quinta-feira, outubro 20, 2005

UM PERCURSO COM CURVAS NEGRAS

Uma das bandas mais injustamente esquecidas dos anos 90, os britânicos Curve anunciaram a sua dissolução em 2005, ditando assim o fim o ponto final de uma discografia influente e sempre interessante.

Criadores de sonoridades eclécticas que conciliavam indie rock, shoegazer, gótico, dream pop, industrial e trip-hop, o duo constituído por Dean Garcia (instrumentista) e Toni Halliday (vocalista) foi um dos percursores na fusão da abrasividade das guitarras e de hipnóticas texturas electrónicas, experiências efectuadas em quatro álbuns e outros quatro EPs entre 1990 e 2001.

Recolhendo os melhores condimentos de domínios dos Eurythmics (com quem Dean Garcia colaborou), Cocteau Twins, Siouxsie and the Banshees ou The Cure, os Curve surpreenderam pela inebriante carga atmosférica das suas composições, conseguindo equilibrar visceralidade e elegância que se aliavam naturalmente à sedutora, ambivalente, viciante e peculiar voz de Toni Halliday, decididamente uma das maiores divas indie de sempre.

Situando-se numa esfera próxima dos Lush, Cranes ou My Bloody Valentine (com os quais partilhavam a wall of sound, ou seja, efervescentes camadas sonoras geradas por guitarras que quase sugeriam blocos de som), a dupla gerou registos marcantes como o já histórico álbum de estreia, “Doppelganger”, de 1992, ou os quatro EPs que o antecederam, implementando uma sonoridade própria que teve um seguimento seguro nos trabalhos seguintes.

Abrindo caminho para territórios que seriam trilhados por nomes das electrónicas negras como os Garbage (a comparação é inevitável), Sneaker Pimps, Lamb, Whale, 12 Rounds ou mesmo os Ladytron (confira-se em “The Witching Hour”), os ambientes complexos e encantatórios das composições dos Curve proporcionam estranhas melodias nem sempre imediatamente acessíveis mas com uma intrigante aura de claustrofobia e tensão, que “The Way of Curve” documenta eficazmente.

“The Way of Curve”, CD duplo editado em 2004, recupera alguns dos momentos mais marcantes da banda, apresentando singles e outros temas dos álbuns no primeiro disco e oferecendo lados-B e raridades no segundo.

O primeiro disco da compilação inclui episódios determinantes como “Ten Little Girls” (soberba combinação de rock electrónico com spoken word), “Die Like a Dog” (um portento de intensidade, com uma muito conseguida gestão de atmosferas), “Horror Head” (com alguns dos mais envolventes suspiros de Halliday, uma das melhores canções da banda) ou “Fait Accompli” (um dos temas mais emblemáticos de “Doppelganger”), da fase inicial da dupla.

Infelizmente, o alinhamento privilegia mais os dois últimos discos da banda, interessantes, mas não tão refrescantes quanto os antecessores. Lamenta-se especialmente a ausência de mais canções de “Cuckoo” (como “Crystal” ou “Unreadable Communication”). Ainda assim, temas como “Chinese Burn” (Prodigy meets Nine Inch Nails meets Chemical Brothers) ou “Perish” (uma balada fantasmagórica) atestam a qualidade da selecção.

O segundo disco de “The Way of Curve” é um concentrado de temas perdidos, sendo um pouco mais desequilibrado do que o primeiro, uma vez que contém algumas faixas dispensáveis como as remisturas dos Lunatic Calm a “Chinese Burn” (com um big beat datado e cansativo), de Kevin Chields a “Coming Up Roses” (que não compromete o original, mas também não lhe alarga o espectro) ou a versão dos próprios Curve de “I Feel Love”, de Donna Summer (apenas curiosa).

Apesar desses temas menos inspirados, há bons momentos como “Triumph” (lento, soturno e vibrante), “Sinner” (com belíssimos traços etéreos), “Low and Behold” (dominado por cenários inóspitos e cortantes), a remistura de Aphex Twin para “Falling Free” (que não sendo brilhante é um conseguido exercício ambient) ou “What a Waste”, de e com Ian Dury (agreste e sinistro q.b.), que acabam por compensar ocasionais deslizes.

“The Way of Curve” não é uma retrospectiva perfeita do percurso de Dean Garcia e Toni Halliday, mas as mais de 30 canções que reúne são suficientes para confirmar que os Curve são uma presença essencial em qualquer colecção de discos que pretenda englobar o melhor dos anos 90. Um nome a (re)descobrir, pois o seu fascínio permanece intacto e a discografia merece audição (e, já agora, reedição) atenta.
E O VEREDICTO É: 4/5 - MUITO BOM

quarta-feira, outubro 19, 2005

A LEI DO DESEJO

Cineasta polémico devido ao seu olhar frequentemente incisivo, directo e por vezes áspero das sociedades urbanas contemporâneas (particularmente as norte-americanas), Spike Lee tem sedimentado, ao longo dos últimos anos, uma filmografia que, mesmo não sendo consensual, exibe personalidade, carisma e relevância, com obras que tem sempre algo a dizer.

“Ela Odeia-me” (She Hate Me), o novo joint, é mais um concentrado de múltiplas bases para discussão acerca de temáticas já habituais no percurso do realizador, abordando, entre outras, a cultura empresarial, a sexualidade, os novos tipos de família, a xenofobia ou as desigualdades sociais, elementos que nem sempre são suficientemente desenvolvidos e que se interconectam de forma desregrada num filme com tanto de desafiante como de irregular.

O mote da película evidencia logo que este é um projecto arriscado e de difícil catalogação, centrando-se em John Henry, um jovem executivo de uma empresa forte que, ao tomar conhecimento de alguns actos ilegais que envolvem a mesma, decide denunciá-la, acabando não só por ser despedido mas por ser acusado de encetar essas práticas pouco lícitas.
Partindo desta situação, “Ela Odeia-me” colocará depois o seu protagonista a participar em negócios duvidosos, recebendo avultadas quantias para engravidar a sua ex-namorada, a companheira desta, e muitas outras lésbicas que lhe pagam para serem mães sem recorrerem à inseminação artificial.
Estas experiências trarão novos problemas a John, que entretanto se relacionará também com elementos da Máfia e terá de enfrentar os habituais dilemas da sua família, com quem mantém uma relação algo distante.

Lee conta aqui com um argumento singular e até mesmo inventivo, mas também desequilibrado, uma vez que a mescla de denúncia dos podres das grandes corporações, comédia burlesca, drama familiar, thriller político e filme de tribunal gera um resultado que tanto oferece momentos de antologia (quando foca as dificuldades dos relacionamentos e a aceitação – ou rejeição – das orientações sexuais) como cenas embaraçosas devido à gritante falta de subtileza (o desenlace banal e demagógico no julgamento, com uma forçada ligação ao caso Watergate).

A alternância entre a irreverência e a suposta seriedade não é muito conseguida, mas tal não implica que “Ela Odeia-me” seja um filme falhado, longe disso. Lee volta a apresentar um absorvente trabalho de realização, sendo capaz de criar as múltiplas atmosferas que o argumento exige, recorrendo a um brilhante trabalho de fotografia e a uma montagem fluida e dinâmica.

O elenco é, como se esperaria, igualmente sólido, confirmando que Anthony Mackie, depois de participações em títulos como “8 Mile” ou “Million Dollar Baby – Sonhos Vencidos”, é capaz de carregar um filme às costas (e se ele não estivesse à altura “Ela Odeia-me” não se aguentaria), compondo um protagonista apropriadamente ambíguo e carismático. Woody Harrelson, John Turturro, Monica Bellucci ou Kerry Washington, entre outros, asseguram também um consistente núcleo de secundários.

Mesmo não estando ao nível de algumas das últimas obras do realizador - como o habitualmente referido “A Última Hora” ou o mais esquecido, mas não menos interessante “Verão Escaldante” -, “Ela Odeia-me” ainda é um filme que se situa bem acima da média, e apesar de nem sempre acertar no alvo tem o mérito de tentar inovar, evitando lógicas formatadas e previsíveis.
Só é pena que não seja a obra-prima que alguns dos seus momentos sugerem, mas não deixa de constar entre as recomendáveis experiências cinematográficas de 2005.
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

segunda-feira, outubro 17, 2005

VIRGEM (QUASE) SANTÍSSIMO

Primeira longa-metragem de Judd Apatow – criador da série de culto “Freaks and Geeks” -, “Virgem aos 40 Anos” (The 40-Year-Old Virgin) é mais um filme norte-americano que, à semelhança do recente “Os Fura-Casamentos”, combina traços de comédia romântica com um tipo de humor algo escatológico e de gosto duvidoso.

Andy é um pacato homem de 40 anos que vive e trabalha nos subúrbios, mantendo um dia-a-dia marcado por uma rotina entre a casa e o trabalho, raramente alterando a rotina e possuindo uma escassa vida social. Contudo, o seu quotidiano altera-se significativamente quando os seus colegas descobrem que ainda é virgem e logo passam a criar múltiplos planos para que Andy coloque um fim a esse estado.

Com este ponto de partida, “Virgem aos 40 Anos” não se distingue muito de inúmeras comédias descartáveis que surgiram nos últimos anos, tendo “American Pie – A Primeira Vez”, de Paul Weitz, como fonte inspiradora e apostando em situações pouco criativas, repetindo clichés com cenas de um humor grosseiro, forçado e óbvio.

No entanto, Apatow comprovou já em trabalhos anteriores para a televisão que conseguia gerar boas cenas cómicas com frescura e espontaneidade q.b., evitando caminhos mais fáceis e já esgotados. Em “Virgem aos 40 Anos” o realizador continua a manter essa eficácia, mas por vezes cede também à banalidade, tornando-se cansativo e redundante (como na desbragada, e demasiado longa, sequência da depilação).

O filme não inventa nada, mas é um aceitável divertimento que assenta num elenco competente – Steve Carell é um protagonista com quem é fácil sentir empatia e Catherine Keener cumpre no papel de interesse romântico – e numa construção de personagens um pouco mais aprofundada do que na maioria dos filmes do género (embora haja ainda secundários subaproveitados).

A película contorna ainda certos lugares comuns ao incluir, por detrás dos muitos gags e episódios esgrouviados, um curioso olhar sobre o crescimento e a maturidade, debruçando-se sobre os dilemas e contradições de um grupo de cativantes losers descoordenados.

Contando com uma segura gestão do ritmo, raramente caindo na monotonia, “Virgem aos 40 Anos” oferece uma quantidade apreciável de cenas hilariantes e um argumento que, apesar de formulaico, é suficientemente apelativo.
Infelizmente, Apatow não é tão bem sucedido no trabalho de realização, uma vez que a cinematografia não possui quaisquer elementos de singularidade ou ousadia, optando por uma lógica linear e convencional que não esconde as origens televisivas do realizador.

De qualquer forma, apesar das suas limitações “Virgem aos 40 Anos” resulta enquanto entretenimento simpático - a espaços contagiante, noutros algo tosco -, tornando-se numa proposta recomendável para quem procure um filme leve e despretensioso. Já não é mau…

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

domingo, outubro 16, 2005

AS NOITES DA RÁDIO

Depois dos promissores "604" e "Light & Magic", os britânicos Ladytron convencem como nunca ao terceiro álbum, "The Witching Hour", editado há poucos dias e que se destaca já como um dos mais inspirados de 2005 (crítica para breve).

Mas um destaque mais alargado à banda ficará para outra altura, já que este post pretende destacar um dos poucos programas de rádio que fazem com que valha a pena adiar ou interromper a audição de CDs: "Discos Voadores", criado por Nuno Galopim.
Emitido na Radar (97.8 FM) aos sábados (18h-20h) e repetindo aos domingos (22h-24h), oferece duas horas de atento protagonismo a alguma da música mais recomendável, destacando não só discos recentes mas também álbuns que marcaram o passado, e contando quase sempre com interessantes convidados que partilham os seus gostos. E sim, passa Ladytron :)

COLISÃO

Através de filmes como “Comment je me suis disputé… (ma vie sexuelle)” ou “Esther Kahn”, Arnaud Desplechin tem consolidado um elogiado percurso, impondo-se como um dos interessantes nomes do novo cinema francês.
“Reis e Rainha (Rois et Reine), o seu título mais recente, confirma-o enquanto autor meritório, pois embora sendo uma película desequilibrada contém atributos suficientes que a tornam numa obra a ter em conta.

Apresentando duas histórias em paralelo, o filme segue Nora, cuja rotina de trabalho passada numa galeria de arte será interrompida pelo estado de saúde cada vez mais débil do seu pai, doente em fase terminal; e Ismael, que devido a um estilo de vida desregrado é internado, a pedido de terceiros, num hospital psiquiátrico.
Partindo destas duas situações, aparentemente desconexas, “Reis e Rainha” tece uma complexa teia de eventos, personagens e memórias, cujas esferas se relacionam, de forma mais ou menos demarcada, com a morte, a insanidade, a dissolução familiar, o amor ou a solidão.

Desplechin proporciona aqui uma atípica experiência cinematográfica, um excessivo puzzle onde a comédia e o drama se entrelaçam mas cuja fusão nem sempre é bem conseguida, pois a lógica espartana de “Reis e Rainha” tanto proporciona estimáveis cenas de antologia como sequências de relevância duvidosa.

O que permanece sempre seguro no filme são as competentíssimas interpretações dos actores, em especial as dos dois protagonistas: Emmanuelle Devos e Mathieu Amalric, a primeira seduzindo pelo estranho misto de vulnerabilidade e obstinação e o segundo pela irresistível irreverência que emana constantemente (percebe-se porque foi premiado com o César de Melhor Actor em 2004).

Intercalando realismo com ocasionais episódios oníricos, Desplechin gera um intenso olhar sobre peripécias do quotidiano urbano, salientando a falta de comunicação e a efemeridade das relações e atirando as suas personagens para uma espiral de dúvidas, imprevistos e inquietações.

Muitas vezes cruel, dilacerando os protagonistas através de um considerável humor negro, noutros casos emotivo e cativante, com momentos de um forte impacto emocional (como no comovente epílogo) “Reis e Rainha” é um filme esquizofrénico e imprevisível, o que é simultaneamente uma vantagem e uma limitação.

Tragicomédia com personagens à beira do limite, cortadas por uma crescente dilaceração emocional onde as situações parecem piorar a cada instante, a película descoordena o espectador, obrigando-o a reconsiderar certas características dos protagonistas e dos secundários devido à intersecção temporal (os flashbacks abundam) e narrativa (com duas histórias que, aos poucos, revelam ligações).

Os resultados nem sempre estão à altura da ousadia do filme (sobretudo algumas cenas de humor, condimentadas por um burlesco e nonsense desequilibrados), mas Desplechin consegue fazer com que as duas horas e meia de filme não se tornem cansativas, mesmo com alguma palha narrativa que poderia ter sido cortada.

Ambivalente e desigual, “Reis e Rainha” não é um filme fácil e contém contrastes abruptos que não o tornarão numa obra para todos os gostos, mas é também um vibrante e a espaços muito inventivo estudo de personagens que não tem medo de mergulhar, para o bem e para o mal, no âmago destas. Nem todos os filmes se podem orgulhar disso…
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

sábado, outubro 15, 2005

OLHÓ VÍDEO

Conhecido por títulos formal e tematicamente desafiantes e frequentemente polémicos – como “Brincadeiras Perigosas”, “A Pianista” ou “O Tempo do Lobo” -, o austríaco Michael Haneke é um cineasta cuja filmografia tem alimentado os mais acesos ódios e paixões, reflectindo o extremismo das suas obras.

“Caché”, o seu filme mais recente, apresentado na 6ª Festa do Cinema Francês, é mais uma fonte de reflexão sobre questões que já se tornaram indissociáveis das suas películas, como a violência, a tensão do quotidiano, os desajustes sociais ou o poder da imagem, exibindo novamente uma realização segura, austera e clínica, gerando ambientes frios e inóspitos.

Georges, um jornalista literário, começa subitamente a receber cassetes de vídeo com imagens filmadas na sua rua, muitas delas registando cenas suas ou da sua família. Ao verificar que estes vídeos começam a ser enviados de forma regular – sendo por vezes substituídos por desenhos igualmente inquietantes -, Georges e a sua esposa tentam pedir auxílio à polícia, mas uma vez que não ocorreram quaisquer actos de violência a intervenção desta é nula.

Aos poucos, o protagonista vai conjecturando acerca de eventuais autores dessas provocações, levando-o a recordar, em especial, acontecimentos que marcaram a sua infância e que estavam já quase esquecidos, mas ao tentar enfrentar esses fantasmas do passado vê ameaçada a sua vida conjugal, familiar e social.

Apostando numa mistura de thriller psicológico e drama familiar, “Caché” é mais uma viagem por domínios desconfortáveis, marcados pela vingança e solidão, mas desta vez Haneke é mais comedido em episódios de violência física, distanciando-se das sequências cruas e viscerais que contaminavam títulos como “Brincadeiras Perigosas” ou “A Pianista”.

Durante algum tempo, “Caché” dissemina um interessante olhar sobre a claustrofobia e inquietação de atmosferas urbanas contemporâneas, mas a certa altura o argumento estagna, as personagens recusam-se a passar da superficialidade (apesar de interpretadas por actores do nível de Daniel Auteuil ou Juliette Binoche) e o filme entra num monótono piloto automático, com cenas demasiado longas que nunca chegam a resolver um mistério que se arrasta durante quase duas horas.

Assim, o resultado final é insípido e fastidioso, sobretudo quando Haneke tenta abordar questões político-sociais que envolvem a França actual, como as tensões com a Argélia, momentos que apenas contribuem para que o filme se torne mais indeciso e abstracto (à semelhança do que aconteceu com o inconsequente “Código Desconhecido”).

É pena, sobretudo porque o cineasta oferece alguns impressionantes episódios inspirados, como a sequência inicial, mais um dos seus conseguidos jogos com a ambiguidade da imagem, ou pontuais concentrados de suspense. Mas é pouco, muito pouco, para alguém que já provou ser capaz de gerar filmes memoráveis.

E O VEREDICTO É: 1,5/5 - DISPENSÁVEL

sexta-feira, outubro 14, 2005

MELODIAS DEMASIADO FM

Quando, em 2001, a dupla norueguesa Röyksopp editou o seu primeiro álbum, “Melody A.M.”, não faltou quem os aclamasse como uma das grandes descobertas do ano, elevando esse registo de estreia a um estatuto de quase obra-prima, exageros que já não são estranhos à história da pop.

Apesar de algumas boas canções, como o apelativo single “Eple” ou o envolvente So Easy”, o disco não trazia grandes cargas de novidade, embora apresentasse um promissor mergulho em ambientes electrónicos suficientemente versáteis e sofisticados, algures entre os Air, os Groove Armada, os Gus Gus e os Daft Punk.

Quatro anos depois, “The Understanding” altera consideravelmente os azimutes sonoros da dupla mas, mesmo assim, volta a não convencer por completo, sendo ainda mais irregular do que o seu antecessor.

Aproximando-se de um misto de eurodance/R&B e não tanto das texturas downtempo que criaram no disco anterior, os Röyksopp oferecem aqui um conjunto de canções nem sempre entusiasmantes, pois o experimentalismo moderado e os episódios de pop plastificada não se conjugam, tornando “The Understanding” num álbum indeciso e desigual, mas ainda assim interessante.

Demasiado heterogéneo, o disco assemelha-se mais a uma compilação de vários artistas do que propriamente a um trabalho de um só projecto, o que não seria necessariamente negativo se o nível qualitativo fosse sempre satisfatório.
Contudo, “The Understanding” tanto contém aliciantes momentos soturnos como “Sombre Detune” como canções formatadas, impessoais e pouco criativas, das quais o segundo single “49 Percent” é bem representativo.

Torbjørn Brundtland e Svein Berge não geram aqui um mau disco – assim como também não criaram um excelente com “Melody A.M.” -, mas ora repetem o que já fizeram (“Follow My Ruin” e “Beautiful Day Without You” são derivados pouco cativantes de “Poor Leno”), ora se baseiam em traços de outros nomes (“Triumphant” e “Tristesse Globale” quase poderiam ser composições de Yann Tiersen, “Someone Like Me” encosta-se aos Air), e só pontualmente surpreendem (“What Else is There” e até mesmo o single “Only This Moment” sobrepõem-se à mediania da maior parte dos restantes temas).

Não sendo desagradável, o regresso dos Röyksopp também não tem elementos que justifiquem elevar o duo acima do patamar da mera competência (pontuada por alguma inventividade a espaços), que lhes permite proporcionar um álbum aceitável mas longe de constar entre o que de melhor se fez em 2005.
E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

NÃO É SÓ GARGANTA...

Emblemático e influente, marcante não só dentro do seu género mas na história do cinema, “Garganta Funda” (Deep Throat), de Gerard Damiano, destacou-se no início dos anos 70 ao apresentar uma ideia de “argumento” atípica – centra-se numa mulher cujo clitóris se localiza na garganta -, tornando-se num inesperado fenómeno de culto, gerando acérrimos defensores e detractores e invadindo depois domínios mainstream, feito único para um filme pornográfico, especialmente tendo em conta a época em que foi gerado.

Disseminando-se pelos EUA, sendo exibido em salas de cinema convencionais (com um fortíssimo sucesso de bilheteira) e, posteriormente (quando a sua exibição foi proibida), propagando-se através de métodos mais marginais, “Garganta Funda” é assim o filme mais lucrativo de sempre, pois facturou mais de 600 mil dólares e a sua produção custou apenas 25 mil.

Mais de 30 anos depois, as repercussões desta obra peculiar ainda se fazem sentir, factor que motivou Fenton Bailey e Randy Barbato a analisarem os detalhes da sua criação e o impacto que originou.

No documentário “Dentro de Garganta Funda” (Inside Deep Throat), a dupla de realizadores evidencia que a aura que envolve o filme de proporciona múltiplos focos de interesse, interligando-se com diversas entidades e funcionando como um ponto de partida para uma reflexão acerca de algumas alterações sociais dos últimos anos, em particular a revolução sexual, o papel da mulher, o crescente culto das celebridades ou a hegemonia dos media.

Assim, por detrás das polémicas cenas de sexo oral praticadas por Linda Lovelace, “Garganta Funda” contém uma história conturbada, marcada por uma produção ligada à máfia (embora não se saiba exactamente até que ponto), motivações ideológicas revolucionárias (o realizador Gerard Damiano considerava-se um cineasta, agindo nas margens do sistema e trazendo sangue novo à sétima arte) e processos judiciais (os elementos da equipa, sobretudo o actor Harry Reems, quase foram condenados a penas de prisão devido à colaboração na película), devidamente exploradas no documentário de Bailey e Barbato.

“Dentro de Garganta Funda” sabe conjugar uma lógica de entretenimento com um cuidado carácter informativo, doseando eficazmente momentos lúdicos e sérios, cruzando opiniões e testemunhos não só de elementos da equipa que criou o filme mas também de nomes tão diferentes como o escritor Gore Vidal, os realizadores Wes Craven e John Waters ou a investigadora Linda Williams, entre outros (destaque também para o actor Dennis Hopper, responsável pela narração em off).

O documentário segue vários caminhos e nem sempre consegue explorá-los todos, mas o resultado final é suficientemente sólido, com assuntos bem trabalhados, montagem dinâmica e apelativa, banda-sonora adequada, ritmo escorreito e uma conseguida interligação de um saudável sentido de humor e de uma intrigante melancolia (desencadeada por fases nefastas que viriam a assombrar o rumo de um filmezinho imberbe e ingénuo).

“Dentro de Garganta Funda” pode não ser tão “revolucionário” como a película que o originou, mas é uma recomendável adição ao universo (cada vez mais alargado e mediático) do cinema documental.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

quinta-feira, outubro 13, 2005

DIAS DE FESTA

A 6ª edição da Festa do Cinema Francês já começou e decorrerá em Lisboa, Porto, Coimbra e Faro até 13 de Novembro, destacando o que de melhor e mais recente se destacou na produção cinematográfica francesa.

De 6 de Outubro a 13 de Novembro, a 6ª Festa do Cinema Francês traz a quatro cidades portuguesas – Lisboa, Porto, Coimbra e Faro – muitos dos mais recentes filmes franceses, numa iniciativa que já se revelou profícua em anos anteriores.

Em Lisboa, as obras em destaque poderão ser visionadas no Fórum Lisboa, no Instituto Franco-Português, na Cinemateca Portuguesa e na FNACs do Chiado e de Almada, e entre os principais destaques encontram-se as novas películas de cineastas como Patrice Chéreau (“Gabrielle”), Michael Haneke (“Caché”), Cédric Klapisch (“Les Poupées Russes”, a sequela do popular “A ResidênciaEspanhola”) ou Costa Gavras (“Le Couperet”).

Entre outros atractivos, incluem-se a presença da actriz Fanny Ardant numa sessão especial a decorrer na Cinemateca, uma homenagem à Escola Superior de Teatro e Cinema ou a emissão, na 2:, de alguns títulos franceses recentes (“A Inglesa e o Duque”, “Vidocq” e “Swimming Pool”).

Estive lá na edição do ano passado, a esta ainda não fui, mas até domingo quero ver se ainda espreito alguma coisa...

UM FILME PERDIDO

Um dos nomes fortes do novo cinema japonês, Takashi Miike tem uma filmografia que proporcionou já vários títulos de culto, sendo o perturbante “Audition – Anjo ou Demónio” talvez o mais emblemático.

No seu novo filme, “Uma Chamada Perdida” (Chakushin ari / One Missed Call), o realizador volta a pisar territórios que já lhe são familiares, percorrendo domínios do terror, suspense e fantástico, através dos quais se distinguiu internacionalmente.

A premissa da película assenta em misteriosas mensagens que alguns estudantes universitários recebem nos seus telemóveis, enviadas pelos seus próprios números e que contêm frases proferidas pelas suas próprias vozes.
Estas mensagens são normalmente de teor intrigante q.b. e têm as datas de dias depois, datas estas que correspondem ao momento exacto das abruptas mortes dos receptores das mensagens.

Outro filme de terror com adolescentes? Sim, mas “Uma Chamada Perdida”, nos primeiros momentos, aparenta não ser apenas mais um, uma vez que conta com uma interessante ideia de argumento e Miike sabe como proporcionar uma atmosfera suficientemente claustrofóbica e desconcertante… até certo ponto.

Se o filme até arranca de forma intrigante e promissora, com uma curiosa interligação entre as novas tecnologias e os códigos do suspense, quando chega a meio perde o conseguido ritmo e aura enigmática que mantinha até então para se tornar numa colecção de sustos fáceis e histerismos involuntariamente cómicos, que nem sequer dispensam uma sofrível abordagem do sobrenatural.

Desperdiçando a relativa frescura que apresentou na fase inicial, “Uma Chamada Perdida” entra num campo minado de clichés que já se julgavam esgotados e sobre-explorados em “The Grudge – A Maldição” ou “Águas Passadas”, outros filmes de (suposto) terror recentes que caíram também num esoterismo ridículo e nada convincente.
Nem sequer faltam os francamente irritantes finais falsos, através dos quais Miike tenta surpreender mas falha ao apostar numa pouco recomendável lógica de “vale-tudo”, tornando a película ainda mais incoerente e, sobretudo, inconsequente.

“Audition – Anjo ou Demónio” já era um filme algo desapontante e sobrevalorizado, mas pelo menos continha ainda sequências de antologia vincadas por uma considerável tensão e desconforto.
“Uma Chamada Perdida” conta com dois ou três cenas que sugerem que Miike repita aqui esses escassos momentos inspirados, mas infelizmente a qualidade do filme apenas decresce – e muito – à medida que o desenlace se aproxima. Não deixa de ser um filme perturbante, só é pena que o seja pelos piores motivos.

E O VEREDICTO É: 1,5/5 - DISPENSÁVEL

sábado, outubro 08, 2005

gonn1000: UM ANO DEPOIS

Quando, há precisamente um ano, comecei a escrever o primeiro post do gonn1000, não tinha ainda planos bem definidos para este projecto, como de resto salientei, assim como também não sabia se iria escrever para o umbigo ou se teria alguém que se desse ao trabalho de passar por aqui.
Ora, muitos dias e posts depois, e com outra noite de insónias (mas desta vez já conseguindo sobreviver com horários minimamente coordenados), é com orgulho e prazer que verifico que consegui gerar um blog que, para além de me despertar entusiasmo - e consequente dedicação -, tem tido a adesão de outros, o que é sempre encorajador, e me permitiu conhecer vários colegas bloggers interessantes (devidamente blinkados nas colunas do lado direito).
Assim como no dia em que o criei, continuo sem saber ao certo qual será o rumo do gonn1000, embora agora já tenha, julgo, uma identidade suficientemente demarcada, mas espero que daqui a um ano possa avaliar, novamente, os resultados.
Obrigado a todos os que têm passado por este blog, sem vocês não seria tão aprazível completar 12 meses de posts quase diários (já agora, permitam-me um agradecimento especial aO Puto e ao Randomsailor, dois bloggers que visitam o gonn1000 praticamente desde a sua génese).
Os posts abaixo fazem uma retrospectiva de alguns dos momentos mais marcantes destes primeiros 12 meses do gonn1000...

12

Em Setembro de 2005, as campanhas das autárquicas disseminaram-se pelo país e, com maior discrição, o Festival de Cinema Gay e Lésbico celebrou o seu nono ano de actividades. Goldfrapp e Bloc Party confirmaram-se como boas surpresas discográficas, Bran Van 3000 e Marilyn Manson destacaram-se como nomes a redescobrir com atenção e o refrescante "Os Edukadores" foi mais uma estreia a adicionar à lista de melhores filmes do ano.

11

Kaiser Chiefs, Da Weasel e Gwen Stefani foram três nomes emblemáticos dos sons de Agosto de 2005, e "A Ilha", "Quarteto Fantástico" e "Charlie e a Fábrica de Chocolate" deram continuidade ao reinado dos blockbusters. De esferas mais alternativas - mas nem por isso mais interessante -, "9 Songs", o mais recente filme de Michael Winterbottom, dividiu as opiniões e a popular série "Donas de Casa Desesperadas" tornou-se cada vez mais viciante e singular.

"Celebrity Skin", dos Hole, confirmou-se como um grande disco para dias de Verão, e "Glamorama", de Bret Easton Ellis, foi uma boa leitura de praia. E já no fim do mês, a blogosfera vibrou com o BlogDay.

10

No Verão de 2005 chegaram às salas dois dos filmes mais esperados dos últimos anos: "Batman: O Início" e "Star Wars: Episódio III - A Vingança dos Sith". Contudo, outros títulos de esferas mais marginais, como o soberbo "Cruel" ou o muito divertido "Rainhas", apresentaram também motivos de considerável interesse, ainda que sem o mesmo mediatismo.
Kaiser Chiefs, Morcheeba, Madonna e Thievery Corporation foram alguns dos discos que acompanharam os dias de calor, assim como os regressados - e mais outonais - Nine Inch Nails, mas Julho de 2005 pertenceu aos Humanos, que levaram o seu disco a palco e conquistaram ainda mais o público (mas, curiosamente, não fazem parte da Soundtrack of My Life).

9

Com a chegada da silly season, as salas de cinema ficaram sob o domínio dos blockbusters, mas o aguardadíssimo "Sin City - A Cidade do Pecado" provou que um filme-pipoca também pode ser criativo e entusiasmante. Não menos recomendáveis foram os concertos de Billy Corgan, The Gift e Shivaree, a quarta série de "Sete Palmos de Terra", alguns ciclos de cinema e a primeira longa-metragem de Paul Haggis, "Colisão". E pelo meio ainda houve tempo para jantaradas, praia e leituras. Junho de 2005 foi também o mês em que o gonn1000 ultrapassou a marca das 10.000 visitas :)

8

O IndieLisboa marcou ainda Maio de 2005, mês que trouxe Nitin Sawhney e Perry Blake a palcos nacionais. Os novos discos de Moby e dos Chemical Brothers confirmaram-se como duas das decepções do ano, à semelhança de "Uma Casa no Fim do Mundo", filme que adapta o livro homónimo de Michael Cunningham. E os domínios televisivos tornaram-se mais estimulantes devido a duas recomendáveis séries. Aproveitei ainda para pensar acerca de Me, Myself and I.

7

Depois de um breve interlúdio devido a umas pequenas férias no Brasil, o gonn1000 destacou em Abril de 2005 aquele que é, para muitos, o filme do ano: "Million Dollar Baby - Sonhos Vencidos", de Clint Eastwood, tão amado quanto incompreensivelmente sobrevalorizado. Rádio Macau e Rufus Wainwright proporcionaram bons concertos e The Killers, Sneaker Pimps e Da Weasel também contribuíram para reforçar a banda-sonora do mês.
O maior acontecimento de Abril no blog foi, no entanto, a cobertura da segunda edição do IndieLisboa, através de uma colaboração com o Cinema 2000, gerando uma intensa jornada cinematográfica.

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Só em Março de 2005 é que foi feito por aqui o balanço do cinema e música de 2004, e para além dessa difícil lista recordou-se um disco essencial, descobriu-se um dos melhores filmes do ano mas também algumas desilusões entre as películas nomeadas para os Óscares. Destaque, também, para uma homenagem merecida.

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No mês do dia dos namorados, o portentoso filme português "Noite Escura" trouxe algum negrume ao romantismo, assim como o misto de ficção e documentário de "Tarnation" ou o humor ácido e cortante de "Team America - Polícia Mundial", duas das mais intrigantes bizarrias cinematográficas do ano. Garbage, Dandy Warhols, Nine Inch Nails ou Curve marcaram, em domínios musicais, outros momentos de Fevereiro de 2005.

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Começando com dois concertos de boa memória - o dos R.E.M. e o dos Mão Morta -, Janeiro de 2005 inaugurou o novo ano com uma grande surpresa cinematográfica, "Maria Cheia de Graça", a estreia de Joshua Marston na realização que revelou a actriz Catalina Sandino Moreno. "Donnie Darko" e "As Regras da Atracção" foram outros surpreendentes filmes em destaque, e nos discos Day One, Luscious Jackson ou Interpol salientaram-se enquanto nomes em alta (e podem ser todos ouvidos na rádio X-Soundz). Também marcante foi um pouco inesperado regresso.

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Em Dezembro de 2004 o gonn1000 ultrapassou a marca dos 1000 visitantes, recordou o já clássico filme indie "Ghost World - Mundo Fantasma" e recomendou o igualmente interessante "Má Educação", a nova provocação de Almodóvar, assim como outros dois belos olhares cinematográficos sobre as relações amorosas: "We Don't Live Here Anymore - Desencontros" e o carismático "Antes do Anoitecer".

A selecção musical da quadra natalícia ficou por conta dos convincentes concertos dos The Gift e do sueco Jay Jay Johanson.

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Em Novembro de 2004, foi altura de festejar o meu 23º aniversário, rir no teatro com "Celadon", dedicar alguma atenção à série televisiva "Anjos na América" e a duas pérolas cinematográficas: "O Despertar da Mente" e "A Vila".

Placebo e Gus Gus foram algumas das bandas com discos em rotação privilegiada e Elysian Fields, Tim Booth e Rufus Wainwright asseguraram uma boa dose de concertos memoráveis. Nas letras, destaque para Richard Ford e Michael Cunningham.

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Outubro de 2004, o mês que assinalou a inauguração do blog, foi especialmente forte em destaques, como a primeira crítica de cinema, dedicada ao interessante filme indie "Shattered Glass - Verdade ou Mentira", bem como a algumas das melhores películas do ano como "Kill Bill - A Vingança - Vol. 2", "Os Sonhadores" ou "Homem-Aranha 2".
A sétima arte, que desde então se afirmou como uma das áreas determinantes do gonn1000, esteve ainda em alta através da 5ª Festa do Cinema Francês, do Festival de Cinema Asiático e do segundo DocLisboa. Em domínios musicais, o mês foi essencialmente marcado pelo concerto dos Magnetic Fields na Aula Magna.

quinta-feira, outubro 06, 2005

FUSÃO URBANA

Para o grande público, Neneh Cherry ficará sempre associada, sobretudo, a duas canções, "Seven Seconds", o célebre dueto com Youssou N' Dour, e o não menos mediático "Woman", mas a sua discografia comprova que o seu talento para a composição e interpretação não se esgota nesses dois hits.

O seu disco de estreia, "Raw Like Sushi", foi editado em 1989 mas antecipava já, devido à sua criativa mistura de pop, funk, hip-hop, electrónica, soul e R&B, muitas das fusões sonoras que os anos 90 proporcionariam. "Homebrew", o álbum sucessor, de 1992, voltou a apostar numa saudável mescla de elementos, mantendo a vertente ecléctica e abrangente do registo anterior.

Mais sóbrio e intimista do que o trabalho de estreia, "Homebrew" é, à semelhança deste, um disco vincado por sonoridades urbanas, e as letras apresentam reflexões acerca do quotidiano citadino, debruçando-se sobre a violência das ruas, o materialismo, a solidão, as relações humanas ou o contacto com as drogas.

O disco conta com alguns convidados respeitáveis, tanto na interpretação (casos de Guru, dos Gang Starr; e Michael Stipe, dos R.E.M.) como na composição (Geoff Barrow, que viria a fundar os Portishead; e Lenny Kravitz), presenças que contribuem para a diversidade que "Homebrew" apresenta.

Embora as canções próximas de linguagens hip-hop/R&B/soul, como "Sassy" ou "Money Love", sejam competentes, são mais convencionais do que os momentos onde Cherry explora as electrónicas, pois é principalmente nestas últimas que "Homebrew" conquista e arrebata.

"Move With Me" é uma belíssima balada que condensa intensidade emocional sem recorrer a truques fáceis, "Somedays" oferece uma voz em grande forma aliada a atmosferas soturnas e sofisticadas, "Peace in Mind" convence pela cativante tranquilidade etérea e "Red Paint" encerra o disco da melhor forma com um perspicaz e comovente olhar sobre a violência e indiferença do dia-a-dia das grandes cidades.

Para além de excelentes, estas quatro canções são também decisivas por exibirem contaminações de um dos géneros musicais que viria a ser determinante na década de 90: o trip-hop, posteriormente desenvolvido por nomes como os Massive Attack (que editaram o seminal "Blue Lines" alguns meses antes da edição de "Homebrew"), Portishead ou Tricky mas que encontra aqui algumas das suas raízes.
Para tal não será alheia a contribuição de Geoff Barrow, pois o tema em que participou, "Somedays", contém ambientes semelhantes aos que caracterizariam as canções dos Portishead, a banda que integrou alguns anos depois.

"Homebrew" é um daqueles discos esquecidos que, não sendo uma obra-prima (o nível qualitativo das composições é irregular, mas nunca abaixo do muito aceitável), continua actual, refrescante e a espaços brilhante, o que não é algo que se possa dizer acerca de todos os discos, muito menos acerca daqueles que, como este, foram editados há mais de dez anos...

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

quarta-feira, outubro 05, 2005

VÔOS DA MEIA-NOITE

Destacando-se pela sua competente filiação no género do terror - originando títulos marcantes como "Pesadelo em Elm Street" ou "Gritos" -, Wes Craven não tem gerado, nos últimos anos, projectos que reproduzam a boa recepção de público e de crítica que alguns dos seus títulos mais emblemáticos despoletaram (os mais recentes "Melodia do Coração" e "Cursed" decretaram, para muitos, o declínio do cineasta).

"Red Eye", o seu novo filme, junta dois dos jovens actores mais promissores de Hollywood, Rachel McAdams (que integra o elenco da mediática comédia "Os Fura-Casamentos") e Cillian Murphy (com provas dadas em "28 Dias Depois", "Intervalo" ou "Batman: O Início"), e herda características da série-B ao apostar em modestos meios de produção, num argumento simples e numa narrativa escorreita, oferecendo um concentrado de thriller onde o terror habitualmente associado ao realizador é sobretudo psicológico.

A película centra-se num dos muitos vôos nocturnos (conhecidos como red eye), em particular em dois dos seus passageiros: Lisa, uma jovem gerente de hotel, e Jackson, um simpático e atraente colega de vôo com quem trava conhecimento.

Apesar dos momentos iniciais entre os dois protagonistas serem leves e divertidos, marcados por uma aparente empatia mútua, essas primeiras impressões não se comprovam como as mais fidedignas pois Jackson revela a Lisa que o seu encontro nada teve de casual, uma vez que ela faz parte, ainda que não o saiba, de um intrincado plano para eliminar um elemento do governo americano.
Para que a missão de Jackson seja bem sucedida, Lisa terá de seguir uma série de instruções, e caso se recuse a fazê-lo o seu pai será morto.

Durante uma considerável parte do filme, Craven consegue fazer com que esta premissa resulte, uma vez que a relação que os dois protagonistas desenvolvem durante a viagem de avião contém doses suficientes de imprevisibilidade e tensão, desencadeando cenas intrigantes e claustrofóbicas onde cada minuto conta e qualquer interferência (nomeadamente a de outros passageiros) poderá ser decisiva.

Executando um hábil exercício de estilo, equilibrando bem a gestão do suspense e assinalando uma sólida direcção de actores (Cillian Murphy acentua a presença inquietante exposta em "Batman: O Início" e Rachel McAdams surpreende combinando carisma e vulnerabilidade), o realizador proporciona um apropriadamente desconfortável vôo pleno de intensidade.

Infelizmente, a consistência do filme decresce abruptamente nos últimos vinte minutos, quando as personagens saem do avião e a acção pouco mais faz do que limitar-se a seguir os estafados clichés dos famigerados slasher movies, na linha dos muitos subprodutos que se inspiraram na trilogia "Gritos".

Assim, em vez de um desenlace vertiginoso que se esperava, "Red Eye" termina de forma pouco verosímil e ainda menos inspirada, e quem sofre com isso, para além do espectador, são os dois protagonistas, que perdem os traços de credibilidade que mantinham até então e tornam-se em meros joguetes descaracterizados (a personagem de Murphy é a mais debilitada, passando de soturna a patética).

Os momentos finais do filme não chegam a arrasá-lo por completo, mas é pena que boas sequências de suspense fiquem assim subaproveitadas numa película que, apesar de possuir bons ingredientes, fica presa a uma desapontante mediania.
Em todo o caso, "Red Eye" é ainda uma interessante experiência cinematográfica, mesmo que nunca atinja os altos vôos que algumas das suas cenas sugerem...

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

GRANDE NOITE

"Noite Escura", de João Canijo, é o filme que representará Portugal na fase de selecção dos cinco títulos nomeados para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro referente à produção de 2005.

Uma escolha justa, ou não fosse este o melhor filme português dos últimos anos, um denso e portentoso retrato das relações familiares e de alguns dos ambientes mais obscuros e inóspitos do país.

As nomeações só serão reveladas em Janeiro de 2006, mas era uma verdadeira surpresa que esta obra constasse entre as seleccionadas, e até faria subir o nível qualitativo dos títulos que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood costuma eleger, a maioria deles bastante chatinhos e convencionais, como os nomeados da edição mais recente podem confirmar ("Ray", "À Procura da Terra do Nunca", "Sideways", "Vera Drake", "Os Coristas" ou "O Aviador").

BLINKS & LINKS

Obrigado ao Matiné e ao Nel Colaça por me blinkarem :)

terça-feira, outubro 04, 2005

CANÇÕES DE ENCANTAR

Projecto paralelo de Ben Gibbard (dos Death Cab for Cutie) e Jimmy Tamborello (dos Dntel), os Postal Service contam ainda com a colaboração das cantoras Jenny Lewis e Jen Wood e oferecem no álbum de estreia "Give Up", de 2003, uma estimulante e envolvente mistura de indie pop e electrónica, uma amálgama que não é propriamente original mas que é aqui concebida de forma singular e muito inspirada.

O processo de criação do disco foi algo atípico, pois Gibbard e Tamborello trabalharam separadamente, o primeiro ocupando-se das vozes e letras e o segundo da componente electrónica, trocando as suas ideias através do correio (daí a origem do nome do grupo).

O resultado desta experiência teve frutos bem profícuos, pois "Give Up" é um álbum invulgarmente convincente e cativante, reunindo a sensibilidade e carga emocional associada às composições e prestação vocal de Gibbard (que já havia sido comprovada nos muito estimáveis Death Cab for Cutie) e o experimentalismo digital das texturas electrónicas criadas por Tamborello.

Os Postal Service são assim um projecto que, apesar de congregar traços de outros nomes - por aqui passam a synth pop dos Depeche Mode e dos New Order, paralelismos com o indie rock agridoce dos Eels, Smashing Pumpkins (fase "Adore") e Grandaddy ou uma ousadia estética próxima dos Notwist ou mesmo Aphex Twin -, recontextualiza múltiplas influências para originar um conjunto de canções contagiantes que não recorrem a estruturas formatadas, conseguindo ter elementos de produção intrincada mas sendo também surpreendentemente acessíveis e trauteáveis.

Embora contenham uma considerável carga electrónica, os temas de "Give Up" não possuem a frieza e a marca excessivamente maquinal que por vezes contamina essas esferas (como no electroclash, por exemplo), mas mantêm, ainda assim, um forte apelo dançável que se combina espontaneamente com a densidade emocional proporcionada pela voz encantatória e angelical de Gibbard - acompanhada, a espaços, pelas de Jenny Lewis e Jen Wood -, capaz de tornar sublimes versos como "I want so badly to believe that there is truth, that love is real", que se interpretados por outro cantor poderiam soar a banalidades imberbes.

Interligando melancolia, inocência, esperança e introspecção com uma genuinidade comovente, canções como o muito catchy single "Such Great Heights", a belíssima e etérea "Brand New Colony", a claustrofóbica "This Place is a Prison" (o momento mais denso do disco), a uplifting "We Will Become Silhouettes" ou a irresistível "Clark Gable" (com um viciante bater de palmas incapaz de deixar alguém indiferente) são deliciosas pérolas pop de um álbum consistente, com tanto de melódico como de desafiante.

Um dos grandes discos não só de 2003 mas dos últimos anos, "Give Up" peca apenas por ser um pouco curto e não muito heterogéneo (as atmosferas das canções nunca se tornam cansativas, mas são demasiado semelhantes, e o disco talvez se tornasse ainda melhor se fosse mais ecléctico).
Tirando estas pequenas limitações, a estreia dos Postal Service é uma brilhante e muitíssimo agradável proposta de uma reluzente pop electroacústica que não merece passar despercebida.
E O VEREDICTO É: 4/5 - MUITO BOM

segunda-feira, outubro 03, 2005

CENAS DE UNS CASAMENTOS

Um dos grandes sucessos de bilheteira do Verão de 2005 nos EUA, "Os Fura-Casamentos" (The Wedding Crashers) é a mais recente comédia de David Dobkin ("Em Defesa de sua Majestade") e segue o percurso de dois amigos (interpretados por Owen Wilson e Vince Vaughn) cujo principal hobby é infiltrarem-se em casamentos na tentativa de desfrutarem das cerimónias de copo-de-água gratuitamente.

Entre as mais-valias desta actividade frequente encontram-se a oportunidade de se deleitarem com fartos banquetes e os contactos com as não menos aliciantes jovens convidadas que se encontram presentes e que cedem com facilidade às tentativas de sedução do duo (muitos por culpa das suas histórias mirabolantes e dos pequenos shows que encenam, tornando-se quase sempre no centro das atenções).

O que inicialmente parece ser mais uma comédia de humor duvidoso, entre o grotesco e o desbragado, na linha de muitos teen movies que se disseminaram como cogumelos no final dos anos 90, segue depois modelos mais próximos dos das comédias românticas, com a inevitável previsibilidade que isso acarreta.
De resto, esse convencionalismo acaba por marcar, na maioria das vezes, grande parte destas comédias mainstream norte-americanas, que mesmo quando tentam parecer irreverentes e ousadas acabam por se submeter a um moralismo forçado e formatado.

"Os Fura-Casamentos" é mais uma prova dessa tendêcia, pois a partir do momento em que a dupla central se apaixona por duas filhas do ministro das finanças o argumento é alvo de uma considerável mudança de tom e vê reforçada a carga melosa, na tentativa de fazer com que o filme agrade a gregos e a troianos (ou, melhor dizendo, a um público masculino e feminino).

David Dobkin não chega a abusar da lamechice barata (embora esta esteja presente) nem recorre a muitos rodriguinhos melodramáticos, mas o seu trabalho também não vai além daquilo que se esperaria de um tarefeiro minimamente competente.
A realização é pouco inventiva, mas o ritmo possui alguma energia, e os desempenhos dos actores são eficazes, mesmo que não haja por aqui grandes personagens.

Owen Wilson e Vince Vaughn funcionam bem juntos, embora não saiam de esferas que já se tornaram na sua imagem de marca (Wilson contido e discreto, Vaughn histriónico e impulsivo), Christopher Walken expõe o seu carisma habitual e Rachel McAdams é uma supresa refrescante e graciosa, encarnando uma personagem que equilibra candura e inteligência (uma actriz a ter em conta e igualmente convincente noutros registos, como o thriller "Red Eye", de Wes Craven, pode comprovar).

Mesmo com um humor pouco rebuscado que raramente é hilariante, "Os Fura-Casamentos" consegue funcionar enquanto entretenimento light aceitável, desde que não se peça para ser mais do que isso (mas o filme também não pretende alcançar outros patamares). Ou seja, compensa em cenas divertidas q.b. aquilo que lhe falta em substrato cinematográfico, o que para uma película assumidamente efémera e descartável não é assim tão negativo...
E O VEREDICTO É: 2/5 - RAZOÁVEL

domingo, outubro 02, 2005

31 SONGS

Anda por aí a circular pelo espaço virtual um desafio inspirado no livro "31 Songs", de Nick Hornby, cujo objectivo é apresentar as nossas 31 canções preferidas. É uma tarefa árdua, mas consegui realizá-la, e a única regra foi não repetir nenhum artista (porque senão colocava aqui álbuns completos dos Garbage, Depeche Mode, Smashing Pumpkins, Massive Attack, enfim...). And the winners are:

“#1 Crush”, Garbage
“Kelly Watch the Stars”, Air
“Ilusão/ Desilusão”, Da Weasel
“So Free (3 Acts)”, The Gift
“Search Me Not”, Silence 4
“Coisas”, Ornatos Violeta
“Be There”, UNKLE feat Ian Brown
“Move With Me”, Neneh Cherry
“Man Next Door”, Massive Attack
“Where is My Mind”, Pixies
“Blue American”, Placebo
“The River”, PJ Harvey
“De Azul em Azul”, Rádio Macau
“Metamorfose”, Mãozinha
“Blue Monday”, New Order
“Something I Can Never Have”, Nine Inch Nails
“Blindfold”, Morcheeba
“Violet”, Hole
“Appels & Oranges”, Smashing Pumpkins
“How to Disappear Completely”, Radiohead
“Fly”, Lamb
“I'm Doing Fine”, Day One
“Roses”, dEUS
“Never Let Me Down”, Depeche Mode
“Smells Like Teen Spirit”, Nirvana
“You Were the Last High”, Dandy Warhols
“I Deserve It”, Madonna
“All is Full of Love”, Bjork
“A Forest”, Cure
“Climbatize”, Prodigy
“Keep Your Dreams”, Primal Scream

Numa lista que não é seguramente definitiva, ficaram excluídas canções de muitos outros nomes - Gus Gus, Chemical Brothers, Curve, Franz Ferdinand, Blur, Sneaker Pimps, 12 Rounds, Postal Service, R.E.M., Flunk, Cardigans, Bran Van 3000, Portishead, Joy Division, Soul Coughing, Asian Dub Foundation, Ladytron, Muse, Luscious Jackson, Eels, Interpol, Elliot Smith, DJ Shadow, ... -, que também mereciam estar aqui mas ficarão para uma próxima oportunidade.

Estas são as minhas escolhas, quais as vossas?

CINE G&L

Realizado entre 15 e 21 de Setembro de 2005, o 9º Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa trouxe múltiplas obras cinematográficas inéditas - curtas e longas-metragens, assim como documentários - a salas da capital, apresentando títulos de várias origens geográficas e que exploram de forma diversificada a temática LGTB (e um ciclo especial dedicado à retrospectiva do catálogo New Age). Estive presente quase todos os dias através do Jornal Inside e abaixo constam as análises a alguns dos filmes que vi por lá:

Antecipação

"20 Centímetros", Ramón Salazar

"Carne Fresca, Procura-se", Anders Thomas Jensen

"City of Happiness", Michael Roes

"Comme un Frère", Bernard Alapetite/ Cyril Legann

"Garçon Stupide", Lionel Baier

"Hilde's Journey", Christof Vorster

"L'Ennemi Naturel", Pierre Erwan Guillaume

"O Verão de Victor Vargas", Peter Sollett

"Oldboy - Velho Amigo", Park Chan-Wook

"Popular Music", Reza Bagher