quinta-feira, abril 20, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "LISBOETAS"

Numa semana de estreias pouco ou nada promissoras, "Lisboetas" parece ser a única excepção. Documentário português realizado por Sérgio Trefaut, é um olhar sobre a Lisboa de hoje, percorrendo vários espaços da cidade e expondo a influência das diversas culturas que neles se relacionam, fruto da imigração que, nos últimos anos, trouxe mutações ao país e à capital. Vencedora do prémio de Melhor Filme Português no IndieLisboa de 2004 (e atenção, porque a edição de 2006 do festival começa hoje!), é uma obra a descobrir.

Outras estreias:

"Firewall", de Richard Loncraine
"Scary Movie 4 - Que Susto de Filme!", de David Zucker
"Uma Família dos Diabos", de Niall Johnson
"Vem Comigo", de Clément Virgo

quarta-feira, abril 19, 2006

O LIBERTINO

Depois de algumas obras de escasso interesse, como "Chocolate" ou "As Regras da Casa", Lasse Hallström proporcionou uma das boas - e inesperadas - surpresas cinematográficas do ano passado com "Uma Vida Inacabada", que infelizmente foi alvo de menor mediatismo do que os títulos antecessores, passando despercebida perante grande parte do público e da crítica.

Menos discreta, "Casanova" é a mais recente proposta do realizador sueco a estrear em salas nacionais (embora também seja de 2005), debruçando-se sobre parte da vida do emblemático conquistador de corações femininos.

Curiosamente, o filme não foca tanto as manobras de sedução de várias mulheres por parte do protagonista (embora esse aspecto não seja ignorado, sobretudo no início), preferindo antes desenvolver o seu contacto com a única mulher que amou, assim como os episódios que marcaram o atribulado início desse relacionamento.

Tentando ver correspondido o seu amor por Francesca Bruni, uma feminista de personalidade forte, Casanova tem de se debater também com a perseguição da Igreja, que condena as suas atitudes consideradas imorais e escandalosas, e fugir ao controlo da sua noiva, a insinuante e virginal Victoria, com quem aceitou casar a fim de limpar a sua imagem.

Comédia rocambolesca, baseada em jogos de enganos e falsas aparências, "Casanova" é uma película despretensiosa e leve, que não tenta ser um biopic historicamente correcto pois adopta um registo caricatural e de diminuto peso dramático.

Com um propósito essencialmente lúdico, o filme cumpre a sua função de gerar cerca de duas horas razoavelmente divertidas, e ainda que os gags nem sempre resultem o ritmo raramente deixa a acção cair na monotonia.

É uma obra esquemática que não acrescenta muito, mas não se pode dizer que Hallström não seja competente, uma vez que tanto o guarda-roupa como os cenários são bastante elaborados, e as paisagens de Veneza do século XVIII tornam-se ainda mais impressionantes devido ao soberbo trabalho de fotografia.

Como as personagens não passam de estereótipos, os actores também não podem oferecer grandes desempenhos, mas Heath Ledger sai-se bem no papel de conquistador nato e desenvolto, Sienna Miller cumpre como interesse romântico e Jeremy Irons encarna com eficácia um bispo sisudo e implacável.

Filme de entretenimento puro e simples, "Casanova" é um misto de comédia, aventura e romance que, apesar de efémero e longe de marcante, consegue ser satisfatório, convencendo sobretudo não por ser bom mas por não ser tão mau como poderia. Reconheça-se que, dentro dos filmes-pipoca que se disseminam pela maioria das salas, há alternativas bem menos entusiasmantes.
E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

segunda-feira, abril 17, 2006

IRMÃOS INSEPARÁVEIS

Doloroso e pungente olhar sobre a infância, a família, a solidão e o crescimento, "Ninguém Sabe" (Dare mo shiranai / Nobody Knows), do japonês Hirokazu Kore-eda, é um drama que segue o dia-a-dia de quatro pequenos irmãos abandonados pela mãe num apartamento de Tóquio.

Inspirado num caso verídico, ocorrido em 1988, é um filme simultaneamente duro e sensível, que recusa ceder às armadilhas do melodrama de puxar-a-lágrima mas que não deixa por isso de despoletar um forte impacto emocional, recorrendo a uma impressionante secura e contenção dramática.

Assentando num discreto trabalho de realização, com a câmara agarrada às quatro crianças, "Ninguém Sabe" gera uma atmosfera realista e contemplativa, vincada por silêncios capazes de emanar toda a melancolia que atravessa os muitos dias em que os protagonistas têm de sobreviver sozinhos.

Akira, o irmão mais velho, assume a responsabilidade de coordenar e gerir as tarefas da melhor forma que pode, algo que já fazia, de resto, mesmo quando a sua mãe estava presente, mas quando o dinheiro começa a escassear o apartamento torna-se num espaço cada vez mais inabitável.

Contudo, não obstante as crescentes dificuldades, o jovem quarteto mantém sempre uma surpreendente união, e a cumplicidade que liga as quatro personagens é determinante para que a angústia e o desencanto não se tornem ainda mais desesperantes.

Kore-eda capta este cenário de forma quase documental, com uma sobriedade que percorre todo o filme, mas o ritmo apaziguado da narrativa e certas sequências por vezes repetitivas fazem com que "Ninguém Sabe" nem sempre apresente a intensidade que se esperaria.

Há belíssimos momentos, como aquele em que as crianças saem de casa juntas pela primeira vez e exploram o bairro, evidenciando uma alegria e entusiasmo irresistíveis, contudo o filme é demasiado longo e disperso, com algumas cenas redundantes onde a inércia domina não só as personagens mas também o espectador.

A duração excessiva e algumas cenas cansativas não impedem, no entanto, que "Ninguém Sabe" seja uma recomendável experiência cinematográfica, abordando com seriedade uma situação difícil e apresentando quatro pequenos grandes actores que cativam pela espontaneidade e verosimilhança. Deixam, sim, a sensação de que o filme, sendo suficientemente memorável, poderia ter ido mais longe.
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

sábado, abril 15, 2006

FIONA IN THE NAVY

Infelizmente o mais recente álbum de Fiona Apple, "Extraordinary Machine", pouco tem de extraordinário, mas por vezes a cantora/compositora ainda consegue proporcionar momentos à altura do registo anterior, "When the Pawn (...)". É o caso de "O' Sailor", cujo vídeo está aí ao lado. Oh Fiona...

sexta-feira, abril 14, 2006

QUANDO ELA ERA ELE

Numa altura em que as questões ligadas à orientação sexual, cada vez mais discutidas pela opinião pública, se reflectem também no cinema - de "O Segredo de Brokeback Mountain" a "Má Educação", passando por "20 Centímetros" ou "Breakfast on Pluto" -, "Transamerica", a primeira longa-metragem de Duncan Tucker, acrescenta mais uma perspectiva acerca desses domínios.

Tendo como protagonista um transsexual, Bree, cujo principal objectivo é conseguir dinheiro para fazer uma cirurgia que o torne na mulher que desde há muito sente ser, o filme dificulta ainda mais a vida à sua personagem principal quando esta descobre que tem um filho de dezassete anos que a procura, fruto de uma relação casual com uma colega universitária.

De forma a que a sua psicóloga a autorize a realizar a operação cirúrgica, Bree deverá encontrar o seu filho, Toby, deslocando-se para isso de Los Angeles a Nova Iorque, mas esta viagem será apenas o início de um percurso geográfico e emocional mais intenso e extenuante, à medida que os dois parentes vão consolidando um relacionamento difícil mas determinante para ambos.

Dramedy alicerçada em crises de identidade, tensas relações familiares, conflitos interiores e na aceitação ou rejeição da diferença, "Transamerica" é uma obra que, apesar de não inventar nada, reciclando ideias já implementadas pelo cinema independente norte-americano, consegue proporcionar um sólido estudo de personagens, onde o humor nunca se torna óbvio e o drama marca sempre pela subtileza.

O filme segue a matriz do road movie, pois as personagens vão-se revelando a si próprias e umas às outras à medida que a viagem decorre, através de uma estrutura episódica com alternâncias de tom, ora graves ora mais espirituosos, e se o desenlace não é particularmente difícil de prever, pelo caminho há algumas surpresas estimulantes, fruto dos segredos que tanto Bree como Toby escondem.

"Transamerica" tem sido especialmente destacado pela interpretação de Felicity Huffman, e percebe-se porquê. A actriz da série "Donas de Casa Desesperadas" oferece aqui uma complexa composição avessa a estereótipos e caricaturas fáceis, traduzindo com espontaneidade e vibração emocional a postura simultaneamente obstinada e relutante de Bree, num desempenho minucioso e atento a elementos como a colocação da voz ou a linguagem corporal.

Mas se Huffman é brilhante, Kevin Zegers não o é menos no papel de Toby, encarnado um jovem que tenta ultrapassar a solidão e a insegurança através da prostituição e do consumo de drogas.

Não sendo um grande filme, "Transamerica" é contudo uma obra honesta, inteligente e bem escrita, que evita sequências prontas-a-chocar, moralismos forçados, piadas ridículas e discriminatórias ou cenas de uma melancolia moribunda e pretensiosa, elementos que, noutras mãos, poderiam deteriorar a sua premissa. E não são todos os filmes que se podem dar ao luxo de revelar um realizador promissor e de confirmar uma grande actriz.

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

quinta-feira, abril 13, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "INFILTRADO"

Depois de "Ela Odeia-me", do ano passado, um dos melhores realizadores norte-americanos da actualidade, Spike Lee, regressa com "Infiltrado" (Inside Man), um thriller sobre um assalto a um dos maiores bancos nova-iorquinos.
O elenco é de alto nível - Jodie Foster, Clive Owen, Denzel Washington, Willem Dafoe, Chiwetel Ejiofor, Christopher Plummer - e os ecos do 11 de Setembro parecem continuar a marcar a obra do cineasta. Pela premissa parece que Lee percorre aqui domínios mais convencionais do que o habitual, mas nada como ver para tirar as dúvidas...

Outras estreias:

"Date Movie", de Aaron Seltzer
"Golpe a Frio", de Harold Ramis
"Hostel", de Eli Roth, realizador d'"A Cabana do Medo"

quarta-feira, abril 12, 2006

CORAGEM DEBAIXO DE FOGO

Em 2003, George Clooney estreou-se na realização com “Confissões de Uma Mente Perigosa”, filme que, apesar de promissor, era bastante desequilibrado, encontrando nas seguras interpretações e na cativante energia visual as suas únicas mais-valias.

“Boa Noite, e Boa Sorte” (Good Night, and Good Luck), nova aposta do actor (e agora também realizador) nas longas-metragens, tem sido alvo de maior mediatismo e aclamação do público e da crítica, contudo é pouco mais consistente do que o título antecessor.
Não é por falta de potencial, uma vez que esta perspectiva sobre as relações entre os media e a política tem um bom material de base – a obstinação do pivot televisivo da CBS Edward R. Murrow e da sua equipa em combater as atitudes extremistas e manipuladoras do senador Joseph McCarthy, durante uma conturbada América dos anos 50 -, contudo o projecto sai-se melhor nas intenções do que na concretização destas.

Decorrendo durante o mccarthysmo e a “caça às bruxas” (leia-se comunistas) que marcou esse período, “Boa Noite, e Boa Sorte” assume-se como filme-denúncia das ameaças à liberdade de expressão e das medidas intimidatórias – muitas vezes injustificadas – encetadas pela Comissão do Senado das Actividades Anti-Americanas, salientando o papel proeminente de alguns media, ou melhor, de Murrow e do seu programa televisivo, ”See It Now”, na divulgação ao público dessas atitudes abusivas.

Clooney é bem-sucedido no retrato de época, mergulhando nos tensos ambientes da redacção da CBS e apresentando-os de forma credível, quer através de movimentos de câmara que acentuam uma claustrofobia palpitante, da apropriada e sóbria fotografia a preto-e-branco (atravessada pelos nebulosos cinzentos do fumo do tabaco), da banda-sonora jazzística e cool de Diane Reeves e de um elenco afinado (que inclui, além do realziador, David Strathairn, Robert Downey Jr., Patrícia Clarkson ou Jeff Daniels).
O uso de várias imagens de arquivo, a maioria de McCarthy (dispensando assim um actor que o interprete), é um elemento curioso, e contribui também para a implementação de uma eficaz carga realista, com traços do cinema documental.

No entanto, “Boa Noite, e Boa Sorte” é menos entusiasmante na construção das personagens, que não passam de meros instrumentos cuja função é debitar a mensagem liberal do realizador. O talento dos actores consegue captar a atenção, mas o argumento não deixa que estes criem figuras tridimensionais, antes joguetes desprovidos de densidade.
A carga dramática é então bastante reduzida, uma vez que o espectador nunca fica a conhecer aquelas pessoas nem o que as motiva, vendo apenas corpos que carregam uma ideologia.

Além das personagens pouco convincentes, a irregularidade do filme deve-se ainda ao seu teor algo maniqueísta, uma vez que apresenta apenas a realidade vista por um dos lados, encaminhando o sentido da reflexão que pretende despoletar.
Paralelamente, a sobrecarga de informação, sobretudo nos momentos iniciais, leva a que o espectador possa ter dificuldade em assimilar de imediato tudo o que lhe é apresentado, tornando "Boa Noite, e Boa Sorte” numa película demasiado expositiva e hermética.

Clooney proporciona assim um documento meritório, mas desigual, pois apesar de colocar em jogo questões relevantes ainda hoje e não apenas na época em causa, como a ética no jornalismo, os conflitos entre informação e entretenimento ou a sugestão de similaridades entre os métodos de McCarthy e de Bush, não está estruturado da forma mais aliciante e imparcial, tornando-se tão seco e sisudo quanto o seu protagonista.
Deseja-se, então, boa (e melhor) sorte para o próximo projecto do actor/realizador.
E O VEREDICTO É: 2/5 - RAZOÁVEL

terça-feira, abril 11, 2006

E PLANOS PARA O FUTURO?

Contando já com um percurso sólido desde o seu surgimento em finais dos anos 90, os norte-americanos Death Cab for Cutie têm vindo a destacar-se como uma das estimáveis bandas a emergir de circuitos alternativos, com uma aura de culto que já não abarca apenas esferas necessariamente marginais desde que algumas canções da banda passaram a ser banda-sonora regular de séries como “Sete Palmos de Terra” e, sobretudo, “The O.C. – Na Terra dos Ricos”.

“Plans”, de 2005, é reflexo desse considerável alargamento de público, pois é o primeiro registo do grupo editado por uma major, a Atlantic, após quatro álbuns impulsionados pela independente Barsuk.
Coincidência ou não, essa mudança de editora é paralela a algumas alterações na sonoridade do projecto, que embora continue a apostar num indie rock de travo intimista e confessional apresenta aqui canções que nem sempre traduzem uma personalidade muito vincada.

Esse aspecto passa despercebido na faixa de abertura, “Marching Bands of Manhattan”, que começa de forma apaziguada e vai edificando um convincente crescendo de intensidade, não muito distante de alguns momentos do anterior registo, “Transatlanticism”.
“Soul Meets Body”, o tema seguinte, é ainda mais satisfatório, proporcionando cerca de quatro minutos de pop uplifting e encantatória, com uma melodia viciante que convida a audições sucessivas e entrando directamente para a lista de composições mais brilhantes da banda.
Infelizmente, como as restantes canções evidenciam, este é o único episódio de elevada inspiração do disco, uma vez que em nenhuma outra faixa “Plans” consegue alcançar este nível.

A maioria das canções do álbum envereda antes por territórios midtempo, raramente efectuando desvios a domínios sóbrios e contidos, o que não é desagradável mas está longe do mais estimulante que o grupo já fez (aproximando-se, a espaços, da limitada densidade de uns Coldplay).
“Soul Meets Body” acaba até por destoar neste cenário, tendo mais em comum com o soberbo “Give Up”, dos Postal Service (projecto paralelo do vocalista Ben Gibbard), do que com “Plans”.

Se às primeiras audições o disco não é particularmente sedutor, pecando por conter canções aparentemente mais genéricas e formatadas do que se esperaria, aos poucos há pormenores de escrita e de instrumentação que se vão impondo e apelando a que se dê o benefício da dúvida, até que “Plans” se torna menos indiferente e mais acolhedor.

A sua homogeneidade e ocasionais momentos monocórdicos – fruto de uma produção demasiado polida - continuam a jogar contra si, mas temas como “I Will Follow You Into the Dark” (com um romantismo seco e distanciado), “Brothers on a Hotel Bed” (cuja ligação da percussão e piano gera uma envolvente atmosfera melancólica) ou “What Sarah Said” (talvez o ponto mais triste e amargurado do álbum) acabam por comprovar que os Death Cab for Cutie ainda são, afinal, capazes de proporcionar emotivos retratos das relações humanas.

Explorando as ligações entre o amor e a morte, onde a passagem do tempo e, consequentemente, o envelhecimento ocupam uma influência determinante, as letras de Gibbard são, muitas vezes, mais intrigantes do que as estruturas das canções, que não assumem grandes riscos.
A carga dramática que a voz do cantor/compositor comporta também contribui para que “Plans” volte a ser alvo de mais audições, originando uma ressonância emocional que ao primeiro impacto poderá ser pouco evidente.

Sendo melhor do que aparenta ao início, o quinto disco dos Death Cab for Cutie não deixa de acusar alguma estagnação da banda, à semelhança do que ocorreu com os R.E.M., em “Around the Sun”, ou com os Mercury Rev, em “The Secret Migration”, outros exemplos interessantes, mas longe de arrebatadores, de uma indie pop outonal, contemplativa e discreta. O resultado não compromete, mas aguardam-se planos de reinvenção.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

segunda-feira, abril 10, 2006

MÚSICA NO CORAÇÃO

Um dos músicos norte-americanos mais influentes e singulares das últimas décadas, Johnny Cash faleceu em 2003 mas deixou como legado uma vasta obra que edificou ao longo de décadas, aliando simplicidade e personalidade e expandindo os horizontes da música country.

Sendo uma figura de culto, as ideias para um filme inspirado na sua vida já circulavam há anos nos bastidores de Hollywood, mas foi James Mangold quem se encarregou de dar seguimento ao projecto e narrar o percurso do cantor/compositor no grande ecrã, em “Walk the Line”.

Sendo um realizador capaz de criar, por vezes, filmes com substância e alguma criatividade (“Vida Interrompida”), Mangold também tem na sua filmografia películas que poderiam ter sido dirigidas por qualquer tarefeiro (“Kate e Leopold”, “Identidade Misteriosa”), tornando-o num nome arriscado para gerar um filme em torno de Cash (para academismo, já bastou o de Taylor Hackford em “Ray”).

Felizmente, em “Walk the Line” Mangold volta à boa forma e apresenta um trabalho sólido que não envergonha ninguém, e embora se confirme que a inventividade e a ousadia não são o seu forte, o registo clássico que adopta aqui é bastante adequado.

Se, por um lado, o filme segue o formato do biopic tradicional, ao focar uma história de triunfo sobre a adversidade (neste caso, os problemas familiares e a dependência do álcool ou de drogas), com um enfoque larger than life e uma estrutura episódica, exibe alguns desvios ao não relatar toda a vida de Cash (centra-se essencialmente nas décadas de 50 e 60 e ignora os últimos anos do músico) e, sobretudo, ao conceder uma relevância primordial ao relacionamento do protagonista com a também cantora June Carter.

Este último elemento é determinante e responsável por “Walk the Line” ser um filme acima da média, pois até ao momento em que Johnny e June se aproximam a película não é mais do que um biopic convencional e indistinto, onde Mangold tenta mas raramente consegue injectar alguma alma às cenas.
O filme demora a arrancar e só o faz quando a relação profissional e pessoal dos dois músicos começa a ganhar mais espaço, impondo-se como o aspecto nuclear da película.

É certo que há por aqui sequências com interessantes olhares sobre a América rural, a música ou a aura de outcast que envolvia Cash, contudo os momentos de maior carga dramática são aqueles onde a cumplicidade entre os dois amantes é a única solução para suplantar situações conturbadas.

Sem boas interpretações, a história de amor dificilmente seria convincente, mas neste caso tanto Joaquin Phoenix como Reese Witherspoon são excelentes, compondo figuras tridimensionais e ambivalentes e gerando uma química invejável.
Phoenix não precisa de mais do que alguns olhares e expressões certeiros para evidenciar um âmago denso e pleno de convulsões, e Witherspoon é admirável ao encarnar uma June Carter com uma força e optimismo contagiantes, justificando o Óscar de Melhor Actriz que arrecadou pelo seu desempenho.
As prestações da dupla são ainda dignas de nota porque os actores interpretaram as muitas canções que surgem no filme, sendo o resultado muito consistente e promissor.

Entre o musical e o melodrama, “Walk the Line” é um recomendável biopic centrado numa história de amor contada de forma adulta e envolvente, onde mais do que uma sequência de acontecimentos se privilegia descobrir e mergulhar no universo interior de duas personagens bem construídas. Um dos filmes a incluir na lista de boas surpresas de 2006, portanto.

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

domingo, abril 09, 2006

UMA HISTÓRIA DE VIOLÊNCIA

Vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano, “Tsotsi” é a terceira longa-metragem do sul-africano Gavin Hood e retrata o quotidiano de um jovem de um bairro pobre de Joanesburgo que vive uma rotina marcada pela delinquência até ao dia em que, após um dos seus assaltos, se vê obrigado a fazer escolhas que orientarão uma mudança no seu rumo.

Ao roubar um carro, disparando à queima-roupa sobre a sua dona, Tsotsi (termo do calão local utilizado para designar um gangster/marginal) apercebe-se que raptou inadvertidamente o filho da sua vítima, um bebé cuja inocência e vulnerabilidade lhe resgatam memórias quase esquecidas e o obrigam a reflectir acerca da sua conduta.

Mais uma história sobre a redenção? Também, mas o filme não só trabalha o tema de forma competente como não se esgota nele, fornecendo um olhar cru e directo sobre o dia-a-dia dos guetos e das tensões urbanas, gerando um drama de travo realista dominado por uma densa amargura que não impede, contudo, o surgimento de ocasionais sinais de esperança e episódios de algum humor.

Hood aborda com sensibilidade a necessidade de pertença, a insegurança, a solidão, a identidade e o instinto de sobrevivência, questões indissociáveis do relutante protagonista que pouco mais conhece do que os quase inevitáveis ciclos de violência que o orientam desde muito novo.
Embora “Tsotsi” ameace cair, por vezes, no pantanoso território da manipulação emocional, tal nunca chega a ocorrer, pois ainda que haja alguns desequilíbrios na gestão da carga dramática Hood consegue proporcionar um filme honesto e com uma evidente entrega.

O elenco, constituído por actores inexperientes, partilha o empenho do realizador, oferecendo interpretações credíveis e dedicadas, contribuindo para o reforço da carga realista que a película emana.
A fluidez da câmara de Hood ajuda a imprimir essa espontaneidade, e a fotografia de cores vibrantes origina um impacto visual próximo do que Fernando Meirelles apresentou no marcante “Cidade de Deus”, bons elementos que compensam alguma previsibilidade e simplismo do argumento e um ritmo nem sempre absorvente.

No geral, “Tsotsi” é um filme interessante e revelador, e apesar dos seus desequilíbrios funciona enquanto um acutilante retrato de realidades muitas vezes ignoradas, sem nunca abdicar das complexidades da esfera humana ao desenvolver a história do seu protagonista. Uma proposta de bom cinema que não merece passar despercebida.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

quinta-feira, abril 06, 2006

SATURDAY NIGHT INDIE

O festival promete, a festa de antecipação também... :)

ESTREIA DA SEMANA: "INSTINTO FATAL 2"

A sequela do filme com o descruzar de pernas mais famoso da história do cinema chega finalmente a salas nacionais, catorze anos depois do controverso thriller de Paul Verhoeven que apresentou ao mundo a insinuante Catherine Tramell, interpretada por uma Sharon Stone no pico da sua carreira.
"Instinto Fatal 2" (Basic Instinct 2) dá continuidade às perigosas manobras de sedução da obscura escritora, que desta vez não lida com Michael Douglas mas com David Morrissey (quem? não interessa, não é por ele que alguém irá ver o filme...). A realização fica agora a cargo de Michael Caton-Jones. Enfim, o que vale é que para a semana estreiam os novos de Spike Lee e Eli Roth...

Outras estreias:

"Antárctida da Sobrevivência ao Resgate", de Frank Marshall
"Como Despachar um Encalhado", de Tom Dey
"Ultravioleta", de Kurt Wimmer (o realizador de "Equilibrium")

quarta-feira, abril 05, 2006

terça-feira, abril 04, 2006

VIGIAR E PUNIR

À semelhança dos seus conterrâneos Kim Ki-duk ou Park Chan-Wook, Kim Jae-woon é um dos realizadores que, nos últimos anos, mais tem contribuído para a divulgação do cinema sul-coreano além-fronteiras, como o atesta, sobretudo, “A Tale of Two Sisters”, de 2003, o seu filme mais mediático e aclamado.

“Doce Tortura” (Dalkomhan insaeng / A Bittersweet Life) é outro título que o coloca na lista de cineastas orientais do momento, uma história amarga sobre os dilemas de um reputado guarda-costas que não olha a meios para atingir os fins mas cujo profissionalismo é posto em causa quando se apaixona pela namorada do patrão, que se comprometeu a seguir e proteger.

À medida que vigia e interage com a cativante Heesoo, o frio e austero Sun-Woo toma contacto com as suas emoções, até então reprimidas, e não consegue matar a jovem quando descobre que esta trai o seu patrão com um amante. Tal atitude não passa despercebida perante o seu chefe e colegas e torna o protagonista num alvo a abater, despoletando uma espiral de tensão, perseguições, desilusões e algum sadismo.

Embora o ponto de partida do filme possa parecer simplista, Kim Jae-woon sabe como construir um vibrante retrato de sangue, suor e lágrimas, valendo-se de personagens que, sem fugirem muito aos estereótipos, são adequadas e razoavelmente trabalhadas, mas convencendo especialmente pela impressionante energia visual que insere tanto nas sequências de acção (e são muitas e bem coreografadas) como nas mais introspectivas e pausadas (relevantes para a exploração do conflito emocional de Sun-Woo).

Conciliando traços do thriller, film noir ou mesmo western, “Doce Tortura” nem sempre se desenvolve de forma interessante – a primeira das duas horas falha em conseguir envolver a espaços -, mas possui cenas muito inspiradas, como as do massacre do protagonista por parte de uma dezena de antagonistas, filmadas com um arrojo e um nervosismo de tirar o fôlego, assim como as do portentoso desenlace, outro requintado concentrado de energia cinética.

A acentuada estilização da violência tanto se aproxima da saga “Kill Bill - A Vingança”, de Quentin Tarantino, da trilogia “Infiltrados”, de Andrew Lau e Alan Mak, ou de “Oldboy – Velho Amigo”, de Park Chan-Wook, ainda que “Doce Tortura” contenha méritos próprios e consiga valer por si, fruto da criatividade da câmara de Jae-woon, das não menos hipnóticas fotografia e banda-sonora e do carisma do actor principal, Lee Byung-heon. O balanço é assim positivo e saúda-se esta boa surpresa vinda do cada vez mais profícuo cinema oriental.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

segunda-feira, abril 03, 2006

AMOR E OVELHAS

Alvo de uma considerável divulgação mediática que o levou a ser objecto de polémica devido ao limitado rótulo de western gay, “O Segredo de Brokeback Mountain” (Brokeback Mountain) é mais denso do que essa fácil catalogação pode sugerir, apresentado a bela e melancólica história da relação de dois cowboys, vincada pela amizade, cumplicidade e amor.

Baseado num conto de Annie Proulx, o mais recente filme do taiwanês Ang Lee não é o manifesto gay com que muitos parecem querer catalogá-lo mas antes um sensível e complexo melodrama enraizado nas relações humanas, território que o realizador já provou ser capaz de explorar com solidez, inteligência e sobriedade, situação que aqui se manifesta novamente.

Após o aclamado e influente “O Tigre e o Dragão” e o subestimado, mas não menos interessante, blockbuster intimista “Hulk”, Lee afasta-se aqui de domínios ligados ao cinema de aventuras (inspiradas em lendas orientais ou em heróis dos comics norte-americanos) e oferece uma obra pontuada pelas dificuldades dos relacionamentos, temática já explorada, por exemplo, em “Comer Beber Homem Mulher” ou “A Tempestade de Gelo”, mas não desta forma.

Retrato do absorvente afecto que nasce entre dois jovens contratados para guardar rebanhos durante o Verão de 1963 num rancho do Wyoming, a película desenvolve-se com assinalável noção de tempo e espaço, mergulhando na profunda ligação que os protagonistas constroem e nos entraves que a marcam ao longo de duas décadas.

Os episódios iniciais do filme, decorridos em Brokeback Mountain, são especialmente conseguidos, uma vez que deixam o duo entregue a si próprio e a uma solidão que se deteriora à medida que a empatia mútua cresce, o que suscita momentos de forte carga emocional e poética a que não é alheia a brilhante fotografia de Rodrigo Prieto, capaz de captar de forma ímpar a imponência e grandiosidade das paisagens.

Essa singular aura, onde o bucolismo e o lirismo se aliam à candura e ingenuidade, já não se encontra presente nos restantes momentos do filme, quando a dupla se separa reunindo-se apenas esporadicamente à revelia das suas esposas, mas nem por isso “O Segredo de Brokeback Mountain” deixa de proporcionar sequências de raro impacto emocional, mantendo um equilíbrio e uma subtileza dignos de nota.

Embora aborde a homossexualidade, questão que, para o bem e para o mal, é sempre associada à película e motivou a sua divulgação massiva, Ang Lee adopta uma perspectiva contida e discreta, recusando exibicionismos gratuitos e estando, assim, nos antípodas de um filme-choque.
Mais do que temas, o cineasta preocupa-se em explorar as ambiguidades e contradições das suas personagens e o resultado é bastante convincente, não só devido a um argumento bem trabalhado, que privilegia as inquietações humanas, mas também a uma soberba direcção de actores, com obrigatório destaque para os protagonistas.

Jake Gyllenhaal tem um desempenho brilhante na pele do idealista e obstinado Jack Twist, confirmando-se, mais uma vez, como um dos melhores actores da sua geração, mas o underacting de Heath Ledger, que encarna o circunspecto e lacónico Ennis Del Mar, é igualmente seguro, o que não se esperaria tendo em conta que o actor nunca havia interpretado um papel tão exigente (fruto dos projectos de escasso interesse em que participou).

Com duas personagens tão bem construídas e melhor interpretadas, era difícil “O Segredo de Brokeback Mountain” falhar, já que a rara entrega e intensidade que os dois actores incorporam em Ennis e Jack compõem a alma do filme e compensa alguns dos seus aspectos menos conseguidos, como o desenvolvimento algo superficial dos secundários, em particular o das esposas, que pedia mais relevo (apesar das competentes prestações de Michelle Williams e Anne Hathaway).

Rigoroso na concepção da narrativa, no retrato da América rural e dos dilemas conjugais, Ang Lee imprime ao filme um ritmo pausado, mas nunca monótono, enveredando por uma vertente contemplativa reforçada por uma hábil gestão dos silêncios e do peso da palavra.

Apenas uma cena soa a falso, aquela em que os dois amigos se reencontram pela primeira vez depois de terem partilhado a experiência de Brokeback Mountain, momento decisivo no desenvolvimento do filme mas demasiado forçado, não condizendo com a verosimilhança que se sente em todas as outras sequências.

Não obstante este episódio pouco credível, “O Segredo de Brokeback Mountain” impõe-se como uma das grandes obras cinematográficas de 2006, gerando um cru, emotivo e angustiante retrato da natureza humana, da infidelidade, do preconceito, da repressão emocional, dos laços de confiança e do amor proibido. Pode não ser o melhor filme do ano, mas tem lugar cativo na lista dos obrigatórios, de preferência não pela controvérsia que gerou mas pela qualidade acima da média que evidencia.

E O VEREDICTO É: 4/5 - MUITO BOM

sábado, abril 01, 2006

DREAM TEAM

Os Radiohead revelaram finalmente uma das novidades do seu novo álbum, cuja edição está prevista para o final deste ano. A banda de culto confirmou que Celine Dion participou em dois temas do disco, em duetos com Thom Yorke que já circulam pela Internet.

“Foi uma grande honra ter sido convidada, gosto deste projecto desde o “Pablo Honey” – que ainda é a obra-prima - e desde logo senti que as nossas canções tinham muito em comum. Além disso, sempre tentei apoiar as pequenas bandas, sobretudo aquelas que se inspiram nos Coldplay, que amo de paixão.”
O vocalista do grupo concordou, afirmando que “Celine é uma referência, talvez a maior da nova cena de músicos canadianos como Bryan Adams ou Alanis Morissete. Uns jovens chamados Arcade Fire quiseram colaborar connosco no novo disco, mas nunca gostámos de bandas estranhas e pretensiosas, principalmente das que tentam, sem sucesso, imitar o Meat Loaf.”
Na sequência da revelação da colaboração, surgiram rumores sobre um relacionamento amoroso entre os dois cantores, embora Dion tenha salientado que o seu noivado com Tom Waits continua estável.

sexta-feira, março 31, 2006

PARTY GRRRLS

As três (não tristes) tigres aquecem os ânimos musicais e ajudam a festejar a chegada de mais uma sexta-feira :) "TKO", recuerdo de "This Island", roda ali no lado direito.

quinta-feira, março 30, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "BREAKFAST ON PLUTO"

No seu novo filme, Neil Jordan ("Jogo de Lágrimas", "Entrevista com o Vampiro") segue o percurso de Patrick "Kitten" Braden, um jovem que cresceu na Irlanda dos anos 60 e que desde cedo aprendeu a estar sozinho, vendo a sua vida marcada pelo IRA, pela prostituição, pelo mundo do espectáculo ou pela transexualidade.
Protagonizado por Cillian Murphy (que depois de "28 Dias Depois" ou "Red Eye" parece continuar a testar a sua versatilidade), "Breakfast on Pluto" é um drama pouco convencional e uma das propostas cinematográficas a descobrir que chega hoje às salas nacionais.

Outras estreias:

"A Idade do Gelo 2: Descongelados", de Carlos Saldanha
"Ninguém Sabe", de Hirokazu Koreeda
"O Tigre e a Neve", de Roberto Benigni
"Vanitas + A Piscina", de Paulo Rocha

domingo, março 26, 2006

A CASA DE CAMPO

Filmes de terror portugueses não são propriamente algo que se encontre regularmente nas salas, antes pelo contrário, por isso “Coisa Ruim”, de Tiago Guedes e Frederico Serra – dupla com experiência na realização de anúncios publicitários, telefilmes e curtas-metragens – é um objecto que suscitava alguma curiosidade, uma vez que é uma das raras experiências nacionais com ligações a esse género.

A acção alicerça-se numa família lisboeta que se muda para uma pequena aldeia do interior, passando a habitar um velho casarão herdado pelo pai.
Se a maioria do agregado familiar não fica muito entusiasmada com o mais recente lar, excepto a figura paterna, que impulsionou a mudança, a simpatia com o novo local de residência reduz-se ainda mais quando este começa a ser marcado por estranhos e inquietantes acontecimentos. Aos poucos, os três filhos do casal vão tomando contacto com intrigantes visões ou com a audição de perturbantes ruídos, situação que afectará, também, os seus progenitores.

Embora a premissa da casa assombrada esteja longe de ser uma novidade enquanto elemento central de um filme de terror, “Coisa Ruim” consegue ultrapassar essa limitação ao assentar num argumento (escrito por Rodrigo Guedes de Carvalho) que não se preocupa somente em catalizar sustos e reviravoltas, mas principalmente em apresentar uma interessante perspectiva acerca dos mistérios, boatos, medos, lendas e costumes presentes nos interstícios de algum Portugal rural.

Questionando sobretudo os conflitos entre a razão e a crença ou a superstição, o filme não descura a esfera emocional das suas personagens, não as usando apenas como meros joguetes mas modelando-as enquanto figuras palpáveis e credíveis, perturbadas por dúvidas e receios bem humanos.
Neste aspecto, a direcção de actores é uma óbvia mais-valia, já que o elenco é bastante coeso e empenhado, algo que infelizmente coloca em causa muitas películas nacionais. Manuela Couto, no papel da mãe, oferece uma subtil e envolvente interpretação, e Adriano Luz, que encarna o pai, ou Afonso Pimentel, o filho mais velho, são também exemplo de um profissionalismo merecedor de elogios.

Rigoroso na construção do argumento ou na gestão do elenco, “Coisa Ruim” não o é menos na concepção visual, apostando numa realização fluida e segura, onde os hábeis enquadramentos são fulcrais para que as atmosferas sejam desenhadas de forma tão absorvente. O minucioso trabalho de iluminação ou as texturas da fotografia são outros complementos essenciais, evidenciando um sólido cuidado estético que nunca cai no exibicionismo.

“Coisa Ruim” acaba por não ser tanto uma história de terror mas antes um drama familiar, pontuado por algum suspense e bizarria, em que as personagens se debatem com fantasmas internos e externos. É certo que há por aqui paralelismos com obras de, entre outros, M. Night Shyamalan (nos silêncios carregados de tensão, no ritmo pausado) ou Alejandro Amenábar (notam-se ecos de “Os Outros”), mas o filme encontra um espaço seu ao focar um imaginário tipicamente português, abordado com competência e sentido atmosférico.


Pena o óbvio e apressado desenlace, cujo esoterismo exagerado o aproxima mais dos histéricos e pouco imaginativos exemplos de um certo estilo de terror norte-americano do que do desenvolvimento inteligente e sensato – e com espaço para a ambiguidade - que “Coisa Ruim” adopta durante a maior parte da sua duração.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

sábado, março 25, 2006

RECORDAR E DANÇAR

Uma das boas surpresas provenientes de domínios da música de dança dos últimos anos, “Destroy Rock & Roll”, de 2004, o álbum de estreia do escocês Myles MacInnes – mais conhecido como Mylo -, é um exemplo de que a política do do-it-yourself pode gerar resultados interessantes.

Recorrendo a pouco mais do que alguns programas de computador para trabalhar as suas composições, o músico criou o seu disco praticamente em casa, mas apesar da limitação de recursos “Destroy Rock & Roll” está longe de ser um trabalho amador, evidenciando uma produção milimétrica e criatividade q.b. na selecção de samples.

Os catorze temas que o jovem DJ apresenta não desbravam novos territórios, contudo exibem doses suficientes de consistência e energia, apostando em melodias bem estruturadas, quase sempre imediatas sem se tornarem cansativas.

Dominado por uma forte componente lúdica, com um peculiar sentido de humor presente em grande parte das canções, “Destroy Rock & Roll” é um contagiante party album que mistura electro, house, techno, disco, lounge e funk, proporcionando um virtuoso concentrado de ritmos viciantes onde o apelo dançável se torna irresistível.

Daft Punk ou Gus Gus são alguns dos nomes facilmente comparáveis, sobretudo nos momentos mais efusivos e dinâmicos (“Rikki”, “Paris Four Hundred”), enquanto que os episódios mais apaziguados e contemplativos (“Need You Tonite”, “Emotion 98.6”) remetem para traços semelhantes à faceta downtempo dos Röyksopp, Lemon Jelly ou Moby.

Apesar de notórias similaridades com estas e outras referências, Mylo não oferece um trabalho derivativo, expondo alguma carga inventiva enquanto criador de exercícios cut n’ paste tão eficazes como o mediático “Drop the Pressure” ou o seu sucedâneo “Doctor Pressure”, que cruza esse single com um êxito quase esquecido da década de 80, “Drop the Beat”, dos Miami Sound Machine.

A incorporação de sonoridades dos anos 80 manifesta-se, de resto, em muitas outras canções do disco, casos de “In My Arms” - assente um sample de “Bette Davis Eyes”, de Kim Carnes – ou “Destroy Rock & Roll”, onde Mylo refere muitos dos músicos que contribuíram para a destruição do rock durante essa malograda década (num exaustivo inventário que inclui gente tão diversa como Michael Jackson, Madonna, Duran Duran, Bruce Springsteen, Fletwood Mac, Prince, ZZ Top, Cindy Lauper, Neil Young ou Bananarama).

Fresco e coeso, ainda que demasiado longo, “Destroy Rock & Roll” não é genial mas coloca mais um nome interessante no vasto universo da música de dança, e espera-se por isso que esta estreia apelativa tenha continuidade à altura.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

sexta-feira, março 24, 2006

MAIS DIAS INDIE

O terceiro IndieLisboa - ou Festival de Cinema Independente de Lisboa -, a decorrer entre 20 e 30 de Abril, já revelou a sua programação. Esperam-se cerca de 24 sessões diárias distribuídas por seis salas do Fórum Lisboa e dos cinemas King e Londres.

Entre as promissoras novidades, destacam-se o Laboratório (que privilegia projectos mais arriscados) o IndieMusic (com bons exemplos de cruzamentos entre a sétima arte e a música), assim como os mais recentes filmes de Abel Ferrara, Larry Clark ou Michael Cuesta são algumas das diversas obras inéditas previstas.
Se a edição de 2005 foi profícua, a deste ano parece estar à altura, portanto prevê-se que muitos dos filmes presentes sejam alvo de atenção por estes lados.

quinta-feira, março 23, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "V DE VINGANÇA"

Não falta potencial a "V de Vingança" (V for Vendetta), a primeira longa-metragem de James McTeigue. Baseada numa graphic novel criada por Alan Moore (um dos mais aclamados argumentistas de sempre da BD) e David Lloyd, reescrita para cinema pelos irmãos Wachowski (sim, os de "Matrix") e protagonizada por Natalie Portman, esta aventura futurista segue as invetidas de um anti-herói mascarado obstinado em destruir o regime totalitário que atemoriza a Grã-Bretanha. Nem todos os blockbusters podem gabar-se de possuir atributos tão promissores e o resultado pode ser comprovado a partir de hoje...

Outras estreias:

-"3... Extremos", experiência a três de Takashi Miike ("Uma Chamada Perdida"), Park Chan-wook ("Old Boy - Velho Amigo") e Fruit Chan
-"Casanova", o regresso do sueco Lasse Hallström depois de "Uma Vida Inacabada"
-"O Segredo", terror pelo espanhol Luis De La Madrid

A SANGUE FRIO

Impondo-se, ao longo da década de 90, como um dos melhores actores norte-americanos dos últimos anos, Philip Seymour Hoffman nunca havia conhecido um mediatismo à altura do seu talento, sendo quase sempre relegado para papéis secundários.
Embora tenha trabalhado em muitos projectos interessantes que lhe proporcionaram algum prestígio – colaborou em obras de Todd Solondz, Paul Thomas Anderson ou Spike Lee -, faltava-lhe umaque lhe possibilitasse uma aclamação mais generalizada.

“Capote”, a segunda experiência de Bennett Miller na realização (a primeira foi o elogiado, mas discreto documentário “The Cruise”, de 1998), afirma-se como o filme capaz de o elevar a um novo patamar de reconhecimento, garantindo-lhe o Óscar de Melhor Actor e compensando-o por mais de uma década onde recebeu menos atenção do que merecia.

Hoffman encarna aqui o controverso e influente escritor Truman Capote, numa película que foge ao formato de biopic mais tradicional ao optar por se debruçar apenas sobre uma fase específica da sua vida, centrando-se em 1959, período em que o autor se inspirou no homicídio de uma família de uma pequena povoação do Kansas para criar uma das suas obras incontornáveis, “A Sangue Frio”, considerado o primeiro romance de não-ficção.

O filme apresenta a relação singular que nasce entre o escritor e Perry Smith, um dos dois assassinos responsáveis pelo massacre, focando a empatia natural e desconcertante gerada entre dois underdogs que, embora muito diferentes à superfície, parecem partilhar uma esfera de angústia, isolamento e marginalização.
Em paralelo, “Capote” narra também a forma como o protagonista utilizou essa proximidade para a criação do seu livro (ainda que inicialmente o plano fosse criar apenas um artigo de revista), vertente que obriga o espectador a questionar-se acerca da moral da personagem, originando cenas de uma considerável ambivalência emocional, pouco habituais num biopic oriundo de Hollywood (que raramente colocam em causa a figura em questão).

Philip Seymour Hoffman consegue compor com solidez um retrato do escritor, mesclando vulnerabilidade, arrogância, humor ácido, egocentrismo e subtileza, expondo ainda os trejeitos da fala e dos movimentos corporais associados a Truman Capote sem cair na caricatura.

Infelizmente, o filme não é tão bem sucedido como o desempenho do actor principal, apoiando-se neste em demasia e não sendo tão convincente na maioria das suas restantes componentes. É certo que há aqui material de base para fazer desta uma obra superior, em particular a relação do criador com a arte e a dilaceração emocional que daí poderá advir, contudo “Capote” é prejudicado por uma narrativa irregular que nem sempre distingue o essencial do acessório, oferecendo múltiplas sequências repetitivas e dispensáveis.


O argumento é interessante, mas peca por não explorar a fundo a carga dramática que pontuais momentos são capazes de evidenciar, desaproveitando, de resto, algumas das personagens secundárias, como os dois criminosos ou a escritora Harper Lee, amiga de infância do protagonista.

“Capote” vê-se, assim, reduzido ao estigma de “filme de actor”, alicerçando-se na prestação de Hoffman que, mesmo não retirando o mérito ao eficaz trabalho de realização de Bennett Miller ou aos desempenhos de todo o elenco - Clifton Collins Jr. interpreta um credível Perry Smith, já Catherine Keener está apenas competente, longe do seu melhor – sobrepõe-se a estes e será aquilo pelo qual esta película curiosa, embora não raras vezes gélida e monótona, será lembrada.
E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

terça-feira, março 21, 2006

MULHERES APAIXONADAS

Em 2002, a primeira longa-metragem (ou segunda, se se contar com o telefilme “Annie”) de Rob Marshall, “Chicago”, foi a grande vencedora da edição dos Óscares, arrecadando seis estatuetas douradas, entre as quais a de Melhor Filme.

Alguns viram na película uma irreverência e energia capazes de dinamizar o renascimento do musical, género que, salvo raras excepções (de que “Moulin Rouge”, de Baz Luhrmann”, até foi um exemplo mais conseguido), já não possui o fulgor de outros tempos, mas “Chicago” não era mais do que um produto razoavelmente confeccionado, com alguns atributos técnicos embora desprovido de intensidade emocional.

“Memórias de uma Gueixa” (Memoirs of a Geisha), o novo filme do realizador, apesar de globalmente superior à sobrevalorizada obra antecessora, evidencia semelhantes qualidades e defeitos, tentando seduzir por um excesso de pompa e circunstância mas voltando a apresentar uma carga dramática gerida de forma desequilibrada.

Adaptação do livro homónimo de Arthur Golden, a película narra o percurso de uma jovem que é preparada desde criança para se tornar numa gueixa, sendo enraizada nas múltiplas práticas que a farão agradar aos homens, contudo ao longo desse processo de aprendizagem a protagonista terá de lidar não só com a reduzida autonomia a que a sua condição feminina a sujeita (a acção decorre no Japão de vésperas da II Guerra Mundial) mas também com as investidas de uma colega rival, que a atormenta na infância, adolescência e idade adulta.

Drama orientado por uma perspectiva feminina, “Memórias de uma Gueixa” é uma história vincada por sacrifícios, traições, desafios e amores aparentemente impossíveis, e se o filme pedia para ser um conto larger than life Rob Marshall nem sempre consegue fazer passar essa vertente, seguindo um registo demasiado formulaico e a espaços mesmo folhetinesco.

Apesar dos consideráveis valores de produção, que lhe concedem alguns dos seus pontos fortes – como o guarda roupa e cenários, que ajudam a uma coesa recriação da época -, da envolvente fotografia de Dion Beebe ou da sólida banda-sonora de John Williams, a película peca por um academismo preguiçoso que imprime poucas surpresas à narrativa e por uma construção de personagens que fica aquém do potencial, onde a complexidade dos conflitos humanos é subexplorada, resultado de figuras maioritariamente bidimensionais.

O trio de actrizes em ascensão constituído por Zhang Ziyi, Gong Li e Michelle Yeoh ajuda a que as três personagens femininas mais relevantes consigam ser mais do que belas e impenetráveis bonecas de porcelana, contudo a espontaneidade das suas prestações nem sempre é suficiente para fazer esquecer o aspecto demasiado fabricado de “Memórias de uma Gueixa”.

Rob Marshall gera um filme interessante de seguir e que nunca se torna cansativo (as quase duas horas e meia de duração não saturam), mas existia aqui substrato para uma obra de maior fôlego, mais misteriosa e absorvente, que mergulhasse a fundo nas singularidades destas intrigantes mulheres.
“Memórias de uma Gueixa”, ainda que marcado por sequências visualmente estimulantes e por um argumento competente, fica-se pela superfície, e mesmo que o balanço acabe por ser positivo isso está longe de se tornar memorável.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

segunda-feira, março 20, 2006

UM ANO DE FILMES

Pois é, já passou um ano desde que o Cine7 reuniu uma equipa de amantes do cinema que, semana após semana, destacam muitas das suas obras, percorrendo várias épocas, géneros, realizadores e origens geográficas, num projecto idealizado pelO Emissor, que me convidou a aderir há uns largos meses.
Mesmo sendo suspeito, uma vez que sou da casa, recomendo a passagem, e até ofereço um bilhete de cinema a quem conseguir identificar todos os filmes da imagem acima :P

LET'S TALK

O abecedário da noite, sugerido pelos Soulwax, já passa ali no canto superior direito. A consumir com precaução ;)

domingo, março 19, 2006

THE SHOW MUST GO ON

Embora raramente proporcione obras excepcionais, o britânico Stephen Frears também quase nunca gera filmes desprovidos interesse, possuindo uma filmografia marcada pela versatilidade de géneros e pela considerável competência com que trabalha cada um deles.

“Mrs. Henderson” (Mrs. Henderson Presents), a sua proposta mais recente, é mais uma prova da sua eficácia, baseando-se em factos verídicos para contar uma história ambientada na Londres de finais dos anos 30, em particular na compra de um teatro por parte de uma abastada viúva de meia idade, que o torna num dos centros culturais mais emblemáticos da cidade.

Misto de musical, drama e comédia, o filme ancora-se na relação que se estabelece entre Laura Henderson, a viúva aristocrata, e o especialista por si contratado para dirigir o recém-adquirido teatro, Vivian Van Damm.
Conjugando empatia e conflito, a parceria profissional da dupla protagonista acaba por resultar e leva a que a partilha de ideias e o empenho mútuo torne o Teatro Windmill num local fervilhante e muito concorrido, fruto dos seus espectáculos musicais inovadores e ousados (e vincados por um polémico recurso a cenas de nudismo).

O rigor dos cenários e do guarda-roupa, de um profissionalismo inatacável, não esconde o apoio da BBC, uma referência na produção de filmes de época, que a par das atmosferas marcadas por traços do realismo britânico (já habitualmente desenvolvidas por Frears) contribui para que “Mrs. Henderson” apresente uma reconstituição credível do período em que decorre.

A consistência da película deve também muito ao elenco, pois tanto os actores principais como os secundários brilham e conquistam. Judi Dench faz da protagonista uma personagem irresistível, com uma deliciosa excentricidade e energia, e Bob Hoskins, embora menos irreverente, encarna um sólido e carismático Mr. Van Damm.
Do leque de secundários, Kelly Reilly volta a insinuar-se como uma das mais talentosas jovens actrizes britânicas (depois de ter dado nas vistas em “A Residência Espanhola”, “As Bonecas Russas” ou “Orgulho e Preconceito”), interpretando a bailarina Maureen de forma hábil e comovente.

Tal como na maioria das suas obras, Frears desenvolve aqui um satisfatório equilíbrio de humor e carga dramática, iniciando “Mrs. Henderson” de forma leve mas inserindo-lhe depois uma progressiva tensão, ou não fosse boa parte da segunda metade do filme assombrada pelos conflitos da Segunda Guerra Mundial.
Esta combinação nunca soa a falso e o duo protagonista abandona, aos poucos, os traços caricaturais mais imediatos para revelar a sua espessura emocional, nunca deixando, no entanto, de encetar divertidíssimos diálogos que expõem a fricção constante dos seus temperamentos.

Com condimentos destes, a que pode adicionar-se o cativante genérico inicial, bastante apropriado à época em questão, ou o cuidado trabalho de fotografia, não surpreende que “Mrs. Henderson” resulte num entretenimento conseguido e aprazível, que mesmo sem acrescentar muito ao Cinema é um título recomendável e merecedor de atenções.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

sábado, março 18, 2006

TEREMOS SEMPRE PARIS

Irish pub, pombos, pão com queijo e suminho de laranja, frio e chuva, "follow me, please!", kebabs memoráveis, Tonyyyy!!, Jim Morrison, "ainda temos mais dias...", croissants, mais frio e chuva, Parreirinhas, meia dose de escargots, "Sacrée Coeur!!!", o ataque das aves, sono no Louvre, Queen, almofada-fantasma, guias de cemitério, "everybody needs somebody", filme do escravo, chapéuzinhos brancos, shots, beijos ao Oscar Wilde, perseguição ao Pinóquio, desaparecidos no museu, free water, ainda mais frio e chuva, sopa de queijo, "o nosso amor é verde" ao acordar, Placebo, fertelitée, Sandrine, crepes, 4000 fotografias, ... et voilá...

sexta-feira, março 17, 2006

O JOGO

Embora seja um dos mais respeitados realizadores norte-americanos das últimas décadas, Woody Allen tem gerado, nos tempos mais recentes, uma série de filmes que, apesar de possuírem algumas inegáveis virtudes, não contêm a inspiração de outrora e limitam-se a enveredar por uma segura, mas pouco estimulante, lógica de piloto automático.
Este aspecto levou a que muitos encarassem já o cineasta como alguém que dificilmente voltaria a surpreender, mas eis que surgiu “Match Point” e, de um momento para o outro, Allen voltou a gozar de uma aclamação quase unânime de que já não era alvo há muito.

Felizmente, os múltiplos elogios dirigidos à película revelam-se justíssimos, pois “Match Point” impõe-se de facto, e sem dificuldades, como a melhor obra do realizador em largos anos, sobrepondo-se a títulos medianos como “A Maldição do Escorpião de Jade” ou “Melinda e Melinda”.

A metáfora do ténis conduz este jogo de manipulações, traições e enganos ambientado em domínios da alta sociedade londrina, onde um jovem instrutor de ténis, Chris, estabelece laços de amizade com um dos seus alunos, Tom, oriundo de uma família abastada, e ao fim de algum tempo casa com a irmã deste, Chloe.
No entanto, a rápida ascensão social do protagonista é ameaçada quando este se envolve com a noiva do seu amigo, Nola, forçando-o a escolher entre a prosperidade financeira ou a consumação de um amor obsessivo e descontrolado.

Longe de territórios ligados à comédia, que vincaram grande parte dos últimos filmes de Allen, “Match Point”, apesar de conter ainda fugazes momentos de humor, é um assombroso e denso drama como o cineasta já não fazia há muito, alicerçado em questões como a ambição, os contrastes sociais e culturais, a hipocrisia, a lealdade e, sobretudo, a sorte, que influencia, e muito, o percurso do ambíguo e inquietante protagonista.

Desta vez, a acção decorre não na habitual Manhattan mas em Londres, contudo ninguém diria que Allen nunca tinha filmado a capital inglesa, tendo em conta a familiaridade com que foca os espaços e transmite as atmosferas da cidade, caracterizando-os de forma envolvente e credível.

Elegante e apurada, a realização consegue seguir com espontaneidade as personagens, brilhando tanto nas sequências de grandes planos como quando evidencia a austeridade e imponência da maioria dos espaços, perfeitos para acompanhar uma história que se vai tornando cada vez mais fria, angustiante e desolada, esgravatando recantos obscuros e escondidos da alma humana.

Mordaz e pessimista como raras vezes o foi, Allen proporciona aqui escassos episódios leves que permitam tornar o ar mais respirável perante uma claustrofobia emocional tão carregada.
Se “Match Point” exibe alguns paralelismos com outro filme do realizador, “Crimes e Escapadelas”, está desprovido do tempero burlesco que essa película ainda continha, mergulhando por completo na complexidade psicológica da personagem principal, não evitando uma perspectiva negra, trágica e cruel e esculpindo um prodigioso exercício de suspense.

A inteligência e subtileza da escrita e da realização não produziriam só por si este efeito se o filme não contasse, também, com uma sólida direcção de actores, já esperada nas obras do cineasta e que aqui volta a confirmar-se.
Jonathan-Rhys Meyers consegue gerar as doses de magnetismo e imprevisibilidade que a sua personagem requer, compondo um protagonista carismático; Scarlett Johansson apresenta um dos seus melhores desempenhos na pele da ambivalente e sensual Nola, destilando glamour e vulnerabilidade; e os secundários britânicos emanam um rigor e profissionalismo irrepreensíveis, com destaque para Matthew Goode e Emily Mortimer, no papel dos dois irmãos.

Profundo, absorvente, tenso e milimetricamente delineado, “Match Point” afirma-se não só como o melhor filme de Woody Allen em largos anos, mas também como uma das grandes experiências cinematográficas de 2006, indispensável para qualquer amante da sétima arte. A experienciar sem reservas.

E O VEREDICTO É: 4/5 - MUITO BOM

quinta-feira, março 16, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "UMA HISTÓRIA DE VIOLÊNCIA"

Hoje as salas de cinema nacionais recebem um dos filmes alvo de de maior aclamação internacional (e provavelmente nacional) dos últimos tempos, "Uma História de Violência" (A History of Violence), a nova obra de David Cronenberg.
Com um elenco onde constam nomes respeitáveis como Viggo Mortensen, Maria Bello, Ed Harris ou William Hurt, este drama parte de um duplo homicídio originado por um homem (Mortensen) que mata dois assaltantes em legítima defesa, numa pequena localidade dos EUA, tornando-se num herói local.
Este é o mote daquele que muitos consideram o melhor filme dos últimos anos do emblemático cineasta canadiano, e é uma proposta a conferir a partir desta semana.

Outras estreias:

"A Condessa Russa", de James Ivory
"A Pantera Cor de Rosa", de Shawn Levy
"Cavaleiros dos Céus", de Gérard Pirès
"Identidade Kubrick", de Brian W. Cook
"Tsotsi", de Gavin Hood

terça-feira, março 14, 2006

NUNCA BRINQUES COM ESTRANHOS

Um dos filmes mais elogiados do Festival de Sundance de 2005, “Wolf Creek”, a estreia na realização do australiano Greg McLean, é uma interessante proposta que consegue injectar alguma energia ao ultimamente pouco profícuo cinema de terror, não tanto através de novas fórmulas mas reutilizando com eficácia modelos que já se revelaram eficazes noutras obras.

O ponto de partida é algo indistinto, pois o filme segue a viagem de três jovens amigos – um australiano e duas inglesas – que visitam um mítico Parque Nacional na Austrália, Wolf Creek, local onde se situa uma gigantesca cratera gerada pela queda de um meteoro.

Aquela que seria aparentemente uma pacata jornada adquire, aos poucos, outros contornos, à medida que os problemas do trio se intensificam. Uma avaria no automóvel ao anoitecer inquieta o grupo, mas quando um excêntrico habitante da zona, Mick, se dispõe a ajudar, essa questão parece estar quase resolvida. Contudo, é a partir desse momento que os três jovens experienciam uma noite aterradora que os marcará inexoravelmente.

Recorrendo a poucos meios, “Wolf Creek” possui, felizmente, imaginação suficiente para compensar as limitações do seu low-budget, distanciando-se de muitos dos subprodutos que apresentam experiências do terror protagonizadas por adolescentes.
Ao contrário da maioria destes, a película de McClean contém personagens verosímeis e palpáveis, que aparentam ser pessoas reais e não estereótipos e cujas relações entre si não se alicerçam em piadas estupidificantes nem numa sobrecarga de libido.

A espontaneidade e convicção dos três jovens actores – Ben Mitchell, Liz Hunter e Kristie Earl -, praticamente desconhecidos, é determinante, embora a estranha presença de John Jarratt na pele do macabro e sinistro vilão seja o desempenho mais memorável, compondo uma figura assustadora e imprevisível, com um sentido de humor cruel e sanguinário.

Apesar de “Wolf Creek” demorar algum tempo a entrar em domínios de gore e terror, desde cedo vai construindo uma intrigante atmosfera onde o perigo se vai insinuando, escondendo-se entre cenários com tanto de inóspito como de impressionante, que a câmara (digital e ao ombro) de McLean regista e modela de forma bastante segura, recorrendo a uma fotografia seca e repleta de contastes cromáticos e a uma montagem capaz de reflectir o medo e a sensação de isolamento sofridos pelos três amigos na sua descida aos infernos.

O tom contemplativo de cerca da primeira metade do filme dá lugar a ambientes caracterizados por um desespero visceral, onde o espectador se arrisca a perder o fôlego, à semelhança dos protagonistas, dada a crueza de algumas sequências, que McLean filma de forma dura e despojada, com uma vertente escorreita que se coaduna com o seu espírito de série-B.

Sufocante e aterrador, “Wolf Creek” é uma muito estimável experiência cinematográfica que, mesmo não explorando novos territórios – “O Projecto Blair Witch” ou “Massacre do Texas”, por exemplo, já fizeram isto antes -, é uma sólida mistura de road e slasher movie e uma proposta apropriada para quem gostar de ter suores frios e sentir os nervos à flor da pele numa sala de cinema. Bela primeira-obra, e um filme de culto instantâneo.
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

BLINKS & LINKS

Obrigado aos responsáveis pelos blogs Blog Blog Blog, Horto e O Sítio da Saudade por me blinkarem :)

segunda-feira, março 13, 2006

EFEITO PLACEBO?

Após uma semana de pousio (que pareceu ter durado um mês, mas isso é assunto para outro post), este blog retoma agora a actividade, e o primeiro destaque vai para o novo álbum dos Placebo, "Meds", que é editado hoje.

Infelizmente, o quinto disco de originais do grupo de Brian Molko não está à altura de nenhum dos anteriores, reforçando a repetição de fórmulas que "Sleeping With Ghosts" já evidenciava. "Because I Want You", o primeiro single, é prova disso, apresentando uns Placebo iguais a si próprios, embora canções como "One of a Kind" ou "In the Cold Light of Morning" exibam alguma frescura e vitalidade.

Outro dos bons momentos do álbum é "Song to Say Goodbye", cujo vídeo roda ali no canto superior direito e é dirigido por Michel Gondry, o realizador do brilhante "O Despertar da Mente". A escolha do cineasta prova que a banda sabe requisitar boas companhias - VV, dos The Kills e Michael Stipe, dos R.E.M., participam no disco -, mas isso não é suficiente para disfarçar o sabor a mais do mesmo, que não chega a ser desagradável mas também não é especialmente cativante.

A propósito do lançamento de "Meds", a revista francesa Les Inrockuptibles apresentou a primeira de uma série de edições especiais sobre nomes marcantes do rock e afins, dedicada aos Placebo, que inclui 100 páginas de entrevistas, biografias e críticas. Um excelente documento, altamente recomendado para fãs e curiosos, elaborado por uma publicação que sabe do que fala e que apoiou a banda desde o início.

sábado, março 04, 2006

AU REVOIR!

Daqui a cerca de hora e meia parto para o aeroporto, e de lá para Paris, onde estarei durante os próximos dias, por isso para além de mim este blog também estará de férias, que acho que ambos merecemos. Até breve, espero :)

sexta-feira, março 03, 2006

QUARTETOS FANTÁSTICOS

Quatro empregos que já tive na vida:
- gestor de conteúdos;
- como estudante, estagiário ou trabalhos não remunerados não contam, é só mesmo o de cima...

Quatro filmes que posso ver vezes sem conta:
- "Trainspotting", de Danny Boyle;
- "Estranhos Prazeres", de Katryn Bigelow;
- "Clube de Combate", de David Fincher;
- "X-Men 2", de Bryan Singer.

Quatro discos que posso ouvir vezes sem conta:
- "Garbage", dos Garbage;
- "Black Market Music", dos Placebo;
- "Give Up", dos Postal Service;
- "Stories From the City, Stories From the Sea", da PJ Harvey.

Quatro sítios onde vivi:
- Amadora;
- Seixal;
- Sesimbra (mais ou menos...);
- é só...

Quatro séries televisivas que não perco:
- "Sete Palmos de Terra" (que já voltava...);
- "Donas de Casa Desesperadas";
- "Os Simpsons";
- "Family Guy".

Quatro sítios onde estive de férias:
- Londres;
- Roma;
- Barcelona;
- Porto Seguro;

Quatro sítios onde gostaria de estar agora:
- estou bem aqui.

Quatro dos meus pratos preferidos:
- bacalhau com natas;
- feijoada à transmontana;
- bacalhau à braz;
- bifinhos de porco com cogumelos.

Quatro Websites que visito diariamente:
- SAPO;
- Cine7;
- A Minha Vida por uma Patanisca;
- Fórum Sons.

quinta-feira, março 02, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "BOA NOITE, E BOA SORTE"

A segunda longa-metragem realizada por George Clooney chega esta semana a salas nacionais e baseia-se num caso real para oferecer uma perspectiva sobre os meandros do jornalismo televisivo dos anos 50, baseando-se nos atritos entre um pivot da CBS, Edward R. Murrow, e o Sendador Joseph McCarthy, colocando em jogo a liberdade de expressão e a manipulação dos media.
Nomeado para seis Óscares, "Boa Noite, e Boa Sorte" (Good Night, and Good Luck) conta com um respeitável elenco - David Strathairn, George Clooney, Robert Downey Jr. ou Patricia Clarkson são alguns dos actores - e revela-se uma das mais sugestivas estreias recentes, a confirmar a partir de hoje.

Outras estreias:

"Coisa Ruim", de Tiago Guedes e Frederico Serra
"Doce Tortura", de Kim Ji-woon
"North Country - Terra Fria", de Niki Caro