam Shapiro
"Os Amigos de Dean", de Arie Posin

quarta-feira, junho 07, 2006

O FILHO

Depois de "A Promessa", "Rosetta" e "O Filho", Luc e Jean-Pierre Dardenne regressam com "A Criança" (L'Enfant), mais um drama urbano de recorte realista sobre personagens marginais à deriva.

Neste caso, os irmãos belgas centram-se no quotidiano de um jovem casal, particularmente no de Bruno, um pequeno delinquente que sobrevive à custa de roubos e engodos.

Embora o dia-a-dia do casal seja problemático, atravessado por dificuldades financeiras e falta de objectivos, a afinidade que o une parece ser suficiente para superar essas limitações.

Contudo, a relação é colocada em causa quando Bruno vende o seu filho, um recém-nascido, facto que deixa a sua companheira em estado de choque e o obriga a tentar reparar a situação.

Seco e duro, como já é habitual na obra dos Dardenne, "A Criança" propõe um olhar sobre o crescimento, a imaturidade e a paternidade, através de uma personagem para quem a moral está, pelo menos no início do filme, longe de ser uma preocupação.

Se é verdade que os realizadores são exímios na criação de uma atmosfera crua e verosímil, com a câmara colada aos actores e brilhantes interpretações por parte da dupla protagonista, falham ao apostar num argumento demasiado frio e de escassas surpresas, que vai deixando o espectador distante e indiferente.

Há algumas boas cenas, como aquelas em que o casal brinca de forma inocente, no início, ou as das peripécias de Bruno e do seu pequeno colega na moto já na recta final, porém durante grande parte da sua duração "A Criança" não oferece mais do que sequências competentes mas de reduzido impacto emocional.

Os desempenhos espontâneos e expressivos de Jérémie Renier e Déborah François mereciam uma narrativa menos insípida e monótona, mas pelo menos fazem com que o projecto, embora não aproveite as possibilidades das temáticas que foca, ainda seja um filme que se segue com algum interesse.
E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

terça-feira, junho 06, 2006

EU FUI... OUTRA VEZ

O segundo fim-de-semana de Rock in Rio era o que incluía o dia mais aguardado por estes lados, o de sábado. Os Da Weasel não consegui ver, dos Kasabian gostei do pouco que vi e os Red Hot Chili Peppers não desiludiram, proporcionando uma das melhores actuações do festival. Pena que tenha saído a meio do concerto dos californianos porque entretanto começou o dos Soulwax, que apesar da curta duração (uma hora) provou que o formato nite versions resulta muito bem ao vivo, com um irresistível apelo dançável.

Foi também, de longe, a melhor noite na Tenda Electrónica, com o electrorock dos Zig Zag Warriors e DJ Kitten a anteceder o set mais esperado, o dos 2 Many DJs, a confirmar as melhores expectativas e com o alinhamento mais diversificado.
Menos estimulantes foram os Starsailor no Hot Stage, que apesar de competentes não têm muitas canções dignas de nota, e os Body & Soul NYC, com uma mistura de house e soul algo estafada, ambos na sexta.
DJ Behrouz e Tó Ricciardi foram dois dos nomes que animaram a comunidade de dança no domingo, em duas sessões muito concorridas mas sem o eclectismo dos DJs da véspera. Entretanto em 2008 há mais, será que alguém ainda se lembrará dos D'ZRT nessa altura?

segunda-feira, junho 05, 2006

O MASSACRE DOS MUTANTES

Os remakes estão na ordem do dia para parte significativa do cinema de terror norte-americano dos últimos tempos, e "Terror nas Montanhas" (The Hills Have Eyes) é mais um exemplo dessa tendência, propondo uma nova versão da obra de estreia de Wes Craven, "Os Olhos da Montanha", de 1997.

Felizmente, o filme não se limita a ser mais um objecto indistinto entre tantos outros, uma vez que emana uma intensidade e energia acima da média, fruto da realização inventiva de Alexandre Aja, que apresenta aqui a sua terceira longa-metragem.

Percebe-se porque é que o próprio Craven (que colabora no projecto como produtor) recomendou Aja para ficar a cargo deste remake, pois o jovem realizador francês imprime à película uma aura peculiar e arrepiante, trabalhando com solidez as constantes sequências de suspense atravessadas por generosas doses de gore.

Introduzindo a sua premissa e personagens com eficácia - uma família norte-americana que se perde no deserto e aos poucos descobre que tem como companhia mutantes vítimas de experiências radioactivas -, "Terror nas Montanhas" é uma experiência brutal e insana, que após a relativamente serena primeira meia hora investe numa espiral que não dá descanso aos nervos do espectador.

Aja explora com imaginação as possibilidades proporcionadas pelo espaço onde decorre a acção, gerando uma atmosfera arrepiante a partir da imensidão do deserto, deixando as personagens especialmente vulneráveis e entregues a si próprias, o oposto do que Neil Marshall fez no igualmente seguro "A Descida", onde era focada a tensão surgida a partir de um espaço fechado e claustrofóbico, mas com a mesma sensação de clausura.

"Terror nas Montanhas" não revoluciona o cinema de terror, longe disso, mas é uma forte injecção de vitalidade ao género, sobrepondo-se às fitas chapa-cinco, com sustos pasteurizados para o gosto adolescente, que chegam às salas frequentemente (há excepções, claro, como "Wolf Creek", auspiciosa estreia de Greg McLean).

A fluidez da realização, a sugestiva fotografia e o elenco que, apesar de consistir em nomes pouco mediáticos, não deixa de ser equilibrado, convivem com um argumento escorreito (com direito a metáfora social nas entrelinhas) onde a adrenalina e o medo se interligam e levam a resultados aprazíveis, ainda que inquietantes, o que é mais do que suficiente para que "Terror nas Montanhas" seja um título digno de nota.

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

sexta-feira, junho 02, 2006

EUCARISTIA CINEMATOGRÁFICA

Conhecido sobretudo por obras cruas e ásperas como "Polícia sem Lei" ou "O Funeral", o norte-americano Abel Ferrara exibe em "Maria Madalena" (Mary) uma vertente mais polida, debruçando-se sobre a religião e a fé.

Partindo de uma actriz que, ao interpretar o papel de Maria Madalena, se sente inspirada por esta e descobre a sua espiritualidade, mudando radicalmente de vida (Juliette Binoche), a acção segue ainda o percurso do realizador desse filme (Matthew Modine), assim como o do apresentador de um talk-show dedicado à temática religiosa cuja esposa está grávida (Forest Whitaker).

Ferrara apresenta aqui uma obra formalmente incomum, dado que tanto se aproxima de tons documentais (Jean-Yves Lelous, Amos Luzzatto e Elaine Pagels, estudiosos no Evangelho de Maria Madalena, debatem as ideias e pertinência deste no programa televisivo) como aposta no modelo de filme-dentro-do-filme, pois contém cenas da película em que duas das personagens centrais de "Maria Madalena" participaram.

No entanto, se esta curiosa combinação de registos poderia enriquecer o projecto, tal acaba por ser subaproveitado, uma vez que o filme raramente contém sequências caracterizadas pela subtileza e não poupa o espectador a uma perspectiva claramente tendenciosa e fácil, apontando uma via de sentido único em vez de potenciar a reflexão.

Embora o nome do realizador fizesse esperar algo mais, "Maria Madalena" é um mero panfleto espiritual que se torna cada vez mais óbvio à medida que se aproxima do desenlace.
As cenas do debate entre o jornalista e o realizador chegam a ser penosas de tão maniqueístas, e a melodramática (tearjerker, quase) sequência da personagem de Whitaker na Igreja é ainda mais gritante.

De resto, o filme falha logo nas personagens, figuras estereotipadas que Ferrara trata como marionetas. A de Juliette Binoche é especialmente desinteressante, pois a actriz recém-convertida, de look inexpressivo, anémico e new age, dificilmente convence ou desperta entusiasmo.
O realizador composto por Matthew Modine é igualmente unidimensional, já que Ferrara o caracteriza como um céptico ridículo e megalómano, pouco mais do que um saco de pancada por representar o oposto da perspectiva que "Maria Madalena" pretende veicular.
Forest Whitaker fica com o melhor desempenho e com a personagem mais complexa, sendo um dos poucos trunfos do filme, mas mesmo assim o seu papel acaba por funcionar como mais um utensílio da lógica moralista da película.

Para além da escassa substância, "Maria Madalena" é ainda prejudicado por um ritmo que faz com que o filme pareça ter o dobro da duração, onde poucos são os momentos que fogem à monotonia. Há fugazes cenas onde Ferrara capta com intensidade as intrigantes ambiências nocturnas, mas essa energia visual está ausente em grande parte do filme, no geral um amontoado de sequências amorfas e bafientas.
É este objecto inconsequente um filme do mesmo autor do soberbo "O Funeral"?? Heresia!
E O VEREDICTO É: 1,5/5 - DISPENSÁVEL

quinta-feira, junho 01, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "ESCOLHA MORTAL"

Com argumento e banda-sonora da autoria de Nick Cave e realização de John Hillcoat, "Escolha Mortal" (The Proposition) é um western ambientado na Austrália do século XIX e segue o percurso de dois criminosos que, após terem sido capturados, são forçados a tomar decisões que comprometem não só a sua situação mas também a dos seus colegas.
Diz quem viu que este foi um dos melhores filmes que passou na mais recente edição do IndieLisboa. Eu não vi, mas é só uma questão de tempo.

Outras estreias:

"Crianças Invisíveis", de Mehdi Charef, Emir Kusturica, Spike Lee, Kátia Lund, Ridley Scott, Jordan Scott, John Woo e Stefano Veneruso
"EURO 2004 - Amor e Futebol", de Marlowe Fawcett e Richard Nockles
"Stoned, Anos Loucos", de Stephen Woolley
E também, caso alguém se atreva a arriscar, as comédias (num sentido muito lato, supõe-se) "Ela é... Ele", "Falhados... Por Um Fio" e "O Rafeiro"