segunda-feira, outubro 31, 2005

MUNDOS DE AVENTURAS

A julgar pelo trailer e restantes elementos promocionais, “Serenity” poderia parecer, à primeira vista, mais um blockbuster formulaico e indistinto executado por um qualquer tarefeiro de Hollywood e destinado a saciar os interesses de quem se deslocasse às salas de cinema para devorar mais um filme-pipoca.

Contudo, esta proposta cinematográfica é mais peculiar do que um olhar superficial sugere, uma vez que é uma transposição de uma série televisiva, “Firefly”, exibida nos EUA e cancelada ao 11º episódio.
Embora os resultados das audiências não terem sido especialmente marcantes, a série foi alvo de um considerável interesse quando foi editada em DVD, encorajando a continuidade da saga no grande ecrã.

Outro elemento curioso do filme é o facto de ser a estreia na realização de longas-metragens de Joss Whedon, criador não só de “Firefly” mas de outras séries televisivas de culto como “Buffy, a Caçadora de Vampiros” e “Angel”, contando ainda com uma sólida carreira de argumentista para cinema (“Toy Story” ou “Titan A.E.”) e banda-desenhada (em “Astonishing X-Men”, assinalando uma das mais elogiadas fases dos heróis mutantes dos últimos anos).

Para além destes elementos que a tornam algo distinta de películas do género, “Serenity” salienta-se de muita dessa produção ao oferecer uma conseguida mistura de ficção científica, acção e humor, apresentando uma estimulante aventura intergaláctica ambientada em cenários futuristas.
Centrando-se na tripulação da nave Serenity, o filme segue as suas mais recentes atribulações, que envolvem o auxílio a dois fugitivos da Aliança – a entidade que detém o poder -, iniciando assim uma conturbada batalha recheada de múltiplos momentos de tensão.

Apesar de não pisar território novo – as influências de “Star Wars” e “Star Trek”, por exemplo, são evidentes -, “Serenity” possui uma energia contagiante, pois Whedon relega os efeitos pirotécnicos para segundo plano e prefere basear-se sobretudo nas personagens, que trata com um sentido respeito e devoção.
Contudo, o desenvolvimento das personagens, embora seja mais denso do que o que ocorre em muitas obras semelhantes, não chega a ser plenamente conseguido, já que o elenco é demasiado extenso e nem todos têm “tempo de antena” suficiente.
Este factor não será problemático para quem viu a série, mas poderá causar alguns entraves – principalmente nos primeiros minutos - a quem vê o filme sem ter conhecimento prévio do status quo da acção.

Mesmo assim, “Serenity” é ainda um título bastante recomendável, marcando o início de uma nova space opera – estão prometidas novas aventuras – que incorpora a economia narrativa, ousadia e carácter lúdico da série-B e o sentido de grandiosidade e sopro épico que faltou aos mais recentes episódios de “Star Wars”.

O filme exibe, a espaços, sinais do seu orçamento limitado e conta com um elenco irregular – Chiwetel Ejiofor compõe eficazmente um vilão mais ambíguo do que o esperado, porém o resto do elenco raramente ultrapassa a mediania -, mas Whedon compensa essa limitações com uma realização fluida e vibrante, afirmando-se como um óptimo gestor de cenas de acção e cliffhangers (a última meia hora possui um ritmo vertiginoso, enclausurando os protagonistas e testando os seus limites).

“Serenity” pode não ser um grande filme, mas é um soberbo entretenimento e uma óptima entrada de Joss Whedon em domínios da sétima arte. É um blockbuster, sim, mas não ofende a inteligência e é um dos mais inventivos surgidos em 2005, exibindo uma solidez que falta a muitas das obras – das assumidamente comerciais às mais alternativas - que vão estreando nas salas. Uma boa surpresa que merece ser vista no grande ecrã.

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

domingo, outubro 30, 2005

SATURDAY NIGHT FEVER

E pronto, como já não havia por aqui posts a la fotolog há algum tempo, cá fica um... Desta vez, centrado na festa de aniversário dos 23 anos do meu irmão, de ontem à noite, que assinalou também o início daquela altura do ano em que temos a mesma idade apesar de não sermos gémeos.

Correu bem, com um bom jantar acompanhado por má música, e embora o cantor se tivesse esforçado o repertório escolhido não ajudava.
Depois saímos da margem sul - eu, o Challenger, a magp e o Mad, entre outros - e, após algumas sugestões e discordâncias, optámos por terminar a noite no Lux, o que acabou por não acontecer quando o porteiro decidiu barrar-nos (ok, estou a ser injusto, afinal ele até nos deixava entrar mediante o pagamento de 180 euros por pessoa... oh well...).
Assim, fomos para o Dock's, e embora eu preferisse os CDs de remisturas dos Depeche Mode que íamos a ouvir no carro ao hip hop e música de dança chatinhos que animaram a pista de dança o ambiente acabou por compensar isso (pena termos sido gentilmente "convidados a sair" logo às 4 da manhã, hora do fecho).
Agora espero que a atmosfera se recrie daqui a uns dias numa nova saturay night fever quando eu entrar nos 24. Já faltou mais...

BLINKS & LINKS

Obrigado ao nuno q. por me blinkar :)

sexta-feira, outubro 28, 2005

MORTE LENTA

Impondo-se como um dos cineastas norte-americanos mais peculiares das últimas décadas, Gus Van Sant tem vindo a consolidar uma obra tão ecléctica quanto desigual.
Reunindo muitas vezes a aclamação da crítica mas raramente gerando fenómenos junto do grande público, o realizador contém na sua filmografia alguns títulos próximos do mainstream (os interessantes “O Bom Rebelde” ou “Disposta a Tudo”, por exemplo) e, sobretudo, outros que se destacam por possuírem uma considerável de ousadia e experimentalismo (casos do marcante “O Cowboy da Droga”, do insípido “Gerry” ou do inventivo “Elephant”), tornando-se difícil antecipar como será o seu próximo projecto.


“Last Days – Últimos Dias”, a sua película mais recente, era uma das mais aguardadas de 2005, tendo sido um dos destaques da última edição do Festival de Cannes, onde obteve uma recepção crítica pouco consensual, oscilando entre a indiferença e a devoção.

O filme debruça-se sobre os últimos dias de Blake, um jovem músico norte-americano que vive numa casa isolada e cujo quotidiano é marcado por passeios inconsequentes e monólogos repetitivos que evidenciam o seu frágil estado psicológico.
“Last Days – Últimos Dias” gerou alguma expectativa por estabelecer paralelismos com as experiências de Kurt Cobain, uma das incontornáveis referências musicais dos anos 90 que, com os Nirvana, ajudou a fazer do grunge um género mediático e determinante.

Embora Van Sant defenda que a película não pretende ser um retrato fiel dos últimos dias do músico de Seattle – considerá-la um biopic está, portanto, fora de questão -, as semelhanças entre o seu protagonista e Cobain são óbvias, factor que a torna numa obra singular.

Finalizando aqui uma trilogia iniciada com “Gerry” e “Elephant”, centrada na morte e na adolescência, “Last Days – Últimos Dias” exibe, para o bem e (principalmente) para o mal, muitos dos traços que o cineasta desenvolveu nesses dois filmes, como uma arriscada vertente minimalista vincada por múltiplos silêncios a par de uma aura enigmática e algo onírica complementada por uma estrutura narrativa que recusa formatos lineares.

Se esta abordagem resultou em “Elephant”, em “Gerry” foi apenas um exercício demasiado vago e insonso, falhanço que se repete agora. A espaços, “Last Days – Últimos Dias” promete ser um vibrante e melancólico olhar sobre a solidão, a dilaceração emocional, a falta de comunicação, a amargura e a alienação, mas a forma como tenta gerar essa perspectiva dificilmente poderia ter sido menos entusiasmante.

Frio, distante e vagaroso, condensando tiques e clichés de um hermetismo arty, o filme é um bocejante ensaio sem objecto, assentando numa personagem principal que recicla cansativos lugares comuns do músico incompreendido, drogado, apático, soturno e algo autista, não despoletando qualquer empatia nem interesse (e se o faz é mais pela analogia que se pode fazer com Cobain do que pela densidade de Blake).

Se o protagonista apenas origina cansaço e fastio (desempenhado por um esforçado Michael Pitt, que nada pode fazer contra a inconsistência da sua personagem), os secundários não são muito melhores, sendo ainda mais descartáveis, exceptuando o pequeno papel de Kim Gordon (dos Sonic Youth), que tenta retirar – sem sucesso - Blake do marasmo e letargia que o envolvem.
Tirando esta, não há nenhuma presença que se destaque, uma vez que todas as outras figuras não passam de esboços decorativos aos quais Van Sant tenta injectar, por vezes, uma ambiguidade forçada, como no caso das cenas homossexuais entre dois amigos.

Tentando chegar à introspecção através de uma penosa e pretensiosa abstracção, “Last Days – Últimos Dias” é um devaneio auto-indulgente e circular que desaproveita as suas potencialidades, fornecendo um retrato sem qualquer contexto e deixando o espectador sem referências (o que até é desafiante mas leva a um resultado infrutífero).

Apesar do argumento esquelético (ou mesmo inexistente), Van Sant proporciona, no entanto, um sóbrio trabalho de realização, voltando aos tons contemplativos e etéreos que já tinham impressionado em “Elephant”, originando uma interessante atmosfera ultra-realista próxima de tons documentais (reforçada pela igualmente conseguida fotografia), que infelizmente não tem substrato dramático e narrativo à altura.

Outro dos escassos elementos interessantes da película é a banda-sonora, da qual sobressai uma (boa) canção composta e interpretada por Michael Pitt que denuncia uma clara descendência dos Nirvana. É pena que, para além dessa conseguida cena, onde a música resgata Blake do entorpecimento que o domina, “Last Days – Últimos Dias” pouco mais consiga proporcionar, desperdiçando uma hora e meia que ficará como uma das maiores desilusões cinematográficas de 2005.

E O VEREDICTO É: 1,5/5 - DISPENSÁVEL

quarta-feira, outubro 26, 2005

SANGUE NOVO (E NEGRO)

Apresentando um dos promissores álbuns de estreia de 2005, os Editors são um quarteto britânico de Birmingham que, à semelhança de outras bandas recentes, utiliza como matriz da sua sonoridade traços herdados de referências new wave/pós-punk, devendo muito a nomes como os Joy Division ou os Echo & the Bunnymen.

“The Back Room” expõe inequívocas aproximações a esses influentes grupos, embora as canções do disco não sejam por isso datadas ou derivativas, uma vez que os Editors evitam o decalque e geram um conjunto de onze composições suficientemente genuínas e pessoais.

Contendo nebulosas atmosferas marcadas por alguma negritude e amargura, o disco é uma sólida proposta de indie rock intenso e envolvente, que apesar de pontuais tonalidades nostálgicas se aproxima também de domínios semelhantes aos dos Bloc Party e, sobretudo, dos Interpol, com os quais a banda é muitas vezes comparada (analogia que faz sentido, dada a proximidade das vozes e dos ambientes, ainda que os Editors sejam mais do que um sucedâneo dos nova-iorquinos que fizeram “Antics”).

Eficaz em momentos de descarga como o irresistível single “Bullets”, o igualmente frenético e dançável “Blood” ou o muito catchy “Munich” (mais um óbvio e belo single), o quarteto revela-se igualmente coeso em episódios mais apaziguados e lentos, casos de “Fall” ou “Camera” (este um dos melhores temas do álbum, cujos ambientes não andam longe da vertente mais gótica de uns Smashing Pumpkins), originando uma das boas surpresas do ano, capaz de disseminar uma inebriante carga soturna e outonal que, por detrás das brumas, consegue oferecer pontuais estilhaços de esperança e optimismo.

“The Back Room” ainda não é o grande disco que os Editors sugerem ser capazes de criar, mas as suas canções simultaneamente densas e apelativas, que assentam numa escrita e voz com personalidade e entrega, tornam-no num cartão de visita mais do que satisfatório. Um bom começo e um projecto a seguir e ouvir.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

BLINKS & LINKS

Obrigado ao serebelo por me blinkar Em Porto Pim (e boa sorte para esta nova fase) e ao Knoxville por me ter destacado na secção "Blogue da Semana" ;)

terça-feira, outubro 25, 2005

UMA FÁBULA SEM MAGIA

Terry Gilliam é daqueles realizadores a quem não falta uma obra singular e que é, para muitos, objecto de culto e devoção, como os seus trabalhos com os míticos “Monty Python” ou filmes emblemáticos como “Brasil” ou “12 Macacos” podem confirmar. Contudo, apesar de ser uma referência em domínios de cinema surreal, fantasioso e irreverente, Gilliam possui também um igual número de detractores, que colocam mais reservas ao seu estilo único.

“Os Irmãos Grimm” (The Brothers Grimm), a sua nova proposta, evidencia que o seu universo – visual, sobretudo - continua peculiar e envolvente, mas exibe também uma desorganização de ideias semelhante à que debilita muitos dos seus filmes.

Centrando-se nas peripécias dos conhecidos criadores de contos de fadas, a película segue o percurso de Will e Jake Grimm, dois jovens irresponsáveis e aventureiros que simulam a existência de criaturas assombradas, assustando a população de pequenas localidades e recebendo dinheiro para as afugentar.

Este engodo mantém-se até ao dia em que, devido às provas de competência que já deu, a dupla é convocada para descobrir o motivo do desaparecimento de várias jovens de uma aldeia que, ironia das ironias, foram raptadas por misteriosos seres de uma floresta amaldiçoada.

Embora possua um ponto de partida minimamente intrigante, “Os Irmãos Grimm” desilude ao raramente conseguir gerar uma combinação convincente entre a comédia (pouco entusiasmante) e o fantástico, elementos mal geridos que não despoletam a energia que se esperaria.

Com um argumento hesitante e fragmentado, repleto de cenas inconsequentes e monótonas, o filme demora a conquistar, e apenas oferece pontos de inspiração na conseguida recriação de época, no sólido guarda-roupa e na apelativa fotografia. Mas isto é apenas o mínimo que se exige a Terry Gilliam, que já provou ser muito seguro na vertente visual e aqui volta a confirmar essa aptidão, proporcionando absorventes atmosferas góticas com alguma bizarria (ainda que algo encostadas a Tim Burton ou Jean-Pierre Jeunet).

Os actores, infelizmente, não têm grandes personagens para defender, e talvez por isso os seus desempenhos sejam tão estranhamente cabotinos (o que até é capaz de ser intencional), em particular o de Matt Damon, bem menos magnético do que aquilo a que nos habituou.
Heath Ledger está um pouco melhor, compondo a metade mais interessante da dupla e irradiando um curioso deslumbramento que irá determinar os contornos de fábula que esta aventura acabará por adoptar.

Esticando-se desnecessariamente por duas horas, “Os Irmãos Grimm” só se torna encantatório já nas cenas finais, quando os (anti)heróis invadem o castelo da malévola rainha (Mónica Bellucci num papel que não pede mais do que beleza e altivez), momentos em que conseguem suscitar alguma empatia e protagonizar sequências empolgantes, com a carga de magia e ritmo eficaz que faltam a grande parte do filme.

Aí, nesses últimos trinta minutos, percebe-se aquilo que Gilliam é capaz de fazer, mas não é um desenlace esforçado e razoavelmente empolgante que salva uma película mortiça com uma narrativa demasiado episódica e irregular. O resultado é, então, uma irremediável mediania…
E O VEREDICTO É: 2/5 - RAZOÁVEL

segunda-feira, outubro 24, 2005

MÚSICA VIRTUAL

A convite do Samuel Jerónimo, aceitei colaborar na PHONO, webzine que pretende funcionar enquanto "veículo cultural feito por pessoas que gostam de música para pessoas que gostam de música."

Dedicado essencialmente análise de discos e concertos, é um webzine ecléctico q.b., cujo espectro é capaz de englobar nomes tão díspares como Goldfrapp, Queen, Mão Morta, Orquestra Gulbenkian, Miles Davis, Iron Maiden, Sonic Youth ou José Cid (sim, esse!). Estão convidados a aparecer por lá ;)

AMAR-TE-EI DEPOIS DE MATARES

Referência clássica do cinema francês, com um papel determinante para a consolidação da Nova Vaga, Claude Chabrol é um cineasta que, apesar de se encontrar há já várias décadas no activo, é ainda alguém a quem se atribui a capacidade de proporcionar obras conseguidas e estimulantes (embora com alguns passos em falso, como o insípido e enfadonho “No Coração da Mentira”).

“A Dama de Honor” (La Demoiselle D’Honneur) é um desses casos, um filme que assenta em territórios já habituais no percurso do realizador, ou seja, numa envolvente mistura de policial e drama onde um elemento se revela tão central como o outro e são ambos trabalhados a partir das personagens, não as utilizando como meros joguetes mas antes enquanto presenças contraditórias e ambíguas.

Ambiguidade é, de resto, a palavra-chave de “A Dama de Honor”, sobretudo na aura que engloba a relação de Philippe, um jovem responsável, metódico e dedicado à família, e Senta, uma das damas de honor do casamento da irmã que lhe desperta um desejo abrupto e correspondido (e que incorpora múltiplos mistérios, tão intrigantes quanto sedutores).

A ligação entre os dois amantes gera-se de forma intensa e assim continuará, iniciando uma espiral de obsessão, paixão, medo, dúvida e hesitação, pois à medida que Philippe vai conhecendo Senda sente um misto de encanto e repúdio, sensação que se torna cada vez mais inquietante quando a morte – ou, em particular, o homicídio – coloca em causa a possibilidade de consumação do amor.

Para além da sufocante relação entre os dois jovens, Chabrol oferece ainda um olhar sobre o quotidiano das localidades rurais, evidenciando as redes de intriga, boato, mesquinhez e pequenos antagonismos que aí se desenvolvem – elemento recorrente na sua obra -, a par de uma interessante perspectiva acerca dos laços familiares (temática subexplorada, mas determinante para a conduta dos protagonistas).

Mesmo não sendo uma película especialmente inovadora, “A Dama de Honor” é uma sólida proposta cinematográfica, com um seguro trabalho de realização, uma fotografia absorvente (a cargo do português Eduardo Serra) e uma consistente direcção de actores (Laura Smet é uma boa revelação, mas é Benoît Magimel quem mais impressiona, com um excelente desempenho que supera, e muito, a sua promissora interpretação em “A Pianista”, de Michael Haneke).

O filme possui alguns problemas de ritmo, pois a monotonia ameaça instalar-se a espaços, mas Chabrol proporciona quase sempre uma eficaz gestão do suspense, que acompanha de forma convincente a tensa dilaceração emocional do protagonista. Por isso, embora não se junte à lista de títulos indispensáveis, “A Dama de Honor” contém consideráveis qualidades que o tornam num filme a ver.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

BLINKS & LINKS

Obrigado aos responsáveis pelo blog Motel Prusidente por me terem blinkado :)

domingo, outubro 23, 2005

CINEMA BEM DOCUMENTADO

Nos últimos dois dias - 22 e 23 de Outubro -, a terceira edição do doclisboa apresentou as derradeiras obras do cartaz deste ano, finalizando mais uma série de filmes com considerável adesão do público onde apresentou títulos multi-premiados internacionalmente.

Dedicado ao tema “Nacionalismos, Identidades e Fronteiras”, o III Festival Internacional de Cinema Documental de Lisboa decorreu mais uma vez na Culturgest e veio confirmar que o documentário é, decididamente, um género em ascensão.

Ganhando o Grande Prémio da Competição Internacional do doclisboa – ex aequo com “Before the Flood”, dos chineses Yan Yu e Li Yifan -, “Alimentation Générale”, de Chantal Briet, testemunha as situações diárias de uma pequena mercearia localizada em La Source, um bairro social francês habitado por pessoas de múltiplas origens geográficas.

Oscilando entre cenas lacónicas e outras mais espirituosas, “Alimentation Générale” é um interessante olhar sobre o quotidiano dos subúrbios, em particular sobre os elos de ligação que se desenvolvem numa pequena loja, um dos poucos espaços onde quase todos os moradores do bairro acabam por se reunir, conhecer e até conviver, trocando impressões e desabafos sobre as suas vidas.

Chantal Briet gera um documentário escorreito e envolvente, onde a realização simples e despojada – que evidencia meios escassos - se revela apropriada para captar situações espontâneas e prosaicas.

Vencedor do título de Melhor Curta Documental e galardoado também com uma Menção Especial do Prémio da Competição Nacional e das Primeiras Obras, “Samagon”, de Eugen Schlegel e Sebastian Heinzel, situa-se numa pequena aldeia da Bielorússia e segue o quotidiano de Babushka Vera, uma idosa que divide o seu tempo entre os cuidados com os seus animais, as conversas com outras mulheres da localidade – muitas delas também solitárias – e a produção de vodka.

Contudo, antes desde pacato dia-a-dia Vera viveu alguns conturbados momentos quando a sua aldeia foi atacada, desempenhando, aparentemente, um papel importante na resolução da invasão.

“Samagon” é um projecto modesto que cumpre razoavelmente as suas aspirações, funcionando enquanto um exercício sobre a nostalgia, a velhice, a insegurança e o isolamento, pitoresco e simpático q.b. e com uma realização segura mas longe de singular.

“The Three Rooms of Melancholia”, da finlandesa Pirjo Honkasalo – que esteve presente na sessão -, exibido dia 22, apresenta três olhares sobre cenários da guerra da Tchechénia, debruçando-se sobre jovens da Academia Militar de Kronstadt, uma mulher que auxilia crianças vítimas da guerra e as crianças de um grupo de refugiados da Ingúchia.

Eficaz na captação de atmosferas intimistas e melancólicas – fazendo jus ao título –, expondo um sólido trabalho de realização, uma fotografia envolvente e uma banda-sonora que, apesar de recorrente, não se torna intrusiva e consegue complementar os ambientes de amargura e desolação, o documentário peca, no entanto, por ser excessivamente contemplativo e redundante, desaproveitando o seu potencial ao não aprofundar mais o contacto com as crianças.

É certo que há momentos marcantes, sobretudo aqueles onde a câmara colide com o olhar expressivo e revelador dos jovens, mas Honkasalo deixa o filme cair na monotonia e o resultado acaba por ser apenas mediano.

sábado, outubro 22, 2005

MY DOCS

Depois de uma muito bem sucedida segunda edição, marcada por uma forte adesão do público, o doclisboa voltou este ano à Culturgest para apresentar mais documentários inéditos que se têm destacado nacional e internacionalmente, tendo começado no passado dia 15 e prolongando-se até amanhã.

“Competição Internacional”, “Para Onde Vai o Documentário Português?”, “Investigações”, “Histórias da Europa: Nacionalismos, Identidades e Fronteiras”, “Documentário Russo Pós-Soviético”, “Retrospectiva Ross McElwee” e “Sessões Especiais” constituem o núcleo deste ano, propondo obras temática e geograficamente abrangentes e alargando o espectro da oferta, comprovando a versatilidade do género documental.

No passado dia 20 foram exibidos dois dos títulos que concorrem a nível nacional, “Falta-me”, curta-metragem de Cláudia Varejão; e “Bubbles – 40 Anos à Procura de Sabe-se Lá o Quê”, média-metragem de Helena Lopes e Paulo Nuno Lopes. A 21 seguiram-se a curta “A Conversa dos Outros”, de Constantino Martins e Nuno Lisboa; e “Gosto de Ti Como És”, de Sílvia Firmino.

"Falta-me" dedica os seus 20 minutos de duração a cerca de uma centena de habitantes da grande Lisboa que escrevam numa ardósia o principal elemento que falta nas suas vidas, algo que os impeça de se sentirem plenamente realizados ou apenas um pouco mais satisfeitos consigo próprios.

Entre figuras públicas (para todos os gostos) e participantes anónimos, “Falta-me” foca pessoas de diversas faixas etárias, profissionais, culturais e sociais, que de alguma forma espelham a multiplicidade urbana dos dias de hoje.

A ideia é interessante e tanto origina momentos algo cómicos como outros mais melancólicos, mas ao fim de poucos minutos acaba por se esgotar e girar em torno de si mesma, trazendo alguma previsibilidade à película através da repetição de uma mesma situação.

Contudo, Cláudia Varejão compensa essa limitação com um muito seguro trabalho enquanto realizadora, escolhendo enquadramentos imaginativos e sabendo como adaptar a câmara aos vários contextos em que se centra. A boa fotografia ajuda a reforçar a considerável qualidade visual e a banda-sonora é também bem utilizada, aguçando o apetite para próximos projectos de Varejão por detrás das câmaras. "Falta-me" foi alardoado com uma Menção Especial do Prémio Competição Nacional e Primeiras Obras na terceira edição do doclisboa.

“Bubbles – 40 Anos à Procura de Sabe-se Lá o Quê” segue as viagens do casal de realizadores pelo mundo e as suas reflexões acerca da felicidade e criatividade. Percorrendo geografias díspares, entre Portugal, os Estados Unidos, o Nepal, a Índia ou paisagens africanas, a dupla revisita experiências marcantes nas suas vidas marcadas por uma dificuldade em definir que elementos conduzem à realização pessoal.

Simultaneamente séria e divertida, a película proporciona um interessante cut n’ paste de memórias e situações onde a perspectiva consideravelmente pessoal dos realizadores evita cair na auto-indulgência e consegue originar um olhar fresco sobre temas relevantes.

Seguindo uma evidente lógica do-it-yourself, o filme exibe óbvias limitações de meios, recorrendo a uma realização pouco inventiva e a um excessivo uso da voz off (onde a imagem é muitas vezes apenas ilustrativa da palavra), mas esse amadorismo formal não impede que haja por aqui momentos conseguidos, sobretudo aqueles com os jovens estudantes offbeat da Universidade de Yale, que emanam um genuíno e a espaços comovente idealismo.

“A Conversa dos Outros”, de Constantino Martins e Nuno Lisboa regista conversas telefónicas feitas por imigrantes brasileiros numa cabine na Ericeira.

Comunicando com os seus amigos e familiares do outro lado do Atlântico, as pessoas focadas pela câmara encetam conversas com tanto de verosímil como de banal, tornando esta curta-metragem num filme repetitivo e inconsequente, sem nada de especialmente inspirado ou cativante. O resultado são vinte e dois minutos francamente entediantes que revelam um projecto falhado.

Encerrando a competição nacional do festival, “Gosto de Ti Como És”, de Sílvia Firmino, dedica uma hora a alguns habitantes do bairro da Bica e à sua preparação da emblemática marcha popular.

Behind the scenes com cenas do quotidiano de uma comunidade que tanto envolvem ensaios, episódios de família, festividades ou discussões, o filme conquista ao demonstrar que tem gente lá dentro, proporcionando momentos divertidos em paralelo com cenas de alguma tensão e inquietação.

Grande parte do carisma de “Gosto de Ti Como És” provém dos habitantes castiços que irradiam uma visível espontaneidade, adequadamente captados pela discreta, quase invisível, câmara de Firmino, factor que se sobrepõe ao escasso fulgor técnico da película, uma vez que esta é cinematograficamente pobre. Felizmente, no cinema não conta só a técnica...