quarta-feira, novembro 30, 2005

IRMÃ, ONDE ESTÁS?

Com uma carreira já longa (o seu primeiro filme, “The Arousers”, estreou-se em 1970), Curtis Hanson é um cineasta que só conquistou os gostos de um público relativamente vasto e o respeito de grande parte da crítica com uma das suas películas mais recentes, “L.A. Confidential”, de 1997, ainda que obras anteriores como “A Mão que Embala o Berço” já o tivessem tornado num realizador curioso aos olhos de alguns.

Desde então, “Wonder Boys – Prodígios”, de 2000, e “8 Mile”, de 2002, ajudaram a que o seu nome se tornasse numa referência a seguir com atenção dentro do cinema americano actual, ideia que “Na Sua Pele” (In Her Shoes) vem agora reforçar.

Crónica das semelhanças e diferenças de duas irmãs, o filme assenta no percurso de Rose, a mais velha, responsável e dedicada a um emprego prestigiado mas com uma escassa vida social e amorosa; e Maggie, a mais nova, que acumula relacionamentos efémeros e uma vida profissional descoordenada. O elemento desencadeador da acção é uma decisiva discussão entre as duas, que faz explodir a considerável tensão que as envolvia e leva a que cortem os laços afectivos que até então as interligavam, para o bem e para o mal.

Seguindo este ponto de partida, “Na Sua Pele” tinha tudo para ser uma fácil exploração de personagens estereotipadas e situações imersas em lugares comuns, colando-se a uma fórmula hollywoodesca caracterizada por uma tensão dramática frouxa e fabricada em linha de montagem (que, de resto, o próprio trailer do filme até sugeria). O resultado, todavia, está longe de ser esse, pois embora Hanson recorra aqui a uma narrativa convencional, concede uma muito interessante densidade e ambivalência às protagonistas – e mesmo aos secundários -, nunca as tratando como figuras caricaturais.

Claro que o facto do filme ter um elenco que inclui Toni Collette (compondo uma verosímil e cativante Rose) num dos papéis principais e Shirley MacLaine como secundária de luxo (que, ao contrário do que ocorreu no descartável “Casei com Uma Feiticeira”, não se sujeita a uma personagem sem substância) é uma preciosa ajuda.
Cameron Diaz, na pele de Maggie, concede não só o necessário star power (que não parece ter servido de muito, tendo em conta que o filme não foi alvo de grande adesão do público) mas também um dos desempenhos mais sólidos da sua carreira, comprovando que, mesmo não sendo uma actriz especialmente dotada, consegue ser convincente quando é bem dirigida e tem um papel à sua medida.

“Na Sua Pele” não é um filme que aceite muitos riscos, mas é um belo exemplo de cinema que, sendo mainstream, não se limita a funcionar enquanto um catálogo de clichés, abordando de forma segura, simultaneamente leve e inteligente, as dificuldades das relações humanas, em especial as vicissitudes dos laços familiares.

Hanson volta a evidenciar a sobriedade que tem caracterizado os seus últimos trabalhos, proporcionando uma obra acessível mas com algo a dizer e gerando uma equilibrada mistura de comédia e drama, com uma eficaz realização e banda-sonora a condizer (atente-se na escolha de “Stupid Girl”, dos Garbage, para o início do filme, em particular para as peripécias de Maggie).
E há por aqui, também, alguns diálogos muito inspirados, ora divertidos e irresistíveis (como os dos reformados da Florida), ora dolorosamente sarcásticos (muitos dos comentários de Rose acerca da irmã), reveladores de uma escrita fluida e bem carpinteirada (aplauso para Susannah Grant, que já tinha escrito, entre outros, o argumento de “Erin Brockovich”, de Steven Soderbergh).

A previsibilidade do desenlace e um ou outro momento onde o melodrama ameaça tornar-se de gosto duvidoso impedem que “Na Sua Pele” não chegue a impor-se enquanto um grande filme, mas o mundo (cinematográfico, pelo menos) seria decididamente um lugar melhor se a maioria da produção comercial norte-americana fosse assim tão agradável e vibrante.
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

UM DIA DE FOLGA

Saldo contabilístico: uma hora nas finanças, duas na conservatória do registo predial, uma e meia à espera da instalação da electricidade (frustante, ainda por cima) e como bónus, já depois de almoço, mais uma na companhia de gás, entre telefonemas à discrição. É por ocasiões como esta que vale a pena tirar um dia de férias... ou não?

terça-feira, novembro 29, 2005

REVOLUÇÃO SEM MUDANÇA

Impondo-se como uma das mais curiosas bandas europeias nascidas na década de 90, os belgas dEUS desde cedo mostraram ser capazes de criar uma interessante sonoridade fusionista que tanto recorre ao indie rock como à folk, ao jazz ou à pop, gerando canções que por vezes assentam num desbragado experimentalismo a par de outras mais acessíveis e convencionais.

“Pocket Revolution”, o seu quarto álbum de originais, é o sucessor do soberbo e mal amado “The Ideal Crash”, de 1999, mas ao contrário desse registo algo atípico no percurso do grupo (recebido com alguma surpresa devido ao quase abandono de uma vertente rude das canções, vincado pelo decréscimo de momentos de descarga noise), não traz grandes alterações aos ambientes habituais dos dEUS, seguindo as mesmas referências que marcaram esse disco de ruptura mescladas com aquelas presentes em “Worst Case Scenario” ou “In a Bar, Under the Sea”.

Por um lado, a ausência de novidade resulta a seu favor, uma vez que a banda já provou ser consistente e credível nesse tipo de atmosferas, contudo lamenta-se que um projecto que sempre se destacou pela ousadia e inventividade – que por vezes nem geraram bons resultados, é certo, como o hermético EP “My Sister is My Clock” pode atestar – se apresente aqui tão acomodado aos seus próprios domínios.

Quem nunca se interessou especialmente pela banda dificilmente se deixará envolver agora, mas aqueles que aderiram a este pequeno fenómeno de culto provavelmente continuarão a depositar-lhe alguma confiança, já que, apesar de não ser particularmente criativo, “Pocket Revolution” oferece ainda um conjunto de sólidas canções.

A maioria dos temas não consegue ser tão impressionante como os de álbuns anteriores – não há aqui momentos de génio como em “The Ideal Crash” -, no entanto o cardápio sonoro mantém-se sugestivo e razoavelmente versátil, oscilando entre cenas de considerável tensão, como “Bad Timing”, uma boa porta de entrada para o disco (cuja progressiva explosão das guitarras remete para “Instant Street”) ou “If You Don´t Get What You Want”, que recupera a intensidade dos primeiros dias da banda.

As composições mais conseguidas, são, contudo, as mais calmas, onde os climas de introspecção são a companhia ideal para a voz de Tom Barman e as suas crónicas sobre experiências mundanas e as relações humanas. “7 Days 7 Weeks” e “Include Me Out”, serenas mas densas, são primas direitas de “The Magic Hour” e “Dream Sequence #1”, dois dos picos do álbum antecessor, e demonstram que os dEUS, mesmo não estando na sua fase áurea, ainda são talentosos escritores de canções.

“Pocket Revolution” não é, assim, um disco revolucionário, mas felizmente nem todos os bons discos precisam de o ser. Agora só se espera que não se tenha de aguardar mais seis anos pelo seu sucessor.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

segunda-feira, novembro 28, 2005

A DESAPARECIDA

Assinalando o regresso de Jodie Foster ao grande ecrã, “Flightplan – Pânico a Bordo” é a segunda longa-metragem do alemão Robert Schwentke e propõe uma interessante, mas desequilibrada, experiência cinematográfica carregada de suspense e mistério centrada num voo atribulado.

Foster interpreta uma engenheira cujo marido faleceu há poucos dias e prepara-se para transportar o seu corpo de Berlim para Nova Iorque, viajando num novo e aperfeiçoado modelo de avião que ajudou a criar.
Os problemas começam quando, depois de um início de voo aparentemente pacato, a protagonista se apercebe que a sua pequena filha, que viajava consigo, desapareceu. Apesar dos esforços para encontrar a criança, empreendidos pelos comissários de bordo, esta continua sem dar sinal de vida, e a situação torna-se ainda mais inquietante quando os registos indicam que a mãe entrou no avião sozinha e que nenhum dos tripulantes se lembra de ter visto a menina.

Com um mote propício a atmosferas de claustrofobia e desespero, “Flightplan – Pânico a Bordo” desenrola-se, inicialmente, de forma escorreita e absorvente, e o desenvolvimento da acção consegue manter uma narrativa intrigante q.b..
Infelizmente, aquele que parecia ser um thriller inspirado vai perdendo o fôlego no último terço, terminando com um desenlace que, não sendo miserável, também não é o mais satisfatório.
Acumulando múltiplas situações inverosímeis e demasiado convenientes para o argumento, “Flightplan – Pânico a Bordo” acaba por ser um filme competente, mas rotineiro, com uma tensão dramática por vezes forçada e uma resolução que reduz o impacto de alguns momentos prévios.

Jodie Foster apresenta um desempenho seguro, ainda que repita os traços da personagem que encarnou em “Sala de Pânico”, de David Fincher, filme ao qual, de resto, “Flightplan – Pânico a Bordo” retira diversas ideias (a estrutura é bastante semelhante, mas em vez de num apartamento a acção decorre agora num avião).
Peter Sarsgaard e Sean Bean são presenças igualmente fortes, mesmo que a lógica formatada do filme não lhes permita desenvolver muitos as suas personagens.

Para além disto, o que fica desta película é a banda-sonora de James Horner algumas sequências bem trabalhadas e com uma angústia palpável, assim como um ou outro momento de inspiração da câmara de Schwentke. No geral, um entretenimento aceitável, mas ainda não foi desta – nem no recente “Red Eye”, de Wes Craven – que os filmes de suspense em aviões conseguem voltar a levantar voo.
E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

OS SETE MAGNÍFICOS

Nos últimos anos, nomes como Ang Lee ou Zhang Yimou têm contribuído para que o público ocidental tome maior contacto com produções asiáticas, em particular o épico, género que é há muito trabalhado nessas cinematografias mas que permanecia relativamente distante de uma grande faixa de espectadores.

Tsui Hark, embora não tenha tido tanta visibilidade ultimamente, é considerado outro mestre do cinema chinês e regressa à realização com “Sete Espadas” (Seven Swords/ Qi jian), o primeiro capítulo de uma saga de vingança, amor, guerra e traição centrada num grupo de sete guerreiros a quem foram entregues espadas especiais que os ajudarão a combater mercenários enviados por um cruel oficial militar.

Ambientado na China do século XVII durante a dinastia Ching, o filme relata a persistência dos habitantes da Vila Marcial, uma pequena povoação que recusa abandonar o culto e prática das artes marciais, tradição proibida (e punida) pelo novo governo. Assim, são forçados a enfrentar muitos e ameaçadores antagonistas que os excedem em número e técnica, mas as setes espadas e aqueles que as utilizam poderão ainda trazer alguma esperança a um cenário cada vez mais caótico.

“Sete Espadas” é uma obra ambiciosa que equilibra cenas as obrigatórias sequências de artes marciais com múltiplas histórias de amor amarguradas e larger than life, suscitando uma reflexão acerca do poder, do heroísmo e da lealdade, mas Tsui Hark não consegue criar aqui o épico de grande fôlego que ambiciona.
É certo que há cenas de acção suficientemente abrasivas e pujantes, com batalhas bem coreografadas e filmadas, mas a superabundância de personagens (muitas mal aproveitadas) e de enredos torna a película difícil de digerir a espaços, uma vez que o argumento é algo confuso e disperso.

Aproximando-se do romantismo de “O Tigre e o Dragão” e da energia visual de “O Segredo dos Punhais Voadores” (a sombra de Akira Kurosawa também se faz sentir), “Sete Espadas” não é tão refrescante como essas referências, mas possui ainda uma solidez e eficácia assinaláveis, mesmo sendo um filme irregular que fica abaixo do seu potencial.
No entanto, esta versão, de 153 minutos de duração, foi encurtada, pois a original tinha 240, o que poderá explicar a ocasional desorientação a que o espectador está sujeito devido a um argumento que se sente não ter sido devidamente trabalhado. Uma proposta recomendável, de qualquer forma, pelo menos para apreciadores do género.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

domingo, novembro 27, 2005

HÁ ANIMAIS QUE FALAM COMO NÓS

Surpreendente sucesso de bilheteira em França e nos Estados Unidos, “A Marcha dos Pinguins” (La Marche de L’ Empereur) é uma curiosa obra que coloca em causa os limites entre o cinema documental e ficcional e lança definitivamente o pinguim para o grupo de animais mais carismáticos do momento (algo que já se evidenciava, por exemplo, na longa-metragem de animação “Madagáscar” ou em vários anúncios publicitários).

O realizador e biólogo Luc Jacquet seguiu a travessia anual dos pinguins imperadores por territórios inóspitos da Antártida, apresentando os seus rituais de acasalamento, as constantes disputas entre fêmeas, o nascimento e os primeiros dias das crias, assim como as imprevisíveis e nefastas contrariedades que se atravessam no seu caminho, desde astutos predadores a problemáticas condições climatéricas.

Tendo em conta a sua premissa, “A Marcha dos Pinguins” poderia ser mais um documentário formatado, semelhante a tantos outros que focam a vida animal e são exibidos em muitos canais de televisão regularmente. Contudo, Jacquet recorre aqui a elementos algo invulgares, antropomorfizando os pinguins e recorrendo a uma narração em off, na primeira pessoa, que visa exprimir as emoções e dramas destes, de forma a aproximá-los do espectador. O problema é que o recurso à voz é muitas vezes desnecessário e, sobretudo, mal trabalhado, ora caindo em reflexões existenciais inócuas e pretensiosas ou em relatos demasiado infantis e recheados de rodriguinhos dóceis.

“A Marcha dos Pinguins” é assim um filme onde cada imagem vale, sem dúvida, mais do que mil palavras (ou pelo menos, do que aquelas a que Jacquet recorre), envolvendo e deslumbrando através dos esplêndidos desertos de gelo e das impressionantes peripécias que marcam a viagem dos caricatos e perseverantes protagonistas.
A banda-sonora, da autoria de Émilie Simon, é tão bela como as imagens, oferecendo aconchegantes canções marcadas por electrónicas suaves e voz angelical, aproximando-se dos ambientes dos islandeses Múm ou de Emiliana Torrini e funcionando enquanto adequado complemento da vertente visual.

É pena, por isso, que a geralmente intrusiva voz off e a excessiva duração do filme façam com que, apesar de enriquecida por alguns momentos prodigiosos, “A Marcha dos Pinguins” seja uma obra repetitiva e, no fundo, apenas mais um feel-good movie simpático e por vezes comovente.

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

BLINKS & LINKS

Obrigado à ana por me blinkar n' os dias assim ;)

sábado, novembro 26, 2005

SEGREDOS RECICLADOS

Editado no início de 2005, “The Secret Migration” é o sexto álbum de originais de uma banda que, ao longo de mais de dez anos, tem sido uma das referências obrigatórias do rock alternativo norte-americano, proporcionando discos com personalidade e ousadia que, mesmo não convencendo multidões, foram sempre acarinhados por um restrito mas fiel grupo de seguidores.

“The Secret Migration” dá continuidade aos ambientes mais luminosos e optimistas que caracterizaram o álbum antecessor dos Mercury Rev, “All is Dream”, de 2001, mas desta vez o carácter experimental e inventivo da banda é menos evidente, pois a maioria das novas composições envereda por estruturas mais lineares e radio-friendly, mantendo a aura de encanto e magia mas sem grandes doses de surpresa.

O grupo continua a oferecer boas canções, mas longe do brilhantismo pop de “Nite and Fog” ou da inquietante carga onírica de “Tides of the Moon”, apostando numa mistura de indie rock, folk e dream pop e adicionando-lhes um considerável travo de psicadelismo, combinação que funciona mas sem o fulgor de outros tempos.

A voz de Jonathan Donahue, frágil e delicada, revela-se mais uma vez apropriada para as atmosferas agridoces que preenchem quase todo o disco, conseguindo emitir densidade emocional a momentos bucólicos e contemplativos, como a simples mas cativante “My Love”, ou a episódios com um vincado sentido de urgência, de que “Vermillion” é um dos melhores exemplos.

Apresentando uma série de histórias que diluem as fronteiras entre o real e o imaginário, geralmente mais reluzentes e esperançosas do que negras e depressivas (mas sempre pontuadas por alguma melancolia), “The Secret Migration” não desbrava novos rumos, recuperando traços não só da própria banda mas também de parentes próximos como os Flaming Lips (em “In the Wilderness”) ou Grandaddy (confira-se “The Climbing Rose”), no entanto afirma-se ainda como um álbum suficientemente sólido, provando que, mesmo em piloto automático e mais convencionais, os Mercury Rev continuam interessantes.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

sexta-feira, novembro 25, 2005

OS SEGREDOS DOS SONHOS MIGRATÓRIOS

Num mês marcado por múltiplos concertos em salas nacionais, em particular nos lisboetas – de Sigur Rós a Devendra Banhart, passando por Emir Kusturica ou Coldplay, entre outros -, o dos Mercury Rev parece ter sido (injustamente) ofuscado, tendo em conta que o Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, onde a banda actuou no passado dia 22, registou um número modesto de espectadores, que mal preencheram metade da sala.

A limitada afluência de público não impediu, contudo, que o grupo norte-americano demonstrasse entrega, coesão e empenho, percorrendo episódios-chave da sua discografia durante quase duas horas vincadas por um interessante cardápio sonoro bem complementado por uma sólida componente visual.

Mantendo em palco a aura misteriosa e encantatória que caracteriza os álbuns, os Mercury Rev surpreenderam até mesmo antes de iniciarem o concerto, uma vez que as primeiras imagens exibidas no ecrã centraram-se numa homenagem ao cinema dos anos 30, dando depois destaque a uma sucessão de capas de discos de músicos díspares, cujo espectro englobou David Bowie, Nina Simone, Chemical Brothers, Hüsker Du ou Galaxie 500, então acompanhadas pela inebriante “Lorelei”, dos Cocteau Twins.

“The Secret Migration”, o álbum mais recente, editado no início de 2005, foi o elemento central do alinhamento, mas a noite contou também com canções de outros registos da banda, em especial do aclamado “Deserter’s Songs”, aquele que é para muitos a obra-prima dos Mercury Rev.
Embora o novo disco não seja tão inspirado como os anteriores, ao vivo parte das suas canções resultaram, já que a energia e teatralidade do vocalista Jonathan Donahue, a par da eficácia dos restantes elementos, compensaram a monotonia e mediania de algumas das composições.

Canções como “In the Wilderness” ou “Vermillion” ganharam um interesse renovado, encorajando uma nova audição e eventual reavaliação do novo disco, mas os grandes momentos do espectáculo basearam-se em temas mais antigos, de “Deserter’s Songs” e “All is Dream”, casos do plácido e envolvente “Holes” e do igualmente cativante e melódico “Goddess on a Hiway”, assim como do emblemático “The Dark is Rising” (que encerrou o concerto com uma convincente alternância entre ambientes intimistas e épicos) e, sobretudo, do esplêndido “Tides of the Moon”, o pico de intensidade da noite, cujas brumas de intriga e onirismo foram complementadas por uma considerável visceralidade, assinalando uma versão ainda mais claustrofóbica do que aquela incluída no disco.

Apesar de dois ou três episódios de grande nível, o concerto teve também aspectos menos conseguidos, uma vez que as pontuais falhas de som, a qualidade apenas regular de algumas canções (de “The Secret Migration”) e certas sequências de imagens e frases dispensáveis projectadas no ecrã (próximas de duvidosas atmosferas new age que, de resto, contaminam a capa do novo álbum) desequilibraram a espaços uma noite que não deixou de ser bela e memorável.
No final, o público retribuiu a dedicação incansável da banda e aplaudiu de pé, mas sem histerismos desnecessários, terminando quase duas horas passadas entre histórias mirabolantes, segredos partilhados e estranhas fábulas em forma de música.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

terça-feira, novembro 22, 2005

TONIGHT IT SHOWS

Trazendo consigo "The Secret Migration", o seu mais recente álbum, os Mercury Rev actuam hoje no Centro Cultural de Belém, naquela que promete ser uma noite de envolvente placidez outonal.

Investindo em sonoridades densas e contemplativas, aliando um equilibrado sinfonismo a pontuais descargas de psicadelismo, os Mercury Rev são um dos nomes mais elogiados do rock alternativo norte-americano actual, possuindo uma discografia que tanto percorre domínios experimentais (sobretudo os primeiros álbuns) como segue um formato de canção mais clássico (evidente no incensado "Deserter's Songs" ou em "All is Dream").
Um grupo a confirmar hoje pelas 21 horas, num concerto que se espera belo e melancólico. Conto estar por lá :D

MELANCOLIA E TRISTEZA INFINITA

Vencedor do Prémio Regards Jeunes da Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes de 2005, elogiado pela imprensa nacional e internacional e conseguindo números de espectadores bastante satisfatório nas salas, “Alice” tem sido defendido por muitos como um filme capaz de aliar os gostos da crítica e do público, fazendo a ponte entre o cinema de autor e comercial, algo raro no contexto cinematográfico português, cujas obras muitas vezes se situam em extremos.

E, se a película de estreia de Marco Martins expõe óbvias qualidades, corre o risco de se tornar vítima dessa valorização algo excessiva, uma vez que, apesar de bons elementos, evidencia também consideráveis limitações, sendo um trabalho interessante mas não um tour de force de recorte superior.

Colado à angústia e progressiva dilaceração emocional de um jovem casal que tenta lidar, há mais de meio ano, com o desaparecimento da filha, o filme proporciona um amargurado e soturno mergulho no sentimento de perda que daí advém, assim como no desgaste, persistência e obsessão, elementos omnipresentes no melancólico quotidiano de Mário e Luísa, para quem encontrar a pequena Alice se tornou no único objectivo das suas vidas.

Revelando a rotina do diária do duo central, “Alice” segue o percurso obstinado de Mário, que mantém há meses uma estratégia que o ajuda a não perder a esperança, registando através de múltiplas câmaras de vídeo o fluxo de pessoas em vários locais de Lisboa na tentativa de, entre os milhares de cidadãos filmados, encontrar pistas acerca do paradeiro da sua filha.

Marco Martins coloca no seu filme uma série de questões pertinentes, desde a solidão urbana vincada pelo anonimato, indiferença e falta de comunicação; o poder da imagem e a eficácia dos sistemas de vigilância ou as consequências de uma perda súbita e violenta.
Apesar de promissores, estes temas acabam por ser mais sugeridos do que eficazmente explorados, pois a narrativa circular e o argumento algo esquemático levam a que “Alice” seja uma obra cansativa e a espaços difícil, onde a rotina do dia-a-dia dos protagonistas – repetida até à exaustão – se torna previsível e monótona para o espectador.
Percebe-se o intento de reforçar a claustrofobia e tensão que contaminam o quotidiano do casal, mas tal seria mais estimulante se o filme não se perdesse num saturante piloto automático, desaproveitando o seu potencial dramático..

Esta forte limitação não impede que “Alice” cative e envolva, já que Martins é bem sucedido na direcção de actores, tanto dos secundários – Miguel Guilherme, Ana Bustorff ou Gonçalo Waddington são alguns dos nomes fortes – como dos principais. Beatriz Batarda compõe uma surpreendente encarnação do desespero e desolação e Nuno Lopes, em quem o filme se baseia durante a maior parte do tempo, tem um desempenho competente, que se revela mais conseguido nos momentos de silêncio do que naqueles marcados pelo diálogo, sendo expressivo e credível nos olhares e expressões mas não tanto na colocação da voz.

“Alice” vale também pelo soberbo sentido atmosférico, dando a conhecer uma Lisboa de tonalidades azuis e acinzentadas, expondo uma componente estilizada que se coaduna na perfeição com a aura de desilusão e tristeza que se dissemina pelo duo central (e, embora de forma não tão carregada, pelas restantes personagens), próxima de ambientes de Wim Wenders ou Jim Jarmusch.
O apuro da realização e da fotografia geram pontuais momentos de uma inspirada plasticidade e energia visual, que complementada pela delicada e comovente banda-sonora de Bernardo Sassetti conduz a sequências de antologia, que infelizmente são acompanhadas por outras onde a vertente monocórdica do argumento impera.

Frágil e desigual, “Alice” pode não ser a obra-prima que tarda a aparecer no cinema português dos últimos anos mas também está bem acima da mediocridade, sendo uma primeira longa-metragem promissora e um inquietante olhar sobre o entorpecimento emocional de dois jovens adultos perdidos numa espiral descendente.
Pena que os seus ocasionais momentos caracterizados por uma visceral carga dramática se encontrem cercados por outros que apenas geram apatia, caso contrário “Alice” poderia ter sido um filme seminal em vez de uma estreia na realização a que se dá o benefício da dúvida.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

segunda-feira, novembro 21, 2005

OS MENINOS DANÇAM?

Depois de, em 2004, terem surpreendido tanto o público como a crítica através de um contagiante e energético álbum de estreia, os escoceses Franz Ferdinand regressam agora já com um segundo disco, oferecendo mais um conjunto de canções catchy e apelativas, caracterizadas por um rock portentoso e muito dançável.

À semelhança do seu antecessor, “You Could Have it So Much Better” é um concentrado de dinamismo e vibração, onde quase todos os temas possuem o apelo e imediatismo necessários para se tornarem em singles imbatíveis tanto em playlists radiofónicas como nas pistas de dança.

No entanto, apesar de ser um sólido party album onde o quarteto comprova a sua sensibilidade pop, este regresso perde na comparação com o disco de estreia, pois repete a fórmula que tornou “Franz Ferdinand” num registo tão refrescante e carismático, investindo quase sempre nos mesmos ambientes e sonoridades e não se desviando muito da amálgama new wave/ indie rock/ funk/ brit pop que marcou canções cristalinas como “Michael” ou “This Fire” (proporcionando assim mais do mesmo, como ocorreu nos segundos trabalhos dos The Strokes ou Interpol).

Mesmo não estando à altura do álbum anterior, “You Could Have it So Much Better” ainda é capaz de arrasar grande parte da concorrência, uma vez que contém alguns momentos irresistíveis como “Do You Want To”, um dos singles do ano, o não menos envolvente “What You Meant” ou o atmosférico “Outsiders”, um dos raros episódios apaziguados, embora conte ainda com um ritmo viciante.
A maioria dos restantes temas possui também melodias criativas q.b. e refrões pujantes e trauteáveis, sendo embaladas pela soberba voz de Alex Kapranos, mas não é especialmente memorável, aproximando-se mais de uma competente mediania onde os rasgos de génio são apenas pontuais.

“You Could Have it So Much Better”, não sendo brilhante, é bastante agradável e compensa a falta de novidade com uma boa disposição (não obstante ocasionais doses de melancolia) a que é difícil ficar indiferente, confirmando a consistência de uma banda que poderia ter feito, apesar de tudo, muito melhor. Esperemos que venha a fazê-lo.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

domingo, novembro 20, 2005

BLINKS & LINKS

Obrigado aos responsáveis pelos blogs Cebolas com Tinto, Cinema Dungeon, Números Transcendentes, Os Amigos de Gazpar, Os Dias da Música e Parallel Lines por me blinkarem ;)

QUEM É QUEM?

Um dos nomes mais elogiados da literatura norte-americana recente, Paul Auster tem consolidado um percurso que extravasa já domínios da literários,através da escrita de argumentos para cinema (como o de “Smoke”, de Wayne Wang) e mesmo experiências na realização (“Lulu on the Bridge”).

“A Trilogia de Nova Iorque” (The New York Trilogy), o seu primeiro livro, editado originalmente em 1985, é um dos seus trabalhos mais aclamados e emblemáticos, reunindo três contos – “Cidade de Vidro”, “Fantasmas” e “O Quarto Fechado à Chave” – que em comum têm enredos baseados nos cânones do policial, mas que não se esgotam numa simples resolução de mistérios, pois são utilizados como ponto de partida para uma reflexão acerca da solidão, efemeridade, tensão, frustração e precariedade das relações humanas nos centros urbanos contemporâneos, em particular as dos ambientes nova-iorquinos, onde a acção decorre.

No primeiro conto, “Cidade de Vidro”, Quinn, um escritor de romances policiais, recebe um telefonema de alguém que procura pelo detective privado Paul Auster e de imediato assume a identidade deste, aceitando a missão de procurar e seguir um homem mentalmente desequilibrado de modo a proteger outro.
No segundo, a premissa é semelhante, e a acção centra-se na mais recente tarefa de Blue, um detective contratado para seguir Black, iniciando uma investigação ainda mais densa e atípica do que a do conto anterior.
No terceiro e último conto, o narrador/ protagonista é procurado pela esposa de um amigo de infância desaparecido que lhe pede para avaliar uma série de textos escritos por este, originando uma viagem por memórias e eventos que marcaram o seu passado e que delimitarão o seu futuro.

Recorrendo a uma narrativa labiríntica e apresentando um conjunto de personagens enigmáticas à beira do colapso, “A Trilogia de Nova Iorque” tem tanto de intrigante e ambicioso quanto de confuso e monótono, uma vez que, embora os seus três contos comecem de forma relativamente entusiasmante, o desenvolvimento e, sobretudo, o desenlace não são muito bem resolvidos, tornando o livro numa obra com momentos inspirados e um igual número de episódios insípidos.
“O Quarto Fechado à Chave” é a excepção, pois contrariamente aos anteriores não é prejudicado por uma teia de acontecimentos supostamente complexos mas que acabam por se tornar inconsequentes e repetitivos. Interessante olhar sobre a escrita, a amizade, o orgulho e a arte, consegue ainda abordar de forma criativa a dualidade e a identidade, temáticas também exploradas em “Cidade de Vidro” e “Fantasmas” mas sem a mesma densidade dramática.

Baralhando as fronteiras entre a realidade e a ficção ou a sanidade e a loucura, “A Trilogia de Nova Iorque” é um livro interessante, que atesta o talento de Auster enquanto observador das angústias do quotidiano e das vias que conduzem à alienação, mas infelizmente a dispersão narrativa e os tons demasiado abstractos e etéreos dos dois primeiros contos tornam-no numa obra que, embora brilhante a espaços, raramente se afasta de uma segura, mas pouco satisfatória mediania.

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

sábado, novembro 19, 2005

IRMÃOS DE ARMAS

Contando com uma interessante percurso de realizador – de “Gattaca” e “Sim0ne” – e de argumentista – “The Truman Show – A Vida em Directo” e “Terminal de Aeroporto” -, Andrew Niccol volta a gerar mais uma película que mantém a ousadia e criatividade (nem sempre bem geridas, é certo) através das quais se tem distinguido.

“Senhor da Guerra” (Lord of War) apresenta um curioso retrato sobre o contexto socio-político mundial dos últimos anos, traçando um olhar denso e desencantado sobre as falácias da diplomacia, os obscuros bastidores das relações internacionais e as ambiguidades da natureza humana.

No cerne da acção encontra-se Yuri Orlov, um ucraniano que emigrou para os EUA com poucos anos e que se tornou, depois de muitos pequenos trabalhos no submundo de Little Odessa, num dos traficantes de armas mais reputados e experientes do mundo.
O filme assenta não só nas relações familiares do protagonista – dando um considerável destaque ao seu vulnerável irmão mais novo -, mas sobretudo na sua vida profissional, área através da qual explora o seu carácter dúbio, porventura imoral, mas que segue, ainda assim, um determinado código de honra.

“Senhor da Guerra” torna-se especialmente interessante quando essas duas vertentes da vida de Yuri colidem, atingindo o ponto em que uma ameaça anular a outra, despoletando assim um inquietante olhar sobre a ambivalência de um protagonista bem trabalhado.
Contudo, até chegar aí, o filme nem sempre convence, apostando numa mistura de géneros e de ambientes que, se por vezes cativa pela carga assumidamente offbeat e desregrada, noutras ocasiões quebra o ritmo ao apostar em sequências demasiado redundantes e monótonas, prejudicadas pela presença quase sempre intrusiva da recorrente e cansativa voz off, que torna o filme excessivamente palavroso.

Apesar de irregular, “Senhor da Guerra” tem qualidades suficientes que o elevam acima da mediania, casos do consistente trabalho de realização de Andrew Niccol, do acutilante e muito actual substrato do argumento ou do sólido desempenho de Nicolas Cage, que compõe um protagonista apropriadamente lacónico, cínico e distante.
É pena que as restantes personagens, embora bem interpretadas – outra coisa não seria de esperar de um elenco que inclui Ian Holm, Ethan Hawke ou Jared Leto -, raramente se afastem de caricaturas, o que em certos casos é apropriado, quando são usadas somente para a sátira, mas que acabam por ser limitadas e planas quando inseridas em cenas de uma maior tensão dramática.

Próximo de “Três Reis”, de David O. Russel, ou de “Os Polícias do Mundo”, de Gregor Jordan, outros filmes que focam temáticas semelhantes recorrendo igualmente a consideráveis doses de humor negro, narrativa espartana e algum niilismo, “Senhor da Guerra” é uma obra que, mesmo com altos e baixos (demora a arrancar e só atinge níveis realmente marcantes na última meia hora), não merece passar despercebida e volta a afirmar a relevância de um autor desequilibrado, mas interessante.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM