Impondo-se como uma das mais criativas bandas indie dos anos 90 através de “Worst Case Scenario” (1994) e “In a Bar, Under the Sea” (1997), os dEUS possuem uma curta, mas marcante discografia que tem gerado bons resultados (pelo menos se se ignorar o escorregão do EP “My Sister is my Clock”, de 1995).
“The Ideal Crash”, o terceiro álbum de originais do grupo belga, suscitou alguma discórdia entre os fãs quando foi editado, em 1999, mas depois da habituação às alterações face aos registos anteriores torna-se perceptível que este é mais um inspirado disco da banda.
Reduzindo o intenso experimentalismo e a carga noise que dominava os seus antecessores, “The Ideal Crash” é surpreendentemente melódico e apaziguado, substituindo a rudeza e abrasividade habituais por atmosferas mais elegantes e contemplativas. Pontualmente, o disco contém ainda consideráveis descargas de visceralidade, como no tema de abertura “Put the Freaks Up Front” ou no soberbo “Instant Street”, mas o tom predominante é o de calmaria e serenidade.
Embora aparentemente mais leves, as canções possuem ainda uma estrutura intrincada e inventiva, mesmo que isso não se perceba de forma imediata. Apostando num trabalho de produção simultaneamente lo-fi e refinado, “The Ideal Crash” percorre ambientes entre o rock alternativo, a folk e a pop jazzy, oferecendo um conjunto de dez canções que focam episódios de relações amorosas tensas e conturbadas (que as letras, suficientemente tridimensionais mas nunca óbvias, conseguem traduzir com engenho).
Intimista e acolhedor, é um álbum que confirma o talento dos dEUS na composição e interpretação (é difícil ficar indiferente ao registo sóbrio e sensível de Tom Barman), e, apesar da riqueza instrumental, o som nunca se torna balofo.
Coeso e absorvente, “The Ideal Crash” perde em imediatismo o que ganha em capacidade de surpreender durante várias audições, contendo momentos de recorte superior como “The Magic Hour” (encantatória e introspectiva, com um desenlace de forte impacto emocional), a aconchegante aproximação à dream pop de “Dream Sequence No. 1”, a vibrante inquietação de “Eveybody’s Weird”, a lacónica balada “Magdalena” ou a enigmática “One Advice, Space” (todas as canções são bastante sólidas, excepto a pouco estimulante “Let’s See Who Goes Down First”, algo desajustada e desnecessária).
Melancólico e envolvente, “The Ideal Crash” apresenta um complexo e memorável olhar sobre as dificuldades e fragilidades das relações humanas e não merece, de forma alguma, o estatuto de disco insípido ou inócuo com que alguns o rotularam. Não chega a ser genial, mas também não precisa, pois isso não o impede se ser relembrado como um belo álbum.
E O VEREDICTO É: 4/5 - MUITO BOM



































