domingo, novembro 20, 2005

QUEM É QUEM?

Um dos nomes mais elogiados da literatura norte-americana recente, Paul Auster tem consolidado um percurso que extravasa já domínios da literários,através da escrita de argumentos para cinema (como o de “Smoke”, de Wayne Wang) e mesmo experiências na realização (“Lulu on the Bridge”).

“A Trilogia de Nova Iorque” (The New York Trilogy), o seu primeiro livro, editado originalmente em 1985, é um dos seus trabalhos mais aclamados e emblemáticos, reunindo três contos – “Cidade de Vidro”, “Fantasmas” e “O Quarto Fechado à Chave” – que em comum têm enredos baseados nos cânones do policial, mas que não se esgotam numa simples resolução de mistérios, pois são utilizados como ponto de partida para uma reflexão acerca da solidão, efemeridade, tensão, frustração e precariedade das relações humanas nos centros urbanos contemporâneos, em particular as dos ambientes nova-iorquinos, onde a acção decorre.

No primeiro conto, “Cidade de Vidro”, Quinn, um escritor de romances policiais, recebe um telefonema de alguém que procura pelo detective privado Paul Auster e de imediato assume a identidade deste, aceitando a missão de procurar e seguir um homem mentalmente desequilibrado de modo a proteger outro.
No segundo, a premissa é semelhante, e a acção centra-se na mais recente tarefa de Blue, um detective contratado para seguir Black, iniciando uma investigação ainda mais densa e atípica do que a do conto anterior.
No terceiro e último conto, o narrador/ protagonista é procurado pela esposa de um amigo de infância desaparecido que lhe pede para avaliar uma série de textos escritos por este, originando uma viagem por memórias e eventos que marcaram o seu passado e que delimitarão o seu futuro.

Recorrendo a uma narrativa labiríntica e apresentando um conjunto de personagens enigmáticas à beira do colapso, “A Trilogia de Nova Iorque” tem tanto de intrigante e ambicioso quanto de confuso e monótono, uma vez que, embora os seus três contos comecem de forma relativamente entusiasmante, o desenvolvimento e, sobretudo, o desenlace não são muito bem resolvidos, tornando o livro numa obra com momentos inspirados e um igual número de episódios insípidos.
“O Quarto Fechado à Chave” é a excepção, pois contrariamente aos anteriores não é prejudicado por uma teia de acontecimentos supostamente complexos mas que acabam por se tornar inconsequentes e repetitivos. Interessante olhar sobre a escrita, a amizade, o orgulho e a arte, consegue ainda abordar de forma criativa a dualidade e a identidade, temáticas também exploradas em “Cidade de Vidro” e “Fantasmas” mas sem a mesma densidade dramática.

Baralhando as fronteiras entre a realidade e a ficção ou a sanidade e a loucura, “A Trilogia de Nova Iorque” é um livro interessante, que atesta o talento de Auster enquanto observador das angústias do quotidiano e das vias que conduzem à alienação, mas infelizmente a dispersão narrativa e os tons demasiado abstractos e etéreos dos dois primeiros contos tornam-no numa obra que, embora brilhante a espaços, raramente se afasta de uma segura, mas pouco satisfatória mediania.

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

sábado, novembro 19, 2005

IRMÃOS DE ARMAS

Contando com uma interessante percurso de realizador – de “Gattaca” e “Sim0ne” – e de argumentista – “The Truman Show – A Vida em Directo” e “Terminal de Aeroporto” -, Andrew Niccol volta a gerar mais uma película que mantém a ousadia e criatividade (nem sempre bem geridas, é certo) através das quais se tem distinguido.

“Senhor da Guerra” (Lord of War) apresenta um curioso retrato sobre o contexto socio-político mundial dos últimos anos, traçando um olhar denso e desencantado sobre as falácias da diplomacia, os obscuros bastidores das relações internacionais e as ambiguidades da natureza humana.

No cerne da acção encontra-se Yuri Orlov, um ucraniano que emigrou para os EUA com poucos anos e que se tornou, depois de muitos pequenos trabalhos no submundo de Little Odessa, num dos traficantes de armas mais reputados e experientes do mundo.
O filme assenta não só nas relações familiares do protagonista – dando um considerável destaque ao seu vulnerável irmão mais novo -, mas sobretudo na sua vida profissional, área através da qual explora o seu carácter dúbio, porventura imoral, mas que segue, ainda assim, um determinado código de honra.

“Senhor da Guerra” torna-se especialmente interessante quando essas duas vertentes da vida de Yuri colidem, atingindo o ponto em que uma ameaça anular a outra, despoletando assim um inquietante olhar sobre a ambivalência de um protagonista bem trabalhado.
Contudo, até chegar aí, o filme nem sempre convence, apostando numa mistura de géneros e de ambientes que, se por vezes cativa pela carga assumidamente offbeat e desregrada, noutras ocasiões quebra o ritmo ao apostar em sequências demasiado redundantes e monótonas, prejudicadas pela presença quase sempre intrusiva da recorrente e cansativa voz off, que torna o filme excessivamente palavroso.

Apesar de irregular, “Senhor da Guerra” tem qualidades suficientes que o elevam acima da mediania, casos do consistente trabalho de realização de Andrew Niccol, do acutilante e muito actual substrato do argumento ou do sólido desempenho de Nicolas Cage, que compõe um protagonista apropriadamente lacónico, cínico e distante.
É pena que as restantes personagens, embora bem interpretadas – outra coisa não seria de esperar de um elenco que inclui Ian Holm, Ethan Hawke ou Jared Leto -, raramente se afastem de caricaturas, o que em certos casos é apropriado, quando são usadas somente para a sátira, mas que acabam por ser limitadas e planas quando inseridas em cenas de uma maior tensão dramática.

Próximo de “Três Reis”, de David O. Russel, ou de “Os Polícias do Mundo”, de Gregor Jordan, outros filmes que focam temáticas semelhantes recorrendo igualmente a consideráveis doses de humor negro, narrativa espartana e algum niilismo, “Senhor da Guerra” é uma obra que, mesmo com altos e baixos (demora a arrancar e só atinge níveis realmente marcantes na última meia hora), não merece passar despercebida e volta a afirmar a relevância de um autor desequilibrado, mas interessante.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

DANCING QUEEN

Embora ache que não é tão bom como "Ray of Light", "Music" ou "American Life", "Confessions on a Dance Floor", o mais recente álbum de Madonna, é ainda assim estranhamente viciante e resistente a múltiplas audições, já que me tem acompanhado em loop constante ao longo da semana.

Sim, pode não trazer nada de novo, voltando a insistir num french touch que já tinha dominado parte de "Music", mas pelo menos é pop muitíssimo eficaz e contagiante, coisa que se faz pouco hoje em dia. Além disso, a "Hung Up" é das raras canções decentes que se ouvem nas estações de metro. Mal empregada, no meio de Ritas Guerras (brrr... spooky), Xutinhos (the pain!! the horror!!!) e afins...

Parece-me que o disco ainda vai continuar a ser, durante algum tempo, o tema dominante de discussões no messenger com O Emissor e ahelenadetroia (cuja opinião está bem próxima da minha).

A rainha (da pop) não está morta, viva a rainha!

sexta-feira, novembro 18, 2005

O CLUBE DOS DIVORCIADOS

À partida, quando se entra numa sala de cinema para ver um filme intitulado “Mulher com Cão Procura Homem com Coração” (a inacreditável tradução para Must Love Dogs), as expectativas não serão as mais elevadas, uma vez que este aparenta ser mais uma comédia romântica feita a regra e esquadro e que promete ser pouco mais do que um compêndio de clichés.

E o facto é que, à saída, a impressão que fica é precisamente essa, um filme ligeirinho, que não arrisca e que pretende apenas suscitar alguns sorrisos. Contudo, e apesar da sua considerável previsibilidade, “Mulher com Cão Procura Homem com Coração” consegue apresentar algum encanto, uma vez que a sua saudável despretensão a torna numa obra simpática, ainda que limitada e sem grande frescura.

Debruçando-se sobre os dilemas de uma mulher divorciada e solitária, que mesmo com o auxílio da família não consegue sedimentar um relacionamento próspero, o filme aborda o desencanto amoroso dos dias de hoje e as dificuldades das relações, centrando-se em personagens que tentam (re)encontrar o amor mas que parecem condenados ao insucesso nesse campo.

No entanto, sendo este um feel-good movie, aos poucos a esperança começa a sobrepor-se à desilusão e pessimismo, e apesar dos habituais entraves ninguém duvida de qual será o desenlace.
Inovação não se encontra, portanto, por aqui, mas “Mulher com Cão Procura Homem com Coração” eleva-se – pelo menos parcialmente – acima da banalidade devido às interpretações do duo protagonista, Diane Lane e John Cusack, que oferecem desempenhos com carisma e espontaneidade, ainda que as suas personagens não sejam particularmente exigentes ou originais.

A química do par central compensa a escassa criatividade da realização Gary David Goldberg, que proporciona um trabalho competente mas sem chama, idêntico ao de tantos outros tarefeiros e próximo de um registo televisivo (de resto, a maior parte dos projectos anteriores do realizador foram mesmo para a televisão).

Felizmente, mesmo sendo rotineiro, o filme não cai num sentimentalismo embaraçoso nem num humor de latrina, mantendo sempre alguma classe e subtileza mas pecando por ser demasiado linear e formatado.

Longe de essencial, “Mulher com Cão Procura Homem com Coração” é contudo uma película agradável, que embora não tenha o toque de génio de um “Elisabethtown”, de Cameron Crowe, também não chega a ser um deserto de ideias como “Casei com uma Feiticeira”, de Nora Ephron, outros títulos de 2005 que assentam nos códigos da comédia romântica.
Dificilmente mudará a vida de alguém, mas é um aceitável entretenimento para uma tarde de inércia, de preferência em frente à TV.
E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

quinta-feira, novembro 17, 2005

CRIME, DISSE ELA

Uma das grandes surpresas cinematográficas de 2003, “Cidade de Deus” assinalou uma a soberba e memorável estreia na realização do brasileiro Fernando Meirelles, que se tornou automaticamente num nome incontornável entre os novos cineastas mundiais.

Dinâmico, cru, emotivo e efervescente, o filme aguçou a curiosidade em relação a projectos seguintes do realizador, por isso a sua segunda obra, “O Fiel Jardineiro” (The Constant Gardener), torna-se assim numa película especialmente decisiva na determinação do estatuto e respeitabilidade do seu autor.
Felizmente, e mesmo não sendo tão vibrante como o seu antecessor, o novo trabalho de Meirelles confirma-o como um autor interessante e com algo de relevante a dizer, sabendo dosear estilo e substância e aliando o entretenimento à reflexão (que nunca é sugerida de forma forçada).

“O Fiel Jardineiro” não é propriamente a película que se esperaria de Fernando Meirelles, uma vez que se trata de uma co-produção britânica e alemã, conta com actores mediáticos (Ralph Fiennes e Rachel Weisz) e baseia-se num romance de John Le Carré, oferecendo uma intrigante mistura de drama intimista, thriller político e road movie.
Não está, à partida, muito próximo de “Cidade de Deus” - foi feito com meios mais limitados, recorrendo a um elenco maioritariamente amador -, mas por detrás da capa de “filme de prestígio” (já há quem o considere um dos incontornáveis na próxima edição dos Óscares) a espontaneidade e ousadia temática e formal da primeira obra do realizador brasileiro acabam ainda por se repetir.

Um olhar sobre o continente africano e o seu papel num cenário mundial actual cada vez mais marcado pela globalização, “O Fiel Jardineiro” centra-se no relacionamento entre Justin, um diplomata sério e recatado (e jardineiro nas horas vagas), e a sua esposa Tessa, uma jornalista cujo forte idealismo e activismo lhe geram alguns problemas, conduzindo ao seu abrupto assassínio.

Mesclando linhas temporais distintas, o filme foca, por um lado, o início e dia-a-dia da relação do par protagonista e, por outro, a tentativa de resolução do mistério da morte de Tessa por parte de Justin.
Pelo meio, há ainda uma perspectiva quase documental sobre as contrariedades da subsistência em países do terceiro mundo, em particular sobre o Nairobi, local onde decorre grande parte da acção (contrastando com os ambientes urbanos de Londres, a outra cidade-chave do filme), assim como uma crítica a aspectos algo dúbios dos métodos da indústria farmacêutica.

Ora mergulhando no abismo emocional de Justin, que redescobre Tessa após a morte desta, ora gerando um retrato do tecido social do Quénia, a película surpreende ao proporcionar momentos de uma inesperada introspecção, como aqueles que envolvem a bela história de amor que aqui de (des)constrói.

Ralph Fiennes e Rachel Weisz compõem duas personagens envolventes e complexas, tornando-se num par romântico algo atípico, dada a divergência de pontos de vista, mas que possuem, afinal, mais elementos em comum – como Justin descobre - do que se julgaria inicialmente.
Fiennes, contido e meticuloso, prova porque é que é um dos grandes actores de hoje, e Weisz encanta e comove ao afastar-se de alguns papéis anteriores que não faziam jus ao seu (agora) notório talento interpretativo.

Apostando aqui num ritmo mais apaziguado do que em “Cidade de Deus”, Meirelles não deixa, no entanto, de esculpir cenas com bastante energia, pois a carga dramática do filme é absorvente e a realização continua inventiva, recorrendo a enquadramentos bem conseguidos e a uma montagem fluida.
Os tons crus e realistas mantêm-se, e certas sequências filmadas nos bairros de Nairobi aproximam-se da aspereza, texturas e explosão de cores das atmosferas das favelas brasileiras, excepcionalmente trabalhadas na primeira obra do cineasta e confirmando-o como um criativo esteta.

Mesmo não sendo uma obra-prima, “O Fiel Jardineiro” é um título maduro e relevante, que consegue apresentar uma postura humanista e crítica sem enveredar pelo choradinho fácil e oportunista nem reduzir as suas personagens a meros joguetes sem substância que apenas servem uma causa.
Noutras mãos, este material poderia ter originado um filme óbvio e panfletário, mas Fernando Meirelles soube abordá-lo com subtileza e engenho. Não chega a ser um murro no estômago tão devastador como “Cidade de Deus”, mas ainda tem atributos muito recomendáveis.
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

quarta-feira, novembro 16, 2005

Criado há poucos meses, o Cineasia destaca-se dos muitos blogs de cinema nacionais por abordar exclusivamente títulos orientais, dos comerciais e mediáticos até aos mais marginais e de culto.
Abordando filmes de vários géneros, o Sérgio Lopes destaca algumas pérolas, a maioria ainda inéditas entre nós, mas que aparentemente merecem ser descobertas, com análises escritas de forma acessível e directa. De vez em quando também colaboro, e o blog aceita outras participações de cinéfilos ou curiosos que se interessem por este tipo de obras. Passem por lá e bons filmes...

A HOUSE IS NOT A HOME...

...not yet. Mas há que começar por algum lado...

segunda-feira, novembro 14, 2005

24 YEARS' PARTY PEOPLE

Depois de uma atribulada série de compras, telefonemas e envio de sms, finalmente chegou o dia em que festejei a chegada aos 24 anos, numa festa decorrida no sábado onde reuni algumas pessoas que, de alguma forma, me têm marcadado desde sempre ou mais recentemente, como o mykerider (escolheste bem o dia para te doer a cabeça...), o Mad (da próxima tratas tu das bebidas, Ricardo...), ahelenadetroia (sim, tenho que te arranjar o tal cd dos Sneaker Pimps), o olarques (eu logo vi que não te esquecias do vinho...), o Diego7 (acho que deixei a tua "prenda" no carro, Diogo), o Challenger (desta vez não dançaste, Fernando...) ou a magp (muito uncool, a t-shirt), entre outros também presentes (mas que não têm blogs).

Apesar da chuva, algum frio, modestas doses de álcool (não quero confusões em casa) e certas indecisões quanto à banda-sonora a escolher, a noite foi boa, embora tenha terminado demasiado cedo, já que quase toda a gente ficou cansada com o jantar e não teve muita vontade de ir sair.

Enfim, até às três da manhã ainda houve motivos de interesse, mas depois disso a alternativa foi ficar a ver, juntamente com o Challenger (o único que também não tinha sono), séries manhosas alternadas com o Chill Out Zone da MTV. De qualquer forma, se para o ano for assim acho que não me queixo, espero é aprimorar o meu manuseamento de isqueiros até lá, para evitar embaraços na altura de acender as velas :P

Entre outras coisas - como a banda-sonora do "Kill Bill" -, o que ouviu por lá foi isto:

Indie Rock n' Roll for Me:

Black Rebel Motorcycle Club - "Love Burns"

Franz Ferdinand - "Do You Want To"

Le Tigre - "Tres Bien"

The Dandy Warhols - "Everyone is Totally Insane"

Death Cab for Cutie - "Soul Meets Body"

Alpinestars feat. Brian Molko - "Carbon Kid"

The Killers - "Smile Like You Mean It"

Curve - "Die Like a Dog"

Nine Inch Nails - "Dead Souls"

Depeche Mode - "John the Revelator"

Placebo - "Bigmouth Strikes Again"

Editors - "Bullets"

Sneaker Pimps - "Loretta Young Silks"

Garbage - "Use Me"

New Order - "Jetstream"

The Bravery - "Give In"

The Postal Service - "Clark Gable"

Arcade Fire - "Rebellion (Lies)"

Music for Blue Grrrls and Boyz:

DJ Shadow - "You Can't Go Home Again"

Orbital and Angelo Badalamenti - "Beached"

Goldfrapp - "Fly Me Away"

New Order - "Blue Monday"

Kylie Minogue vs New Order - "Can't Get You Out of My Blue Monday"

Mylo - "Rikki"

Madonna - "Hung Up"

Garbage - "Enough is Never Enough"

Franz Ferdinand - "Michael"

Nine Inch Nails - "Closer (Static-X Remix)"

The Prodigy - "Action Radar"

LCD Soundsystem - "Tribulations"

The Chemical Brothers - "Hey Boy Hey Girl (Killer Buds vs Energetic Rmx)"

Soulwax - "Girls and Boys (Garbage vs Blur vs Prince...)"

E entretanto a festa acabou... Está na hora de voltar à realidade :(

quinta-feira, novembro 10, 2005

24/ AZUL BEBÉ

Com algumas mudanças do horário de trabalho, experimentações no photoshop, burocracias devido à compra da casa e a preparação da minha festa de aniversário não tem sobrado muito tempo para actualizar o blog.
Hoje lá houve algum, mas mais uma vez volto a não conseguir deitar-me cedo (old habits die hard), entretido com a escolha de músicas para a noite de sábado (neste momento o viciante "Emerge", dos Fischerspooner, está em loop recorrente), se bem que mais logo não me custará tanto acordar, afinal não é todos os dias que se chega aos 24 anos... e calha logo num dia de estreias de cinema :) Por acaso o "Elisabethtown", do Cameron Crowe, parece apropriado para o dia...

DEPOIS DOS 20, ANTES DOS 30

Depois de, em 2002, o bem-sucedido e muito acarinhado “A Residência Espanhola” ter apresentado uma perspectiva vibrante e envolvente sobre os dilemas da juventude europeia, Cédric Klapisch regressa agora com um novo olhar sobre as personagens que tornaram esse título numa marcante obra de culto.

“As Bonecas Russas” (Les Poupées Russes) volta a seguir o dia-a-dia de Xavier, que agora já não vive uma atribulada experiência em Barcelona através do programa universitário Erasmus mas tenta desenvolver um percurso profissional como escritor em Paris, mesmo que quase só seja solicitado para trabalhos pouco prestigiantes.

O filme centra-se no seu protagonista de forma mais vincada do que o seu antecessor, o que implica que Klapisch faça escolhas quanto às personagens com que este se relacionará de forma mais aproximada e reduzindo assim parte do elenco multicultural d’“A Residência Espanhola” a meros figurantes, com uma presença algo dispensável e meramente decorativa.

Se este factor retira algum do carisma, uma vez que a saudável pluralidade dá lugar a um argumento mais agarrado ao protagonista, também acaba por expor uma maior concisão e permite o despoletar de uma densidade emocional mais considerável, ainda que o filme seja essencialmente leve, acessível e imediato.

Cosmopolita, irónico e divertido, “As Bonecas Russas” consegue ser uma cativante experiência cinematográfica ao proporcionar um realista e palpável relato sobre os encantos e desencantos do crescimento, focando agora não o fim da adolescência mas a alvorada da idade adulta, e apesar das personagens terem envelhecido cinco anos o rumo das suas vidas continua tão indefinido e volátil como o dos tempos universitários.

Apostando num ritmo dinâmico que origina uma narrativa fluida e apelativa, Klapisch oferece também, no entanto, alguns momentos de um absorvente intimismo, mergulhando no âmago das personagens e nas inquietações por detrás da sua aparente energia e vivacidade.

Ora aproximando-se dos cânones da comédia romântica (mas fugindo ao facilitismo), ora enveredando por domínios do road movie, contendo ainda uma lógica de filme-dentro-do-filme (através dos ocasionais momentos que seguem as histórias escritas por Xavier), “As Bonecas Russas” alterna seriedade (nos diálogos do par central, por exemplo) com sátira (as piscadelas de olho à ficção televisiva) e essa mistura revela-se consistente e inventiva.

Entre Paris, Londres e São Petersburgo, são abordadas questões como as dificuldades das relações amorosas, as incertezas da vida profissional, as orientações sexuais, a relevância da amizade e da família, os contrastes de culturas ou o crescimento e a (falta de) maturidade, temas que já se destacavam n’“A Residência Espanhola” mas que ganham aqui um novo fôlego.

Mesmo estando um pouco abaixo desse primeiro capítulo – o factor surpresa não é tão elevado - “As Bonecas Russas” conta com um elenco igualmente coeso (Romain Duris e Kelly Reilly estão especialmente inspirados), uma montagem e argumento não menos criativos e uma banda-sonora que, mais uma vez, assenta na perfeição (agora a grande canção não é “No Surprises”, dos Radiohead, mas a belíssima “Misteries”, de Beth Gibbons).
Pode não ser um dos filmes essenciais de 2005, mas é um dos mais irresistíveis, e quem procurar uma proposta simultaneamente lúdica e inteligente tem aqui um título de visita obrigatória. Boas viagens.
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

sábado, novembro 05, 2005

A VIAGEM DE SOPHIE

Considerado por muitos o mestre do cinema de animação nipónico, Hayao Miyazaki criou já múltiplas obras capazes de conquistar adeptos dos 7 aos 77, casos de “A Viagem de Chihiro”, “A Princesa Mononoke” ou a mítica série “Conan, o Rapaz do Futuro”.

“O Castelo Andante” (Hauru no ugoku shiro / Howl`s Moving Castle), o seu filme mais recente, é mais uma viagem por mundos de fantasia, decorrendo em cenários imaginativos e contando com personagens larger than life, propondo uma aventura intrincada que mescla romance, acção, humor e suspense, condimentos que já se revelaram bem geridos em títulos anteriores do cinesta.

Fábula que entrecruza o amor, a amizade, o envelhecimento e a guerra, “O Castelo Andante” baseia-se no romance de Diana Wynne-Jones e assenta nas atribuladas peripécias de Sophie, uma jovem tímida e pacata que, devido ao seu breve contacto com o atraente e audaz feiticeiro Howl, é alvo de um feitiço lançado pela Bruxa do Nada, que a transforma numa idosa.
De forma a reverter esta maldição, Sophie torna-se na mais nova habitante do intrigante castelo andante de Howl, mas antes de voltar ao estado anterior terá de sobreviver ao inquietante clima de guerra que se mostra cada vez mais assustador.

Embora seja uma fábula interessante e a espaços inventiva, “O Castelo Andante” é também uma obra desigual, uma vez que o seu minucioso trabalho a nível visual – que revela o estado de vitalidade criativa de Miyazaki – não tem contraponto no argumento, demasiado desconexo e arbitrário.
Com uma narrativa fragmentada e um ritmo nem sempre bem gerido, o filme convence sobretudo pelas deslumbrantes imagens, que geram alguns pequenos prodígios memoráveis e inspirados (recorrendo sempre à animação tradicional).

Contudo, isso é o mínimo que se espera do realizador, e aqui acaba por ser pouco, uma vez que as personagens não são especialmente cativantes e apresentam uma escassa complexidade. Pontualmente há momentos divertidos (em particular aqueles com o demónio de fogo Calcifer) ou mesmo comoventes (algumas cenas entre Sophie e o pequeno Markl, por exemplo), mas durante a maior parte do tempo a carga dramática é bastante reduzida, e ainda que o filme tente gerá-la recorrendo a diversos simbolismos, o contributo destes é nulo.

A segunda hora do filme é especialmente sintomática do desregramento da narrativa, enveredando por uma lógica onde a magia parece justificar qualquer reviravolta, ignorando assim a continuidade ou plausibilidade (que, mesmo numa fábula, tem de existir, ou então o espectador perde-se perante tanta descoordenação).

Possuindo ainda uma dose suficiente de sequências vibrantes e encantatórias, “O Castelo Andante” é um filme curioso e simpático, mas que infelizmente não consegue ir além de uma esforçada mediania. Uma obra meritória, mesmo assim, ainda que fique abaixo do seu potencial...
E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

sexta-feira, novembro 04, 2005

QUOTIDIANO DELIRANTE (OU TALVEZ NÃO)

Mais um final de dia de trabalho (e de cinema) aparentemente normal, mais uma viagem de comboio ao início da noite, mais uma vez em que vou a dormitar embalado pela suave turbulência... até que, de repente, alguém ao fundo da carruagem diz bem alto: "Senhoras e senhores, agora com vocês: Mestre Chico, o Rei Pescador!" :S
E depois disto entra um rapaz a dançar ao som de "I Can't Get You Out of My Head", da Kylie Minogue - apesar de tudo, superior à música de elevador que costuma acompanhar as viagens -, que se vai despido aos poucos e é seguido por outros quatro, devidamente equipados com rádio, câmara e máquina fotográfica. Eu nem pedi nada, mas ele ainda se meteu à minha frente uns segundos, assim como aconteceu a outras pessoas, que reagiam com indiferença ou riso súbito.
E sim, tal como desconfiei, era uma provocação destes senhores.

SEXO, MENTIRAS E HIP-HOP

Adaptando para o grande ecrã um dos livros mais elogiados de Eça de Queirós, “O Crime do Padre Amaro” foi originalmente concebido enquanto uma mini-série da SIC mas, como a exibição desta só está programada para o próximo ano, o projecto acabou por originar também uma longa-metragem.

Em 2002, o mexicano Carlos Carrera realizou outro filme baseado na obra, cuja passagem pelas salas despoletou controvérsia não só no seu país de origem mas também em Portugal, e agora Carlos Coelho da Silva aposta em mais uma versão, ainda mais livre do que a anterior.

Decorrendo num bairro suburbano lisboeta, a acção inicia-se com a chegada de Amaro, o novo e jovem pároco local, que cedo se apercebe das múltiplas carências, problemas e limitações que marcam o dia-a-dia da sua mais recente paróquia.
Contudo, a situação só se torna conturbada para si quando, aos poucos, se vai envolvendo com Amélia, a insinuante filha da dona da casa em que está hospedado, o que o obrigará a questionar a sua conduta e vocação.

Embora este ponto de partida seja consideravelmente fiel ao livro de Eça, colocando o celibato clerical no centro dos acontecimentos, o filme insere na narrativa outros – e demasiados – elementos relacionados com a realidade urbana portuguesa, desde um amor interracial (que nada acrescenta a quem viu – ou mesmo a quem não viu - “Zona J”), missões de jovens criminosos oriundos de guetos (que não dispensam a obrigatória banda-sonora à base de hip-hop) ou episódios supostamente cómicos à custa dos dois gays locais (que, surpresa das surpresas, são cabeleireiros e cuja caracterização se esgota numa série de tiques e trejeitos caricaturais).

Ao querer seguir o percurso de tantas personagens e sub-enredos, “O Crime do Padre Amaro” torna-se num filme indeciso que nunca chega a aprofundar nenhuma das múltiplas questões que aborda.
Enquanto série televisiva, talvez consiga funcionar, mas o que ocorre aqui é uma alternância constante de situações que não dá tempo nem espaço para que os actores – aos bons, pelo menos, e há alguns – trabalhem as suas personagens.

Se por um lado o filme tem mérito por se debruçar sobre temáticas actuais e relevantes – como a corrupção na Igreja, o aborto, a criminalidade, o racismo, o celibato ou a pedofilia -, também cede à via mais fácil e imediata, enveredando por lugares-comuns de vários filmes (e telefilmes, dos quais, de resto, “O Crime do Padre Amaro” não se distancia muito) nacionais cujo excesso de cenas de sexo e palavrões servem mais a campanha publicitária da película do que a consistência do argumento.

O facto de um filme pisar domínios mainstream e não aqueles associados ao cinema de autor não implica que caia no gratuito e superficial, mas aqui isso é o que acaba por acontecer demasiadas vezes, por oposição à moderação da versão mexicana, que sendo menos fashion e irreverente continha maior subtileza.

“O Crime do Padre Amaro” é assim um objecto frágil, mas ainda com ocasionais motivos de interesse.
O elenco, embora desnecessariamente extenso, é aceitável, pois a solidez de consagrados como Nicolau Breyner, Ana Bustorff, Nuno Melo ou José Wallenstein compensa a irregularidade de algumas novas caras, mas mesmo entre os mais jovens há desempenhos competentes, como o de Jorge Corrula no papel de Amaro (já Soraia Chaves passa a maior parte do tempo a exibir outros talentos e quando tenta dar complexidade à sua personagem já é tarde demais).

Apesar das duas horas de duração e da dispersão da narrativa, Carlos Coelho da Silva não deixa que o filme caia na monotonia, conseguindo injectar-lhe um conseguido ritmo e fluidez, e a banda-sonora é interessante, incluindo projectos como Da Weasel, Mesa, Sam the Kid ou The Gift.

“O Crime do Padre Amaro” não explora plenamente (longe disso) as possibilidades que o livro que o inspirou oferece, mas mesmo fazendo cedências comerciais consegue ainda incentivar alguma reflexão, sendo uma obra mais escorreita e menos inócua do que alguns outros títulos mainstream que estreiam regularmente.
E é talvez por não se esperar muito que se conclua que esta consegue ser uma experiência cinematográfica aceitável, ainda que de cinema tenha pouco.
E O VEREDICTO É: 2/5 - RAZOÁVEL

quarta-feira, novembro 02, 2005

ONIRISMO BELGA

Mesmo não sendo uma das referências essenciais do trip-hop, os belgas Hooverphonic possuem uma interessante discografia que os torna num dos bons projectos do género, sabendo dosear sofisticação e subtileza com uma inteligente sensibilidade (dream) pop.

“The Magnificent Tree”, o seu terceiro álbum, editado em 2000, dá continuidade aos ambientes etéreos e intimistas que vincaram a sonoridade dos anteriores “A New Stereophonic Sound Spectacular” e “Blue Wonder Power Milk”, mas reduz consideravelmente as texturas esparsas e enigmáticas desses registos, apresentando composições mais imediatas, mas ainda absorventes.

“Autoharp”, o magnífico tema de abertura, possui ainda uma estrutura intrincada e intrigante, gerando atmosferas oníricas e sedutoras próximas dos melhores momentos dos discos anteriores.
Contudo, a segunda canção do alinhamento, “Mad About You”, aposta em já tons mais acessíveis – assim como a maioria das restantes -, sendo, de resto, o single mais emblemático da banda, conseguindo ser radiofónico sem cair no facilitismo (e convence, mesmo sendo um pastiche dos Portishead).

Envolvente e agridoce, “The Magnificent Tree” não se aproxima da genialidade mas mantém-se igualmente distante da mediocridade, proporcionando um cardápio sonoro sólido e cativante, que tanto contém baladas cristalinas (“Out of Sight”), torch songs imponentes (“Vinegar & Salt”) ou concentrados de pop negra e claustrofóbica (“Everytime We Live Together We Die a Bit More”).

A voz límpida e insinuante de Geike Arnaert e a sobriedade dos arranjos e da produção contribuem para que o álbum resulte e se torne recomendável, em especial para admiradores das electrónicas invernosas dos Massive Attack, Lamb, Flunk, Gus Gus, Madonna (fase “Ray of Light”) e Sneaker Pimps. Um bom motivo, portanto, para (re)descobrir este consistente trio belga.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

terça-feira, novembro 01, 2005

CRIMES E ESCAPADELAS

Geradora de polémica no seu país de origem na altura das sua estreia em 2002, a adaptação mexicana para cinema do livro “O Crime do Padre Amaro” (El Crimen del Padre Amaro), de Eça de Queirós, dividiu opiniões e foi alvo de crítica por parte da Igreja Católica local, ou não apresentasse um olhar desencantado e mordaz sobre alguns dos seus elementos.

Paralelamente a estas críticas, algumas vozes nacionais insurgiram-se contra a falta de fidelidade do filme em relação à visão de Eça, situando os acontecimentos da obra nos dias de hoje e numa sociedade diferente daquela em que o autor se baseou.

Contudo, controvérsia aparte, esta adaptação de Carlos Carrera é uma conseguida e pertinente proposta cinematográfica, e mesmo não sendo totalmente fiel ao livro que a originou não deixa de lançar questões e convidar à reflexão acerca de temas – ainda tão actuais, em Portugal ou no México - como o celibato, o aborto ou a conduta, porventura dúbia, de certos representantes da Igreja.

Um dos maiores trunfos da película é contar com um protagonista complexo, capaz de emanar uma inquietante ambiguidade emocional e moral que o torna numa figura tridimensional, expondo conflitos interiores em grande parte resultantes da realidade conturbada com que se vai deparando na pequena localidade rural em que se instala.

Embora inicialmente adopte uma postura idealista, Amaro colocar-se-á regularmente em causa, questionando a sua vocação e contrastando os princípios que a orientam com o dia-a-dia desencantado que o rodeia, sobretudo devido às atitudes de alguns dos seus colegas, que acabarão por afectar as suas de forma incontornável.

Gael García Bernal, talento mexicano em ascensão, é fulcral para que o filme resulte, oferecendo um desempenho marcado por uma aura circunspecta e introspectiva, numa interpretação que não fica abaixo de outros dos seus papéis marcantes em “Amor Cão”, “Diários de Che Guevara” ou “Má Educação”. O restante elenco é igualmente credível, marcando pela espontaneidade e contribuindo para a interessante carga realista do filme.

Em termos formais, Carrera não é muito inventivo, uma vez que a realização, apesar de correcta, é bastante convencional, e a espaços ameaça cair na formatação de um telefilme, dada a considerável quantidade de grandes planos e a estrutura linear e pouco inventiva da narrativa (assim como a gestão, nem sempre sólida, do melodrama). No entanto, a realização possui também um curioso despojamento, apostando numa vertente crua e artesanal que acaba por ser apropriada à história que se pretende contar.

“O Crime do Padre Amaro” é assim um filme modesto, algo desequilibrado, mas envolvente e bem trabalhado, que nunca opta pela via fácil que a premissa poderia sugerir, renunciando a cenas exibicionistas e escabrosas e enveredando antes por uma saudável sobriedade. Pode não estar à altura do livro que o inspirou, mas não deixa de ser uma obra meritória.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

segunda-feira, outubro 31, 2005

MUNDOS DE AVENTURAS

A julgar pelo trailer e restantes elementos promocionais, “Serenity” poderia parecer, à primeira vista, mais um blockbuster formulaico e indistinto executado por um qualquer tarefeiro de Hollywood e destinado a saciar os interesses de quem se deslocasse às salas de cinema para devorar mais um filme-pipoca.

Contudo, esta proposta cinematográfica é mais peculiar do que um olhar superficial sugere, uma vez que é uma transposição de uma série televisiva, “Firefly”, exibida nos EUA e cancelada ao 11º episódio.
Embora os resultados das audiências não terem sido especialmente marcantes, a série foi alvo de um considerável interesse quando foi editada em DVD, encorajando a continuidade da saga no grande ecrã.

Outro elemento curioso do filme é o facto de ser a estreia na realização de longas-metragens de Joss Whedon, criador não só de “Firefly” mas de outras séries televisivas de culto como “Buffy, a Caçadora de Vampiros” e “Angel”, contando ainda com uma sólida carreira de argumentista para cinema (“Toy Story” ou “Titan A.E.”) e banda-desenhada (em “Astonishing X-Men”, assinalando uma das mais elogiadas fases dos heróis mutantes dos últimos anos).

Para além destes elementos que a tornam algo distinta de películas do género, “Serenity” salienta-se de muita dessa produção ao oferecer uma conseguida mistura de ficção científica, acção e humor, apresentando uma estimulante aventura intergaláctica ambientada em cenários futuristas.
Centrando-se na tripulação da nave Serenity, o filme segue as suas mais recentes atribulações, que envolvem o auxílio a dois fugitivos da Aliança – a entidade que detém o poder -, iniciando assim uma conturbada batalha recheada de múltiplos momentos de tensão.

Apesar de não pisar território novo – as influências de “Star Wars” e “Star Trek”, por exemplo, são evidentes -, “Serenity” possui uma energia contagiante, pois Whedon relega os efeitos pirotécnicos para segundo plano e prefere basear-se sobretudo nas personagens, que trata com um sentido respeito e devoção.
Contudo, o desenvolvimento das personagens, embora seja mais denso do que o que ocorre em muitas obras semelhantes, não chega a ser plenamente conseguido, já que o elenco é demasiado extenso e nem todos têm “tempo de antena” suficiente.
Este factor não será problemático para quem viu a série, mas poderá causar alguns entraves – principalmente nos primeiros minutos - a quem vê o filme sem ter conhecimento prévio do status quo da acção.

Mesmo assim, “Serenity” é ainda um título bastante recomendável, marcando o início de uma nova space opera – estão prometidas novas aventuras – que incorpora a economia narrativa, ousadia e carácter lúdico da série-B e o sentido de grandiosidade e sopro épico que faltou aos mais recentes episódios de “Star Wars”.

O filme exibe, a espaços, sinais do seu orçamento limitado e conta com um elenco irregular – Chiwetel Ejiofor compõe eficazmente um vilão mais ambíguo do que o esperado, porém o resto do elenco raramente ultrapassa a mediania -, mas Whedon compensa essa limitações com uma realização fluida e vibrante, afirmando-se como um óptimo gestor de cenas de acção e cliffhangers (a última meia hora possui um ritmo vertiginoso, enclausurando os protagonistas e testando os seus limites).

“Serenity” pode não ser um grande filme, mas é um soberbo entretenimento e uma óptima entrada de Joss Whedon em domínios da sétima arte. É um blockbuster, sim, mas não ofende a inteligência e é um dos mais inventivos surgidos em 2005, exibindo uma solidez que falta a muitas das obras – das assumidamente comerciais às mais alternativas - que vão estreando nas salas. Uma boa surpresa que merece ser vista no grande ecrã.

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

domingo, outubro 30, 2005

SATURDAY NIGHT FEVER

E pronto, como já não havia por aqui posts a la fotolog há algum tempo, cá fica um... Desta vez, centrado na festa de aniversário dos 23 anos do meu irmão, de ontem à noite, que assinalou também o início daquela altura do ano em que temos a mesma idade apesar de não sermos gémeos.

Correu bem, com um bom jantar acompanhado por má música, e embora o cantor se tivesse esforçado o repertório escolhido não ajudava.
Depois saímos da margem sul - eu, o Challenger, a magp e o Mad, entre outros - e, após algumas sugestões e discordâncias, optámos por terminar a noite no Lux, o que acabou por não acontecer quando o porteiro decidiu barrar-nos (ok, estou a ser injusto, afinal ele até nos deixava entrar mediante o pagamento de 180 euros por pessoa... oh well...).
Assim, fomos para o Dock's, e embora eu preferisse os CDs de remisturas dos Depeche Mode que íamos a ouvir no carro ao hip hop e música de dança chatinhos que animaram a pista de dança o ambiente acabou por compensar isso (pena termos sido gentilmente "convidados a sair" logo às 4 da manhã, hora do fecho).
Agora espero que a atmosfera se recrie daqui a uns dias numa nova saturay night fever quando eu entrar nos 24. Já faltou mais...

BLINKS & LINKS

Obrigado ao nuno q. por me blinkar :)

sexta-feira, outubro 28, 2005

MORTE LENTA

Impondo-se como um dos cineastas norte-americanos mais peculiares das últimas décadas, Gus Van Sant tem vindo a consolidar uma obra tão ecléctica quanto desigual.
Reunindo muitas vezes a aclamação da crítica mas raramente gerando fenómenos junto do grande público, o realizador contém na sua filmografia alguns títulos próximos do mainstream (os interessantes “O Bom Rebelde” ou “Disposta a Tudo”, por exemplo) e, sobretudo, outros que se destacam por possuírem uma considerável de ousadia e experimentalismo (casos do marcante “O Cowboy da Droga”, do insípido “Gerry” ou do inventivo “Elephant”), tornando-se difícil antecipar como será o seu próximo projecto.


“Last Days – Últimos Dias”, a sua película mais recente, era uma das mais aguardadas de 2005, tendo sido um dos destaques da última edição do Festival de Cannes, onde obteve uma recepção crítica pouco consensual, oscilando entre a indiferença e a devoção.

O filme debruça-se sobre os últimos dias de Blake, um jovem músico norte-americano que vive numa casa isolada e cujo quotidiano é marcado por passeios inconsequentes e monólogos repetitivos que evidenciam o seu frágil estado psicológico.
“Last Days – Últimos Dias” gerou alguma expectativa por estabelecer paralelismos com as experiências de Kurt Cobain, uma das incontornáveis referências musicais dos anos 90 que, com os Nirvana, ajudou a fazer do grunge um género mediático e determinante.

Embora Van Sant defenda que a película não pretende ser um retrato fiel dos últimos dias do músico de Seattle – considerá-la um biopic está, portanto, fora de questão -, as semelhanças entre o seu protagonista e Cobain são óbvias, factor que a torna numa obra singular.

Finalizando aqui uma trilogia iniciada com “Gerry” e “Elephant”, centrada na morte e na adolescência, “Last Days – Últimos Dias” exibe, para o bem e (principalmente) para o mal, muitos dos traços que o cineasta desenvolveu nesses dois filmes, como uma arriscada vertente minimalista vincada por múltiplos silêncios a par de uma aura enigmática e algo onírica complementada por uma estrutura narrativa que recusa formatos lineares.

Se esta abordagem resultou em “Elephant”, em “Gerry” foi apenas um exercício demasiado vago e insonso, falhanço que se repete agora. A espaços, “Last Days – Últimos Dias” promete ser um vibrante e melancólico olhar sobre a solidão, a dilaceração emocional, a falta de comunicação, a amargura e a alienação, mas a forma como tenta gerar essa perspectiva dificilmente poderia ter sido menos entusiasmante.

Frio, distante e vagaroso, condensando tiques e clichés de um hermetismo arty, o filme é um bocejante ensaio sem objecto, assentando numa personagem principal que recicla cansativos lugares comuns do músico incompreendido, drogado, apático, soturno e algo autista, não despoletando qualquer empatia nem interesse (e se o faz é mais pela analogia que se pode fazer com Cobain do que pela densidade de Blake).

Se o protagonista apenas origina cansaço e fastio (desempenhado por um esforçado Michael Pitt, que nada pode fazer contra a inconsistência da sua personagem), os secundários não são muito melhores, sendo ainda mais descartáveis, exceptuando o pequeno papel de Kim Gordon (dos Sonic Youth), que tenta retirar – sem sucesso - Blake do marasmo e letargia que o envolvem.
Tirando esta, não há nenhuma presença que se destaque, uma vez que todas as outras figuras não passam de esboços decorativos aos quais Van Sant tenta injectar, por vezes, uma ambiguidade forçada, como no caso das cenas homossexuais entre dois amigos.

Tentando chegar à introspecção através de uma penosa e pretensiosa abstracção, “Last Days – Últimos Dias” é um devaneio auto-indulgente e circular que desaproveita as suas potencialidades, fornecendo um retrato sem qualquer contexto e deixando o espectador sem referências (o que até é desafiante mas leva a um resultado infrutífero).

Apesar do argumento esquelético (ou mesmo inexistente), Van Sant proporciona, no entanto, um sóbrio trabalho de realização, voltando aos tons contemplativos e etéreos que já tinham impressionado em “Elephant”, originando uma interessante atmosfera ultra-realista próxima de tons documentais (reforçada pela igualmente conseguida fotografia), que infelizmente não tem substrato dramático e narrativo à altura.

Outro dos escassos elementos interessantes da película é a banda-sonora, da qual sobressai uma (boa) canção composta e interpretada por Michael Pitt que denuncia uma clara descendência dos Nirvana. É pena que, para além dessa conseguida cena, onde a música resgata Blake do entorpecimento que o domina, “Last Days – Últimos Dias” pouco mais consiga proporcionar, desperdiçando uma hora e meia que ficará como uma das maiores desilusões cinematográficas de 2005.

E O VEREDICTO É: 1,5/5 - DISPENSÁVEL