sexta-feira, setembro 09, 2005

BLINKS & LINKS

Obrigado aos responsáveis pelos blogs A Paixão do Cinema e recpop por me blinkarem :)

ESTRELAS SEM BRILHO

Aguardado com alguma expectativa, uma vez que adapta – finalmente, após vários anos em preparação - para cinema o muito elogiado livro de culto homónimo de Douglas Adams, “À Boleia Pela Galáxia” (The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy) pretende ser uma sátira aos filmes de ficção científica e aos exageros que marcam muitas dessas obras, tentando ainda explorar questões existenciais acerca do papel do Homem e da sua relação com o universo.

Garth Jennings, com alguma experiência na realização de videoclips e anúncios publicitários, apresenta aqui a sua primeira longa-metragem, mas apesar de uma evidente dedicação ao projecto e de alguns momentos inventivos, o resultado é decepcionante, ficando muito aquém daquilo que uma adaptação destas poderia atingir.

Os minutos iniciais do filme são bastante promissores, uma vez que as cenas musicais com os golfinhos são suficientemente irreverentes e hilariantes, mas ao fim de algumas cenas a narrativa torna-se inconstante e demasiado fragmentada, as personagens nunca deixam de ser enfadonhas e excessivamente caricaturais, os efeitos especiais não impressionam e o argumento limita-se a seguir os moldes de tantos outros títulos de ficção científica, movendo-se num piloto automático que só é interrompido por ocasionais episódios humorísticos (nem sempre muito eficazes).

Colocar um homem da classe média, igual a tantos outros, a viajar pela galáxia após a destruição da Terra é um ponto de partida com potencial, mas Jennings oferece um filme com muitas pontas soltas e quebras de ritmo, tentando englobar diversas ideias mas raramente conseguindo aproveitá-las e apresentando um trabalho de realização competente, mas indistinto e sem grandes surpresas.

O elenco também não é particularmente cativante, pois apesar de Martin Freeman (conhecido, sobretudo, pela divertida série britânica “The Office”) encarnar um protagonista credível e do músico Mos Def assinalar uma interpretação razoável, Sam Rockwell abusa do registo histriónico, tornando-se irritante e aborrecido, e Zooey Deschanel tem um desempenho pouco carismático. Mas o maior problema nem é das interpretações, antes das personagens, que não geram grande empatia, exceptuando o bem conseguido robot Marvin, cuja constante depressão origina alguns gags inspirados.

“À Boleia Pela Galáxia” é, então, uma oportunidade mal aproveitada, pois o humor nonsense da escola Monty Python que Jennings pretende inserir raramente resulta e é quase sempre forçado, já que o filme tenta impor um estilo de comédia supostamente inteligente e subversivo mas que acaba por soar a falso dada a sua falta de espontaneidade e fluidez.

O filme poderia ter alacançado os tons delirantes presentes em “Marte Ataca”, de Tim Burton, ou em “Homens de Negro”, de Barry Sonnenfeld, películas que percorrem domínios próximos, mas está muito abaixo dessas referências, proporcionando quatro ou cinco cenas memoráveis entre muitas outras que se limitam a suceder-se e a arrastar-se sem fio condutor nem criatividade. Vale pela intenção, mas de intenções está a galáxia cheia...

E O VEREDICTO É: 1,5/5 - DISPENSÁVEL

quinta-feira, setembro 08, 2005

REGRESSO A CASA

Apesar de ter tido uma estreia discreta e sem grande aparato promocional, “Um Refúgio no Passado” (In My Father’s Den) é um filme que merece alguma atenção, uma vez que é mais um bom exemplo da cinematografia neo-zelandeza, que apesar de ser pouco mediática já proporcionou uma série de entusiasmantes surpresas.

Esta estreia de Brad McGann nas longas-metragens – realizador que conta apenas com breves experiências no documentário e curtas -, mesmo expondo alguns desequilíbrios, é uma obra sóbria e intrigante, combinando elementos do drama familiar e do thriller para gerar um híbrido estranho, por vezes difícil, mas bastante meritório.

“Um Refúgio no Passado” começa com o regresso de Paul, um premiado fotógrafo de guerra, à sua terra-natal, uma pequena povoação na Nova Zelândia. Após mais de uma década de ausência, a viajar entre continentes, o protagonista revisita o local onde cresceu para marcar presença no funeral do seu pai.

Nos dias que se sucedem à cerimónia, Paul permanece mais alguns dias, visitando espaços que lhe foram familiares, revivendo memórias quase esquecidas e reencontrando o seu irmão, Andrew.
Nos seus passeios, o fotógrafo regressa a um refúgio do seu pai e conhece Celia, uma adolescente com a qual partilhará interesses, perspectivas e ideiais, desenvolvendo uma súbita mas forte relação de amizade.

Realista, inquietante e imprevisível, “Um Refúgio no Passado” é um filme irregular mas com uma vibração incomum, proporcionando uma narrativa não-linear e destacando-se assim não só pelo argumento complexo, mas sobretudo pela forma como este é apresentado.

Os primeiros 20/30 minutos da película não são especialmente cativantes, decorrendo a um ritmo lento e monótono, com cenas que oscilam entre personagens mas nunca desenvolvem nenhuma. Contudo, este processo revela-se necessário para que a peculiar aura do filme se adense progressivamente, e aos poucos o protagonista e aqueles que o rodeiam tornam-se mais interessantes, ainda que sempre enigmáticos.

A languidez da narrativa, que se estranha nos momentos iniciais, acaba por se revelar apropriada para os acontecimentos que o filme foca, sendo determinante para o surgimento de uma atmosfera densa e envolvente, para a qual contribuem também a belíssima fotografia (as paisagens naturais ajudam) e a recomendável banda-sonora (“Horses”, de Patti Smith, é uma referência fulcral, mas há ainda canções de Mazzy Star ou dos Turin Brakes).

“Um Refúgio no Passado” é um perspicaz olhar sobre uma série de questões, originando uma teia onde a solidão, a amizade, o suicídio ou o incesto se fundem, oferecendo um melancólico retrato da falta de comunicação, dos segredos que atormentam o (aparentemente) pacato dia-a-dia das comunidades rurais ou da intolerância face à diferença.

Exibindo alguns paralelismos com “A Balada de Jack & Rose”, de Rebecca Miller, e com o conterrâneo “Salto Mortal”, de Cate Shortland, esta estreia de Brad McGann marca ainda pelas ambiências etéreas e pela sólida direcção de actores, com destaque para a soberba dupla de protagonistas constituída por Matthew MacFadyen e Emily Barclay, dois nomes a reter.

O desinteresse de algumas cenas algo dispersas e dispensáveis e as mais de duas horas de duração não permitem que o que “Um Refúgio no Passado” tem de bom o tornem num grande filme, mas também não impedem que esta seja uma obra respeitável e acima da média. Por isso, vale a pena descobri-la...

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

terça-feira, setembro 06, 2005

HEY LADY...

Uma das melhores bandas capazes de reciclar sonoridades electropop dos anos 80 e mesclá-las com sonoridades actuais, os britânicos Ladytron estrearam-se com um grande disco, "604", e superaram o desafio do segundo álbum com o conseguido "Light & Magic". E como às vezes à terceira é de vez, "The Witching Hour", o novo registo de originais, poderá muito bem ser o melhor que já editaram até agora...

Aqui podem ouvir excertos de algumas canções do grupo. Recomendo sobretudo o videoclip mais recente, do viciante novo single "Destroy Everything You Touch". Espero que, com o novo disco, seja desta que estes rapazes (e raparigas) tenham a atenção que merecem...

BLINKS & LINKS

Obrigado ao Challenger (esse URL não me é completamente estranho, Fernando...) e ao Cocoon por me blinkarem nos seus blogs. E já agora, sejam bem-vindos à blogosfera ;)

O PIANISTA

Com o seu filme anterior, “Nos Meus Lábios”, Jacques Audiard já tinha provado que era um cineasta a seguir com atenção, capaz de proporcionar uma narrativa envolvente recorrendo a actores e personagens tridimensionais e bem construídos.

“De Tanto Bater o Meu Coração Parou” (De Battre Mon Coeur S`Est Arre) vem confirmar essas qualidades, apresentando mais um interessante olhar sobre o quotidiano urbano que aqui é filmado de forma ainda mais tensa, áspera e agarrada aos actores.

Debruçando-se sobre o dia-a-dia de Tom, um jovem agente imobiliário que vive uma difícil rotina devido à conturbada relação com o pai e às atitudes algo dúbias que adopta na sua profissão, o filme apresenta um protagonista repleto de convulsões internas que se intensificam quando um dos seus sonhos, quase esquecidos, o encoraja a tentar dar um novo rumo à sua vida.

Redescobrindo a sua paixão pelo piano, de resto um dos elementos que o interliga à sua falecida mãe, Tom começa a perseguir cada vez mais afincadamente o desejo de se tornar num pianista profissional, ambição que é recebida com desagrado ou mesmo desprezo por aqueles que o rodeiam. Tentando escapar a uma realidade dura, violenta e sem perspectivas, encontra assim um escape que lhe permite conseguir aproximar-se de uma vida mais auspiciosa e da sua realização pessoal.

Realista, imprevisível e verosímil, “De Tanto Bater o Meu Coração Parou” é uma obra ousada e efervescente, muito por culpa do protagonista, ou melhor, do actor que o encarna, o excelente Romain Duris, que embora não seja propriamente um estreante – participou, por exemplo, no muito recomendável “A Residência Espanhola”, de Cédric Klapisch -, evidencia aqui, como nunca antes, as suas enormes potencialidades, estando à altura de uma personagem exigente e desafiante.

A interpretação de Duris é tão convincente – seguramente uma das melhores de 2005 - que sustenta o interesse pelo filme mesmo quando o argumento nem sempre entusiasma, uma vez que há algumas cenas demasiado longas e dispensáveis.
Contudo, seria injusto considerar “De Tanto Bater o Meu Coração Parou” apenas mais um one-man show, pois Jacques Audiard expõe também os seus méritos enquanto realizador e é capaz de gerar uma atmosfera crua e claustrofóbica, muito adequada ao trepidante dia-a-dia de Tom.

A ecléctica banda-sonora e o minucioso cuidado com o trabalho de fotografia e iluminação são outros trunfos do filme, mas infelizmente há aspectos que causam um certo desequilíbrio, como o subaproveitamento de algumas personagens secundárias ou a fragmentação narrativa, dado que apesar de vários momentos de considerável carga dramática há tantos outros desprovidos de vibração.

Mesmo sendo um filme irregular, “De Tanto Bater o Meu Coração Parou” consegue superar alguns dos seus entraves, tornando-se numa das boas surpresas do ano, com (pontuais) cenas de uma visceralidade emocional muito conseguida e próximas de domínios de Scorsese, Eastwood ou Iñarritu (essa semelhança com algum cinema americano derivará, pelo menos em parte, do facto do argumento ser baseado em “Fingers”, película de culto de 1978 realizada por James Toback e protagonizada por Harvey Keitel).
Não é uma obra tão brilhante como poderia, mas é suficientemente sólida para se adicionar à lista de filmes a descobrir.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

sexta-feira, setembro 02, 2005

QUANDO O FIM É O INÍCIO

Depois de ter sido, durante anos, a voz de uma das bandas mais emblemáticas da década de 90, Billy Corgan formou os Zwan após a dissolução dos Smashing Pumpkins, mas a curta vida desse novo projecto fez com que o cantor/compositor apostasse finalmente num álbum a solo, “TheFutureEmbrace”, um dos mais aguardados de 2005.

Com um percurso musical já considerável, Corgan estreia-se aqui numa nova etapa e o ponto de partida é suficientemente promissor, uma vez que o seu disco concentra uma série de canções sólidas que vão de encontro ao estilo e referências do músico.

Billy Corgan apresenta em “TheFutureEmbrace” uma interessante mistura de rock electrónico, atmosferas industriais e góticos e alguns momentos marcados pela dream pop. Estas sonoridades não lhe são estranhas, pois “Adore” continha já estes elementos, embora fossem trabalhados de forma diferente e até mais ambiciosa, e aqui revelam-se novamente interessantes e bem exploradas.

Quem esperar encontrar aqui um álbum à altura dos melhores trabalhos dos Smashing Pumpkins pode sair desiludido, pois “TheFutureEmbrace” não se encontra à altura desses registos, mas pelo menos é um disco que confirma que Corgan conseguiu sair da mediania e previsibilidade que “Mary Star of the Sea”, dos Zwan, evidenciava.

Entre ecos dos New Order, The Cure, Nine Inch Nails ou Gary Numan, as canções oferecem cativantes ambientes onde a presença dos sintetizadores se nota mais do que a das guitarras, gerando uma aura intimista e geralmente tranquila, que não chega a atingir a intensidade emocional de “Adore” (e já chega de comparações com esse álbum) mas é ainda bastante satisfatória.

Dos tons electropop do contagiante single “Walking Shade” à introspecção apaziguada de “The CameraEye”, passando pela carga melancólica de “Sorrows (In Blue) ou “ToLoveSomebody” (uma inesperada, mas conseguida, cover dos Bee Gees), ou ainda por pontuais episódios de efervescência como os muito bons “A1000” ou “Mina Loy (M.O.H.)” (o melhor momento do disco), “TheFutureEmbrace” não traz surpreendentes doses de novidades mas atesta a singularidade da voz e da escrita de Billy Corgan, que se confirma como um nome capaz de proporcionar boas canções.

Poderá dizer-se que o cantor/compositor já fez melhor e que talvez já tenha vivido a fase áurea da sua carreira – um pouco à semelhança do que acontece com Trent Reznor em “With Teeth” -, mas se continuar a oferecer discos tão escorreitos e apelativos como este (e concertos como aquele que inaugurou a sua digressão a solo, na Aula Magna), continuará a ser um músico a seguir com atenção, mesmo não sendo uma prioridade…

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

quinta-feira, setembro 01, 2005

AMIZADE SEM LIMITES

Uma das estreias cinematográficas desta semana - e talvez a mais interessante -, "Amor de Verão" (My Summer of Love), de Pawel Pawlikowski, já passou por Portugal no IndieLisboa 2005 e foca a ambígua e intensa relação entre duas jovens muito diferentes que se conhecem durante umas férias de Verão.

Conforme explico aqui, creio que o filme poderia ter ido mais longe (sobretudo tendo em conta os elogios de que foi alvo, tendo ganho a nomeação para Melhor Filme Britânico de 2004 pelos prémios BAFTA, por exemplo), mas é uma obra suficientemente refrescante e recomendável. Vão ver e digam qualquer coisa ;)

quarta-feira, agosto 31, 2005

HAPPY BLOGDAY!

E pronto, conforme prometido, aqui fica a lista de cinco blogs que recomendo neste BlogDay. Não foi uma escolha fácil, e estes não são necessariamente os meus preferidos, mas tive em conta a relevância dos conteúdos, assim como a forma como são abordados, a frequência da actualização e a regularidade com que visito os blogs. Muitos mais teria para recomendar, e não é difícil saber quais (basta dar uma espreitadela aos links do lado direito)... Assim sendo, escolho estes:
Cine7: Ok, sou suspeito por recomendar este porque faço parte da equipa de colaboradores, mas quem procurar um blog que foque o cinema nos mais variados estilos e épocas tem aqui uma proposta apropriada e com novas críticas quase todos os dias...
Cinema Xunga 2: Também sobre cinema, mas diferente da maioria dos blogs que focam esta temática. Devido ao estilo das sarcástico das críticas, arrisca-se a ser um blog que ou se ama ou se odeia, mas consegue ser diferente, divertido e perspicaz, com um viciante humor negro...
Coisas do Puto e do Tipo: Um dos primeiros blogs sobre música que conheci, e um dos mais fiáveis, com críticas sucintas mas directas e sem a carga de hermetismo que mina muitos outros dedicados à temática...
Port Moresby: Ecléctico e actual, debruça-se sobre várias temáticas, sendo o cinema, a música e a literatura as mais focadas. Nem sempre concordo com as opiniões da equipa (sobretudo quanto às recomendações musicais), mas há sempre algo meritório a descobrir por aqui...
The Tracker: Relativamente recente, mas já bastante recomendável, oferece interessantes sugestões sobre as artes, em especial sobre música, e tem uma frequência de actualizações impressionante, já que apresenta novidades quase todos os dias...
Mais sugestões? Podem ver as listas de todos os participantes aqui.

THE EMINEM SHOW

Muitas vezes - demasiadas, até -, quando músicos apostam em experiências enquanto actores, os resultados deixam a desejar e não são mais do que tentativas embaraçosas de prolongar o seu carisma num território que não se revela o seu.
Nos últimos anos, figuras da pop como Whitney Houston, Britney Spears, Mariah Carey ou Madonna, entre outras, tentaram a sua sorte na sétima arte, mas nenhuma foi especialmente convincente.

Em "8 Mile", de 2002, foi a vez do rapper Eminem complementar o seu percurso musical com um projecto no grande ecrã, mas ao contrário dos casos anteriores, apresentou não só um desempenho seguro mas também um filme acima da média.

Inspirada em certos elementos da vida do cantor - embora não se saiba exactamente até que ponto -, a película desenrola-se nos subúrbios de Detroit e oferece um interessante olhar sobre o desencanto de uma juventude sem perspectivas viáveis e com poucos modelos e referências, vivendo um quotidiano rotineiro e pouco estimulante.

Jimmy Smith Jr, mais conhecido como Rabbit, é um desses jovens, que para além de problemas familiares enfrenta outros dilemas como a precariedade do trabalho (é operário numa fábrica local) ou conflitos com gangs.
Uma das poucas coisas que o inspira e encoraja é a música, particularmente o hip-hop, linguagem que em tudo se relaciona com a tensão urbana com que contacta diariamente. Entre os seus objectivos, Rabbit persegue com mais obstinação o de se tornar num músico reconhecido e respeitado, e "8 Mile" foca as contrariedades com que terá que se debater ao lutar por essa ambição.

Mais um filme sobre um self-made man? Sim e não. Se, por um lado, "8 Mile" não se desvia muito de uma linha clássica tipicamente norte-americana sobre a ascensão - ou, pelo menos, um triunfo moderado - de um jovem envolto em situações hostis, também é verdade que esse percurso é apresentado de forma realista q.b., não se tornando num filme formatado e muito menos em mais uma moralista história edificante.

O mérito, para além de Eminem, que surpreende com uma interpretação credível e sentida, é sobretudo de Curtis Hanson, realizador desigual - aclamado por "L.A. Confidential" ou "Wonder Boys - Prodígios", contudo não tão recomendável em "Influência Fatal" ou "Rio Selvagem" -, mas que aqui se encontra inspirado e sabe que rumo dar ao filme.

O trabalho de realização de Hanson, discreto e astuto, consegue injectar uma considerável aura realista, retratando os espaços urbanos de forma suja e crua mas estranhamente envolvente.
Igualmente determinante para a notável definição de ambientes é a hipnótica fotografia de Rodrigo Prieto, sem dúvida uma das mais impressionantes do cinema de hoje cuja qualidade também pode ser atestada em obras como "A Última Hora", de Spike Lee, ou "Amor Cão" e "21 Gramas", de Alejandro Gonzalez Iñarritu.

"8 Mile" é uma película sóbria, que não tenta ser mais do que aquilo que é, preocupando-se em oferecer uma boa história bem contada.
Essa ambição moderada assenta-lhe bem, pois assim perdoam-se alguns elementos menos conseguidos, como o tratamento algo superficial das personagens secundárias (apesar de boas prestações de Kim Basinger, Brittany Murphy e da maioria do restante elenco) e a previsibilidade que o argumento não consegue evitar a espaços.

"8 Mile" não é um filme particularmente inovador, mas contém um protagonista com algum magnetismo e um curioso - e poucas vezes visto no cinema - olhar sobre a cultura hip-hop, propondo uma interessante perspectiva sobre o crescimento, a família, a violência, a amizade e a alvorada da idade adulta. Não é revolucionário, mas tem muito mais do que seria de esperar...

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

terça-feira, agosto 30, 2005

CORRE SHIRLEY CORRE!

Quando ouvi o primeiro single do novo álbum dos Garbage, "Bleed Like Me", temi o pior. Cançãozinha de fúria enlatada, com uma estrutura linear de verso-refrão-verso e incapaz de aproveitar a maleável voz de Shirley Manson, antecipava um disco desinspirado.

Contudo, mesmo não estando ao nível de "Garbage" ou "Version 2.0." (até porque não é fácil), o novo registo de originais ainda apresenta alguns momentos fortes, como é o caso do novo single, "Run Baby Run", que também recorre consideravelmente às guitarras mas apresenta resultados bem mais interessantes (mesmo sem a habitual dose de electrónica que condimentou as melhores canções da banda).
Talvez este tema permita que os mais cépticos dêem uma nova oportunidade a um álbum que, não sendo genial, também não merece passar ao lado (crítica para breve).

WORLD BLOGGERS, UNITE!

Amanhã é o dia do blog, um dia dedicado ao conhecimento de novos blogs, de outros países ou áreas de interesse. Nesse dia os bloggers recomendarão novos blogs aos seus visitantes.

As instruções são simples:
1. Lista cinco novos Blogs que aches interessantes.
2. Notifica por email esses cinco bloggers de que serão recomendados por ti no BlogDay 2005.
3. Escreve uma pequena descrição dos blogs e o link para eles.
4. Publica no BlogDay (no dia 31 de Agosto) esse post.
5. Junta a tag do BlogDay através deste link: http://technorati.com/tag/BlogDay2005 e um link para o site do BlogDay: http://www.blogday.org/
Acho que vai ser uma escolha difícil, mas vou participar... Join me ;)

segunda-feira, agosto 29, 2005

Dia 20 de Novembro, os islandeses Sigur Rós regressam a palcos portugueses (Coliseu de Lisboa) para apresentar o seu novo álbum de originais, "Takk", o sucessor dos muito aclamados "Von" (1997), "Ágætis Byrjun" (1999) e "()" (2002). Entretanto, o grupo contém no seu site algumas canções, desde material já editado ou inédito, disponíveis para audição ou download. A música da banda não tem muito a ver com estes dias de Verão, mas não faz mal...

A SURPRESA NÃO MORA AQUI

O cinema norte-americano não tem conseguido apresentar, nos últimos anos, nada de muito interessante dentro do género do terror, limitando-se a produzir dispensáveis adaptações de filmes orientais ou a repetir fórmulas mais do que estafadas.

"A Chave" (The Skeleton Key), que combina elementos de terror, fantástico e thriller, é uma dessas propostas recentes que, embora até tenha um ponto de partida curioso, acaba por não convencer.

Caroline, uma jovem enfermeira do sul dos EUA, vai trabalhar para uma velha mansão nos arredores de Nova Orleães, ajudando uma idosa a cuidar do seu marido, que está praticamente imobilizado e sem muitas faculdades.
Contudo, aos poucos a protagonista apercebe-se que a casa esconde alguns mistérios e inicia uma série de investigações na tentativa e os resolver, deparando-se com revelações que envolvem ligações entre a mansão e o hoodoo (um ritual próximo do voodoo), e para encontrar mais respostas recorre a uma chave que abre quase todas as portas da sua residência temporária.

Apesar de ser mais um filme sobre mansões assombradas, "A Chave" possui a espaços uma intrigante vibração devido às atmosferas de traços southern gothic, que parecem sugerir que a película percorrerá territórios estimulantes e surpreendentes.
Contudo, isso não chega a acontecer, pois o filme limita-se a seguir uma previsível rotina e não proporciona muitos momentos capazes de tirar o fôlego ao espectador.

"A Chave" contém um bom elenco - com Kate Hudson, Gena Rowlands, Peter Sarsgaard ou John Hurt -, uma fotografia apropriada, um ritmo escorreito e um competente trabalho de realização.
No entanto, apesar desses bons condimentos, o filme não vai a lado nenhum, pois não possui um argumento especialmente cativante e chega a tornar-se ridículo nos momentos finais (com um twist que surpreende mas não pelos melhores motivos).

Ian Softley é um cineasta ecléctico - a sua filmografia inclui "Hackers", obra de culto com uma jovem Angelina Jolie; uma indistinta adaptação de "Wings of the Dove", de Henry James; ou "K-Pax", aposta na ficção científica - mas não muito criativo, e aqui oferece um filme que, mesmo não ofendendo ninguém, dificilmente se diferencia de tantos outros exemplos do género.

"A Chave" não chega a bater no fundo, mas é das obras mais insípidas de 2005, uma experiência cinematográfica formatada que facilmente se dilui da mente do espectador poucos minutos após o seu visionamento. Podia ser pior, é certo, mas alguém precisa de mais um filme descartável?

E O VEREDICTO É: 1,5/5 - DISPENSÁVEL

domingo, agosto 28, 2005

THE GOOD GIRL

Depois de uma estreia interessante com "Tidal" (1996) e da confirmação em "When the Pawn..." (1999), Fiona Apple está prestes a editar o seu terceiro álbum, "Extraordinary Machine", que deverá sair em Outubro. Infelizmente, quase esteve para não ser lançado, uma vez que a editora Sony achava que não tinha grande potencial no mercado, mas afinal parece que o disco vai mesmo chegar às lojas em breve.

Entretanto, as novas canções da cantora/ compositora já circulam pela net, como é o caso de "Parting Gift" (que não me entusiasmou muito) e "O' Sailor" (muito boa, merece algumas audições). Por aqui espera-se um bom disco, já que a Fiona ainda não desiludiu. Tirem as vossas próprias conclusões...

A LESTE DO PARAÍSO

A estreia de um novo filme de Michael Bay está longe de ser um acontecimento relevante, pelo menos para quem procura num filme mais do que uma série de sequências de acção repetitivas e exageradas, aliadas a personagens caricaturais e a uma básica construção da narrativa.

Por isso, “A Ilha” (The Island), o mais recente título do realizador norte-americano, não apresentava, à partida, muitos atributos que o distinguissem de obras anteriores, seguindo os moldes de um blockbuster pronto-a-servir.
De resto, o facto de ter sido mal recebido internacionalmente por grande parte do público (que sempre aderiu mais aos filmes de Bay do que a crítica) sugeria que a fórmula usada pelo realizador estava à beira do esgotamento e nem conseguia assegurar um entretenimento competente.

Mas, como por vezes a realidade é mais estranha do que a ficção, até uma película de Michael Bay pode revelar-se surpreendente e interessante, uma vez que “A Ilha”, não sendo um título especialmente inovador, consegue ser uma refrescante proposta de ficção científica, ainda que contaminada com consideráveis – e a espaços excessivas – doses de acção frenética.

Centrado numa sociedade futurista, o filme assenta em dois habitantes de um complexo que protege aqueles que resistiram a uma suposta contaminação que dizimou grande parte da humanidade.
Lincoln Six Echo e Jordan Two Delta, à semelhança dos seus companheiros, vivem um quotidiano rotineiro e pacato onde o único elemento encorajador é a hipótese de, um dia, conseguirem ganhar um sorteio que lhes permitirá viajar para a Ilha, um pequeno paraíso e o único local que escapou à devastadora contaminação.

Contudo, aos poucos, Lincoln começa a questionar os fundamentos e propósitos do sistema ultra-regulado e organizado que o acolhe, procurando respostas que o levam a descobrir que, afinal, a atmosfera aparentemente pacífica em que se insere é parte de um projecto sinistro e assustador.
Quando se apercebe que a convidativa Ilha é apenas um instrumento manipulação dos habitantes do complexo, Lincoln decide escapar, juntamente com Jordan, ao sistema que os enclausura, mas essa atitude torna-os em alvos abater e origina uma vertiginosa rede de perseguições e ataques.

Combinando múltiplas influências de obras de ficção científica – há paralelismos com “Matrix”, “1984”, “Equilibrium”, “A Praia”, “Relatório Minoritário” ou até “A Vila”, entre outras – “A Ilha” não é um filme revolucionário, mas é um blockbuster com mais ideias do que seria de esperar, sobretudo vindo de alguém que gerou películas tão inócuas como “Armaggedon” ou “Pearl Harbour”.

Os primeiros 30/45 minutos são especialmente atípicos quando comparados com as restantes obras de Bay, uma vez que não apresentam o habitual concentrado de pirotecnia mas antes uma promissora introdução a uma intrigante sociedade futurista. Envolventes, embora frios e estilizados, os ambientes oferecem alguns criativos prodígios visuais, recorrendo a um design sofisticado, e até há espaço para seguir o percurso de dois protagonistas interessantes.

É certo que, depois dessa fase, o filme se torna um pouco irregular, oferecendo as esperadas sequências de fugas, tiroteios e explosões que Bay filma de forma algo exibicionista e apressada, mas ainda assim o argumento é suficientemente sólido para que esses episódios mais esquemáticos sejam tolerados.

As interpretações de Ewan McGregor e Scarlett Johansson também contribuem para que “A Ilha” resulte, e mesmo que este não seja um tipo de projecto em que os actores apostem regularmente o balanço é bastante positivo, uma vez que a dupla ajuda a que o espectador se preocupe com o destino dos protagonistas (ainda que não sejam personagens particularmente complexas).

Aliando o entretenimento à exploração de temáticas científicas e éticas actuais, “A Ilha” é mais bem sucedido no primeiro aspecto do que no segundo, mas tem mais substrato do que a maior parte dos títulos género que têm surgido ultimamente, impondo-se como um recomendável filme de acção.
Para além se ser a melhor obra de Michael Bay (o que quer dizer muito pouco já que as restantes são dispensáveis, mas pelo menos esta não contém a vergonhosa manipulação emocional) é um dos mais estimulantes blockbusters do Verão de 2005. Sim, ninguém diria, mas finalmente Michael Bay fez um bom filme, por isso “A Ilha” merece ser visto sem preconceitos.

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

BLINKS & LINKS

Obrigado ao Cinéfilo e ao Dedos-Biónicos por me terem blinkado :)

sábado, agosto 27, 2005

OUTRO NÍVEL

Na passada quarta-feira, depois de já ter visto os Blind Zero, voltei às festas de Corroios para espreitar o concerto dos Da Weasel. Embora tenha começado com uma hora de atraso, valeu a pena, e a banda voltou a demonstrar que, apesar de uma discografia recomendável, o palco é o seu verdadeiro território.

O público aderiu em massa e o grupo esteve à altura do notório entusiasmo geral, especialmente PacMan, dinâmico q.b., e Virgul, responsável por alguns interlúdios portentosos. O alinhamento também foi coeso, alternando momentos fortes do álbum mais recente, o muito bem sucedido "Re-Definições", e canções emblemáticas de registos anteriores, como "Todagente", "Outro Nível", "Tás na Boa", "O Puro", "Dúia" ou "(No Princípio era) O Verbo" (a minha personal favorite da noite). Venham mais...

quinta-feira, agosto 25, 2005

SANGUE POR SANGUE

Com uma filmografia aclamada, onde constam títulos como "Rainha Margot" ou "Intimidade", Patrice Chéreau tem vindo a destacar-se, nas últimas décadas, como um cineasta capaz de proporcionar interessantes olhares sobre o âmago das relações humanas em películas de considerável carga dramática.

"O Seu Irmão" (Son Frère), de 2003, volta a atestar a sua perspicácia na abordagem de questões nucleares, oferecendo um olhar acerca da relação de dois irmãos que, após alguns anos de escassos contactos, voltam a reatar a sua relação devido a um súbito infortúnio.

Depois de lidar durante algum tempo com uma recém-descoberta doença sanguínea sem a revelar à sua família, Thomas decide divulgá-la ao seu irmão mais novo, Luc, com quem já só contactava esporadicamente. Orgulhoso e de temperamento difícil, Thomas torna-se cada vez mais impaciente e nervoso à medida que se apercebe que o seu estado dificilmente melhorará, e assim vai-se apoiando, cada vez mais, em Luc, reforçando uma ligação conturbada mas afinal essencial e determinante para ambos.

Se em "Quem Me Amar Irá de Comboio" Chéreau focava as dores do luto e em "Intimidade" as interligações entre o amor, o sexo e a solidão, em "O Seu Irmão" a acção centra-se no contacto com a doença e os seus efeitos, tanto a nível físico como emocional. No entanto, tal como nesses títulos, o cineasta baseia-se na ideia central e alarga-a, interligando-a com as contrariedades dos laços familiares, a complexidade das relações amorosas ou a ambiguidade sexual.

"O Seu Irmão" não é um filme fácil nem agradável, mas quem conseguir aguentar a sua crueza será recompensado com uma poderosa experiência cinematográfica, que recorre a um realismo cortante e a um olhar sóbrio, dispensando golpes melodramáticos estridentes e manipuladores (muito longe, portanto, de um vulgar telefilme "caso-da-vida").

A realização de Chéreau gera apropriadas atmosferas lúgubres e clínicas, que aliadas a um ritmo pausado, a uma fotografia seca e uma banda-sonora discreta (a única canção presente é “Sleep”, de Marianne Faithfull) contribuem para que o filme contenha uma estranha aura doentia, muitas vezes difícil para o espectador mas bastante verosímil.

Contudo, mais do que a cinematografia, o grande trunfo do filme são mesmo as excelentes interpretações, sobretudo as dos dois protagonistas. Seria difícil escolher actores mais credíveis do que Bruno Todeschini – que, no papel de Thomas, irradia uma convincente revolta e fricção emocional devido ao seu estado de saúde – e Eric - Caravaca – que, encarnando Luc, emana uma calma, altruísmo e ponderação contrastantes com a recorrente tensão do irmão.

A forma como Chéreau retrata a interdependência das duas personagens é notável e comovente, e a energia e vibração do duo protagonista envolve mesmo quando algumas cenas são demasiado longas e redundantes (com certos momentos excessivamente expositivos). De resto, os laços entre Thomas e Luc acabam por sobrepor-se a quaisquer outros que ambos possuem com outras pessoas, nomeadamente à relação com os seus companheiros, Claire e Vincent, respectivamente.

Intenso e claustrofóbico, "O Seu Irmão" é uma obra que, apesar de irregular (prejudicado, principalmente, por uma narrativa um pouco dispersa), é mais um recomendável título da filmografia de Patrice Chéreau e um dos bons dramas que o cinema francês ofereceu recentemente. Dificilmente será para todos os gostos, mas merece ser (re)descoberto.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM