domingo, junho 05, 2005

AT THE MOVIES

Como questionários sobre música, livros ou o que quer que seja são o que está a dar, aqui fica um sobre cinema, sugerido pela Dré (a quem lanço também o desafio de responder):

1) Melhores filmes dos últimos anos (aqui considerei obras a partir do ano 2000):

- "Requiem Para Um Sonho", de Darren Aronofsky

- "Podes Contar Comigo", de Kenneth Lonergan

- "Relatório Minoritário", de Steven Spielberg

- "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles

- "O Despertar da Mente", de Michel Gondry

2) Filme "da vida"(tricky question, mas aqui ficam alguns):

- "Trainspotting", de Danny Boyle

- "Estranhos Prazeres", de Kathryn Bigelow

- "Clube de Combate", de David Fincher

- "Matrix", de Andy e Larry Wachowski

- "Relatório Minoritário", de Steven Spielberg

3) Actores com pujança:

- Ewan McGregor

- Edward Norton

- Jake Gyllenhaal

- Javier Bardem

- Matt Damon

4) Actrizes de mão cheia:
- Kate Winslet
- Sarah Polley
- Gwyneth Paltrow
- Mira Sorvino
- Juliette Lewis
5) O meu musical:
Ora aí está um género que não me diz muito. Talvez o "Moulin Rouge", do Baz Luhrmann.
6) Realizador(es) com "R" grande:
- David Fincher
- Quentin Tarantino
- Danny Boyle
- M. Night Shyamalan
- Spike Lee

7) Lanço o testemunho a outros cinco bloggers:
E para quem mais quiser responder. Bons filmes!

sábado, junho 04, 2005

NANCY BOY

Iniciando o seu espectáculo com mais de meia hora de atraso perante uma Aula Magna muitíssimo concorrida - e com lotação esgotada -, Antony and the Johnsons ofereceram, no passado dia 31, um concerto onde os aplausos foram sempre recorrentes e a empatia com a audiência surgiu de forma visível e espontânea.

Os primeiros minutos do espectáculo foram protagonizados apenas pelos The Johnsons - Jeff Jangston no baixo, Rob Moose na guitarra, Julia Kent no violoncelo e Maxim Mostom no violino - numa eficaz e serena introdução, mas a estrela da noite chegou pouco depois e foi recebida com uma vibrante ovação geral.

Figura andrógina, de indumentária e cabelo negro, Antony apresentou ao vivo o seu mais recente álbum, "I Am a Bird Now", editado em Fevereiro, o sucessor do debutante "Antony and the Johnsons".

Com uma voz ambígua e peculiar, o cantor aborda, nas suas composições, as mutações do corpo, as complexidades das relações humanas e a ambivalência sexual, num registo teatral e metafórico q.b. com referências que vão de Boy George a Rufus Wainwright (não é por acaso que ambos os músicos participam no seu novo disco).

Incorporando a sobriedade da folk a par de ambientes mais barrocos e, a espaços, certas piscadelas de olho à dream pop, Antony assinalou uma prestação estranhamente incensada pelo público presente, que reagiu com histeria a um concerto apenas competente.

Apesar de interessantes em alguns momentos, as canções seguiram-se de forma monótona e pouco versátil, apostando no mesmo tipo de atmosferas e vivendo muito da voz do cantor (singular, é certo, mas não necessariamente entusiasmante).
As letras também não ajudam, tentando ser portentos de emoção e sensibilidade mas raramente indo além de uma lamechice banal mas muito pretensiosa.

Contudo, a prestação de Antony foi quase sempre afável e empenhada, gerando momentos de assinalável química com os espectadores como na chuva de palmas de "Water and Dust" ou no inebriante e solene murmúrio colectivo que se seguiu, dois dos episódios mais marcantes da noite.
As versões de temas de Nico, Leonard Cohen, Moondog e Lou Reed ("Candy Says" foi a última canção do encore, encerrando o espectáculo) conseguiram, também, suscitar uma refrescante carga de surpresa.

Entre momentos enfadonhos e ocasionais oásis de envolvente energia, Antony and the Johnsons ofereceram um concerto efusivamente elogiado e aplaudido pela maioria do público, mas que não foi além de um nível escorreito e simpático.
Talvez o próximo espectáculo seja mais absorvente, e a julgar pela reacção da audiência não deverá faltar muito para que a banda volte a palcos nacionais em breve.

E O VEREDICTO É: 2/5 - RAZOÁVEL

quinta-feira, junho 02, 2005

TOO COLD

Os rapazes mais bem-comportados do rock actual (enfim, depois dos Keane, mas não falemos desses..) vão editar o terceiro álbum de originais este mês. Plagiado ou não, "X&Y", o novo disco dos Coldplay, já pode ser ouvido na íntegra aqui.

Até gostei dos anteriores, mas este ainda não me convenceu muito. Tem algumas boas canções - "Square One", "X&Y", "Talk" e sobretudo "White Shadows" -, mas a partir de "Speed of Sound", a sétima faixa e primeiro single, o álbum torna-se cada vez mais monótono, redundante e indistinto. Enfim, talvez melhore com mais audições. Ouçam e digam de vossa justiça...

A EMPRESA

Paul Weitz revelou-se com a mediática comédia adolescente "American Pie - A Primeira Vez", uma estreia na realização que, com tanto de divertida como de inconsequente, estava longe de o colocar no restrito grupo de realizadores a seguir com atenção.
"Era Uma Vez Um Rapaz" (About a Boy), novamente no campo da comédia, exibiu uma inesperada maturidade, apostando num humor mais subtil e num argumento mais coeso, unindo entretenimento e sensibilidade.

Na sua terceira obra, "Uma Boa Companhia" (In Good Company), Weitz volta com os elementos que já começam a tornar-se na sua imagem de marca: tons agridoces, num equilibrado registo de comédia levemente melancólica, e uma considerável atenção às personagens, que transbordam carisma.

"Uma Boa Companhia" foca a tensa relação entre Dan Foreman (Dennis Quaid), o chefe do departamento de publicidade de uma revista, e um jovem com cerca de metade da sua idade, Carter Duryea (Topher Grace), de 26 anos, que passa a ocupar, repentinamente, o seu lugar na empresa, devido à mudança do grupo económico que a detém.

Ancorando-se nos conflitos de dois homens tão diferentes - um pai de família que vê abalada a sua situação laboral e um ambicioso e astuto jovem numa carreira em fase ascendente -, o filme proporciona uma abordagem a questões como o choque de gerações, o desemprego, a crise de valores e o quotidiano da vida empresarial, nunca esquecendo a especificidade das suas personagens e recusando-se a utilizá-las como porta-estandartes de uma qualquer ideologia.

É mesmo pelas personagens - e pelos actores - que "Uma Boa Companhia" mais merece ser visto, tanto pela sóbria amargura de Dennis Quaid como pela cativante energia e vibração de Topher Grace (a confirmar a boa impressão gerada em "P.S. - Amo-te", de Dylan Kidd).
Entre esta dupla masculina surge ainda Scarlett Johansson, cuja presença será decisiva para orientar a interligação dos dois colegas de trabalho. A actriz interpreta a filha da personagem de Quaid, que inicia uma relação amorosa com o novo chefe do seu pai e faz com que o dia-a-dia dos dois protagonistas se torne ainda mais conturbado.

Paul Weitz, embora não traga nada de especialmente inovador, apresenta um filme consistente, com um bem conseguido equilíbrio entre drama e comédia, um ritmo envolvente e uma sólida direcção de actores. O argumento não resiste a exibir traços de um idealismo algo excessivo no desenlace, mas durante boa parte o tempo evita os clichés e impede que a película ceda ao formato de uma banal comédia romântica.

"Uma Boa Companhia" não é um grande filme, mas é, como já é habitual na obra do realizador, um filme com coração, expondo uma carga emocional genuína e espontânea, conseguindo ser lúdico sem se tornar descartável. Uma boa escolha, portanto.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

BLINKS & LINKS

Obrigado aos responsáveis pelos blogs 7 Meses e Love Will Be Your Death e Teco Apple por me blinkarem ;)

quarta-feira, junho 01, 2005

SMASHING!

É já hoje à noite, e se tudo correr bem estarei lá. Billy Corgan ao vivo na Aula Magna na apresentação de "TheFutureEmbrace". Espero um bom espectáculo, de preferência superior ao de zzzzz....Antony and the...zzzzz....Johnsonzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz...

Confesso que já há muito não estava tão expectante quanto a um concerto...

terça-feira, maio 31, 2005

ROADTRIP

Wow...Suspense e alta tensão em "Sete Palmos de Terra"??? Bem, esta série percorre mesmo tudo, e este foi um dos melhores episódios dos últimos tempos, especialmente imprevisível e asfixiante. Poor David :(

E na próxima segunda-feira há mais, às 22h30 na 2: É por estas e por outras que ainda visito a TV de vez em quando...

O CORPO É QUE PAGA

Finalizando uma série de treze espectáculos no âmbito da 6ª edição do FATAL - Festival Anual de Teatro Académico de Lisboa -, a peça "Ao Segundo", encenada por Ana Lacerda, propôs uma reflexão acerca da singularidade do corpo humano e daqui partiu para apresentar vários retratos de múltiplas vidas e experiências.

No passado dia 29 de Maio, o FATAL exibiu assim o seu último espectáculo deste ano, colocando fim a um ciclo que decorreu no Teatro da Politécnica (Museus da Politécnica - Rua da Escola Politécnica) desde dia 17, num total de 13 peças.
Esta última foi criada pelo Ultimacto, da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, e baseou-se em textos de autores como Sarah Kane, Sofia Melo, Herberto Hélder e António Lobo Antunes. A escolha destes autores, aparentemente díspares, justifica-se pelo olhar acerca do corpo humano que todos desenvolvem em algumas das suas obras, e "Ao Segundo" congregou estes universos gerando uma interessante amálgama de perspectivas e referências.

Começando de forma intrigante, durante uma autópsia, a peça oferece inicialmente um cenário de carregada escuridão durante alguns minutos, num possível retrato da morte, sempre inexorável. Contudo, depois dessa introdução o espectáculo destaca múltiplos acontecimentos e situações que poderão ocorrer entre o momento do nascimento e da finitude de um corpo - ou vida - humano.

Apresentando uma estrutura episódica e fragmentada, muitas vezes não-linear, "Ao Segundo" oferece visões ambíguas sobre a relação de um indivíduo com o seu corpo, temática que origina momentos onde se focam os códigos sociais (numa das cenas mais certeiras e perspicazes, proporcionando uma atenta crítica ao comportamento humano), a (im)possibilidade do suicídio, o carácter dúbio do amor e das relações humanas, o prazer e degradação físicos ou o contacto com a inevitabilidade da morte.

As formas de abordagem são versáteis, não só pela diversidade dos autores dos textos mas também pelos contrastes entre monólogos/diálogos, drama/comédia (por vezes de difícil distinção) e pela vibrante energia que os actores conseguem injectar à peça, num coeso trabalho de empenho e entrega (não raras vezes arriscada e visceral).

As atmosferas assentam quase sempre em ambientes surreais e oníricos, não raras vezes com algumas doses de absurdo e nonsense, territórios eficazmente ilustrados através de uma encenação minimalista que apenas recorre aos adereços indispensáveis (privilegiando, assim, o olhar sobre o corpo), com um discreto, mas apropriado, trabalho de iluminação.

Qualitativamente, o balanço é interessante e promissor, mas algo irregular, nem sempre expondo solidez e coesão, e a espaços a peça abusa das doses de pretensão, optando por cenas demasiado monótonas e sem ritmo. No final, fica a vontade de seguir os próximos passos do Ultimacto, uma vez que talento é algo que se insinua por aqui, só falta mesmo é limar algumas arestas e uma certa dispersão de ideias. Nada que não possa ser remediado em breve, de forma a "dar corpo" às intenções conceptuais de um modo mais consistente.

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

domingo, maio 29, 2005

WHAT SOUND

O Spaceboy lançou-me este desafio musical e resolvi aderir a mais um dos questionários que se propagam descontroladamente pela net:

1) Tamanho total dos arquivos no meu computador?

Não sei, mas é considerável...Devo ter uns 40/50 álbuns :S

2) Último disco que comprei:

Já não me lembro se foi o "Hullabaloo Soundtrack" dos Muse ou o "Rough Dreams" dos Shivaree...

3) Canção que estou a escutar agora:

"Nite and Fog", dos Mercury Rev

4) Cinco canções que ouço frequentemente ou que têm algum significado para mim:
"#1 Crush" dos Garbage - Porque tinha que escolher uma deles e se esta não é a melhor, anda lá perto. Porque a voz da Shirley Manson está melhor do que nunca e o tom absorvente e atmosférico da canção é arrebatador, já para não falar da letra...;
"Something I Can Never Have" dos Nine Inch Nails - Porque contém a carga gótica/industrial que os NIN conseguem trabalhar exemplarmente nos seus melhores momentos e é uma das suas canções perfeitas;
"Be There" dos Unkle - Ian Brown em excelente forma vocal numa canção enigmática e viciante, que se torna ainda melhor quando acompanhada pelo soberbo videoclip;
"The River" da PJ Harvey - Melancólica e intrigante, é uma das melhores composições de Polly Jean, onde a sua voz é apropriadamente acompanhada por um piano;
"Never Let Me Down Again" dos Depeche Mode - Basicamente porque os Depeche Mode têm umas 30 canções que poderiam estar aqui e esta é uma da minhas preferidas
Outras escolhas possíveis: "Kelly Watch the Stars" dos Air, "Violet" das Hole, "Blue American" dos Placebo, "Climbatize" dos Prodigy, "Fly" dos Lamb, "Coisas" dos Ornatos Violeta, "The Last High" dos Dandy Warhols, "Search Me Not" dos Silence 4, "Blindfold" dos Morcheeba, "Blue Monday" dos New Order, "Keep Your Dreams" dos Primal Scream, "Roses" dos dEUS, "So Free" dos The Gift, "Man Next Door" dos Massive Attack, "How to Disappear Completely" dos Radiohead, "Appels & Oranges" dos Smashing Pumpkins, "The Universal" dos Blur, "De Azul em Azul" dos Rádio Macau...Enfim, ficávamos aqui o dia todo...
5) Lanço o testemunho a outros cinco bloggers:

ahelenadetroia

dias úteis

Flávio

outlier

Randomsailor

Bons sons!!

sábado, maio 28, 2005

CINEMA NA TV

Um dos mais surpreendentes filmes de 2004 é exibido hoje às 23h na 2:

"Os Sonhadores" (The Dreamers), um poderoso retrato da adolescência e da cinefilia ambientado no período do maio de 68, assinalou o regresso em força de Bernardo Bertolucci num dos seus melhores filmes, que já analisei aqui. Imperdível!

sexta-feira, maio 27, 2005

AMIZADE SEM LIMITES

Depois do popular "As Horas", surge agora mais um filme inspirado numa obra literária de Michael Cunningham, "Uma Casa no Fim do Mundo" (A Home at the End of the World). O livro não é tão mediático como aquele que deu origem à elogiada película interpretada por Nicole Kidman, Julianne Moore e Meryl Streep, mas é, não obstante, um título interessante e absorvente.

Desta vez, o responsável pela adaptação ao grande ecrã não é Stephen Daldry mas o estreante Michael Mayer, encenador da Broadway que assim assinala a sua entrada em domínios cinematográficos.

Infelizmente, não se pode dizer que este primeiro filme de Mayer seja particularmente bem-sucedido, uma vez que a transposição de uma obra literária exigente e complexa é aqui feita de forma pouco surpreendente e singular.

"Uma Casa no Fim do Mundo" é um drama que foca a relação de dois amigos de infância, Bobby e Jonathan, que crescem juntos numa pequena localidade do Ohio, nos anos 60, e voltam a encontrar-se anos depois numa Nova Iorque em mutação e efervescência.
É já na idade adulta que conhecem Clare, uma mulher irreverente e pouco convencional, e com ela irão tentar formar uma família distinta dos padrões socialmente implementados, onde a amizade e o amor se imbricam e confundem.

O livro de Cunningham apresenta uma densa e subtil perspectiva sobre as relações humanas, os contrastes geracionais, a alteração de estilos de vida e as orientações sexuais, mas o filme de Mayer limita-se a ilustrar essas questões de modo ténue e pálido, raramente mergulhando no âmago das personagens.

De facto, é sobretudo na construção de personagens que o filme falha, sobretudo nas interligações entre estes, pois Mayer não lhes injecta grande densidade emocional.

Bobby assume aqui o papel de protagonista e orienta o rumo dos acontecimentos, originando uma secundarização das presenças de Jonathan e Clare, algo que não se manifestava no livro. Colin Farrel encarna a personagem principal na idade adulta e, embora ofereça um desempenho competente, faz com que a peculiaridade de Bobby fique aquém do potencial.
Dallas Roberts, Robin Wright Penn e Sissy Spacek asseguram a consistência do elenco, conseguindo gerar alguma carga dramática mas não a suficiente para elevar o filme acima da mediania.

Michael Mayer aposta numa estrutura narrativa demasiado episódica, com cenas geralmente curtas e apressadas, tornando "Uma Casa no Fim do Mundo" numa película fragmentada que só a espaços concede tempo para as personagens se revelarem.

O realizador é eficaz na escolha da banda-sonora, fotografia, guarda-roupa e nas reconstituições de época, mas um filme não vive só destes elementos e este denuncia as fragilidades de um argumento desequilibrado e de uma irregular construção de personagens, tornando "Uma Casa no Fim do Mundo" numa primeira obra que prometia, mas cujo resultado não é dos mais fascinantes...
E O VEREDICTO É: 2/5 - RAZOÁVEL

quinta-feira, maio 26, 2005

NOITE ESCURA

Um dos cantores/compositores que tem visto o seu grupo de fãs aumentar entre nós foi a presença principal da noite da passada sexta-feira no Café-Teatro Santiago Alquimista, em Lisboa.

Perry Blake tem realizado alguns espectáculos para assinalar o lançamento do seu novo álbum de originais, "The Crying Room", e do seu livro "These Pretty Love Songs".
Frequentemente comparado a Leonard Cohen, Scott Walker, Nick Drake ou David Sylvian, Blake possui uma discografia vincada por sonoridades sóbrias e intimistas, proporcionando uma elegante pop de travo clássico.

O concerto do passado dia 20 comprovou a discrição e minimalismo das composições do músico irlandês, expondo canções tranquilas que não precisaram de mais do que uma agradável voz acompanhada apenas pelo piano, contrabaixo e guitarra acústica.
Entre relatos de amores desencontrados e demais inquietações urbano-depressivas, o crooner ofereceu uma série de momentos delicados e soturnos, unindo os universos da pop e da folk numa prestação eficaz, mas pouco vibrante.

Perry Blake movimenta-se com competência nos territórios musicais que escolheu, mas o concerto foi demasiado morno e monocórdio, raramente ultrapassando a fasquia da razoabilidade.
O alinhamento incluiu alguns temas interessantes, como "The Hunchback of San Francisco", "Pretty Love Songs" ou uma versão de "Forbidden Colours", um original de Ryuichi Sakamoto e David Sylvian, mas na globalidade foi excessivamente monótono, sisudo e homogéneo.

O cantor, com uma presença estática e tímida, esboçou alguns contactos com o público entre a interpretação das canções, contudo não exibiu um carisma especialmente marcante ou memorável que o tornem num mestre-de-cerimónias acima da média.

O público, atento e concentrado, aplaudiu consideravelmente o músico em várias ocasiões num espectáculo que não envergonhou ninguém mas que ficou, infelizmente, abaixo das expectativas.

A primeira parte esteve a cargo de Rui Gaio, que propôs um pouco estimulante rock alternativo cujo maior ponto de interesse foi uma inesperada cover de "Sweet Harmony", dos Beloved.

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

quarta-feira, maio 25, 2005

UMA CASA NO FIM DO MUNDO

A primeira longa-metragem de Shainee Gabel chegou discretamente, sem grandes manobras de divulgação e promoção, mas destaca-se como uma das boas surpresas cinematográficas de 2005.

Ambientado nos cenários de calmaria e serenidade de Nova Orleães, "Uma Canção de Amor" (A Love Song for Bobby Long) foca a relação entre Purseland Will (Scarlett Johansson), uma jovem de 18 anos, e dois amigos da sua falecida mãe, Bobby Long (John Travolta) e Lawson Pines (Gabriel Macht). Os contactos iniciais da adolescente com a dupla masculina são conturbados, uma vez que Pursy herdou uma casa da sua mãe mas só após regressar da Florida a Nova Orleães é que se apercebe que terá de conviver com duas inesperadas companhias.

"Uma Canção de Amor" é daquelas obras que, embora não traga nada de especialmente original ou inovador, consegue ser quase sempre convincente e por vezes emanar uma vibrante aura encantatória. Um olhar realista sobre a inadaptação, o conceito de família, o crescimento, a arte e a amizade, a película de estreia de Shainee Gabel oferece um denso e estimulante estudo de personagens, ou não fosse este um filme de (óptimos) actores.

John Travolta assinala aqui a sua interpretação mais sólida e interessante desde o emblemático "Pulp Fiction", encarnado com subtileza e carisma Bobby Long, um ex-professor de literatura inglesa de meia-idade que se encontra imerso num quotidiano marcado pelo ócio, boémia e melancolia.
A estrela ascendente Scarlett Johansson confirma a sua versatilidade, apresentando uma prestação igualmente sedutora e longe da postura algo apática que expôs noutros papéis. Contudo, o actor que mais surpreende é Gabriel Macht, menos mediático do que os restantes protagonistas mas capaz de proporcionar um desempenho seguro, emotivo e magnético como Lawson Pines, afirmando-se como um talento a ter em conta.

Shainee Gabel apresenta uma obra com um ritmo pausado, mas raramente monótono, muito adequado às atmosferas sulistas norte-americanas de tons desencantados e melancólicos. O trabalho de realização é simples, mas não banal, e a narrativa desenvolve-se de forma espontânea e cativante.
"Uma Canção de Amor" é um intrigante retrato das experiências e tensões de um singular trio de anti-heróis que vive um dia-a-dia onde a música, o álcool e a literatura (há muitas citações por aqui) são os três elementos essenciais para que a sua existência ainda tenha algum sentido.

Sóbrio, intimista e agridoce, "Uma Canção de Amor" é mais um bom exemplo do actual cinema independente norte-americano, um título que não revoluciona mas envolve e surpreende consideravelmente. Não fosse o desenlace algo desequilibrado, incapaz de sustentar a discreta carga dramática que se tinha insinuado até então, e estaríamos perante um grande filme. Assim, Shainee Gabel gera uma primeira-obra que é bela sem ser excelente. Não deixa de ser, contudo, uma das que merece um atento visionamento e reflexão.

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

terça-feira, maio 24, 2005

CHOQUE DE CULTURAS COM TEMPEROS INDIANOS

Apesar do mercado discográfico nacional ser reduzido e limitado, o público português tem manifestado uma adesão muitas vezes inesperada a artistas que, não se sabe bem como - não será certamente pelo apoio da maioria dos media -, conseguem implementar-se aos poucos, despoletando consideráveis fenómenos de culto.

Tendo em conta o muito concorrido concerto decorrido no Coliseu de Lisboa no passado dia 20, Nitin Sawhney é mais um nome a acrescentar à lista de notáveis, conseguindo conquistar uma vasta audiência (a sala estava cheia) e gerando sem dificuldades um contagiante ambiente festivo.

O compositor e multi-instrumentista conta já com uma discografia consistente e elogiada, e regressou a palcos nacionais para apresentar o seu sétimo registo de originais, "Philtre", mais um concentrado fusionista que mescla pop, trip-hop, soul, dub, flamenco, r'n'b, hip-hop, rock e spoken word, entre outros géneros, acrescentando a esta vasta amálgama uma forte carga de sonoridades indianas.

O terceiro disco do músico, "Beyond Skin", de 1999, é já um clássico do asian underground, destacando Nitin Sawhney como uma figura de proa num movimento que inclui, entre outros, os Asian Dub Foundation, Talvin Singh ou Badmarsh & Shri.

Diversidade e eclectismo foram uma constante ao longo das cerca de duas horas de espectáculo, que contou com a colaboração de vários vocalistas, femininas e masculinos, que o músico foi apresentando.

O cardápio sonoro foi geralmente apelativo, percorrendo diversas geografias onde ritmos apaziguados foram interrompidos por alguns gritos de revolta. As atmosferas disseminaram a postura pacifista e tolerante que Sawhney expõe nos discos, que musicalmente resulta quando congrega os melhores elementos de uns Massive Attack, Zero 7 ou Transglobal Underground mas que, por vezes, envereda também por um menos interessante registo new age, mais próximo de uns Enigma ou mesmo Enya.

Apesar destes pontuais deslizes, a noite ofereceu alguns momentos exemplares, casos do emblemático "Sunset", com a voz de Sharon Duncan, ou do belíssimo "Spark", interpretado por Tina Grace. Pelo meio evidenciou-se um afável contacto com o público e até algumas críticas à política norte-americana (ao que parece, indispensável na maioria dos concertos de hoje), realizadas através de imagens de Bush e da mascote da McDonald's no ecrã ao fundo do palco.

Efusivamente aplaudidos, Nitin Sawhney e os seus colaboradores passaram assim com distinção num concerto que destilou competência e savoir faire, ainda que as composições do músico já tenham sido mais profícuas e inventivas. No entanto, a julgar pela reacção do público, as canções de Sawhney ainda estão, decididamente, dentro do prazo de validade.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM