sábado, julho 23, 2005

COLISÃO EMOCIONAL

Impondo-se como uma das mais criativas bandas indie dos anos 90 através de “Worst Case Scenario” (1994) e “In a Bar, Under the Sea” (1997), os dEUS possuem uma curta, mas marcante discografia que tem gerado bons resultados (pelo menos se se ignorar o escorregão do EP “My Sister is my Clock”, de 1995).

“The Ideal Crash”, o terceiro álbum de originais do grupo belga, suscitou alguma discórdia entre os fãs quando foi editado, em 1999, mas depois da habituação às alterações face aos registos anteriores torna-se perceptível que este é mais um inspirado disco da banda.

Reduzindo o intenso experimentalismo e a carga noise que dominava os seus antecessores, “The Ideal Crash” é surpreendentemente melódico e apaziguado, substituindo a rudeza e abrasividade habituais por atmosferas mais elegantes e contemplativas. Pontualmente, o disco contém ainda consideráveis descargas de visceralidade, como no tema de abertura “Put the Freaks Up Front” ou no soberbo “Instant Street”, mas o tom predominante é o de calmaria e serenidade.

Embora aparentemente mais leves, as canções possuem ainda uma estrutura intrincada e inventiva, mesmo que isso não se perceba de forma imediata. Apostando num trabalho de produção simultaneamente lo-fi e refinado, “The Ideal Crash” percorre ambientes entre o rock alternativo, a folk e a pop jazzy, oferecendo um conjunto de dez canções que focam episódios de relações amorosas tensas e conturbadas (que as letras, suficientemente tridimensionais mas nunca óbvias, conseguem traduzir com engenho).

Intimista e acolhedor, é um álbum que confirma o talento dos dEUS na composição e interpretação (é difícil ficar indiferente ao registo sóbrio e sensível de Tom Barman), e, apesar da riqueza instrumental, o som nunca se torna balofo.
Coeso e absorvente, “The Ideal Crash” perde em imediatismo o que ganha em capacidade de surpreender durante várias audições, contendo momentos de recorte superior como “The Magic Hour” (encantatória e introspectiva, com um desenlace de forte impacto emocional), a aconchegante aproximação à dream pop de “Dream Sequence No. 1”, a vibrante inquietação de “Eveybody’s Weird”, a lacónica balada “Magdalena” ou a enigmática “One Advice, Space” (todas as canções são bastante sólidas, excepto a pouco estimulante “Let’s See Who Goes Down First”, algo desajustada e desnecessária).

Melancólico e envolvente, “The Ideal Crash” apresenta um complexo e memorável olhar sobre as dificuldades e fragilidades das relações humanas e não merece, de forma alguma, o estatuto de disco insípido ou inócuo com que alguns o rotularam. Não chega a ser genial, mas também não precisa, pois isso não o impede se ser relembrado como um belo álbum.

E O VEREDICTO É: 4/5 - MUITO BOM

sexta-feira, julho 22, 2005

QUERIDA FAMÍLIA

Um interessante olhar sobre as relações familiares, “Uma Casa, uma Vida” (Life as a House) é um pequeno drama centrado no difícil relacionamento entre George, um arquitecto frustrado, e Sam, o seu filho adolescente rebelde.

Vitimado por uma doença trágica, George decide evitar a auto-comiseração e passar os últimos momentos da sua vida longe das obrigatoriedades da rotina profissional quotidiana, empenhando-se antes em dedicar-se a algo que realmente o motive e desafie. Assim, aproveita para reconstruir uma casa herdada pelo pai, situada numa baía, e em sedimentar o relacionamento com o seu filho, tornando-o menos conflituoso.

Irwin Winkler oferece um competente trabalho de realização, mas o filme possui algumas das irregularidades que caracterizam outras das suas obras. A sua filmografia não é especialmente estimulante, uma vez que filmes como “A Rede” (um estereotipado e formulaico thriller protagonizado por Sandra Bullock) ou “À Primeira Vista” (um desequilibrado drama sobre a cegueira que pouco mais tinha do que as boas interpretações de Val Kilmer e Mira Sorvino) são títulos que proporcionam escassas doses de inventividade.

“Uma Casa, uma Vida” é, à semelhança dos restantes trabalhos de Winkler, um filme demasiado convencional, raramente arriscando ou apostando em territórios que optem por caminhos já percorridos. Este elemento não é necessariamente negativo, até porque geralmente é elaborado de forma segura e correcta, mas também não suscita grandes rasgos de criatividade.

Por um lado, a película aproxima-se muitas vezes de um indistinto telefilme familiar (certos diálogos formatados, narrativa linear, gestão irregular da tensão dramática com cenas que apelam perigosamente à comoção fácil), por outro, apresenta a espaços traços de algum cinema independente (atmosferas sóbrias e agridoces, ocasionais sequências irreverentes e offbeat, personagens disfuncionais).
A própria banda-sonora evidencia essa dicotomia, assentando na rotineira música de Mark Ishman mas oferecendo, pontualmente, pequenas pérolas indie, como “How to Disappear Compeletely”, dos Radiohead (pelo meio há ainda Limp Bizkit, Joni Mitchell, Marilyn Manson, Violent Femmes ou Deadsy).

De qualquer forma, as personagens são suficientemente absorventes e as interpretações são ainda melhores, factor determinante para que as fragilidades de “Uma Casa, uma Vida” não superem o que de bom o filme contém.
Kevin Kline acrescenta mais um consistente desempenho ao seu currículo (interpretando um protagonista que felizmente evita a tentadora pose de “coitadinho”), Kristin Scott Thomas é igualmente tridimensional e Hayden Christensen encarna com solidez um adolescente verosímil. O elenco inclui ainda promissores jovens talentos em papéis secundários, como Jena Malone (pouco antes da participação em “Donnie Darko”) ou Ian Somerhalder (um dos protagonistas de “As Regras da Atracção”).

Não sendo um filme marcante, “Uma Casa, uma Vida” é um bom melodrama, que apesar de irregular consegue originar uma envolvente perspectiva sobre as relações familiares, a morte, o amor e o crescimento. E, no meio de tantos filmes sem substância, isso já justifica que este se torne num dos que vale a pena (re)descobrir.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

quinta-feira, julho 21, 2005

TEJO BEAT

Referência essencial do movimento asian underground, os Asian Dub Foundation têm vindo a assinalar um percurso profícuo e consistente, evidenciado em discos recomendáveis como “Community Music”, “Enemy of the Enemy” ou o recente “Tank”. Unindo uma postura activista a um caldeirão sonoro que engloba o hip-hop, rock, spoken word, dub e influências da música tradicional indiana, este colectivo britânico é um dos nomes fortes do cartaz do Festival Tejo.

A decorrer nos próximos dias 22, 23 e 24 na Quinta da Marquesa (Azambuja), a 6ª edição do Festival Tejo inclui propostas que vão desde os ritmos asiáticos dos Asian Dub Foundation e Transglobal Underground ao metal dos Moonspell, passando pelo rock dos Xutos e Pontapés e Bunnywranch, pela electrónica dos Micro Audio Waves, pelo travo africano dos Terrakota, pelo bizarro caleidoscópio dos Blasted Mechanism ou pela vertente indie de Old Jerusalem, entre outros.
Dia 22: Xutos e Pontapés, Terrakota, Melo D (Palco Tejo); Old Jerusalem, Bunnyranch, Micro Audio Waves (Palco Blitz); Maga Bo, Mike Stellar (Tenda Artizone);
Dia 23: Transglobal Underground, Asian Dub Foundation, Blasted Mechanism (Palco Tejo); Vicious Five, Ölga, Dj Nelassassin (Palco Blitz); Dubadelic Vibrations (Tenda Artizone);
Dia 24: Moonspell, Kreator, The Temple (Palco Tejo); Alone Among Thousand; Tenaz (Palco Blitz)

Se calhar passo por lá no dia 23, o que tem o cartaz mais apelativo (se bem que o de dia 22 também não é de deitar fora...).

CLUBE DE COMBATE

Nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2004, “Cruel” (Ondskan) é a segunda longa-metragem de Mikael Håfström e propõe um amargurado olhar sobre os códigos sociais, a violência e o crescimento.

Centrado em Erik Ponti, um jovem sueco de 16 anos que é enviado para um colégio interno por mau comportamento, o filme segue a sua jornada no novo local de estudo e residência, expondo as suas tentativas de não voltar a entrar no ciclo de violência que fez com que fosse repreendido anteriormente.

Embora consiga forjar alguns laços de confiança nesse novo meio – nomeadamente com o ponderado colega de quarto e com uma jovem e bela empregada -, Erik assume uma postura directa e frontal que cedo lhe garante uma série de antagonistas, sobretudo grande parte dos estudantes mais velhos que manipulam a rede de relações internas através da cultura da violência, originando um sistema baseado no medo e na repressão.

Deparando-se com a sua última oportunidade para continuar os estudos, Erik fica cada vez mais relutante quanto à atitude a adoptar. Por um lado, voltar a desiludir a sua mãe é algo que pretende evitar, por outro, considera inaceitável submeter-se às penosas e humilhantes ordens e caprichos dos colegas mais velhos, que o encaram como um alvo de chacota. Recusando tornar-se mais uma vítima de punições infundadas e abusivas, o jovem reage e coloca em causa o sistema que envolve os colegas, mas logo descobre que o preço a pagar pode ser demasiado elevado.

“Cruel” desenrola-se durante os anos 50, num período onde o impacto do nazismo ainda se encontrava bem presente, mas a sua perspectiva sobre as redes de disseminação de abusos físicos e/ou psicológicos em certas formas de organização social continua bem actual, e Håfström consegue criar um apropriado retrato cru, seco e realista que torna o filme numa poderosa experiência cinematográfica.

Complexo e verosímil, “Cruel” é um filme simultaneamente duro e comovente, que consegue despoletar um forte impacto emocional sem recorrer a rodriguinhos melodramáticos ou vícios de um típico “filme-choque” (embora contenha momentos tensos e claustrofóbicos, estes nunca se tornam exagerados ou gratuitos).

Grande parte da credibilidade das situações é gerada pela brilhante direcção de actores, uma vez que o elenco, apesar de maioritariamente jovem, é bastante seguro. Andreas Wilson, no papel de protagonista, é especialmente notável num desempenho capaz de espressar as convulsões internas de um adolescente incapaz de responder a uma realidade contraditória. Combinando austeridade e fragilidade, Wilson assinala uma muito promissora prestação e é um dos maiores trunfos do filme.

Para além do protagonista, “Cruel” impõe-se como um filme portentoso devido à realização simples e despojada de Håfström, certeira para uma história destes contornos, e ao coeso trabalho de argumento, que foge a simplismos e moralismos (ainda que perca algum fôlego nas cenas finais, não compromete o filme).

Pertinente e genuíno, “Cruel” é uma obra adulta e sensível que oferece um atento olhar sobre o lado mais desencantado e doloroso da juventude, constituíndo um dos títulos que, apesar de chegar a salas nacionais com algum atraso, ainda vem a tempo de integrar o núcleo dos filmes obrigatórios de 2005.

E O VEREDICTO É: 4/5 - MUITO BOM

quarta-feira, julho 20, 2005

QUEREM IR COMIGO AOS CONCERTOS?

Estão todos convidados a passar por aqui, onde poderão ouvir gratuitamente um concerto dos Radiohead. Embora ache que é uma banda sobrevalorizada, não há como negar a genialidade de algumas das suas canções, com destaque para "Karma Police", "How to Disappear Completely", "Street Spirit", "Climbing Up the Walls" ou "Everything in its Right Place", que estão entre as melhores geradas nos últimos anos...

Ainda assim, quem não gostar particularmente da banda de Thom Yorke (tansos!!!) pode ouvir concertos dos Calexico, The Strokes, Beastie Boys, Pearl Jam ou Beck com os Flaming Lips, entre muitos outros...Boa viagem ;)

NÃO ME CONSUMAS

Álex de la Iglesia é um cineasta espanhol que conta na sua filmografia com alguns títulos de culto, desde “O Dia da Besta” até “A Comunidade”, passando por “800 Balas”. O seu estilo, que combina humor negro com situações à beira do absurdo e marcadas pelo exagero, garantiu-lhe um fiel grupo de seguidores mas também alguns detractores que não se identificam com o seu cinema politicamente incorrecto.

“Crime Ferpeito” (Crimen Ferpecto) promete dar continuidade a esta tendência, apresentando mais situações vincadas por corrosivos episódios cómicos e por vezes delirantes. O filme centra-se em Rafael (interpretado por um carismático Guillermo Toledo, também presente em “Querida Família”) , responsável pela secção de senhora de uns grandes armazéns que vive uma vida desregrada, em que as únicas preocupações são a preocupação com o que vestir e a próxima mulher a conquisar, alimentando um ego que aumenta de dia para dia.

No entanto, o confortável quotidiano de Rafael, recheado de narcisismo e individualismo, é abalado quando o protagonista discute com um colega com o qual competia e gera, acidentalmente, a morte deste. Os problemas intensificam-se quando há uma testemunha do crime, Lourdes (Monica Cervera, num desempenho arrepiante), a empregada mais feia dos armazéns, que aproveita a oportunidade para se declarar a Rafael e exigir o ser amor...a bem ou a mal.

Álex de la Iglesia gera uma obra que foca as crescente revelância dada à imagem nos dias de hoje, elemento que exerce uma influência determinante nos comportamentos do dia-a-dia e nas relações pessoais e sociais, assim como nos media.
Leve e escorreito, “Crime Ferpeito” proporciona um entretenimento eficaz, com algumas doses de bizarria e demência, diálogos bem esgalhados e uma interessante atmosfera de desespero que atormenta a pacata vida do protagonista e o insere numa claustrofóbica espiral descendente devido às múltiplas chantagens de Lourdes.

A competência do filme é, no entanto, ameaçada pelas reviravoltas finais, onde o desenlace é resolvido de forma demasiado forçada e pouco plausível, e o argumento torna-se repentinamente pretensioso ao querer dar lições de moral ao espectador, o que faz com que a crítica ao consumismo, até então bem conseguida, se torne assim pesada e desajustada. Ainda assim, durante a maior parte da sua duração “Crime Ferpeito” consegue divertir, e isso justifica o visionamento de um filme desequilibrado, mas suficientemente intrigante.

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

terça-feira, julho 19, 2005

CHILL OUT ZONE

Um dos nomes mais emblemáticos da música downtempo, os Thievery Corporation salientaram-se em 1997 com "Sounds From the Thievery Hi-Fi", o seu primeiro álbum de originais. Marcante dentro dos domínios das electrónicas mais calmas e apaziguadas, consagrou-os como uma referência a ter em conta dentro do género, estatuto que "The Mirror Conspiracy" confirmou em 2000.

Não inovando muito face ao seu antecessor, o disco volta a apostar em sonoridades eclécticas que unem elementos de várias geografias, gerando uma interessante amálgama de contaminações e influências.

Ainda que não apresentem nada acima do esperado dentro dos registos acid jazz/trip-hop/easy-listening mais convencionais, Eric Hilton e Rob Garza conseguem proporcionar um álbum suficientemente consistente e diversificado, originando um nutritivo cocktail de sons e sabores.

Alternando entre instrumentais e temas com as apropriadas vozes de Pam Bricker, Bebel Gilberto e Lou Lou, "The Mirror Conspiracy" percorre vários idiomas - há canções cantadas em inglês, francês e até português - e fronteiras, originando uma envolvente e agradável aura atmosférica.

No seu melhor, oferece etéreos episódios capazes de viciar, mas nos momentos menos inspirados aproxima-se da música de elevador in, contudo algo indistinta, não incomodando mas também não desafiando.

No entanto, o cardápio sonoro é geralmente recomendável, tanto na aproximação ao asian underground com os temperos indianos de "Indra" e "Illumination", na suave fusão lounge/ breakbeat de "Tomorrow" ou na trilogia de travo brasileiro de "Air Batucada", "Só com Você" e "Samba Tranquille". "Lebanese Blonde", um clássico do género, também se encontra aqui, assim como o mediático "Shadows of Ourselves", com apelativos contornos de uma pop reluzente.

Não sendo um álbum obrigatório, "The Mirror Conspiracy" é, mesmo assim, uma recomendável banda-sonora para uma tarde à beira-mar, contendo um conjunto de canções refrescantes q.b. e capazes de ajudar a suportar a temperatura de um dia solarengo. Não tira a sede, é certo, mas escorrega muito bem.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

segunda-feira, julho 18, 2005

O INÍCIO DO FIM

E pronto, four down, one to go... Passou rápido, a quarta série de "Sete Palmos de Terra", e o último episódio, embora não tenha sido excelente, deu para atar algumas pontas soltas - a ver se é desta que nos livramos do fantasma da Lisa - e lançar algumas bases para a quinta - e última (não chorem porque senão eu também choro) - temporada...

Só espero que não tenhamos de esperar muito para ver o desfecho da melhor série dos últimos (ou será de todos?) os tempos, e já agora há que realçar a forma como a 2 até conseguiu emiti-la dentro dos horários previstos e a uma hora acessível. Pode ser que a SIC aprenda umas coisas acerca do modo como anda a (mal)tratar "Donas de Casa Desesperadas" (que envolve cada vez mais a cada episódio). E pronto, agora não sei quando é que volto a parar o que estou a fazer para ir ver TV...

DOIS VELHOS RABUGENTOS

Filme independente belga de baixo orçamento, "Aaltra" é assinado por Benoît Delépine e Gustave Kervern, dupla que assume simultaneamente o cargo de realizadores e actores (encarnam os dois protagonistas).

No centro da acção está o conturbado percurso de dois vizinhos de meia-idade que vivem um quotidiano pouco auspicioso, mas o seu dia-a-dia torna-se ainda menos próspero quando têm um acidente com uma máquina agrícola e ficam ambos paralisados da cintura para baixo.

Colocando de lado - pelo menos parcialmente - as suas diferenças e antagonismos, ambos decidem deixar a Bélgica rural e efectuar uma viagem rumo à Finlândia, uma vez que é aí a sede da empresa Aaltra, fabricante da máquina que suscitou o acidente.

Delépine e Kervern proporcionam um road-movie de tons contemplativos e serenos, por onde passam algumas doses de bizarria a espaços. Um dos aspectos mais curiosos é o facto da viagem ser maioritariamente percorrida numa cadeira de rodas, mas esta é apenas uma das múltiplas características offbeat que "Aaltra" contém.

Com um sentido visual peculiar - imagem granulada e a preto-e-branco - e um argumento que assenta sobretudo em gags entre o burlesco e algum slapstick, o filme promete tornar-se num curioso exercício de cinema marginal.
Contudo, os resultados desiludem, pois embora haja por aqui três ou quatro momentos divertidos - o monólogo num bar ou as cenas em que a dupla "pede" dinheiro na rua -, o humor corrosivo e irónico desses episódios não domina a maior parte da película.
"Aaltra" perde-se em sequências demasiado longas e algo repetitivas, e a culpa nem é tanto da quase escassez de diálogos mas da débil gestão do ritmo, o que origina várias ocasiões onde a monotonia impera.

O filme de Delépine e Kervern poderá agradar, ainda assim, a quem procure um filme sobre outcasts, mesmo que o humor negro não seja muito frequente e dê lugar a um registo lacónico e amargurado que se torna cansativo. Uma viagem com potencial, mas infelizmente desapontante.

E O VEREDICTO É: 1,5/5 - DISPENSÁVEL

sábado, julho 16, 2005

COM UNHAS E DENTES

Seis anos depois da prova de vitalidade assinalada em “The Fragile”, os Nine Inch Nails (ou, simplificando, Trent Reznor) regressam com “With Teeth”, o seu novo registo de originais. Neste hiato temporal, a discografia do projecto aumentou devido à edição do curioso, mas desigual “Things Falling Apart” (álbum de remisturas de “The Fragile”) e “And All That Could Have Been” (um portentoso disco ao vivo que, em edições especiais, trazia como bónus outro CD, o belíssimo “Still”).

Apresentando mais um capítulo ao seu projecto, Trent Reznor proporciona mais um conjunto de canções caracterizadas por atmosferas góticas onde a visceralidade das guitarras convive com a envolvência das electrónicas.

Atingindo o pico do sucesso em meados da década de 90, com o incontornável “The Downward Spiral”, os Nine Inch Nails tiveram posteriormente a adesão de um núcleo mais restrito de seguidores quando as sonoridades industriais abandonaram a sua curta passagem por domínios mainstream (num período em que nomes como os Prodigy ou Marilyn Manson também se tornaram mais mediáticos).

Dando continuidade aos ambientes mais apaziguados e etéreos que “The Fragile” e “Still” continham, “With Teeth” é um disco que expõe uns Nine Inch Nails menos abrasivos, possuindo alguns momentos de invulgar intimismo e tranquilidade. As descargas de raiva e energia já não preenchem a maioria das composições, e por isso os domínios que o álbum percorre são menos efusivos do que os de clássicos como “Sin” ou “Mr. Self Destruct”.

Esta mudança torna “With Teeth” num registo mais acessível do que os anteriores, reduzindo a aspereza e alguma complexidade rítmica que gerava alguma estranheza em ouvidos menos audaciosos, mas tal não significa que as canções sejam menos interessantes. O disco contém, aliás, vários momentos inspirados, desde o forte tema de abertura, “All the Love in the World”, próximo de territórios ambient/ trip-hop, até ao belíssimo desenlace com a viciante inquietação de “Right Where it Belongs”.

Apesar de algumas alterações, “With Teeth” é, contudo, um disco algo indeciso, que sugere uma mutação considerável dos Nine Inch Nails mas não chega a concretizá-la inteiramente. Se, por um lado, temas como os destacados desbravam caminhos novos, outros como “The Collector”, “Love is Not Enough” e “With Teeth” limitam-se a repisar os modelos habituais do projecto, exibindo eficácia mas limitadas doses de surpresa.

Ao situar-se neste impasse, Trent Reznor oferece um álbum que oscila entre o razoável e o muito bom, gerando um resultado irregular e impedindo “With Teeth” de se tornar num grande disco.
No entanto, episódios como a cativante desolação de “Every Day is Exactly the Same”, a vibrante claustrofobia de “Beside You in Time”, o irresistível travo electropop de “Only” ou a crescente intensidade emocional de “Sunspots” (o melhor momento do álbum) fazem com que este seja ainda um conjunto de 14 canções acima da média e uma das boas colheitas musicais de 2005, evidenciando a boa forma de um projecto sólido como poucos.

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

sexta-feira, julho 15, 2005

O REGRESSO DO CAVALEIRO DAS TREVAS

Nos últimos anos, o universo da banda-desenhada tem servido de fonte de inspiração para múltiplos filmes, desde mediáticos super-heróis – “Homem-Aranha”, “X-Men” – até referências mais marginais – “Sin City – A Cidade do Pecado” ou “Ghost World – Mundo Fantasma”.

Num perído onde adaptações de ícones dos comics germinam como cogumelos, uma das personagens essenciais desses domínios teria de ser (re)aproveitada para mais um novo olhar cinematográfico.
“Batman: O Início” (Batman Begins) assinala o regresso do alter-ego de Bruce Wayne a territórios da sétima arte depois das visões de Tim Burton (que criou os aclamados “Batman” e “Batman Regressa”) e Joel Schumacher (responsável pela ridicularização do defensor de Gotham City em “Batman Para Sempre” e, sobretudo, “Batman e Robin”).

Tendo em conta os resultados desequilibrados dos filmes anteriores, esta nova aventura do homem-morcego era aguardada com expectativa e alguma relutância, mas as probabilidades do resultado ser competente aumentaram quando Chris Nolan, realizador do interessante filme de culto “Memento” e do curioso, mas mais convencional policial “Insónia”, assumiu a direcção do projecto.

Embora Nolan não se tivesse responsabilizado por um blockbuster até agora, a sua primeira experiência num filme desta dimensão não só é bem sucedida como proporciona o seu melhor filme até à data.

Criando uma atmosfera apropriadamente soturna e inquietante, o cineasta oferece em “Batman: O Início” uma obra que, mais uma vez, demonstra o seu rigor e equilíbrio visual que ajudaram a que os seus títulos anteriores se tornassem tão emblemáticos.
Longe da vertente bizarra e onírica de Burton e do desbragamento carnavalesco de Schumacher (que conseguiu ser mais camp do que a série televisiva dos anos 60), Nolan origina uma perspectiva densa, crua e mais realista, apostando num registo sóbrio e sofisticado.

Mais centrado na dicotomia Bruce Wayne/Batman do que no carácter dos seus antagonistas (contrariando, assim, a tendência das adaptações anteriores), “Batman: O Início” explora o homem por detrás da máscara (ou a máscara por detrás do homem?), debruçando-se sobre as tensões e fragilidades do protagonista e evidenciando os motivos que suscitaram que um playboy milionário se tornasse num super-herói repleto de contrariedades.

Nolan constrói aqui uma obra inspirada, mas ainda assim irregular, uma vez que o olhar sobre o lado psicológico de Batman nem sempre é convincente (os momentos iniciais, repletos de frases feitas pseudo-profundas da filosofia oriental, são esteriotipados e insípidos) e a envolvente aura intimista que o filme vai desenvolvendo é subitamente interrompida quando o argumento cede, nos últimos momentos, aos lugares-comuns de um banal blockbuster (não é que Nolan não seja competente nas cenas de acção, mas as doses de adrenalina do desenlance são pouco espontâneas e demasiado formatadas).

Mesmo com essas limitações, “Batman: O Início” impõe-se como um filme sólido e adulto, com personagens estimulantes e notáveis interpretações de todo o elenco.
De resto, outra coisa não seria de esperar com actores do nível de Christian Bale (que compõe um intrigante e enigmático Batman, provavelmente o melhor que já se viu no grande ecrã), Katie Holmes (segura como advogada idealista, dando continuidade à promissora interpretação de “Pedaços de uma Vida”), Liam Neeson (competente, apesar da personagem mal explorada), Michael Caine (profissionalíssimo como sempre), Morgan Freeman (igual a si próprio, mas irrepreensível) ou Cillian Murphy (arrepiante como Scarecrow, num excelente desempenho que confirma a sua versatilidade ao distanciar-se dos papéis de “28 Dias Depois” ou “Intervalo”).

Não sendo uma obra-prima, “Batman: O Início” é, contudo, um dos melhores blockbusters do Verão de 2005 e vai além dos requisitos mínimos de um filme-pipoca, contendo substrato dramático, intensidade visual e um realizador que soube compreender o universo do protagonista.
Espera-se que, na inevitável sequela (que a última cena sugere descaradamente), os resultados sejam igualmente convincentes e estimulantes.
E VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

O REI VAI NÚ

Pois, o King Kard é muito giro e dá jeito aos cinéfilos e tal mas é um pouco desagradável chegar a uma semana onde há 5 filmes a estrear e o cartão apenas possibilita ver um (e logo o que deve ser o piorzinho de um conjunto já de si fraco: "A Máscara 2 - A Nova Geração"). Como se já não bastasse deixar de fora títulos como "Old Boy" e "Donnie Darko: Director's Cut" há uns tempos, ainda acontece uma destas...Se a tendência continuar, para o ano não me apanham novamente...

Mesmo assim, isso não me impediu de ir ver "Cruel" (Ondskan), do sueco Mikael Håfström, nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2004, uma fortíssima perspectiva sobre a adolescência, os códigos sociais e a violência. Valeu a pena, e ainda ganhei uma t-shirt (grátis na compra de dois bilhetes).

É já um dos grandes filmes do ano (altamente recomendado) que vem enriquecer um cartaz cinematográfico bastante pobre, mas que infelizmente só se encontra em 3 salas nacionais - no Quarteto e UCI em Lisboa e no AMC no Porto -, o que é especialmente triste quando coisas como "A Máscara 2 - A Nova Geração" ou "Quem tem Medo do Papão?" (por muito que tentassem, não arranjavam um título pior) infestam múltiplas salas por todo o país. Enfim...

E pronto, agora é hora de voltar à penitência - AKA tratar da papelada da casa -, que adiei durante várias semanas (como qualquer português que se preze) mas amanhã tenho mesmo de despachar isso...Boooooring...

BLINKS & LINKS

Obrigado ao brain-mixer e ao Johnny por me blinkarem nos seus blogs :)

quinta-feira, julho 14, 2005

A IDADE MAIOR

Com uma discografia praticamente incólume - marcada por álbuns incontornáveis como "Some Great Reward", "Violator" ou "Songs of Faith and Devotion" -, os Depeche Mode evidenciam-se como uma das bandas dos anos 80 que melhor soube conservar os traços essenciais da sua sonoridade sem que isso impossibilitasse a absorção de novos domínios e tendências.

Algo subestimado, uma vez que foi editado em 1997, alguns anos após a fase áurea do grupo
- finais de 80/ inícios de 90 -, "Ultra" pode não ser o disco mais emblemático e ousado dos Depeche Mode, mas é um dos mais consistentes e coesos.

Produto de um conturbado período que quase originou a dissolução do projecto - sobretudo devido à saída de Alan Wilder e aos consideráveis problemas que o vocalista Dave Gahan enfrentou devido ao consumo de drogas -, o disco é vincado por uma sóbria pop electrónica, distante dos tons mais poppy que caracterizaram a banda em inícios da década de 80 e das influências blues/gospel adoptadas na alvorada dos anos 90.

Percorrendo atmosferas densas e nocturnas, "Ultra" expõe sinais de uma banda que consegue aliar uma escrita cada vez mais sólida a absorventes e complexos ambientes, gerando um conjunto de composições maduras e de forte teor introspectivo.

Carregado de momentos inspirados, "Ultra" oferece algumas das melhores canções que os Depeche Mode já criaram, casos do portentoso tema de abertura "Barrel of a Gun", da claustrofóbica e intensa "Useless" e, sobretudo, da belíssima "Home", onde Martin Gore substitui Dave Gahan enquanto vocalista e o resultado é encantatório e avassalador. No entanto, se Gore surpreende nessa ocasional colaboração vocal, Gahan não é menos convincente e apresenta uma voz em excelente forma, cantando melhor do que nunca.

Vincado por electrónicas negras que por vezes se aproximam da obscuridade apaziguada dos Nine Inch Nails de "The Fragile" e "With Teeth", contendo ainda doses de melancolia e intimismo semelhantes às de "Adore", dos Smashing Pumpkins, ou de "Up", dos R.E.M., "Ultra" é um disco de calibre elevado e um dos grandes momentos da discografia dos Depeche Mode. Não é um dos álbuns mais inventivos da banda, mas é um dos melhores. Essencial.

E O VEREDICTO É: 4,5/5 - MUITO BOM

quarta-feira, julho 13, 2005

UM SUSTO DE FILME

Quando se pensava que a moda do sobrenatural no cinema já estava algo ultrapassada - uma vez que foi uma tendência mais visível limiar do novo milénio, com resultados entre o penoso ("Estigma", "Os Dias do Fim") e o interessante ("O Sexto Sentido", "Os Outros"), eis que chega "Ruídos do Além" (White Noise), de Geoffrey Sax.

Desta vez, o ponto de partida é o fenómeno dos EPV (Electronic Voice Phenomena), através do qual os mortos podem comunicar com os vivos recorrendo a aparelhos electrónicos. O filme segue o desencanto de Jonathan Rivers (Michael Keaton), um arquitecto bem-sucedido que, após a súbita morte da esposa, começa a encontrar-se com um especialista de EPV que lhe assegura que a sua mulher, apesar de morta, tenta ainda contactá-lo por via de aparelhos electrónicos (sobretudo pelo televisor).

Embora hesite face a estas inesperadas revelações, Jonathan começa a crer cada vez mais que a esposa está, de facto, a tentar contactá-lo, alertando-o para o carácter maligno de certas entidades sobrenaturais.

Banal e monótono, "Ruídos do Além" é um thriller que se limita a oferecer suspense de pacotilha, auras místicas new age e perigos esotéricos. Se os primeiros minutos ainda conseguem desenrolar-se com alguma sobriedade, as debilidades do argumento encarregam-se de tornar o resto do filme numa experiência cinematográfica risível, com expoente máximo no espalhafatoso desenlace.

O trabalho de realização de Geoffrey Sax, indistinto e previsível, também não contribui para que o filme funcione, e o elenco é igualmente incapaz de surpreender, tanto o protagonista Michael Keaton (em piloto automático), como Deborah Kara Unger (muito longe da presença insinuante e enigmática que a destacou em "Crash" ou "O Jogo").

Fime falhado e descartável, "Ruídos do Além" tem tanto interesse e credibilidade como a maioria dos episódios das últimas temporadas de "Ficheiros Secretos", o que, saliente-se, não é propriamente um elemento auspicioso. Recomenda-se, então, somente aos mais acérrimos (e corajosos) fãs do género.
E O VEREDICTO É: 1/5 - DISPENSÁVEL

terça-feira, julho 12, 2005

ELECTROBLUES

Uma das boas bandas britânicas formadas no final da década de 90, os Gomez recolheram fortes elogios logo no registo de estreia, "Bring it On", de 1998, álbum que lhes concedeu a atribuição do reputado Mercury Prize.

Um ano depois, "Liquid Skin" seguiu as pistas lançadas pelo primeiro disco, mas em 2002 o quinteto apresentou "In Our Gun", que ampliou um pouco as já diversificadas sonoridades praticadas pelo grupo.

Congregando indie rock, folk, britpop e blues, o terceiro álbum dos Gomez inclui ainda elementos electrónicos, que já complementavam ocasionalmente as canções de registos anteriores mas que obtêm aqui uma predominância mais acentuada.

Trazendo maior modernidade às atmosferas blues/ folk que a caracterizavam, a banda insere subtis contrastes rítmicos que por vezes se aproximam do hipnotismo do trip-hop ou da envolvência do dub, gerando um conjunto de temas que conseguem ser experimentais mas evitam o hermetismo (aliás, grande parte das canções poderia ser um single).

Coeso e cativante, "In Our Gun" é um álbum que, apesar de estar acima da média - sendo decididamente melhor do que certos conterrâneos que continuam a apostar numa estafada fórmula britpop avessa a novas referências -, torna-se, a espaços, um pouco derivativo, aproximando-se tanto dos Calexico ("In Our Gun") ou Morphine ("Shot Shot") como dos Oasis ("Sound of Sounds") ou Delakota ("Detroit Swing 66"), passando pelos Pearl Jam, Turin Brakes ou Dave Matthews Band (com estes últimos exibe sobretudo semelhanças no registo vocal e não tanto nas sonoridades).

Exceptuando este entrave, o disco proporciona motivos suficientes para justificar múltiplas audições, casos da energia contagiante de "Drench", dos intrigantes ambientes de "Army Dub", dos registos contrastantes de "In Our Gun" (onde a melancolia acústica é subitamente interrompida por uma viciante carga electrónica) ou da irreverência de "Ruff Stuff".

Não contendo nada nem de genial nem de insípido, "In Our Gun" é mais um recomendável título da interessante discografia dos Gomez, confirmando, ao terceiro registo, um dos bons projectos de terras de sua majestade.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

segunda-feira, julho 11, 2005

TUDO SOBRE AS MÃES DELES

Centrado numa temática recente e polémica - a legalização dos casamentos entre homossexuais em Espanha -, "Rainhas" (Reinas) combina drama e comédia e segue os preparativos para o casamento de uma série de personagens gay, focando em particular o relacionamento destes com as suas mães.

Actual e controverso, o filme é a mais recente proposta de Manuel Gómez Pereira, realizador de obras razoavelmente divertidas como "Porque lhe Chamam Amor Quando Querem Dizer Sexo?" ou "Boca a Boca" (este com Javier Bardem, antes da aclamação de "Antes que Anoiteça" e "Mar Adentro").

Tal como os títulos anteriores de Gómez Pereira, "Rainhas" é um filme que contém uma considerável componente kitsch, visível logo no genérico inicial e presente em várias personagens e situações pitorescas.
Interligando uma série de figuras de várias origens que têm em comum um contacto relativamente próximo com a homossexualidade - com todo o tipo de reacções que daí advêm -, a película oferece um olhar sobre as alterações sociais da Espanha contemporânea.

Vincado por cenas de humor negro e politicamente incorrecto, "Rainhas" aproxima-se, por vezes, de domínios próximos dos de Pedro Almodóvar, não tanto os da sua fase mais recente mas do seu período mais irreverente e espirituoso (ou seja, mais o de "Kika" ou "Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos" e menos o de "Má Educação", ainda que este também se centre na homossexualidade, contudo com uma perspectiva bem mais soturna).

Um dos melhores ingredientes de "Rainhas" é a soberba direcção de actores, uma vez que o elenco inclui vários nomes de actrizes consagradas como Verónica Forqué, Cármen Maura, Marisa Paredes, Betiana Blum e Mercedes Sampietro, que desempenham o papel de mães dos noivos. É essencialmente sobre elas que incide o olhar de Gómez Pereira, e as suas diversificadas relações com os seus filhos gay orientam o decorrer dos acontecimentos.

Longe dos modelos do filme militante, "Rainhas" apresenta um interessante estudo de personagens que, através da temática da homossexualidade, abrange também as dos laços familiares, códigos sociais, (in)tolerância, amor e clivagens sociais, alternando entre episódios sérios e situações carregadas de humor (ora óbvio e populista, ora irónico e refinado).

Gómez Pereira gera aqui um dos seus melhores filmes, esculpindo um argumento envolvente, personagens carismáticas (embora sejam demasiadas e, por isso, algumas vão pouco além da caricatura) e um eficaz trabalho de realização, apostando numa narrativa com uma curiosa gestão do tempo que tem o mérito de não deixar o espectador descoordenado face a um conjunto de personagens tão vasto.

Funcionando como um muito agradável entretenimento mas também enquanto um pertinente retrato da realidade urbana espanhola dos dias de hoje, "Rainhas" comprova que é possível fazer um tipo de cinema simultaneamente acessível e relevante, equilibrando a marca autoral e a vertente comercial. De resto, estes elementos já são comuns em muitos exemplos da cinematografia espanhola recente, evidenciando algo que o cinema português ainda não é capaz de fazer regularmente. Um filme a ver, portanto...

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

domingo, julho 10, 2005

DIZ-ME O QUE OUVES...

O skizo lançou-me um questionário musical (sim, estão mesmo na moda), que deverá atender ao seguinte: "list five songs that you are currently digging. It doesn't matter what genre they are from, whether they have words or even if they're any good but they must be songs you're really enjoying right now. Post these instructions, the artist and the song in your blog along with your five songs. Then tag five other people to see what they're listening to."
Assim sendo, aqui ficam as escolhas:
1. Billy Corgan - "Mina Loy (M.O.H.)"
2. Coldplay - "White Shadows"
3. Ladytron - "Destroy Everything You Touch"
4. I AM X - "Kiss and Swallow"
5. The Postal Service - "We Will Become Silhouettes"

E o desafio segue para:

OS BONS REBELDES

Nos últimos anos, a animação digital tem-se destacado ao ponto de praticamente levar à extinção dos modelos mais tradicionais, oferecendo uma série de títulos emblemáticos como "Toy Story", "Shrek", "À Procura de Nemo" ou "The Incredibles: Os Super-Heróis".

Proveniente da Dreamworks, que dentro do género originou já dois filmes do popular ogre verde ou "O Gang dos Tubarões", "Madagáscar" (Madagascar) é o filme de animação destes estúdios para o Verão de 2005, apresentando mais um conjunto de divertidas personagens e, claro, novos prodígios visuais.

A película de Eric Darnell e Tom McGrath segue as aventuras de quatro animais de um zoo nova-iorquino - um Leão narcisista, uma Zebra irreverente, uma girafa hipocondríaca e uma hipopótamo decidida - que, tentando fugir a um quotidiano confortável, mas rotineiro, decidem viajar para a selva.

Curto (não ultrapassa os 80 minutos) e movimentado, "Madagáscar" é um filme leve e competente que, à semelhança das obras do género, exibe uma notável sofisticação técnica, algumas personagens bem conseguidas e uma selecção de vozes carismáticas (como as de Ben Stiller, Chris Rock ou David Schwimmer).
No entanto, apesar de ser um entretenimento escorreito, não chega a ultrapassar a mediania, sobretudo devido à escassa densidade emocional que transmite e ao argumento pouco coeso, que aposta mais numa sucessão de gags do que numa narrativa sólida e envolvente.

É certo que há momentos irresistíveis (em particular aqueles centrados nos pinguins ou nos lemures), interessantes cenas de citação cinéfila (como a "Beleza Americana" ou "O Náufrago") e um ritmo dinâmico, mas o resultado é apenas agradável e não tão impressionante quanto se esperaria.
Demasiado breve e superficial, "Madagáscar" nem chega a desenvolver as potencialidades de todos os protagonistas, e por isso a girafa Melman e a hipopótamo Glória raramente geram episódios dignos de nota.

Enquanto divertimento ligeiro, o filme cumpre a sua função, mas quem procurar uma obra inovadora e inspirada dificilmente encontrará essas características em "Madagáscar", um título simpático mas longe de surpreendente.

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

sexta-feira, julho 08, 2005

NÃO TENHAM MEDO

Um dos projectos mais profícuos oriundos de domínios trip-hop, os Lamb apresentaram, no seu segundo álbum, o momento mais inspirado da sua discografia, melhorando os bons resultados que o registo de estreia, "Lamb", já exibia.

"Fear of Fours" é não só um dos discos obrigatórios de 1999 como um dos que melhor consegue expor os traços essenciais de uma intrigante sonoridade de final do milénio. Centrando-se no trip-hop, as canções congregam também elementos do drum n' bass, electro, jazz, spoken word, pop, torch song, downtempo e algum techno, oferecendo uma amálgama coesa e inventiva.

As muito eficazes programações rítmicas de Andy Barlow são o complemento perfeito para a singular voz de Louise Rhodes, que por vezes pode gerar estranheza, uma vez que nao se trata de uma vocalista de tons imediatamente acessíveis, mas que acaba por envolver e conquistar.

Ousado e difícil de rotular, "Fear of Fours" proporciona grandes momentos de impacto emocional através da soberba interligação de loops e samples e uma vertente orgânica (a presença do baixo é especialmente determinante), que juntamente com a voz de Rhodes conseguem originar canções de recorte superior que vão desde ambientes calorosos e absorventes, como na balada "Softly", até à frieza arrepiante de "Alien".

Apesar dos álbuns posteriores - "What Sound" e "Between Darkness and Wonder" - apostarem numa sonoridade algo formatada e linear, "Fear of Fours" é um registo versátil e heterogéneo, um dos melhores exemplos da electrónica de finais da década de 90, tão relevante como referências musicalmente próximas onde figuram os Massive Attack, Portishead, Gus Gus, Sneaker Pimps, Tricky, UNKLE ou Garbage.
Vale a pena, por isso, (re)descobrir a imponência épica de "Bonfire", as etéreas atmosferas do excelente instrumental "Five", a frenética vibração breakbeat de "Little Things", os temperos bossanova de "Here" ou a desconcertante estranheza da inventiva "Fly", canções que conservam ainda consideráveis cargas de surpresa e contemporaneidade.
E O VEREDICTO É: 4/5 - MUITO BOM

INSÓNIA

Movendo-se entre o thriller psicológico, o road movie e o drama conjugal, "Sinais Vermelhos" (Feux Rouges) assinala o regresso do cinesasta Cédric Kahn e centra-se nas peripécias de um casal que faz uma viagem de carro relativamente longa a fim de ir buscar os filhos a uma colónia de férias.

Kahn sugere, logo desde o início, que a aparentemente rotineira viagem suscitará acontecimentos tumultuosos e conturbados, uma vez que o filme é contaminado por atmosferas tensas que se vão adensando progressivamente.

Quando Antoine, o marido, insiste em dar continuidade ao consumo de álcool, colocando em risco a sua segurança na estrada, Hélène abandona-o e opta for fazer o resto do percurso sozinha, deixando para trás uma viagem marcada por uma interminável discussão.

Com tanto de cru e realista como de onírico e nebuloso, "Sinais Vermelhos" debruça-se sobre a solidão, a falta de comunicação, as fronteiras entre a sanidade e a loucura ou as dificuldades das relações humanas, mas infelizmente os resultados não são os mais auspiciosos.

Kahn sugere, nas primeiras cenas, traços de um interessante retrato de um quotidiano urbano em combustão, com nervo e intensidade q.b., mas à medida que o filme se desenrola essa tensão nem sempre é bem gerida.

O desenvolvimento das personagens não é muito conseguido, não obstante os bons desempenhos de Jean-Pierre Darroussin e Carole Bouquet, e o argumento fragmentado, embora contenha algumas pequenas reviravoltas e eficazes momentos de suspense, não é acompanhado por um ritmo envolvente.

Insípido e pouco estimulante, "Sinais Vermelhos" está longe de ser uma película de paragem obrigatória, pois as duas ou três sólidas cenas arrepiantes que contém não são suficientes para justificar a viagem. Recomenda-se, por isso, seguir outro percurso…

E O VEREDICTO É: 1,5/5 - DISPENSÁVEL

quinta-feira, julho 07, 2005

A MAGIA DA NOVA POP

Combinando elementos do electroclash, dream pop, new wave e spoken word, os britânicos Ladytron apresentaram, em "604", um belo álbum de estreia, recuperando sonoridades dos anos 80 mas contextualizando-as no presente, evitando exercícios de nostalgia oportunista e gerando um refrescante e experimental disco pop.

Um ano depois, em 2003, o registo sucessor voltou a apostar em azimutes semelhantes, empreendendo mais uma viagem por atmosferas entre o festivo e o melancólico. Embora mantenha os traços característicos da banda, "Light and Magic" aposta em domínios mais densos e frios, contendo canções mais clínicas e distantes do que as que compunham o primeiro álbum. Os ambientes inocentes e encantatórios de temas como "Playgirl" ou "Discotraxx" já não se manifestam aqui com tanta frequência, pois "Light and Magic" intensifica as zonas de sombra e contém, por vezes, um carácter gélido que as suas canções agridoces não sugeriam antes.

Um dos maiores trunfos deste quarteto de Liverpool é o contraste das suas vocalistas, Helen Marnie e Mira Aroyo. A doçura e fragilidade da voz de Marnie encontra um apropriado contraponto nas intrigantes e soturnas vocalizações de Aroyo, originando bem conseguidos momentos em que estas posturas dissonantes se entrelaçam de forma eficaz.

Embora "Light and Magic" seja mais obscuro do que "604", contém ainda alguns episódios descaradamente poppy, como o cativante "Blue Jeans", o elíptico single "Seventeen" ou o hipnótico "The Reason Why". Contudo, a maior parte do disco consiste em temas ásperos como o nebuloso "Black Plastic", o robótico e enigmático "Cracked LDC", o dançável "Flicking Your Swith" ou o muito catchy "Evil".

Sendo uma contagiante proposta de pop electrónica com tanto de retro como de futurista, repleta de texturas envolventes - algures entre os Kraftwerk, Human League e Depeche Mode passando também pelos Zoot Woman, Le Tigre ou Bis -, "Light and Magic" fica, contudo, uns furos abaixo do álbum antecessor.
Apesar de conter canções interessantes, o disco é demasiado longo, e a espaços torna-se mesmo um pouco cansativo, sobretudo no último terço, excessivamnete esquemático e mecânico, menos inspirado do que a secção inicial. Nada que impeça, mesmo assim, que os Ladytron constem já entre as bandas mais promissoras da pop actual...
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

quarta-feira, julho 06, 2005

ENTRE A LUZ E A SOMBRA

E quase trinta anos depois, a saga está finalmente completa (ou será que não?). "Star Wars: Episódio III - A Vingança dos Sith" (Star Wars: Episode III - Revenge of the Sith) fecha a mais famosa space opera de sempre, finalizando a trilogia de prequelas que complementam a série original.

Se é verdade que os novos episódios das aventuras intergalácticas geradas por George Lucas - "A Ameaça Fantasma" e "O Ataque dos Clones" - não foram capazes de recuperar as doses de surpresa que os primeiros apresentaram há três décadas, "Star Wars: Episódio III - A Vingança dos Sith" consegue, pelo menos, proporcionar um competente desenlace para a mais recente trilogia, recuperando algum do encanto inicial da saga, que já se julgava definitivamente perdido.

Expondo um dos momentos decisivos da série - a transformação de Anakin Skywalker em Darth Vader -, "Star Wars: Episódio III - A Vingança dos Sith" contém por isso uma considerável aura mítica, tendo em conta que as reviravoltas que apresenta são incontornáveis para o desenrolar de "Star Wars: Episódio IV - Uma Nova Esperança", "Star Wars: Episódio V - O Império Contra-Ataca" e "Star Wars: Episódio VI - O Regresso do Jedi".

Elogiado por algumas vozes, que o consideram um dos episódios mais complexos e ambíguos da saga, o filme tem, de facto, o mérito de reduzir o excessivo maniqueísmo presente nas aventuras anteriores, enveredando por atmosferas emocionais mais dúbias e cinzentas. Nesse sentido, a personagem de Anakin Skywalker é determinante, uma vez que concentra uma conturbada rede de inquietações e dúvidas acerca da postura a adoptar e dos ideias a defender.

Esta interessante dilaceração emocional é incomum na série, habitualmente marcada por personagens desprovidas de considerável densidade dramática, mas mesmo assim poderia ter sido melhor trabalhada, tendo em conta que a transformação do protagonista nem sempre é convincente (a abrupta revolta contra os Jedi, ainda que minimamente justificada, é pouco credível, assim como alguns actos extremistas que Anakin enceta).

"Star Wars: Episódio III - A Vingança dos Sith" é um filme por vezes vibrante, mas desigual no seu todo. Se a nível visual George Lucas volta a superar-se, oferecendo mais uma galeria de prodígios técnicos e cenários apropriadamente megalómanos, na narrativa essa eficácia não se manifesta de forma tão recorrente, uma vez que o filme está repleto de altos e baixos, oscilando entre combates demasiado longos e previsíveis (de que são exemplo os cansativos vinte minutos iniciais, onde os heróis derrotam os antagonistas com uma facilidade nada verosímil), e pequenos momentos onde o realizador revela maior singularidade (como nas bem conseguidas cenas finais, onde os destinos de Anakin e Amidala são apresentados em paralelo).

Ainda que possua algumas sequências arrepiantes, sobretudo na segunda metade (quando a tensão se adensa a cada minuto), "Star Wars: Episódio III - A Vingança dos Sith" não evita certos elementos mais débeis, casos dos imberbes e simplistas diálogos entre o par central, um argumento demasiado esquemático, personagens sem grande espessura (excepto Anakin Skywalker e Obi-Wan Kenobi) e uma mediana direcção de actores.

Há, contudo, algumas surpresas, como a sólida prestação de Hayden Christensen, capaz de evidenciar as contrariedades emocionais de Anakin, onde o actor expõe uma enigmática relutância que já tinha dado bons resultados em "Shattered Glass - Verdade ou Mentira", de Billy Ray. Não é um desempenho brilhante, mas é suficientemente competente e, por isso, contribui para que o filme resulte (se falhasse, "Star Wars: Episódio III - A Vingança dos Sith" não se aguentava).

Ficando longe do estatuto de obra-prima, ou mesmo de uma película especialmente ispirada, o terceiro episódio da trilogia de prequelas convence ao inserir um vital intimismo numa saga contaminada por uma constante (e excessiva) espectacularidade.

Não traz nada de novo ao universo da ficção científica (muito mudou em trinta anos), mas é, mesmo assim, uma recomendável aventura intergaláctica, resgatando o carisma (ou parte dele) de uma saga à beira do esgotamento. Um entretenimento escorreito com um eficaz contraste entre a luz e a sombra, e provavelmente o mais forte candidato ao título de "filme-pipoca de culto" de 2005...

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

BALADAS DO ASFALTO EM LISBOA

Um dos artistas nucleares da nova música brasileira apresenta hoje o seu novo disco em Portugal. Zeca Baleiro actua esta noite no Fórum Lisboa e traz consigo o recente "Baladas do Asfalto & Outros Blues".

Um dos nomes mais elogiados da nova música popular brasileira, Zeca Baleiro tem cimentado uma sólida discografia vincada por uma sonoridade ecléctica e fusionista.

"Baladas do Asfalto & Outros Blues", o seu quinto álbum de originais, envereda por atmosferas mais apaziguadas e, como o título sugere, reforça a vertente de contador de histórias que os trabalhos anteriores já apresentavam.

O disco será apresentado ao vivo hoje no Fórum Lisboa, pelas 22 horas, num concerto que deverá ainda recordar momentos de "Pet Shop Mundo Cão" (2002), "Líricas" (2000), "Vô Imbolá" (1999) e "Por Onde Andará Stephen Fry?" (1997). Se calhar passo por lá mais logo...

terça-feira, julho 05, 2005

ADEUS, PAI

Uma obra idealista em tons de fábula moderna, "A Balada de Jack e Rose" (The Ballad of Jack and Rose) é a terceira longa-metragem de Rebecca Miller (filha de Arthur Miller) e sucede a "Angela" - inédito entre nós - e "Velocidade Pessoal".

O filme centra-se em Jack (Daniel Day-Lewis, seguro como sempre) e na sua filha adolescente Rose (promissora Camilla Belle) que vivem isolados numa ilha dos Estados Unidos, tentando assim escapar à desumanização despoletada pelo contacto regular com a civilização urbana.

Marcado pelos ideais hippie que orientaram a sua juventude, Jack é um ávido defensor de causas ambientalistas e insurge-se contra as tiranias da cultura empresarial, mantendo uma conduta individualista com escassas relações sociais.

No entanto, à medida que o seu estado de saúde se debilita, o protagonista apercebe-se que a sua filha dificilmente conseguirá tornar-se autónoma e madura caso a sua educação continue vincada por um isolamento tão forte, e assim tenta fazer com que a sua rede de relações se estenda.

Embora contenha uma envolvente aura etérea, uma convincente direcção de actores (com destaque para o par principal) e uma realização competente, "A Balada de Jack e Rose" é um filme que tem tanto de agradável quanto de efémero.
Rebecca Miller oferece um melancólico olhar sobre a perda da inocência, as relações familiares, a evolução civilizacional e a solidão, o resultado final é desequilibrado, uma vez que o argumento não é muito coeso e o ritmo é bastante desigual, oscilando entre cenas de uma intrigante tensão dramática e momentos de considerável monotonia e frieza emocional.

Apesar da relação de Jack e Rose ser bem trabalhada, com espaço para a ambiguidade e escapando a lugares comuns, as personagens secundárias não são tão estimulantes, raramente apresentando alguma substância que ultrapasse a de figuras meramente acessórias e pouco complexas.

"A Balada de Jack e Rose" é então uma obra irregular, com alguns bons momentos que não chegam a formar um todo convincente e memorável. Será relembrado, mesmo assim, como um filme curioso e por vezes meritório, mas longe de essencial.

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

segunda-feira, julho 04, 2005

NOSTALGIA MODERNA

Autêntica pedrada no charco no panorama musical português, os Humanos surpreenderam, no final de 2004, com um disco que recuperou algumas canções "perdidas" de António Variações e as adaptou ao presente.

O resultado foi um álbum recebido com unanimidade pela crítica (presença constante nas listas de melhores do ano) e pelo público (conquistou rapidamente os lugares cimeiros do top de vendas).

Manuela Azevedo, Camané, David Fonseca, Nuno Rafael, Hélder Gonçalves, João Cardoso e Sérgio Nascimento foram os responsáveis pelo projecto que trouxe alguma vitalidade à nova música portuguesa, e estiveram presentes no Coliseu de Lisboa no passado dia 28 de Junho, assinalando a sua estreia nesse palco.

Reunindo um público que não era dos 7 ou 77, mas quase - entre velhos admiradores de Variações e jovens ouvintes mais familiarizados com os músicos dos Humanos -, a noite comprovou que o (super)grupo convence não só em disco mas também (e sobretudo) ao vivo, tendo em conta o portentoso concerto.

Uma das marcas evidentes do espectáculo foi a vertente mais rock da maioria das canções, que exibiram uma carga mais dinâmica e enérgica do que as versões do disco. Esta opção possibilitou que as reacções do (vasto) público fossem ainda mais efusivas, suscitando aplausos constantes por parte de uma audiência que se rendeu logo nos primeiros minutos e permaneceu devota durante as quase duas horas do espectáculo.

Entre piano e guitarras, passando pelas pandeiretas e cavaquinhos, o alinhamento foi ecléctico e equilibrado, apostando não só nos já esperados temas do álbum mas também em novas versões, casos de "Oh My Love", de John Lennon; "This Town Ain't Big Enough for Both of Us", dos Sparks (com um óptimo contraste entre Manuela Azevedo e David Fonseca); o insinuante "Hardcore (1º Escalão)", dos GNR; e "Flores", dos Titãs.

Hits como "Muda de Vida" ou o obrigatório "Maria Albertina" (interpretado duas vezes) despoletaram grandes momentos de sintonia entre os músicos e os espectadores, mas a noite registou outros episódios fortes como o excelente "Não me Consumas" ou uma surpreendente versão de "Amor de Conserva" (intensificando a carga electro que se manifestava timidamente no disco mas que adquiriu ao vivo uma vibração hipnótica e de viciante apelo dançável).

Manuela Azevedo, Camané e David Fonseca apresentaram não só vozes em boa forma mas também uma postura dedicada, emanando uma energia contagiante e incansável.Outros momentos-chave da noite foram as revisitações às canções clássicas de Variações, desde "Anjo da Guarda" e "Estou Além" até aos inevitáveis "O Corpo é que Paga" e "É p'ra Amanhã" (que encerrou o segundo e último encore do concerto).

O balanço da estreia dos Humanos no Coliseu de Lisboa foi, então, claramente positivo, e aguarda-se já com alguma expectativa e edição do CD e DVD com material gravado neste e noutros espectáculos, porque concertos como este merecem sempre ser recordados...e provam que o que é nacional também pode ser bom…

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

domingo, julho 03, 2005

UMA COMÉDIA GENIAL?

Estreia na realização de longas-metragens do casal Teresa de Pelegrí e Daminic Harari, "Querida Familia" (Seres Queridos) é uma comédia familiar espanhola que foca as dificuldades das relações familiares e o confronto de ideais políticos/religiosos.

O ponto de partida assenta na conturbada relação de Leni, uma apresentadora de televisão judia, e Rafi, um professor de literatura palestino, que se preparam para oficializar a sua união quando decidem jantar em casa dos pais dela.

Tendo em conta que se move sobretudo no campo da comédia, "Querida Família" aproveita esta premissa para gerar situações marcadas por algum humor, não só através do contraste de culturas mas também pelo carácter pitoresco da maioria das personagens, desde a irmã ninfomaníaca de Leni até um pai que desaparece misteriosamente e será decisivo para o desenrolar da segunda metade do filme.

Embora pareça refrescante e irreverente nas primeiras cenas, "Querida Família" acaba por se tornar vítima de um desenvolvimento bastante irregular, oferecendo protagonistas pouco interessantes e demasiado caricaturais, um ritmo desigual e escassas ideias de cinema, não se desviando muito de um vulgar registo televisivo.

O filme falha ainda quando tenta motivar a reflexão política, uma vez que as cenas onde a situação de Israel e da Palestina é focada optam por um estafado simplismo, expondo mesmo uma postura algo didáctica.

Os momentos supostamente cómicos também nem sempre resultam, enveredando pelo burlesco e pelo nonsense mas não apresentado grandes doses de inspiração, e um argumento fragmentado e com muitas pontas soltas também não ajuda a que o projecto seja bem sucedido.

Com tanto de leve como de cansativo, "Querida Família" é uma película pouco surpreendente, que embora tente ser mais do que uma comédia despretensiosa raramente vai além da superficialidade.
Quem procurar um filme de nuestros hermanos recheado de humor e algum substrato dramático fica melhor servido se optar pelo divertido "Rainhas", de Manuel Gómez Pereira, também em exibição.

E O VEREDICTO É: 1,5/5 - DISPENSÁVEL

sexta-feira, julho 01, 2005

SOUNDTRACK OF MY LIFE

Ora aqui está mais um desafio, já que não postava um há uns dias...Vi-o no Fórum Sons, numa proposta lançada pelo Halfast, que dizia "Se a vossa vida fosse um filme, qual seria a música a preencher em cada uma destas partes?". Aqui ficam as minhas escolhas:

Opening credits: “Five”, Lamb

Waking-up scene: “Good Morning”, The Dandy Warhols

Average-day scene: “Another Day”, 12 Rounds

Best-friend scene: “Never Let Me Down”, Depeche Mode

First-date scene: “You and Me Song”, The Wannadies

Falling-in-love scene: “All is Full of Love”, Bjork

Love scene: “All I Need”, Air

Fight-with-friend scene: “The Trick is to Keep Breathing”, Garbage

Break-up scene: “I Deserve it”, Madonna

Get-back-together scene: “Starter”, The Cardigans

Fight-at-home scene: “Man Next Door”, Massive Attack

"Life's okay" scene: “Drinking in LA”, Bran Van 3000

Heartbreak scene: “The River”, PJ Harvey

Mental-breakdown scene: “Search me Not”, Silence 4

Driving scene: “So Free (3 Acts)”, The Gift

Lesson-learning scene: “Ask for Answers”, Placebo

Deep-thought scene: “Eye”, The Smashing Pumpkins

Flashback scene: “Snoozer”, Gus Gus

Party scene: “Nervous Breakthrough”, Luscious Jackson

Happy dance scene: “Life is Sweet”, The Chemical Brothers

Regret scene: “Something I Can Never Have”, Nine Inch Nails

Long-night-alone scene: “Climbatize”, The Prodigy

Death scene: “Rabbit in Your Headlights”, UNKLE

Closing credits: “Sleep”, The Dandy Warhols

Não proponho este desafio a ninguém em especial, até porque é preciso alguma paciência para responder a isto tudo, por isso quem quiser que responda. Bons sons ;)