quinta-feira, março 23, 2006

A SANGUE FRIO

Impondo-se, ao longo da década de 90, como um dos melhores actores norte-americanos dos últimos anos, Philip Seymour Hoffman nunca havia conhecido um mediatismo à altura do seu talento, sendo quase sempre relegado para papéis secundários.
Embora tenha trabalhado em muitos projectos interessantes que lhe proporcionaram algum prestígio – colaborou em obras de Todd Solondz, Paul Thomas Anderson ou Spike Lee -, faltava-lhe umaque lhe possibilitasse uma aclamação mais generalizada.

“Capote”, a segunda experiência de Bennett Miller na realização (a primeira foi o elogiado, mas discreto documentário “The Cruise”, de 1998), afirma-se como o filme capaz de o elevar a um novo patamar de reconhecimento, garantindo-lhe o Óscar de Melhor Actor e compensando-o por mais de uma década onde recebeu menos atenção do que merecia.

Hoffman encarna aqui o controverso e influente escritor Truman Capote, numa película que foge ao formato de biopic mais tradicional ao optar por se debruçar apenas sobre uma fase específica da sua vida, centrando-se em 1959, período em que o autor se inspirou no homicídio de uma família de uma pequena povoação do Kansas para criar uma das suas obras incontornáveis, “A Sangue Frio”, considerado o primeiro romance de não-ficção.

O filme apresenta a relação singular que nasce entre o escritor e Perry Smith, um dos dois assassinos responsáveis pelo massacre, focando a empatia natural e desconcertante gerada entre dois underdogs que, embora muito diferentes à superfície, parecem partilhar uma esfera de angústia, isolamento e marginalização.
Em paralelo, “Capote” narra também a forma como o protagonista utilizou essa proximidade para a criação do seu livro (ainda que inicialmente o plano fosse criar apenas um artigo de revista), vertente que obriga o espectador a questionar-se acerca da moral da personagem, originando cenas de uma considerável ambivalência emocional, pouco habituais num biopic oriundo de Hollywood (que raramente colocam em causa a figura em questão).

Philip Seymour Hoffman consegue compor com solidez um retrato do escritor, mesclando vulnerabilidade, arrogância, humor ácido, egocentrismo e subtileza, expondo ainda os trejeitos da fala e dos movimentos corporais associados a Truman Capote sem cair na caricatura.

Infelizmente, o filme não é tão bem sucedido como o desempenho do actor principal, apoiando-se neste em demasia e não sendo tão convincente na maioria das suas restantes componentes. É certo que há aqui material de base para fazer desta uma obra superior, em particular a relação do criador com a arte e a dilaceração emocional que daí poderá advir, contudo “Capote” é prejudicado por uma narrativa irregular que nem sempre distingue o essencial do acessório, oferecendo múltiplas sequências repetitivas e dispensáveis.


O argumento é interessante, mas peca por não explorar a fundo a carga dramática que pontuais momentos são capazes de evidenciar, desaproveitando, de resto, algumas das personagens secundárias, como os dois criminosos ou a escritora Harper Lee, amiga de infância do protagonista.

“Capote” vê-se, assim, reduzido ao estigma de “filme de actor”, alicerçando-se na prestação de Hoffman que, mesmo não retirando o mérito ao eficaz trabalho de realização de Bennett Miller ou aos desempenhos de todo o elenco - Clifton Collins Jr. interpreta um credível Perry Smith, já Catherine Keener está apenas competente, longe do seu melhor – sobrepõe-se a estes e será aquilo pelo qual esta película curiosa, embora não raras vezes gélida e monótona, será lembrada.
E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

terça-feira, março 21, 2006

MULHERES APAIXONADAS

Em 2002, a primeira longa-metragem (ou segunda, se se contar com o telefilme “Annie”) de Rob Marshall, “Chicago”, foi a grande vencedora da edição dos Óscares, arrecadando seis estatuetas douradas, entre as quais a de Melhor Filme.

Alguns viram na película uma irreverência e energia capazes de dinamizar o renascimento do musical, género que, salvo raras excepções (de que “Moulin Rouge”, de Baz Luhrmann”, até foi um exemplo mais conseguido), já não possui o fulgor de outros tempos, mas “Chicago” não era mais do que um produto razoavelmente confeccionado, com alguns atributos técnicos embora desprovido de intensidade emocional.

“Memórias de uma Gueixa” (Memoirs of a Geisha), o novo filme do realizador, apesar de globalmente superior à sobrevalorizada obra antecessora, evidencia semelhantes qualidades e defeitos, tentando seduzir por um excesso de pompa e circunstância mas voltando a apresentar uma carga dramática gerida de forma desequilibrada.

Adaptação do livro homónimo de Arthur Golden, a película narra o percurso de uma jovem que é preparada desde criança para se tornar numa gueixa, sendo enraizada nas múltiplas práticas que a farão agradar aos homens, contudo ao longo desse processo de aprendizagem a protagonista terá de lidar não só com a reduzida autonomia a que a sua condição feminina a sujeita (a acção decorre no Japão de vésperas da II Guerra Mundial) mas também com as investidas de uma colega rival, que a atormenta na infância, adolescência e idade adulta.

Drama orientado por uma perspectiva feminina, “Memórias de uma Gueixa” é uma história vincada por sacrifícios, traições, desafios e amores aparentemente impossíveis, e se o filme pedia para ser um conto larger than life Rob Marshall nem sempre consegue fazer passar essa vertente, seguindo um registo demasiado formulaico e a espaços mesmo folhetinesco.

Apesar dos consideráveis valores de produção, que lhe concedem alguns dos seus pontos fortes – como o guarda roupa e cenários, que ajudam a uma coesa recriação da época -, da envolvente fotografia de Dion Beebe ou da sólida banda-sonora de John Williams, a película peca por um academismo preguiçoso que imprime poucas surpresas à narrativa e por uma construção de personagens que fica aquém do potencial, onde a complexidade dos conflitos humanos é subexplorada, resultado de figuras maioritariamente bidimensionais.

O trio de actrizes em ascensão constituído por Zhang Ziyi, Gong Li e Michelle Yeoh ajuda a que as três personagens femininas mais relevantes consigam ser mais do que belas e impenetráveis bonecas de porcelana, contudo a espontaneidade das suas prestações nem sempre é suficiente para fazer esquecer o aspecto demasiado fabricado de “Memórias de uma Gueixa”.

Rob Marshall gera um filme interessante de seguir e que nunca se torna cansativo (as quase duas horas e meia de duração não saturam), mas existia aqui substrato para uma obra de maior fôlego, mais misteriosa e absorvente, que mergulhasse a fundo nas singularidades destas intrigantes mulheres.
“Memórias de uma Gueixa”, ainda que marcado por sequências visualmente estimulantes e por um argumento competente, fica-se pela superfície, e mesmo que o balanço acabe por ser positivo isso está longe de se tornar memorável.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

segunda-feira, março 20, 2006

UM ANO DE FILMES

Pois é, já passou um ano desde que o Cine7 reuniu uma equipa de amantes do cinema que, semana após semana, destacam muitas das suas obras, percorrendo várias épocas, géneros, realizadores e origens geográficas, num projecto idealizado pelO Emissor, que me convidou a aderir há uns largos meses.
Mesmo sendo suspeito, uma vez que sou da casa, recomendo a passagem, e até ofereço um bilhete de cinema a quem conseguir identificar todos os filmes da imagem acima :P

LET'S TALK

O abecedário da noite, sugerido pelos Soulwax, já passa ali no canto superior direito. A consumir com precaução ;)

domingo, março 19, 2006

THE SHOW MUST GO ON

Embora raramente proporcione obras excepcionais, o britânico Stephen Frears também quase nunca gera filmes desprovidos interesse, possuindo uma filmografia marcada pela versatilidade de géneros e pela considerável competência com que trabalha cada um deles.

“Mrs. Henderson” (Mrs. Henderson Presents), a sua proposta mais recente, é mais uma prova da sua eficácia, baseando-se em factos verídicos para contar uma história ambientada na Londres de finais dos anos 30, em particular na compra de um teatro por parte de uma abastada viúva de meia idade, que o torna num dos centros culturais mais emblemáticos da cidade.

Misto de musical, drama e comédia, o filme ancora-se na relação que se estabelece entre Laura Henderson, a viúva aristocrata, e o especialista por si contratado para dirigir o recém-adquirido teatro, Vivian Van Damm.
Conjugando empatia e conflito, a parceria profissional da dupla protagonista acaba por resultar e leva a que a partilha de ideias e o empenho mútuo torne o Teatro Windmill num local fervilhante e muito concorrido, fruto dos seus espectáculos musicais inovadores e ousados (e vincados por um polémico recurso a cenas de nudismo).

O rigor dos cenários e do guarda-roupa, de um profissionalismo inatacável, não esconde o apoio da BBC, uma referência na produção de filmes de época, que a par das atmosferas marcadas por traços do realismo britânico (já habitualmente desenvolvidas por Frears) contribui para que “Mrs. Henderson” apresente uma reconstituição credível do período em que decorre.

A consistência da película deve também muito ao elenco, pois tanto os actores principais como os secundários brilham e conquistam. Judi Dench faz da protagonista uma personagem irresistível, com uma deliciosa excentricidade e energia, e Bob Hoskins, embora menos irreverente, encarna um sólido e carismático Mr. Van Damm.
Do leque de secundários, Kelly Reilly volta a insinuar-se como uma das mais talentosas jovens actrizes britânicas (depois de ter dado nas vistas em “A Residência Espanhola”, “As Bonecas Russas” ou “Orgulho e Preconceito”), interpretando a bailarina Maureen de forma hábil e comovente.

Tal como na maioria das suas obras, Frears desenvolve aqui um satisfatório equilíbrio de humor e carga dramática, iniciando “Mrs. Henderson” de forma leve mas inserindo-lhe depois uma progressiva tensão, ou não fosse boa parte da segunda metade do filme assombrada pelos conflitos da Segunda Guerra Mundial.
Esta combinação nunca soa a falso e o duo protagonista abandona, aos poucos, os traços caricaturais mais imediatos para revelar a sua espessura emocional, nunca deixando, no entanto, de encetar divertidíssimos diálogos que expõem a fricção constante dos seus temperamentos.

Com condimentos destes, a que pode adicionar-se o cativante genérico inicial, bastante apropriado à época em questão, ou o cuidado trabalho de fotografia, não surpreende que “Mrs. Henderson” resulte num entretenimento conseguido e aprazível, que mesmo sem acrescentar muito ao Cinema é um título recomendável e merecedor de atenções.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

sábado, março 18, 2006

TEREMOS SEMPRE PARIS

Irish pub, pombos, pão com queijo e suminho de laranja, frio e chuva, "follow me, please!", kebabs memoráveis, Tonyyyy!!, Jim Morrison, "ainda temos mais dias...", croissants, mais frio e chuva, Parreirinhas, meia dose de escargots, "Sacrée Coeur!!!", o ataque das aves, sono no Louvre, Queen, almofada-fantasma, guias de cemitério, "everybody needs somebody", filme do escravo, chapéuzinhos brancos, shots, beijos ao Oscar Wilde, perseguição ao Pinóquio, desaparecidos no museu, free water, ainda mais frio e chuva, sopa de queijo, "o nosso amor é verde" ao acordar, Placebo, fertelitée, Sandrine, crepes, 4000 fotografias, ... et voilá...

sexta-feira, março 17, 2006

O JOGO

Embora seja um dos mais respeitados realizadores norte-americanos das últimas décadas, Woody Allen tem gerado, nos tempos mais recentes, uma série de filmes que, apesar de possuírem algumas inegáveis virtudes, não contêm a inspiração de outrora e limitam-se a enveredar por uma segura, mas pouco estimulante, lógica de piloto automático.
Este aspecto levou a que muitos encarassem já o cineasta como alguém que dificilmente voltaria a surpreender, mas eis que surgiu “Match Point” e, de um momento para o outro, Allen voltou a gozar de uma aclamação quase unânime de que já não era alvo há muito.

Felizmente, os múltiplos elogios dirigidos à película revelam-se justíssimos, pois “Match Point” impõe-se de facto, e sem dificuldades, como a melhor obra do realizador em largos anos, sobrepondo-se a títulos medianos como “A Maldição do Escorpião de Jade” ou “Melinda e Melinda”.

A metáfora do ténis conduz este jogo de manipulações, traições e enganos ambientado em domínios da alta sociedade londrina, onde um jovem instrutor de ténis, Chris, estabelece laços de amizade com um dos seus alunos, Tom, oriundo de uma família abastada, e ao fim de algum tempo casa com a irmã deste, Chloe.
No entanto, a rápida ascensão social do protagonista é ameaçada quando este se envolve com a noiva do seu amigo, Nola, forçando-o a escolher entre a prosperidade financeira ou a consumação de um amor obsessivo e descontrolado.

Longe de territórios ligados à comédia, que vincaram grande parte dos últimos filmes de Allen, “Match Point”, apesar de conter ainda fugazes momentos de humor, é um assombroso e denso drama como o cineasta já não fazia há muito, alicerçado em questões como a ambição, os contrastes sociais e culturais, a hipocrisia, a lealdade e, sobretudo, a sorte, que influencia, e muito, o percurso do ambíguo e inquietante protagonista.

Desta vez, a acção decorre não na habitual Manhattan mas em Londres, contudo ninguém diria que Allen nunca tinha filmado a capital inglesa, tendo em conta a familiaridade com que foca os espaços e transmite as atmosferas da cidade, caracterizando-os de forma envolvente e credível.

Elegante e apurada, a realização consegue seguir com espontaneidade as personagens, brilhando tanto nas sequências de grandes planos como quando evidencia a austeridade e imponência da maioria dos espaços, perfeitos para acompanhar uma história que se vai tornando cada vez mais fria, angustiante e desolada, esgravatando recantos obscuros e escondidos da alma humana.

Mordaz e pessimista como raras vezes o foi, Allen proporciona aqui escassos episódios leves que permitam tornar o ar mais respirável perante uma claustrofobia emocional tão carregada.
Se “Match Point” exibe alguns paralelismos com outro filme do realizador, “Crimes e Escapadelas”, está desprovido do tempero burlesco que essa película ainda continha, mergulhando por completo na complexidade psicológica da personagem principal, não evitando uma perspectiva negra, trágica e cruel e esculpindo um prodigioso exercício de suspense.

A inteligência e subtileza da escrita e da realização não produziriam só por si este efeito se o filme não contasse, também, com uma sólida direcção de actores, já esperada nas obras do cineasta e que aqui volta a confirmar-se.
Jonathan-Rhys Meyers consegue gerar as doses de magnetismo e imprevisibilidade que a sua personagem requer, compondo um protagonista carismático; Scarlett Johansson apresenta um dos seus melhores desempenhos na pele da ambivalente e sensual Nola, destilando glamour e vulnerabilidade; e os secundários britânicos emanam um rigor e profissionalismo irrepreensíveis, com destaque para Matthew Goode e Emily Mortimer, no papel dos dois irmãos.

Profundo, absorvente, tenso e milimetricamente delineado, “Match Point” afirma-se não só como o melhor filme de Woody Allen em largos anos, mas também como uma das grandes experiências cinematográficas de 2006, indispensável para qualquer amante da sétima arte. A experienciar sem reservas.

E O VEREDICTO É: 4/5 - MUITO BOM

quinta-feira, março 16, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "UMA HISTÓRIA DE VIOLÊNCIA"

Hoje as salas de cinema nacionais recebem um dos filmes alvo de de maior aclamação internacional (e provavelmente nacional) dos últimos tempos, "Uma História de Violência" (A History of Violence), a nova obra de David Cronenberg.
Com um elenco onde constam nomes respeitáveis como Viggo Mortensen, Maria Bello, Ed Harris ou William Hurt, este drama parte de um duplo homicídio originado por um homem (Mortensen) que mata dois assaltantes em legítima defesa, numa pequena localidade dos EUA, tornando-se num herói local.
Este é o mote daquele que muitos consideram o melhor filme dos últimos anos do emblemático cineasta canadiano, e é uma proposta a conferir a partir desta semana.

Outras estreias:

"A Condessa Russa", de James Ivory
"A Pantera Cor de Rosa", de Shawn Levy
"Cavaleiros dos Céus", de Gérard Pirès
"Identidade Kubrick", de Brian W. Cook
"Tsotsi", de Gavin Hood

terça-feira, março 14, 2006

NUNCA BRINQUES COM ESTRANHOS

Um dos filmes mais elogiados do Festival de Sundance de 2005, “Wolf Creek”, a estreia na realização do australiano Greg McLean, é uma interessante proposta que consegue injectar alguma energia ao ultimamente pouco profícuo cinema de terror, não tanto através de novas fórmulas mas reutilizando com eficácia modelos que já se revelaram eficazes noutras obras.

O ponto de partida é algo indistinto, pois o filme segue a viagem de três jovens amigos – um australiano e duas inglesas – que visitam um mítico Parque Nacional na Austrália, Wolf Creek, local onde se situa uma gigantesca cratera gerada pela queda de um meteoro.

Aquela que seria aparentemente uma pacata jornada adquire, aos poucos, outros contornos, à medida que os problemas do trio se intensificam. Uma avaria no automóvel ao anoitecer inquieta o grupo, mas quando um excêntrico habitante da zona, Mick, se dispõe a ajudar, essa questão parece estar quase resolvida. Contudo, é a partir desse momento que os três jovens experienciam uma noite aterradora que os marcará inexoravelmente.

Recorrendo a poucos meios, “Wolf Creek” possui, felizmente, imaginação suficiente para compensar as limitações do seu low-budget, distanciando-se de muitos dos subprodutos que apresentam experiências do terror protagonizadas por adolescentes.
Ao contrário da maioria destes, a película de McClean contém personagens verosímeis e palpáveis, que aparentam ser pessoas reais e não estereótipos e cujas relações entre si não se alicerçam em piadas estupidificantes nem numa sobrecarga de libido.

A espontaneidade e convicção dos três jovens actores – Ben Mitchell, Liz Hunter e Kristie Earl -, praticamente desconhecidos, é determinante, embora a estranha presença de John Jarratt na pele do macabro e sinistro vilão seja o desempenho mais memorável, compondo uma figura assustadora e imprevisível, com um sentido de humor cruel e sanguinário.

Apesar de “Wolf Creek” demorar algum tempo a entrar em domínios de gore e terror, desde cedo vai construindo uma intrigante atmosfera onde o perigo se vai insinuando, escondendo-se entre cenários com tanto de inóspito como de impressionante, que a câmara (digital e ao ombro) de McLean regista e modela de forma bastante segura, recorrendo a uma fotografia seca e repleta de contastes cromáticos e a uma montagem capaz de reflectir o medo e a sensação de isolamento sofridos pelos três amigos na sua descida aos infernos.

O tom contemplativo de cerca da primeira metade do filme dá lugar a ambientes caracterizados por um desespero visceral, onde o espectador se arrisca a perder o fôlego, à semelhança dos protagonistas, dada a crueza de algumas sequências, que McLean filma de forma dura e despojada, com uma vertente escorreita que se coaduna com o seu espírito de série-B.

Sufocante e aterrador, “Wolf Creek” é uma muito estimável experiência cinematográfica que, mesmo não explorando novos territórios – “O Projecto Blair Witch” ou “Massacre do Texas”, por exemplo, já fizeram isto antes -, é uma sólida mistura de road e slasher movie e uma proposta apropriada para quem gostar de ter suores frios e sentir os nervos à flor da pele numa sala de cinema. Bela primeira-obra, e um filme de culto instantâneo.
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

BLINKS & LINKS

Obrigado aos responsáveis pelos blogs Blog Blog Blog, Horto e O Sítio da Saudade por me blinkarem :)

segunda-feira, março 13, 2006

EFEITO PLACEBO?

Após uma semana de pousio (que pareceu ter durado um mês, mas isso é assunto para outro post), este blog retoma agora a actividade, e o primeiro destaque vai para o novo álbum dos Placebo, "Meds", que é editado hoje.

Infelizmente, o quinto disco de originais do grupo de Brian Molko não está à altura de nenhum dos anteriores, reforçando a repetição de fórmulas que "Sleeping With Ghosts" já evidenciava. "Because I Want You", o primeiro single, é prova disso, apresentando uns Placebo iguais a si próprios, embora canções como "One of a Kind" ou "In the Cold Light of Morning" exibam alguma frescura e vitalidade.

Outro dos bons momentos do álbum é "Song to Say Goodbye", cujo vídeo roda ali no canto superior direito e é dirigido por Michel Gondry, o realizador do brilhante "O Despertar da Mente". A escolha do cineasta prova que a banda sabe requisitar boas companhias - VV, dos The Kills e Michael Stipe, dos R.E.M., participam no disco -, mas isso não é suficiente para disfarçar o sabor a mais do mesmo, que não chega a ser desagradável mas também não é especialmente cativante.

A propósito do lançamento de "Meds", a revista francesa Les Inrockuptibles apresentou a primeira de uma série de edições especiais sobre nomes marcantes do rock e afins, dedicada aos Placebo, que inclui 100 páginas de entrevistas, biografias e críticas. Um excelente documento, altamente recomendado para fãs e curiosos, elaborado por uma publicação que sabe do que fala e que apoiou a banda desde o início.

sábado, março 04, 2006

AU REVOIR!

Daqui a cerca de hora e meia parto para o aeroporto, e de lá para Paris, onde estarei durante os próximos dias, por isso para além de mim este blog também estará de férias, que acho que ambos merecemos. Até breve, espero :)

sexta-feira, março 03, 2006

QUARTETOS FANTÁSTICOS

Quatro empregos que já tive na vida:
- gestor de conteúdos;
- como estudante, estagiário ou trabalhos não remunerados não contam, é só mesmo o de cima...

Quatro filmes que posso ver vezes sem conta:
- "Trainspotting", de Danny Boyle;
- "Estranhos Prazeres", de Katryn Bigelow;
- "Clube de Combate", de David Fincher;
- "X-Men 2", de Bryan Singer.

Quatro discos que posso ouvir vezes sem conta:
- "Garbage", dos Garbage;
- "Black Market Music", dos Placebo;
- "Give Up", dos Postal Service;
- "Stories From the City, Stories From the Sea", da PJ Harvey.

Quatro sítios onde vivi:
- Amadora;
- Seixal;
- Sesimbra (mais ou menos...);
- é só...

Quatro séries televisivas que não perco:
- "Sete Palmos de Terra" (que já voltava...);
- "Donas de Casa Desesperadas";
- "Os Simpsons";
- "Family Guy".

Quatro sítios onde estive de férias:
- Londres;
- Roma;
- Barcelona;
- Porto Seguro;

Quatro sítios onde gostaria de estar agora:
- estou bem aqui.

Quatro dos meus pratos preferidos:
- bacalhau com natas;
- feijoada à transmontana;
- bacalhau à braz;
- bifinhos de porco com cogumelos.

Quatro Websites que visito diariamente:
- SAPO;
- Cine7;
- A Minha Vida por uma Patanisca;
- Fórum Sons.

quinta-feira, março 02, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "BOA NOITE, E BOA SORTE"

A segunda longa-metragem realizada por George Clooney chega esta semana a salas nacionais e baseia-se num caso real para oferecer uma perspectiva sobre os meandros do jornalismo televisivo dos anos 50, baseando-se nos atritos entre um pivot da CBS, Edward R. Murrow, e o Sendador Joseph McCarthy, colocando em jogo a liberdade de expressão e a manipulação dos media.
Nomeado para seis Óscares, "Boa Noite, e Boa Sorte" (Good Night, and Good Luck) conta com um respeitável elenco - David Strathairn, George Clooney, Robert Downey Jr. ou Patricia Clarkson são alguns dos actores - e revela-se uma das mais sugestivas estreias recentes, a confirmar a partir de hoje.

Outras estreias:

"Coisa Ruim", de Tiago Guedes e Frederico Serra
"Doce Tortura", de Kim Ji-woon
"North Country - Terra Fria", de Niki Caro

terça-feira, fevereiro 28, 2006

SEGREDOS E MENTIRAS

Habitualmente marcados por questões como a obsessão, a mentira, o desejo ou a culpa, a maioria dos filmes de Atom Egoyan carrega também uma estranha e inquietante aura que ajudou a distingui-lo enquanto cineasta singular e com um olhar próprio bem vincado em títulos como o soturno e brumoso “Exotica” ou o simultaneamente brilhante e angustiante “O Futuro Radioso”.

“Onde Está a Verdade?” (Where the Truth Lies), a sua película mais recente, evidencia também essas características ao seguir a investigação de uma ambiciosa jornalista dos anos 70 que tenta averiguar o que levou a que uma jovem aparecesse morta no quarto de hotel de dois famosos entertainers televisivos, incidente ocorrido duas décadas antes. No entanto, a busca da protagonista é atravessada por peripécias não menos problemáticas do que aquelas que conduziram à misteriosa morte que investiga, originando um intrincado jogo de enganos e ilusões condimentado por sexo, chantagem e manipulação.

Recolhendo influências do film noir, Egoyan propõe aqui um exercício onde, mais uma vez, destroça as máscaras das personagens e não hesita em expor o melhor e, sobretudo, o pior da sua humanidade, elemento sempre presente ao longo da teia de acontecimentos que envolve e atormenta o trio interpretado por Alison Lohman, Kevin Bacon e Colin Firth.
Porém, em “Onde Está a Verdade?” essa característica do seu cinema não se revela tão estimulante como noutros casos, uma vez que a abordagem é demasiado superficial, mais confusa do que complexa, e embora o argumento tente apresentar alguma vitalidade ao recorrer a diversas reviravoltas, estas tornam-se cansativas e algo forçadas, assim como a sobrecarga de flashbacks.

A própria atmosfera não é tão onírica nem enigmática quanto se esperaria em Egoyan, pois embora o realizador consiga proporcionar ambientes frios e clínicos (a banda-sonora ajuda), apropriados à história que pretende contar, estes nem sempre contêm a vibrante carga de sedução e visceralidade emocional necessária.

O resultado é, assim, mais estereotipado do que desafiante, interessante de seguir mas pouco memorável, e a ambiguidade que “Onde Está a Verdade?” ainda consegue criar deve-se sobretudo aos sólidos desempenhos de Firth e (principalmente) Bacon, cujas personagens carregam o filme às costas, do que à densidade do argumento ou à mestria da realização.

Um filme funcional e eficaz, mas incapaz de explorar de forma tridimensional a face mais negra, sórdida e arrepiante da esfera humana, algo que o cineasta já provou ser capaz de fazer. É caso para perguntar onde está Egoyan...

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

O BOM REBELDE

Alvo de consideráveis elogios em alguns festivais internacionais por onde passou – como o de Berlim ou o de Cannes, que premiaram o actor principal, Lou Taylor Pucci -, “Chupa no Dedo” (Thumbsucker), a primeira longa-metragem de Mike Mills, realizador com experiência na área dos videoclips, tornou-se num dos maiores hypes do cinema independente americano recente, pelo que a sua estreia se aguardava com algum interesse.

Nos últimos anos, “Uma Pequena Vingança”, de Jacob Aaron Estes, ou “Donnie Darko”, de Richard Kelly, destacaram-se como brilhantes primeiras-obras indie que exibiam já grande maturidade e personalidade, mas “Chupa no Dedo”, apesar de uma certa onda de aclamação crítica, não está, infelizmente, à altura desses exemplos, o que não implica que seja uma película sem interesse.

O filme parte de uma premissa curiosa, focando um jovem de dezassete anos que tem desde a infância o vício de chuchar no polegar, hábito frequentemente repreendido pelos pais e ridicularizado pelo irmão mais novo.
Tímido, recatado e inseguro, Justin decide então resolver essa questão de vez e abandonar essa prática, e aos poucos vai (re)descobrindo a confiança em si próprio, adquirindo maior pragmatismo e evidenciando uma até então escondida capacidade de expressão, que se torna bastante útil em debates escolares.

Ainda que assente num ponto de partida algo invulgar, o argumento de “Chupa no Dedo” desenvolve-se depois de forma que, se não chega a ser descaradamente convencional, está pelo menos bastante próxima de muitas obras do cinema alternativo norte-americano, apostando no mesmo tipo de personagens, situações, ambientes e conflitos. Isso não chega para fazer deste um mau filme, longe disso, mas também não lhe permite que passe de um trabalho modesto e correcto que poderia ter ido bem mais longe.

Mike Mills acerta quase sempre, sem no entanto surpreender. A abordagem da solidão, adolescência, identidade, frustração, união familiar e, em última instância, das dificuldades e contingências das relações humanas, é feita com sobriedade e sentido de observação suficientes, mas sem rasgos. É tudo demasiado polido, e embora existam algumas zonas de sombra a complexidade emocional das personagens é só parcialmente explorada.

“Chupa no Dedo” é uma dramedy mediana, tem bons momentos de humor e de drama mas sem sempre bem conciliados, sofrendo ainda de um ritmo irregular e de uma narrativa pouco arriscada.
Felizmente, os actores são quase todos convincentes e elevam um pouco o material a que estão sujeitos, desde uma intrigante Tilda Swinton a um amargurado e vulnerável Vincent D’Onofrio, passando ainda por um surpreendente Vince Vaughn. Lou Taylor Pucci, no papel principal, não destoa, apesar do seu desempenho e personagem se assemelharem muito aos dos protagonistas de “Quase Famosos”, de Cameron Crowe, ou de “Conta-me Histórias”, de Todd Solondz. Já Keanu Reeves, não obstante o esforço, compõe um dentista zen sem grande chama.

O tom sereno e contemplativo de grande parte do filme quase faz esquecer que Mills provém de domínios dos videoclips, pois não se encontram aqui truques visuais especialmente arrojados, no entanto saúda-se o bom gosto na escolha da banda-sonora, com canções dos Polyphonic Spree e Elliott Smith.

“Chupa no Dedo”, mesmo desequilibrado e não trazendo nada de novo ao cinema indie – pelo contrário, há por aqui excessivos paralelismos com obras de Terry Zwigoff, Burr Steers ou Gus Van Sant (da fase menos ousada), entre outros -, é uma opção a considerar para quem quiser conhecer (mais) uma boa história de outcasts, losers e inadaptados. Tem, portanto, o suficiente para tornar Mills num realizador a merecer alguma atenção, e quem sabe se o seu próximo filme não será, de facto, brilhante…

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

SUNDAY NIGHT (ou MOMENTO ESTÚPIDO DA SEMANA)

Bem, a hipótese deste pedido ser bem sucedido deve ser de 1%, mas de qualquer maneira faço-o nem que seja como descargo de consciência... O que acontece é que ontem a Sunday Morning entregou-me finalmente o CD que tinha feito para a troca na última Blog Party (na foto abaixo), mas no meio da pressa para ir apanhar o comboio esqueci-me dele na sala de cinema, neste caso a do Monumental onde decorreu a sessão de "Capote" das 22h deste domingo.

Se por algum improvável acaso do destino alguém que leia estas linhas tiver conhecimento de alguém que o tenha encontrado, agradeço que o comunique. E desculpa, Sunday, quando me lembrei saí do metro e voltei à sala uns 10 minutos depois, mas já não havia sinal do CD :S

sábado, fevereiro 25, 2006

A propósito do destaque recente a "Witching Hour", terceiro álbum de originais dos Ladytron, o vídeo que inaugura a nova secção de videoclips é o de um dos singles desse disco, "Destroy Everything You Touch", que é também uma das canções mais viciantes que a banda já criou. Parece-me apropriado para acompanhar estes dias frios e chuvosos, e entretanto aguardam-se sugestões para outras canções ou artistas a rodar por aqui...

O QUE AS LETRAS DIZEM...

Cá vai um post fútil, apropriado a um dia pouco produtivo, com um teste sobre o "significado" do nome que anda a circular por aí (eu vi-o aqui):

G-Love is something you deeply believe in.
O-You love foreplay.
N-you are one of the best in bed
C-your wild and crazy
A-damn good in bed
L-You have a nice ass ;-)
O-You love foreplay.

S- people think ur hott and sexy
A-damn good in bed

Para quem quiser desvendar o "significado" do nome:

A-damn good in bed
B-you have a nice chest
C- your wild and crazy
D- you have trouble trusting people
E-your popular
F-People totally adore you
G-Love is something you deeply believe in.
H-You have very good personality and looks.
I- People love u for who u are.
J-Everyone loves you.
K- You like to try new things
L-You have a nice ass ;-)
M-success comes easily to you.
N-you are one of the best in bed
O-You love foreplay.
P-You are popular with all types of people.
Q-You are a hypocrite.
R-You are very hot and sexy!
S- people think ur hott and sexy
T-you areVERY WARM HEARTD
U-You are really chill.
V-You are not judgemental.
W-You are very broad minded.
X- You never let ppl tell u wat to do
Y- you are one of the hardest niggas alive
Z-You're Super cool.

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

COMPETÊNCIA PARA AMAR

Um filme baseado num romance de Jane Austen dirigido por um realizador oriundo da televisão não será, à partida, das propostas cinematográficas mais estimulantes, pois traz à memória associações com as muitas séries produzidas regularmente pela BBC, quase sempre competentes mas também algo indistintas e, sobretudo, raramente expondo inventivas ideias de cinema.

“Orgulho e Preconceito” (Pride & Prejudice), a primeira longa-metragem de Joe Wright, destaca-se, contudo, como uma obra refrescante que contorna, em parte, essa tentadora consideração inicial, apresentando méritos suficientes para se sobrepor à insipidez que caracteriza múltiplos objectos aparentados. Não que este filme de época seja especialmente inovador, mas a sua fluidez e leveza imprimem-lhe uma aura contagiante, e embora seja cinema de fácil digestão é elaborado com sensibilidade e alguma imaginação.

Mais próxima da comédia romântica do que do drama, esta adaptação do livro homónimo da autora inglesa narra o percurso dos orgulhosos e obstinados jovens Elisabeth Bennet e Mr. Darcy, apoiando-se em incisivas e por vezes hilariantes trocas de oportunos diálogos, numa realização e narrativa envolventes - bem distantes da monótona rigidez e exagerada teatralidade de inúmeros filmes de época britânicos (a sequência do baile é de antologia) - e num trabalho de reconstituição temporal (de meados do século XIX) que ganha ao fugir ao decorativismo pomposo e à opulência barroca.

Os actores são outro ponto forte, todos credíveis e talentosos, sendo o mais surpreendente o facto dos que se saem melhor nem serem tanto os veteranos já com créditos firmados – Brenda Blethyn cumpre mas abusa do registo histriónico, Judi Dench e Donald Sutherland são seguros porém iguais a si próprios -, mas os mais jovens e inexperientes, em particular o par central, composto por uma desenvolta Keira Knightley (“Colete de Forças” já sugeria e agora confirma-se que afinal há aqui uma actriz) e por um circunspecto e complexo Matthew MacFadyen, não esquecendo uma manipuladora e insinuante Kelly Reilly (em fase de ascensão).

Esta eficaz conjugação de elementos compensa ocasionais deslizes, evidentes no carácter demasiado caricatural de certas personagens secundárias (as da família da protagonista são o caso mais gritante), na previsibilidade do argumento ou em algum simplismo dramático, que não permite profundos mergulhos nas convulsões das relações humanas. Como um todo, no entanto, “Orgulho e Preconceito” é consistente e revela bom-gosto, impondo-se como uma muito aprazível proposta cinematográfica a descobrir.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "TRANSAMERICA"

Mais uma quinta-feira e, como tem sido habitual nas últimas semanas, mais filmes nomeados para os Óscares a chegar a salas nacionais (três, neste caso). O destaque vai para "Transamerica", a primeira longa-metragem de Duncan Tucker e um dos filmes independentes norte-americanos mais elogiados de 2005.
Este drama familiar alternativo centra-se em Bree, uma transexual que procura fazer uma operação de mudança de sexo, e no seu filho adolescente cuja existência lhe era desconhecida. A protagonista, nomeada para o Óscar de Melhor Actriz Principal, é Felicity Huffman, mais conhecida como a carismática Lynette, uma das personagens centrais da série "Donas de Casa Desesperadas". Isto promete...

Outras estreias:

"Capote", de Bennett Miller
"Mrs. Henderson Presents", de Stephen Frears
"O Céu Gira", de Mercedes Álvarez

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

O FEITIÇO PERFEITO

O primeiro tema, “High Rise”, dominado por inesperados ambientes abrasivos resultantes do recurso às guitarras, sugere desde logo que os Ladytron de “Witching Hour” sofreram mudanças.
Essa primeira impressão confirma-se ao escutar os restantes temas do terceiro disco de originais do quarteto de Liverpool, que se nos registos anteriores provou ser uma das forças mais inventivas do electropop actual continua agora a surpreender ao apresentar ligações mais vincadas ao rock, não implicando isso um abandono da sonoridade que os distinguiu, mas uma melhoria desta.

“604”, de 2001, foi um dos bons álbuns de estreia do início do novo milénio, caracterizado por uma apelativa e complexa pop digital, a que “Light & Magic” deu continuidade um ano depois, sobrepondo as sombras à luz mas conservando as melodias viciantes.

“Witching Hour” é um ilustríssimo sucessor desses dois promissores testemunhos, destacando-se como o disco mais consistente dos Ladytron. A banda já havia provado ser exímia na construção de rebuçados pop perfeitos e agridoces, que apesar de acessíveis e directos não se esgotavam ao fim de algumas audições. Do emblemático “Playgirl” a “He Took Her To a Movie”, passando por “The Reason Why” ou “Flicking Your Switch”, boas propostas não faltavam. Faltavam, sim, álbuns que mantivessem sempre a intensidade desses grandes momentos, algo que nem “604” (prejudicado por diversos interlúdios) nem “Light & Magic” (demasiado longo e com composição irregular) conseguiram proporcionar. “Witching Hour” lima essas arestas e revela-se um portentoso exemplo de uma banda em ebulição criativa ao manifestar solidez do início ao fim, oferecendo um apetitoso cardápio de canções.

Mais atmosférico e menos clínico do que os seus antecessores, é um disco já não tão próximo de referências da pop electrónica, como os Human League ou Kraftwerk, mas antes de nomes associados ao indie rock e shoegaze, estabelecendo elos fortes com os Lush ou os Curve.

A melancolia continua a ser o sentimento dominante, mas agora a postura das vocalistas Helen Marnie e Mira Aroyo é menos apática e distante, gerando episódios de maior dramatismo e introspecção. Lamenta-se que Aroyo esteja menos presente do que o habitual, cedendo o protagonismo a Marnie, mas a cantora búlgara consegue, ainda assim, triunfar e inquietar no soberbo “Fighting in Built Up Areas”, uma assombrosa canção elíptica onde a banda integra influências industriais, aliando-as a um irresistível apelo dançável com um efeito devastador.

“Sugar” é um momento não menos intenso, dominado por sonoridades mais agressivas do que as dos singles anteriores dos Ladytron, com um muito conseguido cruzamento entre as repetitivas frases cantadas por Helen Marnie e o turbilhão visceral das guitarras, que a espaços quase sugere o efeito da imponente wall of sound de uns My Bloody Valentine.
“Beauty*2”, diametralmente oposta, mais pausada e contemplativa, expõe uma tensão emocional raras vezes emanada pelo grupo, edificando um dos momentos mais amargurados do disco. A amargura, assim como a solidão e o isolamento, também se encontram presentes em “AMTV”, embora este seja um tema mais interligado a domínios electroclash (com que muitos quiseram rotular a banda, mas que se evidencia como uma catalogação redutora).

Pontuado por diversas canções de elevado calibre, “Witching Hour” contém, no entanto, duas praticamente insuperáveis: “Destroy Everything You Touch”, um magnífico exercício electropop e sério candidato a melhor single de sempre do grupo; e “International Dateline”, um invernoso, claustrofóbico e angustiante lamento em forma de música, ambos com uma genial configuração e manipulação de texturas que pedem múltiplas audições.

Absorvente, onírico e constituído por vibrantes brumas e melodias, “Witching Hour” é não só o melhor disco dos Ladytron mas também um dos mais estimulantes de 2005, um concentrado da melhor pop que consolida o jovem quarteto como um dos nomes vitais do cenário musical actual. Indispensável.

E O VEREDICTO É: 4/5 - MUITO BOM

terça-feira, fevereiro 21, 2006

MAIS DO MESMO

Há dois anos, “Saw – Enigma Mortal” constituiu, para alguns, uma interessante revisitação do thriller urbano, ancorado num serial killer que se dedicava a massacrar as suas vítimas com apurados requintes de malvadez e sadismo.
O filme de James Wan tornou-se numa obra de culto e chegou a ser comparado com “Sete Pecados Mortais”, pelo tipo de atmosferas e referências, embora o seu nível de inspiração e consistência ficasse muito aquém do que tornou a película de David Fincher num título de recorte superior.

“Saw II – A Experiência do Medo” é a obrigatória sequela, motivada decerto pelos relativos bons resultados financeiros do primeiro filme, e não se distancia muito do episódio anterior, centrando-se noutras personagens mas seguindo pressupostos semelhantes.

Desta vez, o vilão Jigsaw é encontrado pela polícia mas isso não implica que os seus jogos de manipulação e violência terminem, pois este revela a Eric Matthews, um dos agentes, que encarcerou o seu filho e outras sete pessoas numa casa, situação que se torna mais problemática quando os prisioneiros dispõem de poucas horas de vida. Jigsaw é o único que poderá salvá-los e impedir que uma toxina os mate, mas para isso Matthews deverá ouvi-lo e obedecer-lhe.

Propondo mais um exercício de suspense, “Saw II – A Experiência do Medo” pouco inova face ao filme antecessor, possuindo os mesmos defeitos e (escassas) virtudes. Darren Lynn Bousman, que ocupa agora a função de realizador, não se revela muito imaginativo, apresentando um trabalho de câmara demasiado colado ao de James Wan, mas ainda menos conseguido, abusando de uma efervescência visual que poderia ser absorvente se não se perdesse numa montagem epiléptica que confunde dinamismo com tensão.

O facto do argumento colocar oito personagens num espaço fechado a lutar pela sobrevivência não é especialmente inovador e já foi feito de forma mais convincente em “Cubo”, de Vincenzo Natali. A ideia poderia voltar a resultar aqui, caso a maioria dos prisioneiros não fossem tão descartáveis e mal interpretados, e embora haja alguns twists razoáveis é ridículo que nenhuma das vítimas consiga resolver o enigma inicial à partida.

Apesar da fraca direcção de actores, Tobin Bell consegue fazer de Jigsaw um vilão com algum interesse e o jovem Eric Knudsen, no papel de filho do detective, é um dos poucos prisioneiros que gera alguma empatia, ainda que não cheguem a ser personagens com grande espessura dramática.
Também interessantes são as discretas ligações com os acontecimentos que decorreram no episódio anterior, que originam uma das melhores surpresas de “Saw II – A Experiência do Medo”, mas nada isto chega para que este seja um filme especialmente marcante ou recomendável.
Quem não aprovou o primeiro dificilmente se deixará envolver por este, enquanto que os restantes poderão dar-lhe o benefício da dúvida, mas pouco encontrarão de novo, entusiasmante ou memorável por aqui.

E O VEREDICTO É: 2/5 - RAZOÁVEL

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

ACÇÃO EM LOS ANGELES

Apesar de só agora se estrear na realização, Shane Black não é propriamente um novato em domínios da sétima arte, pois escreveu os argumentos de alguns filmes de acção como “A Fúria do Último Escuteiro”, “O Último Grande Herói” ou os da célebre saga “Arma Mortífera”.

“Kiss Kiss, Bang Bang”, se por um lado não se afasta muito de territórios em que Black se destacou – situando-se entre o policial e a comédia -, também não se limita a ser mais do mesmo, uma vez que é um buddy movie que se desenvolve com uma refrescante criatividade, pegando nas convenções do género e satirizando-as.

Divertido e empolgante, o filme assenta nas peripécias de Harry Lockhart, um ladrão que acidentalmente vai a um casting e acaba por ser escolhido para protagonizar um filme de Hollywood. No entanto, de forma a estar pronto para o papel, Harry terá de aprender como agir como um detective privado, condição que o obriga a acompanhar as missões de Gay Perry, um dos agentes mais reputados e exímios do ramo.

Oferecendo várias sequências hilariantes baseadas em equívocos e mirabolantes coincidências, “Kiss Kiss, Bang Bang” é um conseguido entretenimento muito acima dos banais e formulaicos filmes de acção que chegam frequentemente de território norte-americano.

O mérito é não só de Shane Black, que proporciona um escorreito trabalho de argumento e realização (por vezes com grandes ideias visuais, como no cativante genérico ou na concepção de envolventes atmosferas nocturnas), mas também de Val Kilmer, na pele do frio e austero detective gay, e de Robert Downey Jr., que encarna o azarado mas bem-intencionado protagonista. Este último, sobretudo, é especialmente seguro, comprovando que é um grande actor de comédia, capaz de construir uma personagem carismática e que facilmente estabelece empatia com o espectador, mesmo com o mais sisudo.

Embora o filme seja acessível e ligeiro, opta mais pelo recurso a um humor bem delineado e com sentido de oportunidade do que a gags de gosto duvidoso (ainda que também os haja), alicerçando-se num elenco com química, espontaneidade e noção de timing cómico.

O desenvolvimento das personagens é tão esquemático e limitado como nas películas que “Kiss Kiss, Bang Bang” satiriza e as resoluções dos mistérios que marcam a narrativa são mais forçadas do que credíveis, mas esses aspectos pouco importam quando o filme funciona enquanto um bem confeccionado exercício de estilo desconstrutor de clichés, com um ritmo imparável e uma boa disposição contagiante. Quem procurar mais do isso entrará na sessão errada, mas dificilmente dará por perdida uma agradável hora e meia.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "WALK THE LINE"

Em dia de estreias cinematográficas, chega a salas nacionais um dos filmes mais nomeados para os Óscares (em cinco categorias), "Walk the Line".
No entanto, o número de nomeações nem é o mais apelativo da película, mas antes o facto de se tratar de uma perspectiva sobre parte da vida de Johnny Cash e da relação do mítico cantor com June Carter.
O duo protagonista, constituído por Joaquin Phoenix e Reese Witherspoon, é bastante promissor (e foi premiado nos Globos de Ouro) e o realizador de serviço, James Mangold, já provou, com "Vida Interrompida", por exemplo, ser capaz de contar bem uma história (embora "Kate e Leopold" e "Identidade Misteriosa" não abonem muito a favor da sua filmografia). Boa ou má (em breve saberei), é a minha aposta da semana.

Outras estreias:

"Aeon Flux", de Karyn Kusama
"Bambi 2 - O Grande Príncipe da Floresta", de Brian Pimental
"Os Três Enterros de um Homem", de Tommy Lee Jones
"Syriana", de Stephen Gaghan
"Vai e Vive", de Radu Mihaileanu

domingo, fevereiro 12, 2006

MUSIC MAKES THE PEOPLE COME TOGETHER

Depois da primeira bloggers' joint, há cerca de um mês, a segunda voltou a incluir jantar de bloggers seguido de migração para a sessão dos Electrodomésticos no Incógnito, na passada sexta-feira.
Para além da maioria dos elementos presentes no primeiro encontro - os tais que criaram o blog das pataniscas - ter comparecido novamente, registaram-se algumas caras novas, casos do JAP e Monalisa, do Joaomiguel, do Ricardo e amigo desconhecido e do par.

Desta vez, o jantar contou com um atractivo especial: a troca de discos entre grande parte dos participantes, que incluiam temas seleccionados pelos próprios. Aquele que talvez tenha sido o mais disputado da noite, criado pela Sunday Morning, veio parar-me às mãos, e o que eu levei está agora com a Myself (estima-o bem!).

Já no Incógnito, a ementa sonora contou com a habitual dose de música temperada por (muitas) electrónicas e (poucas) guitarras, com alguns momentos muito bons a cargo dos Editors (grande "Munich"!), Placebo ("One of a Kind", um dos picos do novo álbum), Franz Ferdinand (num episódio out of control), The Prodigy, Interpol, Ladytron ou Primal Scream. Entretanto apareceram por lá mais bloggers (é verdade, andam em todo o lado...) como o Life Chaser e o Randomsailor, que conheci após mais de um ano de troca regular de posts, ou o Nuno e o Mr. S..

Se a primeira joint correu bem, acho que a segunda não correu pior, por isso presumo que para o próximo mês há mais. Caso haja algum blogger interessado em aderir, é favor dirigir-se aqui.

Este é o alinhamento do cd que levei e que pertence agora à Myself, "Indie Rock n' Roll for You":

Black Rebel Motorcycle Club - "Love Burns"
Soulwax - "Conversation Intercom"
Le Tigre - "Tres Bien"
The Dandy Warhols - "Everyone is Totally Insane"
Alpinestars feat. Brian Molko - "Carbon Kid"
The Killers - "Smile Like You Mean It"
Curve - "Die Like a Dog"
Nine Inch Nails - "Dead Souls"
Rammstein - "Stripped"
Depeche Mode - "John the Revelator"
Placebo - "Bigmouth Strikes Again"
Bloc Party - "Pioneers"
Sneaker Pimps - "Loretta Young Silks"
Garbage - "Use Me"
Goldfrapp - "Deep Honey"
The Postal Service - "Clark Gable"
Arcade Fire - "Rebellion (Lies)"
Flunk - "Blue Monday"

A RAIZ DO MEDO

Marcado por filmes desinspirados e preguiçosos, o terror é um dos géneros cinematográficos que já viu melhores dias do que os dos últimos anos. Ainda há algumas boas obras a surgir pontualmente, como “A Cabana do Medo”, de Eli Roth, ou “Terra dos Mortos”, de George Romero, mas por cada uma dessas há quatro ou cinco de qualidade duvidosa, na linha de “The Grudge – A Maldição” ou “Águas Passadas”.

“A Descida” (The Descent), segunda película do britânico Neil Marshall, embora parta de uma premissa que de original não terá muito, consegue injectar vitalidade ao género e tornar-se numa das grandes surpresas recentes, comprovando que ainda há quem tenha boas ideias e igual mestria para as executar.

O filme assenta numa viagem empreendida por um grupo de seis jovens mulheres que, de forma a fugirem às preocupações e dilemas do quotidiano, decidem apostar numa aventura radical explorando uma gruta situada num local agreste e isolado.
Se ao início o ambiente é pacífico e despreocupado, vincado por conversas divertidas e pelo reforço dos laços de amizade que as unem há vários anos, essa situação sofre alterações à medida que o grupo vai avançando na sua aventura, deparando-se com perigos inesperados que suscitam conflitos pessoais, agravados quando as protagonistas descobrem que, afinal, não estão sozinhas na sua expedição.

“A Descida” é uma viagem atípica e memorável, não só para as personagens, que sofrem um verdadeiro teste à sua coragem e capacidade de improviso, mas também para o espectador, que se arrisca a ter suores frios e a sentir o seu ritmo cardíaco a acelerar à medida que vai seguindo as arrepiantes peripécias das seis amigas.

Para que este worst case scenario funcione as capacidades do realizador são determinantes, e Marshall revela estar à altura para a missão, oferecendo sequências de considerável eficácia.
O uso da iluminação é particularmente engenhoso, pois ajuda a distinguir as personagens no meio da escuridão claustrofóbica e permite gerar alguns saborosos momentos de suspense (com generosas doses de gore), mostrando só aquilo que é necessário e jogando com as expectativas do espectador.

Essa subtileza manifesta-se também na banda-sonora e fotografia, capazes de modelar uma sufocante atmosfera plena de intensidade, proporcionando um concentrado de medo e desespero em tudo distinto à pirotecnia histérica de muitos produtos em que o terror plastificado norte-americano tem sido pródigo.
Mesmo quando as protagonistas se deparam com os assustadores habitantes do subsolo, a plausibilidade e realismo d’”A Descida” mantêm-se intactos, e é refrescante ver personagens que não se tornam em heróis de acção para acentuar a espectacularidade ou a vibração do filme (não há por aqui Laras Crofts, como de resto uma mulheres ironiza).

O esforço das actrizes também é notório e reforça a intrigante aura do filme, e apesar de nem todas as protagonistas serem tridimensionais estão acima das figuras descartáveis que caracterizam muitas películas do género.
A relação das duas aventureiras mais proeminentes é especialmente interessante, não limitando “A Descida” a domínios do terror mas valorizando-o com uma vital carga dramática, construindo um conflito que se torna inquietante até ao final.

Não é fácil criar um filme que desperte uma sensação de enclausuramento e pânico tão fortes, mas Neil Marshall é bem sucedido e edifica aqui uma asfixiante experiência sensorial, a que mesmo os mais destemidos dificilmente permanecerão indiferentes. Não é um clássico, mas está bem acima da média.
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

VERSION 2.0

Não, este post não é sobre os Garbage, mas para informar que o segundo episódio da saga da patanisca realiza-se hoje à noite e que, à semelhança do primeiro, inclui jantar de bloggers e sessão electrodoméstica no Incógnito.

Entretanto, a imagem da Shirley Manson aparece aqui porque:
a) é mais apelativa (julgo eu) do que a foto de uma patanisca (ou talvez não, para alguns patanisqueiros ferrenhos, e eu sei que os há...)
b) fiz um CD para troca com alguns dos participantes e sim, inclui Garbage

E não, infelizmente ainda não é desta que a Shirley estará presente (mas tem pena).

A friday night fever segue dentro de momentos...

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN"

Aquele que é já um dos filmes incontornáveis deste ano chega hoje a salas nacionais, e se estiver à altura dos inúmeros elogios e distinções de que tem sido alvo será certamente um dos melhores.
Nomeado para oito Óscares, "O Segredo de Brokeback Mountain" (Brokeback Mountain) apresenta a interligação de dois jovens cowboys, o ponto de partida para Ang Lee oferecer um retrato das relações humanas e dos elementos que as influenciam e limitam ou, dito de uma forma provavelmente mais simplista, o primeiro western gay, que é como muitos o catalogam.
Ainda não vi o Jake Gyllenhaal num mau filme, e parece-me que ainda não será desta, espero...

Outras estreias:

"A Caixa Negra", de Richard Berry
"Aposta de Risco", de D.J. Caruso
"Dizem por Aí...", de Rob Reiner
"Pecado Capital", de Mikael Håfström, o realizador de "Cruel"
"Tiros Certeiros", de Charley Stadler

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

depeche mode tour 2005/2006

BOA MÚSICA PARA AS MASSAS

Se na década de 90 os Depeche Mode atravessaram uma fase marcada por várias convulsões internas, que quase levaram à sua dissolução (como a saída de Alan Wilder ou os problemas pessoais de Dave Gahan), o grupo também se debateu com alguns problemas durante a entrada para o novo milénio, pois “Exciter”, o seu álbum de 2001, teve uma recepção algo distante tanto por parte do público como da crítica, sendo um dos seus trabalhos menos inspirados.

Esse factor não fez parar os elementos da banda, já que tanto Dave Gahan como Martin Gore editaram discos a solo (ainda que não muito convincentes) e o tríptico “Remixes 81-84” ofereceu remisturas de canções dos Depeche Mode por parte de nomes como os Goldfrapp, Air ou Kruder & Dorfmeister.
Nada disto impediu, no entanto, que um novo registo de originais do trio fosse esperado com expectativa, e mesmo que “Playing the Angel”, de 2005, não esteja à altura das mais optimistas, não deixa de ser um regresso em forma.

Evidenciando um grupo igual a si próprio, o álbum reúne as atmosferas densas e enigmáticas em que os Depeche Mode se especializaram ao longo dos anos, e apesar de “Precious”, o primeiro single, apostar numa electropop discreta e apaziguada, a maioria dos restantes temas estão contaminados por consideráveis doses de negrume e aspereza.

“A Pain That I’m Used To”, a faixa de abertura, contém um jogo de guitarras e electrónicas industriais simultaneamente rude e melódico (próximo dos domínios mais pop de “With Teeth”, dos Nine Inch Nails), e a canção seguinte, a superlativa “John the Revelator”, é ainda mais portentosa e viciante, recuperando as influências gospel de “Songs of Faith and Devotion”, mesclando-as com um travo digital e esculpindo um dos melhores momentos do disco.

Infelizmente, grande parte dos temas de “Playing the Angel” não são do calibre destes dois, pois embora sejam geralmente agradáveis, enveredam por territórios mais acomodados e sem grande ousadia.
Episódios etéreos, contemplativos e excessivamente longos como “I Want it All” ou “The Darkest Star” são disso exemplo, assim como “Macro” e “Damaged People”, onde Martin Gore ganha protagonismo vocal mas fica abaixo do carisma e carga dramática de Dave Gahan (que, mais uma vez, comprova ser um dos grandes vocalistas das últimas três décadas).

“Nothing’s Impossible” e “Lilian”, menos midtempo, optam por uma conseguida claustrofobia gótica, salientando-se como os dois grandes momentos da segunda metade do álbum, e é pena que a banda nem sempre mergulhe neste tipo de ambientes, pois revelam-se os mais satisfatórios (tendo gerado magníficos resultados em “Ultra”, que é ainda o último grande disco do grupo).

Adulto, sofisticado e introspectivo, “Playing the Angel” não acrescenta muito ao que os Depeche Mode já fizeram, mas atesta que o trio ainda é capaz de proporcionar um bom conjunto de canções, o que não deixa de ser notável tendo em conta a sua longevidade, algo de que nem todos os projectos de hoje que surgiram nos anos 80 (ou mesmo 90) se podem orgulhar.
A devoção pode, então, continuar, e espera-se que não termine tão cedo.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

O MUNDO AO CONTRÁRIO

Centrado em questões polémicas e actuais, “O Pesadelo de Darwin” (Darwin’s Nightmare) é a visão do realizador austríaco Hubert Sauper sobre as consequências de uma experiência científica decorrida durante a década de sessenta, no Lago Victoria, na Tanzânia, onde foi inserida uma nova espécie de peixe, a perca do Nilo, que se alimentou das outras já existentes e provocou alterações consideráveis no ecossistema local.

No entanto, aquilo que por um lado foi um desastre ecológico, mostrou-se comercialmente rentável, pois a perca do Nilo disseminou-se rapidamente e foi alvo de grande procura externa, sendo exportada para os mercados europeu e japonês.
Embora este negócio seja lucrativo, não gerou uma melhoria das condições de vida da maioria da população circundante, entregue a recursos escassos e a perspectivas de vida limitadas, e é o reflexo desta mudança nos habitantes da área que “O Pesadelo de Darwin” explora, não poupando ataques ferozes ao lado mais dúbio da globalização.

Sauper tem aqui um tema rico e pertinente, mas o seu documentário nem sempre o trabalha de forma interessante. O realizador proporciona alguns bons retratos do dia-a-dia de pobreza dos pescadores e prostitutas (as profissões mais recorrentes e viáveis), assim como das inquietações das crianças de rua, captando alguns testemunhos impressionantes mas nunca seguindo a via fácil de um sensacionalismo estridente e manipulador (o resultado é assim mais subtil do que se fosse criado por um Michael Moore).
O problema é que “O Pesadelo de Darwin” nem sempre entrelaça os seus elementos de forma conseguida, contendo muitos momentos dispensáveis e repetitivos, gerando algum marasmo na narrativa.

É um projecto com intenções meritórias, na medida em que coloca questões acerca do conteúdo das cargas dos aviões que transportam, alegadamente, mantimentos para a Tanzânia, por exemplo, ou por contrastar comissários económicos, pilotos ou industriais com problemáticas incómodas e de difícil resposta.
Embora estes aspectos sejam interessantes, não têm um enquadramento formal à altura, já que Sauper tem escassas ideias de cinema e o seu estilo nunca se afasta de um modelo televisivo e indistinto, caindo na rotina.

Mesmo que “O Pesadelo de Darwin” seja um objecto cinematograficamente pobre, consegue oferecer algumas cenas marcantes, fruto da incisiva investigação do realizador, como as que focam a forma como a perca do Nilo é tratada e armazenada (e cujas condições de higiene, segundo o que Sauper mostra, são bastante diferentes das que um comissário europeu defende), as peripécias perturbantes protagonizadas pelos miúdos de rua (sobretudo o episódio em torno da lata de arroz) ou os comentários de um residente da área acerca da guerra.

Infelizmente, momentos destes são apenas pontuais, porque durante grande parte a sua duração “O Pesadelo de Darwin” fica aquém do documentário que poderia ter sido.
Presume-se, então, que as múltiplas distinções de que o filme tem sido alvo – nomeação para os Óscares, Prémio de Melhor Documentário nos Prémios Europeus de Cinema, assim como troféus nos festivais de Veneza, Paris ou Chicago – sejam principalmente devido à ideia-base, porque a concretização, essa, deixa a desejar, o que num caso destes é forte pena.
E O VEREDICTO É: 2/5 - RAZOÁVEL

domingo, fevereiro 05, 2006

O QUE FOI VOLTA A SER

Uma das mais recentes bandas nova-iorquinas a revisitar sonoridades pós-punk/ new-wave – à semelhança dos The Strokes ou Interpol, entre outros -, os The Bravery apresentam, no seu álbum de estreia homónimo, onze canções vincadas por um rock dançável, por vezes musculado, onde as guitarras, sintetizadores e teclados convivem com igual protagonismo.

A receita não é nova, e se já foi implementada em inícios da década de 80 tem sido reutilizada por uma série de novos grupos que reclamam influências desse período enquanto base para novas explorações musicais que, na maior parte dos casos, não deixam de exibir traços do presente.

Depeche Mode, Duran Duran, The Cure ou New Order são algumas as referências mais óbvias que emanam de “The Bravery”, em canções onde o indie rock se cruza com a electropop, mas o disco deste quinteto nova-iorquino exibe também semelhanças com as aventuras recentes dos The Faint, The Strokes ou The Killers.

O resultado é assim derivativo, mas não deixa de ser eficaz, com refrões fortes e apelativos assentes em melodias bem trabalhadas. A herança do passado manifesta-se até na voz de Sam Endicott, que tanto se aproxima da de Robert Smith como da de Simon LeBon, evidenciando ainda paralelismos com a de Julian Casablancas.

Mais imediato do que denso ou profundo, “The Bravery” perde em personalidade aquilo que ganha em sensibilidade pop, contendo uma dose de canções suficientemente enérgicas e contagiantes como o single “An Honest Mistake”, uma convidativa porta de entrada para o álbum, o envolvente “Give In” ou o igualmente portentoso “Unconditional”.
No entanto, os temas funcionam melhor isoladamente do que em conjunto, pois falta ao disco alguma heterogeneidade, o que leva a que muitas das suas canções sigam a mesma estrutura e recorram a soluções melódicas demasiado similares, expondo alguma redundância.

Não sendo uma banda particularmente inventiva, os The Bravery conseguem, contudo, proporcionar uma estreia convincente, longe da genialidade mas com alguns momentos irresistíveis. Um disco agradável, embora não muito recomendável para quem é avesso à pop mais lúdica e despretensiosa.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

ICH MÖCHTE ZUM KINO GEHEN

Começou no passado dia 1 e decorre até dia 17 no cinema King (dias 1-8) e no Goethe-Institut (dias 13-17, com entrada livre) o 3º Festival de Cinema Alemão, cujo programa inclui filmes recentes e inéditos em salas nacionais, mostrando que há películas refrescantes a descobrir para além de "Adeus Lenine!", "Os Edukadores" ou "Sophie Scholl - Os Últimos Dias", alguns dos exemplos mais mediáticos dessa cinematografia.

Se os títulos em exibição estiverem ao nível dos de dia 2, então trata-se de uma proposta bastante recomendável, uma vez que tanto "Kebab Connection" (uma divertidíssima mistura de kung fu + Romeu e Julieta + choque de culturas + drama sobre o crescimento) como "Alone" (um interessante retrato da solidão e da dilaceração emocional, ainda que não tão perturbante como o também alemão "The Forest for the Trees") foram agradáveis surpresas.

A programação completa do festival está aqui e parece promissora, assim como me parece que vou ter uma overdose cinematográfica (no bom sentido) nos próximos dias...

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

ESTREIA DA SEMANA: "MUNIQUE"

Nomeado para cinco Óscares (confesso que não esperava tanto destaque), "Munique" (Munich) dá continuidade à carga negra que os filmes de Spielberg têm apresentado ultimamente (basta relembrar o brutal "Guerra dos Mundos") e centra-se no ataque terrorista decorrido durante os Jogos Olímpicos de 1972, quando onze atletas israelitas foram mortos por um grupo extremista palestiniano.
Este é o ponto de partida para uma reflexão acerca de um dos conflitos mais controversos e mediáticos dos dias de hoje, e que por isso tornou o filme num objecto polémico mas certamente interessante (espero).

Outras estreias:

"Na Escuridão", de John Fawcett
"O Leopardo", de Luchino Visconti
"Rent", de Chris Columbus
"Wolf Creek", de Greg McLean