quinta-feira, agosto 31, 2006

CORAGEM DEBAIXO DE FOGO

Num período em que o conflito entre Israel e a Palestina gera notícias constantes em grande parte dos telejornais, devido aos cenários de tensão quase diária, as abordagens cinematográficas centradas nesta temática começam também a evidenciar-se.
Foi o caso do interessante "Syriana", de Stephen Gaghan, ou do soberbo "Munique", de Steven Spielberg, e é também o de "O Paraíso, Agora!" (Paradise Now), que ao contrário dos anteriores não nasce em Hollywood mas da iniciativa do palestiniano Hany Abu-Assad.

Alvo de consideráveis distinções a nível internacional - Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, nomeado para os Óscares na mesma categoria e premiado no Festival de Berlim, entre outros -, o filme poderia ser um dos que se torna foco de atenção mais pela relevância da temática e boas intenções da sua "mensagem" do que pela abordagem que propõe e méritos cinematográficos, mas felizmente Abu-Assad oferece aqui uma prova de sensibilidade e inteligência, suscitando a reflexão sem se tornar estridente, maniqueísta ou oportunista.

Alicerçado na recruta de dois jovens amigos palestinianos para a realização de um atentado suicida em Telavive, "O Paraíso, Agora!" mergulha nas inquietações que levam a que cidadãos comuns se transformem em terroristas, evitando o sensacionalismo de algum jornalismo e surpreendendo pela contenção com que trabalha questões tão controversas.

Aqui as personagens não são meros instrumentos que se limitam a debitar posicionamentos políticos e morais (embora estes sejam discutidos), antes figuras complexas e credíveis que o filme explora com genuína densidade emocional, nunca abdicando da dimensão humana.
A direcção de actores é, por isso, decisiva, e se todos são verosímeis é obrigatório destacar Kais Nashef, brilhante na pele de Saïd, o denso e circunspecto protagonista, muito longe dos lugares-comuns a que são associados muitas vezes os agentes suicidas. Notabilizando-se com uma das mais subtis interpretações do ano, Nashef cativa pelo seguro underacting, cujo olhar desencantado traduz todas as contrariedades de um quotidiano pouco esperançoso.

Os perigos do dia-a-dia dos palestinianos foram, de resto, testemunhados pela própria equipa do filme, que durante a rodagem em Nablus lidou com alguma desconfiança de parte da população local e reflexos dos ataques dos mísseis israelitas, o que levou a que elementos da equipa alemã desistissem ao fim de poucos dias.

Pertinente e corajosa, "O Paraíso, Agora!" é uma das melhores obras a estrear em salas nacionais nos últimos meses, despertando o espectador sem cair no pretensiosismo de um filme de tese nem apostando em rodrigunhos fáceis e moralistas.
Uma das boas propostas cinematográficas a descobrir a partir desta semana, com um olhar diferente sobre um contexto com tanto de conturbado como de actual.

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

ESTREIA DA SEMANA: "O PARAÍSO, AGORA!"

Vencedor do Globo de Ouro para Melhor Filme Estrangeiro, nomeado para os Óscares na mesma categoria e premiado no Festival de Berlim, "O Paraíso, Agora!" (Paradise Now) segue as últimas 24 horas de dois jovens palestianos incumbidos de realizar um atentado suicida em Israel.
Misturando suspense com uma intensa carga dramática, esta obra de Hany Abu-Assad apresenta um envolvente olhar sobre os bastidores do terrorismo, destacando-se pelo sólido argumento e pelas não menos seguras interpretações.
Um dos filmes mais recomendáveis em cartaz, crítica aqui (muito) em breve.

Outras estreias:

"A Caminho de Guantánamo", de Michael Winterbottom
"A Casa Fantasma", de Gil Kenan
"Eu, Tu e o Emplastro", de Anthony Russo e Joe Russo
"O Sentinela", de Clark Johnson
"Terkel em Sarilhos", de Kresten Vestbjerg Andersen, Thorbjørn Christoffersen e Stefan Fjeldmark

quarta-feira, agosto 30, 2006

AMORES DE VERÃO (10): THE THRILLS

Não têm o Brian Wilson, mas não deixam de ser beach boys... a conferir no vídeo abaixo.

The Thrills - "Big Sur"

terça-feira, agosto 29, 2006

REBELDES SEM CAUSA

Cineasta veterano e nem sempre consensual, Philippe Garrel regressa em 2006 com um filme que se arrisca, tanto pela temática como pela abordagem, a situá-lo num espaço tão pessoal quanto hermético.
Crónica do quotidiano de um grupo de jovens durante e após o Maio de 68, “Os Amantes Regulares” (Les Amants Réguliers) apresenta uma visão pessoal, com traços autobiográficos, de um período controverso da história francesa recente, mas se a película parte de um tema com potencial os resultados são no mínimo desequilibrados e ficam aquém das expectativas.

Desnecessariamente longo e repetitivo, arrastando-se por cansativas três horas pontuadas por várias cenas de relevância discutível, o filme evidencia a espaços que Garrel tem boas ideias mas a estruturação destas corre o risco de desinteressar até o espectador mais paciente.

O tom quase documental com que são focados os actos de revolta dos estudantes nas ruas começa por ser intrigante, propondo um realismo cru e palpável, sugerindo tensão e sentido de urgência. Contudo, estes primeiros momentos do filme tornam-se incipientes quando prolongados até à exaustão, impossibilitando qualquer carga dramática devido a uma monótona e aleatória sucessão de atritos e perseguições.

Já na ressaca dos conflitos do Maio de 68, a segunda parte de “Os Amantes Regulares” segue a convivência de parte dos jovens revolucionários na mansão de um deles, dando particular ênfase à relação que nasce entre um poeta, François, e uma escultora, Lilie. Oscilando entre a utopia e o cepticismo, o relacionamento do jovem casal espelha o clima de ambivalência e hesitação que se disseminou após uma revolta que descoordenou ideais e motivações.
Nas cenas entre os dois amantes, Garrel consegue implementar pontuais momentos de intimismo e densidade emocional, ausentes no filme até então, mas ainda assim os protagonistas surgem quase sempre como figuras distantes e demasiado indecifráveis, e em última instância pouco envolventes.

Relato de um panorama onde o activismo é mais demonstrado do que sentido, “Os Amantes Regulares” acaba por fornecer uma perspectiva dos jovens rebeldes não muito diferente da de “Os Sonhadores”, mas onde o filme de Bertolucci oferecia uma vibrante e sedutora experiência cinematográfica, o de Garrel raramente vai além de uma pouco absorvente mediania.

A película tem os seus méritos, já que Louis Garrel, filho do realizador e, curiosamente, um dos protagonistas de “Os Sonhadores”, obtém aqui uma interpretação correcta na pele de François, assim como Clotilde Hesme como Lilie. A belíssima e intensa fotografia a preto-e-branco de William Lubtchanski concede às imagens uma singular energia, e alguns diálogos são inspirados e oportunos, mas mesmo estes elementos convincentes não compensam o ritmo letárgico nem a palha narrativa que “Os Amantes Regulares” vai acumulando, deixando-o como um rascunho do que poderia ter sido.
E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

sexta-feira, agosto 25, 2006

AMORES DE VERÃO (9): GARBAGE

Como o Challenger grows up mais um ano hoje, dedico-lhe "When I Grow Up", um dos singles dos Garbage do excelente "Version 2.0." (bons tempos, bons tempos...). Enjoy ;)

A CIDADE DO PECADO

Um dos mais idiossincráticos e controversos escritores latinos dos últimos anos, o cubano Pedro Juán Gutiérrez apresenta em "A Trilogia Suja de Havana", editado em 1998, a sua primeira obra em prosa, iniciando uma série de títulos dedicados a um olhar cortante e verista sobre os meandros da capital de Cuba.

Concentrando vários pequenos contos que têm em comum o facto de serem todos narrados (e, a maioria) protagonizados pelo próprio escritor (ou um por alter-ego), o livro proporciona uma série de episódios assentes em vivências do quotidiano urbano, vincados por uma visão demolidora, crua e cáustica.

Gutiérrez aposta numa escrita simples e directa, um estilo que reflecte a sua experiência como jornalista, uma das muitas profissões que adoptou ao longo do seu percurso errático em Havana (e que, de resto, o livro documenta).
O facto desta ser uma leitura acessível, à base de uma linguagem prosaica e seca, não implica contudo que não se cultive aqui um singular gosto pelo detalhe, já que o autor retrata com plausibilidade e eficácia assinaláveis os traços da gente, locais e ambientes que o rodeiam.

A interligação de um realismo sujo com um violento mas irresistível humor negro gera crónicas simultaneamente amarguradas e espirituosas, à semelhança do ritmo imprevisível da vida do escritor e das daqueles que se encontram nos seus relatos.
Com um dia-a-dia pouco auspicioso, onde as condições de vida se tornam cada vez mais precárias, o sexo, o álcool (em particular o rum, a bebida mais barata, com o qual o escritor se embriagou antes de escrever alguns contos do livro) e por vezes as drogas destacam-se como os únicos portos de abrigo capazes de ajudar à sobrevivência.
Gutiérrez é exímio na tradução destas atmosferas, descrevendo os sabores, sons e odores de uma cidade onde a luxúria, a pobreza, o calor, a insegurança e tons féericos se entrecruzam naturalmente.

No entanto, apesar da presença recorrente do turismo sexual, de negócios no mercado negro, do individualismo e de crimes de faca e alguidar, "A Trilogia Suja de Havana" está longe de ser um panfleto contra a capital cubana, uma vez que o próprio autor revela várias vezes que não conseguiria enquadrar-se em nenhum outro local (apesar das oportunidades que teve para o fazer), pelo que o livro funciona enquanto uma ambivalente ode à cidade que o acolhe. A sua descoberta recomenda-se e corre o risco de ser tão inquietante como viciante.
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

quinta-feira, agosto 24, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "VOO 93"

Esta semana chega às salas o primeiro filme centrado na tragédia do 11 de Setembro, uma perspectiva sobre os eventuais acontecimentos que levaram a que o voo 93 da United Airlines se despenhasse na Pensilvânia após quatro terroristas terem tentado desviá-lo do seu destino.
Este foi o único dos quatro aviões desviados que não chegou a atingir o alvo, e é nele que o britânico Paul Greengrass para a realização de "Voo 93" (United 93).
Outras estreias:

"Garfield 2", de Tim Hill
"Loucos e Apaixonados", de Petter Næss
"O Mito", de Stanley Tong
"Um Homem na Cidade", de Mike Binder

CIDADE SOBRE PRESSÃO

Para além dos filmes de super-heróis ou das versões de filmes (maioritariamente de terror) orientais, uma das tendências recentes no cinema americano de perfil mainstream tem sido a adaptação de séries televisivas.
Depois de películas como "Os Anjos de Charlie" ou "Starsky & Hutch", chega a vez de "Miami Vice", a popular série dos anos 80 que marcou uma geração pelo concentrado de acção desbragada, romances sucessivos, cenários ofuscantes e um guarda-roupa não menos expressivo, não esquecendo os inevitáveis e recorrentes flamingos.
Catapultando Don Johnson e Phillip Michael Thomas para ícones dos anos 80, a série tornou-se num peculiar e pouco consensual ponto de confluência entre o kitsh e o cool, sendo agora recuperada duas décadas depois.

Contudo, visto o filme, percebe-se que de "Miami Vice" este pouco mais tem do que o título, a cidade onde a acção se desenrola e os nomes das duas personagens principais, os detectives Sonny Crockett e Ricardo Tubbs. De resto, o que transparece é a personalidade de Michael Mann, o cineasta por detrás do projecto, que oferece aqui mais um retrato das tensões urbanas contemporâneas, com deambulações pelas habituais paisagens nocturnas que marcam (quase) toda a sua obra.

Se no argumento "Miami Vice" não anda muito longe de qualquer outro filme de acção, uma vez que esta história de combate ao narcotráfico vincada por reviravoltas e traições já está vista e revista, torna-se numa recomendável experiência cinematográfica pela forma como Mann trabalha as atmosferas, que à semelhança do que já ocorria em "Colateral" ameaçam transformar-se numa personagem.

Tal como no seu filme anterior, a opção pelas câmaras digitais revela-se uma escolha apropriada, já que o realizador as usa de forma igualmente criativa e desafiante, fazendo deste um incomum blockbuster que parte de uma premissa banal mas resulta num trabalho experimental.
A minúcia e perfeccionismo na captação dos ambientes nocturnos concede ao filme uma vibração atípica, condensando um estilo visual apurado, de contornos negros e sombrios, em tudo antagónicos aos tons reluzentes e garridos da série televisiva.

A envolvência das imagens encontra contraponto na adequada banda-sonora, que mesmo de gosto duvidoso (Mogwai, Moby ou Goldfrapp são boas surpresas, algumas canções nu-metal e latinas nem por isso) faz sentido tendo em conta os ambientes em que "Miami Vice" decorre.
Esta interligação de imagem e som é determinante para a tensão dramática do filme, coadunando-se com a ténue variação emocional das personagens, figuras essencialmente caracterizadas pela solidão e desencanto existencial.

Destas, apenas o par composto por Colin Farrell e Gong Li é explorado com alguma densidade, pois as restantes não são mais do que elementos cuja finalidade é fazer o argumento avançar. Se a relação ambígua e conturbada do casal que opera em facções opostas é suficientemente interessante para conceder peso dramático à película, não deixa de ser evidente a falta de espessura (e de relevância) da personagem de Jamie Foxx, que apesar de co-protagonista não regista nenhum impacto digno de nota.

Esta diluição das personagens nas atmosferas do filme não chega a ser uma falha, dado que Mann volta a provar ser um esteta de excepção, mas no desenlace o destino do detective interpretado por Foxx e da sua companheira arrisca-se a ser mais ou menos indiferente para o espectador, a quem não foram apresentados grandes motivos para se preocupar com o duo.

Para além desta limitação, "Miami Vice" sofre ainda de alguns problemas de ritmo, oferecendo mais de duas horas de interesse desigual, com sequências por vezes demasiado longas ou arbitrárias. Apesar disse desequilíbrio, impõe-se um thriller com uma elegância, sofisticação e inteligência acima da média, confirmando Mann como um cineasta inventivo e tornando-se mesmo num dos seus filmes mais conseguidos. Cinema comercial de recorte superior, a ver (e apreciar) sem preconceitos.

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

BLINKS & LINKS

Obrigado aos responsáveis pelos blogs Futuro Desconhecido, Multiply Addictions (side project do Spaceboy) e Toca a Arquivar por me blinkarem ;)

quarta-feira, agosto 23, 2006

AMORES DE VERÃO (8): SUGABABES

Este single já tem uns anitos, mas continua fresco. Elas também...

Sugababes - "Hole in the Head"

terça-feira, agosto 22, 2006

(MAIS UMA) VIAGEM AO MUNDO DA DROGA

Do cinema australiano não há grande tradição de estreias em salas portuguesas, mas ocasionalmente vão chegando alguns exemplos dessas paragens. É o caso de "Candy", de Neil Armfield, drama que segue o percurso autodestrutivo de um jovem casal toxicodependente, testemunhando a passagem de uma fase de experimentação e hedonismo para uma dolorosa situação de fragilidade física e emocional.

História de amor atormentada pelas consequências do vício, o filme evita, felizmente, um posicionamento moralista, que poderia delimitar um argumento centrado na dependência das drogas, mas tal não invalida que não seja prejudicado por outros elementos.

Embora não julgue as suas personagens nem apresente respostas fáceis ou tendenciosas aos seus dilemas, "Candy" perde o rumo ao assentar num argumento pouco ambicioso, sem surpresas, que apenas revisita territórios já muitas vezes percorridos noutras películas sobre o mesmo tema.
O ritmo, não raras vezes arrastado, também faz com que estas duas horas ofereçam níveis de entusiasmo irregulares, assim como algumas sequências vincadas por um dispensável histerismo, com uma gestão dramática de gosto duvidoso (nomeadamente em certas cenas com a família da co-protagonista).

Contudo, "Candy" não deixa de ser uma experiência possuidora de alguns méritos, com destaque para a direcção de actores, onde constam Heath Ledger (competente, a seguir as boas pistas deixadas em "O Segredo de Brokeback Mountain") e Abbie Cornish (a actriz do belíssimo e também australiano "Salto Mortal", mais uma vez espontânea e luminosa), que compõem o par principal, ou Geoffrey Rush, num pequeno mas relevante papel.

A realização de Neil Armfield revela-se inspirada a espaços, como na sequência inicial, no parque de diversões, ou nos momentos mais agonizantes vividos pelo casal, e a união entre a imagem e a música (a cargo de nomes como Tim Buckley, Amon Tobin ou Soul Coughing) proporciona episódios com atmosferas envolventes e palpáveis, num intrigante misto de realismo e onirismo (por vezes próximas das de "Salto Mortal", ainda que não tão conseguidas).

Dificilmente acrescentando algo a uma temática já sobre-explorada, tanto no cinema ou noutros domínios, "Candy" não arrebata mas é uma proposta aceitável, que vale sobretudo pela descoberta de um realizador que poderá fazer melhor no futuro e pelo acompanhamento de dois jovens actores em ascensão. Não é muito, mas também não desmerece alguma atenção.

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

LOVE IS ALL

De uma forma ou de outra, miss Love arranja sempre motivo para dar que falar. Este é o mais recente, espero que seja mais auspicioso do que o seu álbum a solo.

segunda-feira, agosto 21, 2006

HEROÍSMO CLÁSSICO

Projecto desde há muito adiado, e tendo já envolvido nomes como Tim Burton ou Nicolas Cage entre eventuais colaboradores, a nova adaptação das aventuras de Super-Homem para o grande ecrã acabou por ser desenvolvida por Bryan Singer, cujos créditos na abordagem dos super-heróis incluíam já os dois primeiros filmes da saga dos X-Men.

Devido à interessante visão do realizador acerca da equipa de mutantes da Marvel, esperava-se que Singer fosse uma escolha acertada para "Super-Homem: O Regresso" (Superman Returns), e se é verdade que a sua entrega e respeito pela personagem transparecem ao longo da película, quando esta termina a sensação dominante é a de que os resultados poderiam ter ido mais longe.

"Super-Homem: O Regresso" não é um mau filme e até está acima da média quando comparado com as restantes adaptações cinematográficas de personagens dos comics, mas a perspectiva de Singer é demasiado reverencial para com os dois primeiros filmes da saga (de Richard Donner e Richard Lester, respectivamente).
A homenagem é simpática e revela humildade, mas limita um pouco o filme e retira-lhe as doses de risco e personalidade que o realizador conseguiu injectar nos seus X-Men.

Embora pouco ousado, "Super-Homem: O Regresso" convence pois demonstra que Singer conseguiu captar a essência do carismático super-herói, destacando o seu carácter icónico e mítico e apostando num estilo retro larger than life, com um registo mais clássico (mas desencantado) do que, por exemplo, aquele que Chris Nolan adoptou no recente "Batman: O Início".

A escolha do elenco, à partida algo arriscada, revelou-se profícua, já que o quase desconhecido (até agora) Brandon Routh tem a imagem e atitude perfeitos para encarnar tanto Clark Kent como o seu alter-ego, oferecendo uma interpretação sóbria mas expressiva; Kate Bosworth mostra uma inesperada garra, determinação e coragem como Lois Lane e Kevin Spacey exibe a classe habitual no papel de Lex Luthor, compondo com eficácia um vilão que só não é mais entusiasmante porque o argumento não deixa. Também por lá andam uns competentes James Marsden e Parker Posey, esta última numa personagem irritante e dispensável.

A intriga que orienta o argumento é pouco mais do que banal, com uma sequência de acontecimentos bastante previsível, e a narrativa torna-se enfadonha no último terço, com cenas demasiado longas e redundantes, mas felizmente a película contém ainda tensão dramática suficiente de forma a que essas fragilidades não a atirem para a mediocridade, ainda que o balanço acabe por não ir além da mediania.

Um desequilibrado, mas interessante filme de aventuras, "Super-Homem: O Regresso" é um blockbuster com mais alma do que o habitual, emanando uma genuinidade atípica neste tipo de projectos, com acção bem filmada e algumas sequências de uma cativante densidade emocional.
Não chega a ser um filme marcante dentro do género, mas pelo menos, ao contrário de algumas adaptações recentes, também não envergonha a memória das personagens que recupera.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

WHAT IF THE SILENCE LET YOU DREAM?

Não é um disco de Verão, longe disso, mas para ouvir numa noite de insónias quando se fica ligeiramente deprimido por ter de acordar na madrugada do dia a seguir, é o ideal. Refiro-me a este álbum, quanto a mim a obra-prima dos Smashing Pumpkins (opinião pouco consensual, eu sei), que voltei a redescobrir ontem e confirmou-se novamente como um dos discos da minha vida.
Será que Billy e restante banda ainda são capazes de nos dar canções do nível de "Appels + Oranges", "Blank Page", "Crestfallen", "Pug" ou "Daphne Descends" no seu novo álbum? Eu gostava de acreditar que sim...

The Smashing Pumpkins - "Daphne Descends"

sábado, agosto 19, 2006

BARBARIDADES

Também vejo a SIC Notícias todos os dias por dever profissional, por isso não poderia concordar mais com este desabafo.

sexta-feira, agosto 18, 2006

AMORES DE VERÃO (7): DANDY WARHOLS

Boys better?
Há noites mais dandy do que as de sexta?


The Dandy Warhols - "Boys Better"

quinta-feira, agosto 17, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "SONHAR COM XANGAI"

Depois do curioso "Bicicleta de Pequim", Wang Xiaoshuai, um dos novos realizadores chineses, está de volta com "Sonhar com Xangai" (Qing Hong/ Shanghai Dreams).
História de amor entre dois adolescentes de famílias bem diferentes durante a China de inícios dos anos 80, o filme foi o vencedor do Prémio do Júri no Festival de Cannes de 2005 e parece ser uma das poucas estreias da semana a merecer o benefício da dúvida. Uma proposta a considerar neste período estival.

Outras estreias:

"Angel-A", de Luc Besson
"Génesis", de Claude Nuridsany e Marie Pérennou
"Imagina Só", de Ol Parker
"Mafioso Quanto Baste...", de Sidney Lumet
"O Rapaz Formiga", de John A. H. Davis
"Revolta-te!", de Jessica Bendinger

quarta-feira, agosto 16, 2006

SE É INDIE, É BOM (?)

Outrora percursor de novas linguagens, formatos e experiências, o cinema independente norte-americano tem vindo, nos últimos anos, a cristalizar códigos que, apesar de muito próprios, já não possuem a capacidade de surpreender que distinguiu alguns dos exemplos desses domínios marginais.

Continuam a haver excepções, é certo, mas "Eu e Tu e Todos os Que Conhecemos" (Me and You and Everyone We Know), primeira longa-metragem de Miranda July, não é uma delas.
Enésimo exemplo de um olhar agridoce sobre o quotidiano dos subúrbios, dominado por personagens à deriva que se entrecruzam acidentalmente, o filme é uma obra curiosa, a espaços inspirada, contudo demasiado irregular, gerando simpatia mas ficando aquém do burburinho internacional que tem suscitado (Grande Prémio da Semana da Crítica, Câmara de Ouro, no Festival de Cannes, e Prémio Especial do Júri em Sundance, em 2005).

Se por um lado tem boas ideias, sobretudo na exploração das personagens mais jovens (o mais novo dos dois irmãos é um achado) e em algumas doses de equilibrada ousadia, "Eu e Tu e Todos os Que Conhecemos" falha quando tenta injectar doses de poesia urbana de cinco em cinco minutos, onde a boa vontade do espectador vai ficando saturada perante certas sequências forçadas ou mesmo constrangedoras (casos da cena "queridinha" do peixinho dourado, da dos sapatos com legendas ou da do beijo no jardim).

O par amoroso que interliga as restantes personagens, e a quem July dedica boa parte do tempo de antena, também não ajuda, já que nem a artista restraída estereotipada (interpretada pela realizadora) nem o vendedor de sapatos em crise existencial são especialmente intrigantes, e muitos dos seus diálogos convidam ao bocejo.

Um mau filme? Não, apenas desequilibrado por tentar parecer ser mais do que aquilo que é, mas que ainda assim vai seduzindo pelo elenco consistente e por algumas cenas menos arty e óbvias, confirmando que July é uma realizadora com potencial.
No entanto, dentro da mesma linhagem indie, os também recentes "Finais Felizes" ou "Os Amigos de Dean" salientam-se como propostas mais prioritárias e conseguidas, assim como mais recomendáveis tanto a idealistas como a cépticos.

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

terça-feira, agosto 15, 2006

AMORES DE VERÃO (6): CAT POWER

Porque boa música de praia existe, fica aqui "He War" de Chan Marshall (AKA Cat Power). Até pode ser dedicada a alguém que gosta da Chan, de cats mas não de praia...

BLINKS & LINKS

Obrigado aos responsáveis pelos blogs Hello Rufus, Lid, Private Delusions e Spicka por me blinkarem ;)