domingo, julho 10, 2005

OS BONS REBELDES

Nos últimos anos, a animação digital tem-se destacado ao ponto de praticamente levar à extinção dos modelos mais tradicionais, oferecendo uma série de títulos emblemáticos como "Toy Story", "Shrek", "À Procura de Nemo" ou "The Incredibles: Os Super-Heróis".

Proveniente da Dreamworks, que dentro do género originou já dois filmes do popular ogre verde ou "O Gang dos Tubarões", "Madagáscar" (Madagascar) é o filme de animação destes estúdios para o Verão de 2005, apresentando mais um conjunto de divertidas personagens e, claro, novos prodígios visuais.

A película de Eric Darnell e Tom McGrath segue as aventuras de quatro animais de um zoo nova-iorquino - um Leão narcisista, uma Zebra irreverente, uma girafa hipocondríaca e uma hipopótamo decidida - que, tentando fugir a um quotidiano confortável, mas rotineiro, decidem viajar para a selva.

Curto (não ultrapassa os 80 minutos) e movimentado, "Madagáscar" é um filme leve e competente que, à semelhança das obras do género, exibe uma notável sofisticação técnica, algumas personagens bem conseguidas e uma selecção de vozes carismáticas (como as de Ben Stiller, Chris Rock ou David Schwimmer).
No entanto, apesar de ser um entretenimento escorreito, não chega a ultrapassar a mediania, sobretudo devido à escassa densidade emocional que transmite e ao argumento pouco coeso, que aposta mais numa sucessão de gags do que numa narrativa sólida e envolvente.

É certo que há momentos irresistíveis (em particular aqueles centrados nos pinguins ou nos lemures), interessantes cenas de citação cinéfila (como a "Beleza Americana" ou "O Náufrago") e um ritmo dinâmico, mas o resultado é apenas agradável e não tão impressionante quanto se esperaria.
Demasiado breve e superficial, "Madagáscar" nem chega a desenvolver as potencialidades de todos os protagonistas, e por isso a girafa Melman e a hipopótamo Glória raramente geram episódios dignos de nota.

Enquanto divertimento ligeiro, o filme cumpre a sua função, mas quem procurar uma obra inovadora e inspirada dificilmente encontrará essas características em "Madagáscar", um título simpático mas longe de surpreendente.

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

sexta-feira, julho 08, 2005

NÃO TENHAM MEDO

Um dos projectos mais profícuos oriundos de domínios trip-hop, os Lamb apresentaram, no seu segundo álbum, o momento mais inspirado da sua discografia, melhorando os bons resultados que o registo de estreia, "Lamb", já exibia.

"Fear of Fours" é não só um dos discos obrigatórios de 1999 como um dos que melhor consegue expor os traços essenciais de uma intrigante sonoridade de final do milénio. Centrando-se no trip-hop, as canções congregam também elementos do drum n' bass, electro, jazz, spoken word, pop, torch song, downtempo e algum techno, oferecendo uma amálgama coesa e inventiva.

As muito eficazes programações rítmicas de Andy Barlow são o complemento perfeito para a singular voz de Louise Rhodes, que por vezes pode gerar estranheza, uma vez que nao se trata de uma vocalista de tons imediatamente acessíveis, mas que acaba por envolver e conquistar.

Ousado e difícil de rotular, "Fear of Fours" proporciona grandes momentos de impacto emocional através da soberba interligação de loops e samples e uma vertente orgânica (a presença do baixo é especialmente determinante), que juntamente com a voz de Rhodes conseguem originar canções de recorte superior que vão desde ambientes calorosos e absorventes, como na balada "Softly", até à frieza arrepiante de "Alien".

Apesar dos álbuns posteriores - "What Sound" e "Between Darkness and Wonder" - apostarem numa sonoridade algo formatada e linear, "Fear of Fours" é um registo versátil e heterogéneo, um dos melhores exemplos da electrónica de finais da década de 90, tão relevante como referências musicalmente próximas onde figuram os Massive Attack, Portishead, Gus Gus, Sneaker Pimps, Tricky, UNKLE ou Garbage.
Vale a pena, por isso, (re)descobrir a imponência épica de "Bonfire", as etéreas atmosferas do excelente instrumental "Five", a frenética vibração breakbeat de "Little Things", os temperos bossanova de "Here" ou a desconcertante estranheza da inventiva "Fly", canções que conservam ainda consideráveis cargas de surpresa e contemporaneidade.
E O VEREDICTO É: 4/5 - MUITO BOM

INSÓNIA

Movendo-se entre o thriller psicológico, o road movie e o drama conjugal, "Sinais Vermelhos" (Feux Rouges) assinala o regresso do cinesasta Cédric Kahn e centra-se nas peripécias de um casal que faz uma viagem de carro relativamente longa a fim de ir buscar os filhos a uma colónia de férias.

Kahn sugere, logo desde o início, que a aparentemente rotineira viagem suscitará acontecimentos tumultuosos e conturbados, uma vez que o filme é contaminado por atmosferas tensas que se vão adensando progressivamente.

Quando Antoine, o marido, insiste em dar continuidade ao consumo de álcool, colocando em risco a sua segurança na estrada, Hélène abandona-o e opta for fazer o resto do percurso sozinha, deixando para trás uma viagem marcada por uma interminável discussão.

Com tanto de cru e realista como de onírico e nebuloso, "Sinais Vermelhos" debruça-se sobre a solidão, a falta de comunicação, as fronteiras entre a sanidade e a loucura ou as dificuldades das relações humanas, mas infelizmente os resultados não são os mais auspiciosos.

Kahn sugere, nas primeiras cenas, traços de um interessante retrato de um quotidiano urbano em combustão, com nervo e intensidade q.b., mas à medida que o filme se desenrola essa tensão nem sempre é bem gerida.

O desenvolvimento das personagens não é muito conseguido, não obstante os bons desempenhos de Jean-Pierre Darroussin e Carole Bouquet, e o argumento fragmentado, embora contenha algumas pequenas reviravoltas e eficazes momentos de suspense, não é acompanhado por um ritmo envolvente.

Insípido e pouco estimulante, "Sinais Vermelhos" está longe de ser uma película de paragem obrigatória, pois as duas ou três sólidas cenas arrepiantes que contém não são suficientes para justificar a viagem. Recomenda-se, por isso, seguir outro percurso…

E O VEREDICTO É: 1,5/5 - DISPENSÁVEL

quinta-feira, julho 07, 2005

A MAGIA DA NOVA POP

Combinando elementos do electroclash, dream pop, new wave e spoken word, os britânicos Ladytron apresentaram, em "604", um belo álbum de estreia, recuperando sonoridades dos anos 80 mas contextualizando-as no presente, evitando exercícios de nostalgia oportunista e gerando um refrescante e experimental disco pop.

Um ano depois, em 2003, o registo sucessor voltou a apostar em azimutes semelhantes, empreendendo mais uma viagem por atmosferas entre o festivo e o melancólico. Embora mantenha os traços característicos da banda, "Light and Magic" aposta em domínios mais densos e frios, contendo canções mais clínicas e distantes do que as que compunham o primeiro álbum. Os ambientes inocentes e encantatórios de temas como "Playgirl" ou "Discotraxx" já não se manifestam aqui com tanta frequência, pois "Light and Magic" intensifica as zonas de sombra e contém, por vezes, um carácter gélido que as suas canções agridoces não sugeriam antes.

Um dos maiores trunfos deste quarteto de Liverpool é o contraste das suas vocalistas, Helen Marnie e Mira Aroyo. A doçura e fragilidade da voz de Marnie encontra um apropriado contraponto nas intrigantes e soturnas vocalizações de Aroyo, originando bem conseguidos momentos em que estas posturas dissonantes se entrelaçam de forma eficaz.

Embora "Light and Magic" seja mais obscuro do que "604", contém ainda alguns episódios descaradamente poppy, como o cativante "Blue Jeans", o elíptico single "Seventeen" ou o hipnótico "The Reason Why". Contudo, a maior parte do disco consiste em temas ásperos como o nebuloso "Black Plastic", o robótico e enigmático "Cracked LDC", o dançável "Flicking Your Swith" ou o muito catchy "Evil".

Sendo uma contagiante proposta de pop electrónica com tanto de retro como de futurista, repleta de texturas envolventes - algures entre os Kraftwerk, Human League e Depeche Mode passando também pelos Zoot Woman, Le Tigre ou Bis -, "Light and Magic" fica, contudo, uns furos abaixo do álbum antecessor.
Apesar de conter canções interessantes, o disco é demasiado longo, e a espaços torna-se mesmo um pouco cansativo, sobretudo no último terço, excessivamnete esquemático e mecânico, menos inspirado do que a secção inicial. Nada que impeça, mesmo assim, que os Ladytron constem já entre as bandas mais promissoras da pop actual...
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

quarta-feira, julho 06, 2005

ENTRE A LUZ E A SOMBRA

E quase trinta anos depois, a saga está finalmente completa (ou será que não?). "Star Wars: Episódio III - A Vingança dos Sith" (Star Wars: Episode III - Revenge of the Sith) fecha a mais famosa space opera de sempre, finalizando a trilogia de prequelas que complementam a série original.

Se é verdade que os novos episódios das aventuras intergalácticas geradas por George Lucas - "A Ameaça Fantasma" e "O Ataque dos Clones" - não foram capazes de recuperar as doses de surpresa que os primeiros apresentaram há três décadas, "Star Wars: Episódio III - A Vingança dos Sith" consegue, pelo menos, proporcionar um competente desenlace para a mais recente trilogia, recuperando algum do encanto inicial da saga, que já se julgava definitivamente perdido.

Expondo um dos momentos decisivos da série - a transformação de Anakin Skywalker em Darth Vader -, "Star Wars: Episódio III - A Vingança dos Sith" contém por isso uma considerável aura mítica, tendo em conta que as reviravoltas que apresenta são incontornáveis para o desenrolar de "Star Wars: Episódio IV - Uma Nova Esperança", "Star Wars: Episódio V - O Império Contra-Ataca" e "Star Wars: Episódio VI - O Regresso do Jedi".

Elogiado por algumas vozes, que o consideram um dos episódios mais complexos e ambíguos da saga, o filme tem, de facto, o mérito de reduzir o excessivo maniqueísmo presente nas aventuras anteriores, enveredando por atmosferas emocionais mais dúbias e cinzentas. Nesse sentido, a personagem de Anakin Skywalker é determinante, uma vez que concentra uma conturbada rede de inquietações e dúvidas acerca da postura a adoptar e dos ideias a defender.

Esta interessante dilaceração emocional é incomum na série, habitualmente marcada por personagens desprovidas de considerável densidade dramática, mas mesmo assim poderia ter sido melhor trabalhada, tendo em conta que a transformação do protagonista nem sempre é convincente (a abrupta revolta contra os Jedi, ainda que minimamente justificada, é pouco credível, assim como alguns actos extremistas que Anakin enceta).

"Star Wars: Episódio III - A Vingança dos Sith" é um filme por vezes vibrante, mas desigual no seu todo. Se a nível visual George Lucas volta a superar-se, oferecendo mais uma galeria de prodígios técnicos e cenários apropriadamente megalómanos, na narrativa essa eficácia não se manifesta de forma tão recorrente, uma vez que o filme está repleto de altos e baixos, oscilando entre combates demasiado longos e previsíveis (de que são exemplo os cansativos vinte minutos iniciais, onde os heróis derrotam os antagonistas com uma facilidade nada verosímil), e pequenos momentos onde o realizador revela maior singularidade (como nas bem conseguidas cenas finais, onde os destinos de Anakin e Amidala são apresentados em paralelo).

Ainda que possua algumas sequências arrepiantes, sobretudo na segunda metade (quando a tensão se adensa a cada minuto), "Star Wars: Episódio III - A Vingança dos Sith" não evita certos elementos mais débeis, casos dos imberbes e simplistas diálogos entre o par central, um argumento demasiado esquemático, personagens sem grande espessura (excepto Anakin Skywalker e Obi-Wan Kenobi) e uma mediana direcção de actores.

Há, contudo, algumas surpresas, como a sólida prestação de Hayden Christensen, capaz de evidenciar as contrariedades emocionais de Anakin, onde o actor expõe uma enigmática relutância que já tinha dado bons resultados em "Shattered Glass - Verdade ou Mentira", de Billy Ray. Não é um desempenho brilhante, mas é suficientemente competente e, por isso, contribui para que o filme resulte (se falhasse, "Star Wars: Episódio III - A Vingança dos Sith" não se aguentava).

Ficando longe do estatuto de obra-prima, ou mesmo de uma película especialmente ispirada, o terceiro episódio da trilogia de prequelas convence ao inserir um vital intimismo numa saga contaminada por uma constante (e excessiva) espectacularidade.

Não traz nada de novo ao universo da ficção científica (muito mudou em trinta anos), mas é, mesmo assim, uma recomendável aventura intergaláctica, resgatando o carisma (ou parte dele) de uma saga à beira do esgotamento. Um entretenimento escorreito com um eficaz contraste entre a luz e a sombra, e provavelmente o mais forte candidato ao título de "filme-pipoca de culto" de 2005...

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

BALADAS DO ASFALTO EM LISBOA

Um dos artistas nucleares da nova música brasileira apresenta hoje o seu novo disco em Portugal. Zeca Baleiro actua esta noite no Fórum Lisboa e traz consigo o recente "Baladas do Asfalto & Outros Blues".

Um dos nomes mais elogiados da nova música popular brasileira, Zeca Baleiro tem cimentado uma sólida discografia vincada por uma sonoridade ecléctica e fusionista.

"Baladas do Asfalto & Outros Blues", o seu quinto álbum de originais, envereda por atmosferas mais apaziguadas e, como o título sugere, reforça a vertente de contador de histórias que os trabalhos anteriores já apresentavam.

O disco será apresentado ao vivo hoje no Fórum Lisboa, pelas 22 horas, num concerto que deverá ainda recordar momentos de "Pet Shop Mundo Cão" (2002), "Líricas" (2000), "Vô Imbolá" (1999) e "Por Onde Andará Stephen Fry?" (1997). Se calhar passo por lá mais logo...

terça-feira, julho 05, 2005

ADEUS, PAI

Uma obra idealista em tons de fábula moderna, "A Balada de Jack e Rose" (The Ballad of Jack and Rose) é a terceira longa-metragem de Rebecca Miller (filha de Arthur Miller) e sucede a "Angela" - inédito entre nós - e "Velocidade Pessoal".

O filme centra-se em Jack (Daniel Day-Lewis, seguro como sempre) e na sua filha adolescente Rose (promissora Camilla Belle) que vivem isolados numa ilha dos Estados Unidos, tentando assim escapar à desumanização despoletada pelo contacto regular com a civilização urbana.

Marcado pelos ideais hippie que orientaram a sua juventude, Jack é um ávido defensor de causas ambientalistas e insurge-se contra as tiranias da cultura empresarial, mantendo uma conduta individualista com escassas relações sociais.

No entanto, à medida que o seu estado de saúde se debilita, o protagonista apercebe-se que a sua filha dificilmente conseguirá tornar-se autónoma e madura caso a sua educação continue vincada por um isolamento tão forte, e assim tenta fazer com que a sua rede de relações se estenda.

Embora contenha uma envolvente aura etérea, uma convincente direcção de actores (com destaque para o par principal) e uma realização competente, "A Balada de Jack e Rose" é um filme que tem tanto de agradável quanto de efémero.
Rebecca Miller oferece um melancólico olhar sobre a perda da inocência, as relações familiares, a evolução civilizacional e a solidão, o resultado final é desequilibrado, uma vez que o argumento não é muito coeso e o ritmo é bastante desigual, oscilando entre cenas de uma intrigante tensão dramática e momentos de considerável monotonia e frieza emocional.

Apesar da relação de Jack e Rose ser bem trabalhada, com espaço para a ambiguidade e escapando a lugares comuns, as personagens secundárias não são tão estimulantes, raramente apresentando alguma substância que ultrapasse a de figuras meramente acessórias e pouco complexas.

"A Balada de Jack e Rose" é então uma obra irregular, com alguns bons momentos que não chegam a formar um todo convincente e memorável. Será relembrado, mesmo assim, como um filme curioso e por vezes meritório, mas longe de essencial.

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

segunda-feira, julho 04, 2005

NOSTALGIA MODERNA

Autêntica pedrada no charco no panorama musical português, os Humanos surpreenderam, no final de 2004, com um disco que recuperou algumas canções "perdidas" de António Variações e as adaptou ao presente.

O resultado foi um álbum recebido com unanimidade pela crítica (presença constante nas listas de melhores do ano) e pelo público (conquistou rapidamente os lugares cimeiros do top de vendas).

Manuela Azevedo, Camané, David Fonseca, Nuno Rafael, Hélder Gonçalves, João Cardoso e Sérgio Nascimento foram os responsáveis pelo projecto que trouxe alguma vitalidade à nova música portuguesa, e estiveram presentes no Coliseu de Lisboa no passado dia 28 de Junho, assinalando a sua estreia nesse palco.

Reunindo um público que não era dos 7 ou 77, mas quase - entre velhos admiradores de Variações e jovens ouvintes mais familiarizados com os músicos dos Humanos -, a noite comprovou que o (super)grupo convence não só em disco mas também (e sobretudo) ao vivo, tendo em conta o portentoso concerto.

Uma das marcas evidentes do espectáculo foi a vertente mais rock da maioria das canções, que exibiram uma carga mais dinâmica e enérgica do que as versões do disco. Esta opção possibilitou que as reacções do (vasto) público fossem ainda mais efusivas, suscitando aplausos constantes por parte de uma audiência que se rendeu logo nos primeiros minutos e permaneceu devota durante as quase duas horas do espectáculo.

Entre piano e guitarras, passando pelas pandeiretas e cavaquinhos, o alinhamento foi ecléctico e equilibrado, apostando não só nos já esperados temas do álbum mas também em novas versões, casos de "Oh My Love", de John Lennon; "This Town Ain't Big Enough for Both of Us", dos Sparks (com um óptimo contraste entre Manuela Azevedo e David Fonseca); o insinuante "Hardcore (1º Escalão)", dos GNR; e "Flores", dos Titãs.

Hits como "Muda de Vida" ou o obrigatório "Maria Albertina" (interpretado duas vezes) despoletaram grandes momentos de sintonia entre os músicos e os espectadores, mas a noite registou outros episódios fortes como o excelente "Não me Consumas" ou uma surpreendente versão de "Amor de Conserva" (intensificando a carga electro que se manifestava timidamente no disco mas que adquiriu ao vivo uma vibração hipnótica e de viciante apelo dançável).

Manuela Azevedo, Camané e David Fonseca apresentaram não só vozes em boa forma mas também uma postura dedicada, emanando uma energia contagiante e incansável.Outros momentos-chave da noite foram as revisitações às canções clássicas de Variações, desde "Anjo da Guarda" e "Estou Além" até aos inevitáveis "O Corpo é que Paga" e "É p'ra Amanhã" (que encerrou o segundo e último encore do concerto).

O balanço da estreia dos Humanos no Coliseu de Lisboa foi, então, claramente positivo, e aguarda-se já com alguma expectativa e edição do CD e DVD com material gravado neste e noutros espectáculos, porque concertos como este merecem sempre ser recordados...e provam que o que é nacional também pode ser bom…

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

domingo, julho 03, 2005

UMA COMÉDIA GENIAL?

Estreia na realização de longas-metragens do casal Teresa de Pelegrí e Daminic Harari, "Querida Familia" (Seres Queridos) é uma comédia familiar espanhola que foca as dificuldades das relações familiares e o confronto de ideais políticos/religiosos.

O ponto de partida assenta na conturbada relação de Leni, uma apresentadora de televisão judia, e Rafi, um professor de literatura palestino, que se preparam para oficializar a sua união quando decidem jantar em casa dos pais dela.

Tendo em conta que se move sobretudo no campo da comédia, "Querida Família" aproveita esta premissa para gerar situações marcadas por algum humor, não só através do contraste de culturas mas também pelo carácter pitoresco da maioria das personagens, desde a irmã ninfomaníaca de Leni até um pai que desaparece misteriosamente e será decisivo para o desenrolar da segunda metade do filme.

Embora pareça refrescante e irreverente nas primeiras cenas, "Querida Família" acaba por se tornar vítima de um desenvolvimento bastante irregular, oferecendo protagonistas pouco interessantes e demasiado caricaturais, um ritmo desigual e escassas ideias de cinema, não se desviando muito de um vulgar registo televisivo.

O filme falha ainda quando tenta motivar a reflexão política, uma vez que as cenas onde a situação de Israel e da Palestina é focada optam por um estafado simplismo, expondo mesmo uma postura algo didáctica.

Os momentos supostamente cómicos também nem sempre resultam, enveredando pelo burlesco e pelo nonsense mas não apresentado grandes doses de inspiração, e um argumento fragmentado e com muitas pontas soltas também não ajuda a que o projecto seja bem sucedido.

Com tanto de leve como de cansativo, "Querida Família" é uma película pouco surpreendente, que embora tente ser mais do que uma comédia despretensiosa raramente vai além da superficialidade.
Quem procurar um filme de nuestros hermanos recheado de humor e algum substrato dramático fica melhor servido se optar pelo divertido "Rainhas", de Manuel Gómez Pereira, também em exibição.

E O VEREDICTO É: 1,5/5 - DISPENSÁVEL

sexta-feira, julho 01, 2005

SOUNDTRACK OF MY LIFE

Ora aqui está mais um desafio, já que não postava um há uns dias...Vi-o no Fórum Sons, numa proposta lançada pelo Halfast, que dizia "Se a vossa vida fosse um filme, qual seria a música a preencher em cada uma destas partes?". Aqui ficam as minhas escolhas:

Opening credits: “Five”, Lamb

Waking-up scene: “Good Morning”, The Dandy Warhols

Average-day scene: “Another Day”, 12 Rounds

Best-friend scene: “Never Let Me Down”, Depeche Mode

First-date scene: “You and Me Song”, The Wannadies

Falling-in-love scene: “All is Full of Love”, Bjork

Love scene: “All I Need”, Air

Fight-with-friend scene: “The Trick is to Keep Breathing”, Garbage

Break-up scene: “I Deserve it”, Madonna

Get-back-together scene: “Starter”, The Cardigans

Fight-at-home scene: “Man Next Door”, Massive Attack

"Life's okay" scene: “Drinking in LA”, Bran Van 3000

Heartbreak scene: “The River”, PJ Harvey

Mental-breakdown scene: “Search me Not”, Silence 4

Driving scene: “So Free (3 Acts)”, The Gift

Lesson-learning scene: “Ask for Answers”, Placebo

Deep-thought scene: “Eye”, The Smashing Pumpkins

Flashback scene: “Snoozer”, Gus Gus

Party scene: “Nervous Breakthrough”, Luscious Jackson

Happy dance scene: “Life is Sweet”, The Chemical Brothers

Regret scene: “Something I Can Never Have”, Nine Inch Nails

Long-night-alone scene: “Climbatize”, The Prodigy

Death scene: “Rabbit in Your Headlights”, UNKLE

Closing credits: “Sleep”, The Dandy Warhols

Não proponho este desafio a ninguém em especial, até porque é preciso alguma paciência para responder a isto tudo, por isso quem quiser que responda. Bons sons ;)

quinta-feira, junho 30, 2005

O STRESS E A CIDADE

Embora tenha já uma considerável experiência enquanto argumentista, produtor e realizador televisivo, Paul Haggis só adquiriu maior visibilidade através da escrita do argumento de "Million Dollar Baby - Sonhos Vencidos", o muito aclamado (e sobrevalorizado) filme e Clint Eastwood.

Os trabalhos anteriores de Haggis, no entanto, nem sempre foram alvo de elogios - a sua colaboração na série televisiva "Walker: o Ranger do Texas" não é propriamente um sinal de credibilidade -, por isso era difícil prever se "Colisão" (Crash), a sua estreia na realização de longas-metragens, seria uma obra inspirada ou um desfile de clichés.

Felizmente, o filme não só é convincente como figura, desde já, entre os títulos cinematográficos fulcrais de 2005.
Explorando as interligações de uma extensa galeria de personagens situadas em Los Angeles, "Colisão" é um forte e sensível olhar sobre as vicissitudes das relações humanas e o que nos separa e aproxima uns dos outros.

Abordando com especial ênfase a temática da xenofobia, o filme aposta num elenco multicultural para evidenciar o melting pot de um ambiente urbano onde o ritmo do dia-a-dia é cada vez mais inquietante e acelerado, reflectindo-se nas (progressivamente conturbadas) relações pessoais.

Haggins envereda por um retrato complexo e abrangente, evitando caracterizações simplistas e mensagens edificantes e moralistas, concedendo ambiguidade às personagens sem nunca as julgar nem as tratar como símbolos de uma qualquer etnia ou ideologia.

A soberba direcção de actores é decisiva para que a densidade dramática do filme resulte, e nesse sentido "Colisão" oferece um dos elencos mais coesos do ano.
Entre estrelas mediáticas como Sandra Bullock (num dos seus papéis mais interessantes), Matt Dillon (que encarna aqui um intrigante polícia), Brendan Fraser (que mais uma vez comprova ser um actor a ter em conta) ou Don Cheadle (seguro como sempre), passando por nomes promissores como Ryan Phillipe (encarnando um jovem que aprende a não ver o mundo a preto-e-branco) ou Larenz Tate e o cantor Ludacris (numa dupla de delinquentes), o filme contém uma série de presenças que compõem personagens credíveis e absorventes.

Se o contributo dos actores é um dos pontos fortes de "Colisão", este nem sempre é bem aproveitado, uma vez que há algumas personagens cujo potencial fica algo inexplorado. Haggis poderia, por isso, ter estendido um pouco mais a duração do filme, de forma a que o desenvolvimento das personagens fosse ainda mais conseguido.

Apesar dessa pequena limitação, esta é ainda uma obra bem acima da média, atestando o talento de Haggis não só na criação de argumentos mas também na realização. Apresentando uma sólida gestão do ritmo, com uma eficaz interligação dos múltiplos episódios de um quotidiano em ebulição, o realizador proporciona ainda uma envolvente energia visual, pois a sua perspectiva de uma LA nocturna é tão entusiasmante como a que Michael Mann efectua em "Colateral" (com uma banda-sonora e fotografia notáveis).

Partindo de um início não muito original - um acidente de viação que serve de ponto de partida para que as personagens se entrecruzem, algo que "Amor Cão", de Alejandro Gonzalez Iñarritu, ou "Crash", de David Cronenberg já desenvolveram -, "Colisão" torna-se numa película surpreendente, cativando devido à combinação de vinhetas geralmente cruas e realistas que conseguem despoletar momentos de um intenso impacto emocional sem recorrerem a fórmulas melodramáticas e rodriguinhos fáceis.

Duro mas também emotivo, "Colisão" é um brilhante filme-mosaico, uma equilibrada estreia na realização de um cineasta/argumentista que se distingue aqui como um dos nomes mais promissores do actual cinema norte-americano. Se desse mais tempo e espaço para as suas personagens se revelarem na sua plenitude, "Colisão" poderia ascender ao estatuto de obra-prima. Assim, é "apenas" muito bom, e um dos títulos obrigatórios de 2005. Imperdível.

E O VEREDICTO É: 4/5 - MUITO BOM

BLINKS & LINKS

Obrigado ao Nuno Rodrigues por me blinkar no seu blog Alta Fidelidade. Quem gostar de música, cinema e aparentados só ganha em passar por lá...

REGRESSO AO FUTURO

Depois do concerto de Billy Corgan em Lisboa, fiquei curioso em relação ao primeiro álbum a solo do ex-vocalista dos Smashing Pumpkins (ah sim, e dos Zwan). Mesmo não sendo dos melhores discos em que o músico já colaborou (até está muito longe disso), "TheFutureEmbrace" é suficientemente bom para merecer algumas audições. Agora é só esperar que os rumores sejam verdadeiros e que os Pumpkins regressem :D

Mesmo que não sejam grandes fãs do rapaz, experimentem ouvir o disco gratuitamente aqui. Não perdem nada ;) Em breve falarei do álbum mais detalhadamente...

terça-feira, junho 28, 2005

gonn10.000

Gerado há oito meses, este blog ultrapassou recentemente a fasquia dos 10.000 visitantes :D Obrigado, por isso, a todos os que passam ou passaram por aqui, desde os mais assíduos (que já são alguns) aos esporádicos.
Não sei muito bem se o rumo do blog irá manter-se assim ou sofrer alterações - como de resto também não sabia no primeiro post, em Outubro de 2004 -, mas espero que estejam cá todos para ver no que isto vai dar (conto com vocês para o gonn100.000 LOL)...
Vai um copito de champanhe para festejar (não aprecio muito, mas a ocasião justifica-o)?

SANGUE, SUOR E BALAS

Com uma obra ecléctica, capaz de ir dos contos infantis ao romance de moldes clássicos, o chileno Luís Sepúlveda tem assinalado um respeitável percurso enquanto escritor, evidenciado em títulos elogiados como "O Velho que Lia Romances de Amor", "Nome de Toureiro" e "História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar".

"Diário de um Killer Sentimental", editado em 1996, é um dos seus livros de culto e segue o quotidiano de um assassino profissional quarentão com um currículo invejável, mas cuja determinação e perspicácia começam a ceder à medida que se envolve emocionalmente com uma jovem francesa.

A situação torna-se mais conturbada quando a sua amada lhe comunica que pretende deixá-lo, notícia que ameaça o seu profissionalismo e lhe dificulta a eliminação da sua nova encomenda, um dúbio filantropo envolvido em actividades misteriosas cujo paradeiro é de difícil determinação (obrigando o protagonista a deslocar-se por Madrid, Istambul, Frankfurt, Paris e Cidade do México).

Apostando na estrutura do romance negro e do policial, Sepúlveda proporciona aqui uma história crua e escorreita, geralmente contaminada por consideráveis doses de ironia e sarcasmo.
O leitor entra facilmente na acção, uma vez que a economia narrativa permite que a leitura seja acessível e absorvente, e o autor constrói um protagonista que, apesar dos ambíguos padrões morais, possui carisma suficiente para que a sua jornada seja minimamente intrigante (o facto da obra ser narrada na primeira pessoa ajuda).

"Diário de um Killer Sentimental" é um livro divertido q.b., mas infelizmente não é muito mais do que isso, ficando aquém daquilo que se esperaria do autor.
As peripécias da personagem central oferecem algumas reviravoltas interessantes e dois ou três momentos bem observados (as corrosivas conversas com os taxistas, a crítica à hipocrisia da sociedade actual), mas falta espessura a esta história e às suas personagens.
O pouco surpreendente desenlace torna o livro ainda menos memorável, enveredando por um twist demasiado previsível, e no fim da leitura do livro sente-se que há aqui uma boa premissa mal aproveitada.

"Diário de um Killer Sentimental" não deixa de ser uma obra agradável e que se lê com algum interesse, mas peca por ser demasiado curta e esquemática, encalhando numa pouco estimulante mediania. Em suma, lê-se bem e esquece-se com a mesma facilidade...

E O VEREDICTO É: 2/5 - RAZOÁVEL

SANGUE NOVO

20 anos depois da morte de António Variações, as canções do singular músico regressaram e tornaram-se no motor de um dos mais curiosos projectos do panorama musical português actual, os Humanos.

Manuela Azevedo (dos Clã), David Fonseca e Camané - juntamente com Hélder Gonçalves (Clã), Nuno Rafael, João Cardoso e Sérgio Nascimento (ex-elementos dos Despe & Siga e colaboradores de Sérgio Godinho) - trabalharam os temas inéditos que Variações deixou e geraram aquele que terá sido o mais elogiado disco português de 2004, "Humanos", bem-recebido pelo público (já vai na tripla platina) e pela crítica.

O (super)grupo apresentará as suas canções ao vivo no Coliseu de Lisboa hoje e amanhã, pelas 21h30m, num espectáculo promissor e aguardado com expectativa q.b.. Se calhar passo por lá...