sábado, maio 07, 2005

REGRESSO AO PASSADO

"Infiltrados 2" (Infernal Affairs 2), a segunda parte da famosa trilogia de Hong-Kong, adensa os ambientes de conspiração e, em vez de se concentrar na dupla de agentes do episódio inicial, debruça-se sobre os seus patrões, Wong (Anthony Wong), da polícia, e Sam (Eric Tsang), das tríades, cujas participações eram já determinantes no episódio inicial mas que aqui se tornam centrais.

Decorrendo num período temporal anterior ao do primeiro filme, "Infiltrados 2" é uma prequela que permite compreender mais a fundo as motivações e códigos de conduta de algumas personagens, evidenciando ainda que o conflito entre a polícia e as tríades é alvo de proporções quase míticas.

A aura trágica e amargurada reforça-se num filme que contém menos cenas de acção do que o antecessor mas que aprofunda os momentos de carregada tensão psicológica. Não é que não haja por aqui um número considerável de twists, mas o mais interessante é o foco da juventude de Yan e Ming e a forma como os seus compromissos enquanto agentes infiltrados começam a suscitar um inevitável isolamento, individualismo e solidão que nunca mais os abandonará.

Houve quem comparasse este segundo episódio à marcante saga "O Padrinho", de Francis Ford Coppola, e a comparação faz sentido se atentarmos a que ambas as obras abordam conflitos familiares e morais onde o drama e o thriller se imbricam de modo espontâneo, com resultados suficientemente intrigantes e memoráveis.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

UMA QUESTÃO DE TEMPO

"Infiltrados 3" (Infernal Affairs 3) volta a ser uma atípica continuação da saga, apresentando uma narrativa paralela que segue as peripécias de Ming após os eventos do primeiro filme e aborda também os primeiros tempos de Yan ao serviço de Sam, três anos antes. É talvez o episódio mais desequilibrado, mas também o mais desafiante, tornando-se especialmente curioso nas cenas em que se centra em Ming e na sua procura da redenção.

Contando com uma prestigiada carreira como polícia, o anti-herói tenta refazer a sua vida e compensar os actos criminosos que cometeu, procurando uma conduta digna e exemplar. Contudo, a chegada de um novo colega, Yeung, às forças policiais, faz com que os fantasmas e convulsões internas de Ming se revelem ainda mais, lançando-o para domínios que oscilam entre a paranóia e a esquizofrenia.

Outro dos elementos fortes do filme é a atenção dada à relação entre Yan e a Dra. Lee (Kelly Chen), que já se tinha insinuado na primeira parte da trilogia mas que adquire aqui contornos mais entusiasmantes e emotivos. Mais relevante ainda é a forma como esta personagem feminina se liberta dos clichés que a caracterizavam como um mero interesse amoroso de um os protagonistas, uma vez que o seu papel adquire maior relevância e densidade no desenlace da saga. Uma das cenas de antologia da trilogia é, de resto, aquela em que Lee se depara com Yan e Ming no seu consultório psiquiátrico, num soberbo momento onde as convulsões internas dos protagonistas emergem subitamente.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

sexta-feira, maio 06, 2005

UMA ESTADIA MEDIANA

Após permanecer numa quase total obscuridade durante a década de 90, com discos que eram conhecidos por poucos mais do que um público de faixas alternativas, Moby viu-se subitamente em contacto com o sucesso global através do multiplatinado "Play" no início do novo milénio, álbum que lhe possibilitou uma meteórica subida nos tops de vendas.

Divulgado até à exaustão com a rodagem dos múltiplos singles nas rádios, em filmes e em anúncios publicitários, esse marcante registo apresentou-o a um público mais vasto e tornou-o num dos artistas mais mediáticos do momento.

"18", o disco sucessor, continuou a apostar na fórmula vencedora - ambientes electrónicos, forte recurso a vozes sampladas, melancólicas atmosferas soul/gospel - e não demonstrou grandes tentativas de inovação, sendo talvez o trabalho menos ousado do músico até à data. Ainda assim, as vendas foram satisfatórias, e esperava-se com alguma expectativa um novo disco do "little idiot".

"Hotel", de 2005, assinala o regresso de Moby e é mais uma proposta marcada por sonoridades amenas e apaziguadas, apostando em composições maioritariamente downtempo mas que, desta vez, dispensam o apoio dos samples, um forte aliado dos registos anteriores do músico.

As canções mergulham em domínios tranquilos e contemplativos, ocasionalmente suportadas pela agradável voz de Laura Dawn, suficientemente agradável e enleante. Moby é também um dos vocalistas do disco, interpretando grande parte dos temas, ainda que com menor brilho e eficácia, comprovando a sua escassa versatilidade vocal.

Intimista e por vezes acolhedor, "Hotel" é, no entanto, um álbum pouco ambicioso e inventivo, percorrendo territórios já explorados e familiares q.b.. Oscilando entre baladas algo indistintas ("Dream About Me", "Love Should") e momentos rock demasiado convencionais ("Beautiful", "Raining Again"), o disco raramente ultrapassa uma preguiçosa mediania, nunca chegando a apresentar Moby no seu melhor.

Há boas canções, casos da melódica "Where You End" ou do promissor instrumental "Hotel Intro", a par de interessantes aproximações a referências incontornáveis como os New Order (através de uma versão minimalista de "Temptation"), David Bowie ("Spiders") ou mesmo Tricky (cuja sonoridade não anda muito distante do trip-hop sedutor de "I Like It").

Contudo, como um todo "Hotel" é redundante e sonolento, contendo composições lineares (tanto na música como nas letras), limitando-se a repetir ideias já trabalhadas e expondo um músico cada vez mais rotineiro e igual a si mesmo. É certo que ainda está um pouco acima de muitos subprodutos com os quais convive regularmente na MTV e aparentados, mas é excessivamente previsível vindo de alguém que já provou ser capaz de criar música estimulante. Um "Hotel" de duas estrelas (e meia), portanto, que serve para passar uma noite sem grandes inquietações mas que não ficará como uma das mais memoráveis.

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

quinta-feira, maio 05, 2005

SENSIBILIDADE E BOM SENSO

Pontualmente, há filmes que surgem de forma discreta mas que acabam por se tornar numa surpreendente e fascinante revelação. É o caso de "Salto Mortal" (Somersault), a primeira longa-metragem da australiana Cate Shortland.

Uma delicada obra sobre a adolescência, segue o rumo de Heidi, uma jovem de 16 anos que foge de casa após ter beijado o namorado da mãe, deparando-se assimcom um futuro incerto e de escassas perspectivas. A protagonista inicia então uma viagem sem um percurso definido, e ao longo desta a sua esfera emocional será alvo de algumas convulsões. Determinada a evitar a solidão, a jovem estabelece contactos sexuais com estranhos de formaregular, na tentativa de colmatar o seu vazio interior, mas esta conduta é reavaliada quando Joe, um rapaz de uma localidade rural, se atravessa no seucaminho.

Um subtil olhar sobre as dores do crescimento e a alvorada da idade adulta, "Salto Mortal" aborda a fase em que não temos outra escolha a não ser enfrentarmos o mundo sozinhos, quando os últimos anos da adolescência suscitam alterações determinantes.

É certo que a premissa deste projecto não traz nada de novo. Afinal, histórias sobre jovens revoltados que fogem de casa e encetam uma viagem de auto-descoberta constituem uma temática por demais trabalhada. Contudo, Cate Shortland assinala aqui uma estreia notável que sabe fugir aos tentadores lugares comuns e abordar esta questão com sensibilidade einteligência, a milhas dos formatos aparentados os telefilmes.

"Salto Mortal" cativa logo nos momentos iniciais através de um brilhante estilo visual, com imagens repletas de texturas e contrastes cromáticos. Contando comum soberbo trabalho de iluminação e uma fotografia igualmente apelativa, o filme gera uma atmosfera singular e encantatória, emanando um realismo etéreo e sedutor. Este apuro estético recusa manobras de ostentação inócua, já que Shortland mantém sempre um considerável rigor e equilíbrio, sabendo dosear os seus condimentos com eficácia.
A realizadora oferece uma obra que, mais do que uma experiência cinematográfica, é sobretudo sensorial, revelando uma preciosa atenção ao detalhe e apostando nas complexidades dos gestos, dos olhares e da linguagem corporal, ou não fosse este um filme sobre os mistérios da intimidade e da cumplicidade.

A actriz Abbie Cornish é essencial para que a película resulte, sendo bem sucedida na difícil mescla de ingenuidade e rebeldia, apresentando uma interpretação com uma presença forte e magnética. Por vezes angelical e frágil, noutras ocasiões insinuante através de uma demolidora carga sexual, Cornish encarna a sua personagem com uma espontaneidade e carisma assinaláveis.
Sam Worthington é também credível como Joe, cuja máscara de austeridade e determinação esconde um denso desassossego emocional. O duo poderia ter seguido estafados clichés boy meets girl, caracterizados por um determinismo estereotipado, mas felizmente Shortland soube como abordar este relacionamento de forma interessante e surpreendentemente madura (tendo em conta que se trata de uma primeira obra).

A realizadora acertou também na escolha da banda sonora, maioritariamente composta por temas da banda australiana Decoder Ring, projecto que fornece uma belíssima colecção de temas de electrónica ambiental não muito distantes de domínios dos Sigur Rós, Air e Múm, unindo experimentalismo a uma forte componente melódica.
Algumas das melhores cenas de "Salto Mortal" resultam, aliás, da união perfeita da imagem e da música, originando estimulantes momentos de antologia vincados por uma carregada vertente contemplativa (os viciantes ambientes de Sofia Coppola são uma referência próxima).

Envolvente e acolhedora, a primeira longa-metragem de Cate Shortland é uma muito inspirada surpresa, proporcionando uma das melhores perspectivas sobre a adolescência de um ponto de vista feminino surgidas nos últimos anos, conseguindo ir bem mais longe do que títulos como "Treze – Inocência Perdida", de Catherine Hardwicke; "Blue Car", de Karen Moncrieff; ou "A Flor do Mal", de Peter Kosminsky, que percorrem territórios semelhantes mas sem o mesmo fulgor. Sem dúvida, uma das mais preciosas pérolas indie de 2005.
E O VEREDICTO É: 4/5 - MUITO BOM

quarta-feira, maio 04, 2005

OS CINCO MAGNÍFICOS

Conhecido pela sua filmografia atípica e de forte carácter independente, Samuel Fuller apresentou "O Sargento da Força Um" (The Big Red One) pela primeira vez em 1980, e este ficou como uma das suas obras mais emblemáticas e aclamadas.

Mais de vinte anos depois, o filme foi alvo de uma reconstrução por Richard Schickel e Brian Jamieson, que acrescentaram algumas cenas à versão inicial retiradas de uma montagem de quase seis horas que incluía muitas sequências rejeitadas. Assim, a duração do novo filme é consideravelmente mais longa, contando com 162 minutos, uma reconstrução significativa tendo em conta que o original não ultrapassava os 109.

"O Sargento da Força Um – A Reconstrução" (The Big Red One: The Reconstruction) não é propriamente um Director’s Cut, uma vez que esta remodelação foi efectuada após a morte do realizador (ocorrida em 1997), mas aproximar-se-á, eventualmente, da versão do filme que Fuller preferia (tendo em conta que o cineasta se mostrou pouco convencido com as cerca duas horas de filme apresentadas em 1980).

Um denso e portentoso olhar sobre os dramas e absurdos da guerra, este épico centra-se num esquadrão do exército norte-americano (interpretado com consistência por Lee Marvin, Robert Carradine e Mark Hammill, entre outros) em missão durante a Segunda Guerra Mundial, que combate em África e na Europa entre 1942 e 1945.
Fuller inspirou-se nas suas próprias memórias enquanto soldado para gerar este retrato assombro e pungente, uma obra de extremos que tanto percorre domínios de uma singular sensibilidade como aposta nas mais cruéis e nefastas situações, expondo com mestria a ambivalência humana e as consequências da violência.

Com tanto de trágico como de cómico (vincado por um humor bem negro), contendo momentos de abrupta frieza a par de outros inesperadamente calorosos, o filme adopta uma estrutura episódica que segue as atribuladas peripécias do grupo de soldados, focando não só a coragem e resistência destes mas também os seus receios e inquietações. Fuller consegue injectar as doses certas de nervosismo e tensão, proporcionando uma narrativa marcada pela imprevisibilidade onde o carácter efémero da vida está omnipresente e é cada vez mais sentido pelo núcleo de protagonistas.

As cenas de acção são vibrantes e claustrofóbicas, dominadas por atmosferas nebulosas onde o caos é um elemento incontornável. Muito eficazes e adequadamente rudes, as situações ambientadas nos combates conciliam um negríssimo realismo e um dramatismo quase poético (com reflexos, por exemplo, n’"O Resgate do Soldado Ryan", de Spielberg), despoletando uma aura de melancolia e amargura que se adensa progressivamente.

A estrutura fragmentada e espartana do filme pode funcionar contra si, dado que o ritmo e a pertinência das cenas é desigual, mas globalmente "O Sargento da Força Um – A Reconstrução" esmaga pela verosímil desolação e pelos momentos de intrigante intimismo que despontam entre as explosões e cenários catastróficos, exibindo o olhar de um cineasta ousado e inspirado. Um poderoso filme de guerra que, à semelhança dos melhores, não ignora as convulsões e complexidades da esfera humana.

E O VEREDICTO É: 4/5 - MUITO BOM

BLINKS & LINKS

Obrigado aos responsáveis pelos blogs Big Black Boat, De Puta Madre, Substrato e Tripping Out if My Space por me blinkarem ;)

terça-feira, maio 03, 2005

C' MON BILLY...

O ex-vocalista de um das melhores bandas dos anos 90 está de volta com um novo disco e regressará a palcos portugueses :D

O primeiro disco a solo de Billy Corgan, dos extintos Smashing Pumpkins, tem edição prevista para 21 de Junho e o músico actuará na Aula Magna, em Lisboa, no dia 1 desse mês, iniciando a sua digressão europeia.

"TheFutureEmbrace" promete, e alguns dos temas regressam às atmosferas melancólicas, góticas e electrónicas presentes no genial "Adore". Espera-se um passo em frente depois dos chatinhos Zwan...

Entretanto, podem ouvir aqui algumas canções novas e visionar ainda o videoclip do primeiro single, "Walking Shade" ;)

Quem é amigo, quem é??

NOVE MESES

"Ono", a segunda longa-metragem da polaca Malgosia Szumowska, contém uma premissa polémica que poderia ter dado forma a mais um filme banal e formatado. Afinal, o tema da interrupção voluntária da gravidez está na base de medíocres telefilmes baseados em factos verídicos que mais não fazem do que funcionar como uma desculpa para expor uma posição política, usando o cinema como mero meio para transmitir uma postura ideológica de forma geralmente pouco subtil.

Felizmente isso não acontece aqui, já que Szumowska é hábil e consegue contornar os lugares comuns que poderiam penalizar o seu projecto, centrado nos dilemas de Eva, uma jovem de 22 anos que engravida e fica indecisa entre praticar um aborto ou assumir o papel de mãe. Até aqui nada de novo, esta ideia foi já vista e revista inúmeras vezes, mas "Ono" afasta-se de territórios mais convencionais e oferece uma peculiar perspectiva sobre as dores do crescimento, a união familiar, a amizade e as dificuldades das escolhas, e o resultado é uma tridimensional visão das inquietações que marcam o final da adolescência e a entrada na idade adulta.

Um dos grandes méritos do filme é, indubitavelmente, a actriz principal, Malgosia Bela, que assinala uma interpretação comovente, luminosa e carismática, evidenciando as tensões e dilemas que sobressaltam a protagonista.
Ao longo de nove meses, Eva vive uma fase difícil onde tem de lidar com os receios quanto a um futuro enigmático e com um presente vincado pela preocupante gravidez, a doença do pai, a conturbada relação com a mãe, os problemas da amiga Ivone (a prostituta com um coração de ouro) e a estranha cumplicidade com o irreverente Michal, um jovem à beira do abismo (numa soberba prestação do promissor Marcin Brzozowski).
Obrigada a crescer depressa demais, Eva redescobre o mundo à medida que vai gerando uma ligação cada vez mais determinante com o seu bebé, que se torna no seu principal confidente.

Szumowska proporciona uma película honesta e genuína que se torna convincente devido à eficácia dos actores, ao sólido argumento e ao impressionante realismo dos espaços (a que não será alheia a experiência da realizadora nas áreas do cinema documental). Interessante, também, é o olhar sobre alguns aspectos da sociedade e cultura polacas, que tanto foca as suas vertentes mais tradicionais e mesmo pitorescas (a casa da protagonista, a cerimónia do casamento) como a subcultura urbana que começa a impor-se (e cujo conhecimento Eva aprofunda através da relação com Michal).

Percebe-se, então, porque é que a carreira de Malgosia Szumowska tem sido elogiada internacionalmente – o seu primeiro filme, "Happy Man", foi incluído nas melhores obras de 2001 segundo a revista “Variety” e "Ono" foi nomeado para o Grande Prémio do Júri no Festival de Sundance de 2005 -, uma vez que consegue gerar um olhar próprio e pessoal sobre temáticas que, noutras mãos, apenas cairiam em estafados clichés.
Ao segundo filme, Szumowska confirma-se como uma entusiasmante cineasta ao apresentar um retrato interessante e ambíguo sobre a maternidade e os primeiros dias da idade adulta. Uma obra a descobrir e um nome a fixar.

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

segunda-feira, maio 02, 2005

O RENASCER DOS MORTOS

Eles vivem!!! Após alguns adiamentos, parece que a quarta temporada da melhor série em exibição na TV portuguesa (perdoem-me os fãs do "24", "Sopranos", "Lost" e "CSI") vai mesmo começar hoje à noite na 2:. Esperam-se mais recomendáveis doses de drama envolvente, humor negro e personagens carismáticas... (Re)descubram "Sete Palmos de Terra" (Six Feet Under) porque vale a pena ;)

PERTO DEMAIS

"Private", do italiano Saverio Constanzo, tem tido um acolhimento bastante positivo em diversos eventos cinematográficos internacionais, desde o Festival de Locarno (Melhor Filme e Melhor Actor) até ao IndieLisboa 2005 (Prémio do Público para Melhor Longa-Metragem), onde foi considerada uma promissora primeira longa-metragem.

Abordando o conflito israelo-palestiniano, particularmente as peripécias de uma família da Palestina cuja casa é invadida por soldados israelitas, "Private" proporciona uma inquietante perspectiva acerca de um tema polémico e actual, e o seu impacto torna-se ainda mais forte tendo em conta que o realizador se baseou em factos verídicos.

O quotidiano de Mohamed, professor e director de um Instituto, Samia e dos seus cinco filhos já era suficientemente conturbado, mas o risco aumenta de forma mais demarcada quando a família é forçada a repartir o espaço da sua casa com um grupo de soldados israelitas que a adopta como local estratégico. Recusando abandonar o seu lar, a família palestiniana irá viver um dia-a-dia ainda mais tenso e soturno, partilhando uma pequena divisão e estando sujeita às rígidas regras dos seus novos vizinhos.

Esta inesperada situação despoleta uma disparidade de opiniões e cisões dentro do núcleo familiar e coloca em causa a sua união, dado que nem todos os elementos optam por resistir às investidas dos soldados. Entre o pânico e o desespero, as reacções dos filhos do casal são as mais diversas, que tanto incluem a revolta e contestação de Mariam, a mais velha, como o desejo de fuga de Jamal.

Saverio Constanzo oferece um intenso e sufocante retrato desta conjuntura, criando uma obra absorvente e assustadoramente verosímil. O realizador evita habilmente que o seu projecto se transforme num panfleto a favor ou contra qualquer uma das partes envolvidas, gerindo a acção com um equilíbrio apreciável.
Nos primeiros momentos da invasão ao lar palestiniano, os soldados israelitas são caracterizados de forma algo maniqueísta e unidimensional, mas aos poucos Constanzo revela que também eles não são imunes aos medos e angústias que a guerra suscita. A captação das incertezas e receios dos soldados é feita de forma notável nas cenas em que Mariam se esconde num armário e observa os invasores sob um novo ponto de vista (em alguns dos momentos mais fortes e penetrantes do filme, com um nervosismo à flor da pele).

"Private" possui um ritmo imparável, irradiando energia e vibração, e mesmo nos momentos aparentemente mais apaziguados é possível sentir uma aura densa e claustrofóbica. Para que um projecto destes resulte é vital a presença de um elenco credível, e aqui os actores mostram-se à altura através de interpretações convincentes, algo especialmente notável dada a reduzida idade de grande parte dos protagonistas. As personagens resultam e evidenciam as consequências determinantes que uma atmosfera de cortante tensão pode originar, gerando cenas com um fortíssimo impacto emocional.

O trabalho de realização de Constanzo adapta-se bem ao tema, apostando num realismo áspero, cru e sujo, reforçado pelo frequente uso da câmara à mão e tornando as situações ainda mais plausíveis.

Dominado por um ambiente com fartas doses de suspense, "Private" é um drama que intriga e arrepia mais do que muitos thrillers, concentrando uma série de momentos de tirar o fôlego e oferecendo um olhar visceral sobre uma situação-limite. Desencantado e memorável, prende o espectador numa intrincada teia de acontecimentos e consegue surpreender até ao muito apropriado desenlace, salientando-se como uma portentosa e muito recomendável experiência cinematográfica que ficará, seguramente, como uma das melhores primeiras-obras do ano.

E O VEREDICTO É: 4/5 - MUITO BOM

domingo, maio 01, 2005

INDIELISBOA: E OS VENCEDORES SÃO...

A aproximar-se do final, o IndieLisboa apresentou ontem reexibições de alguns dos seus filmes e a estreia de «My Summer of Love» («Amor de Verão»), de Pawel Pawlikowski, mas o ponto alto foram mesmo as atribuições dos prémios desta edição.

Uma parte significativa dos títulos do festival focou a adolescência, e uma das mais interessantes foi «Ono», da polaca Malgosia Szumowska, acerca da conturbada situação de uma jovem grávida que não sabe como lidar com a maternidade. A actriz principal do filme compareceu no final da sessão e mostrou-se afável na relação com o público, indicando a sua perspectiva sobre algumas das ambiguidades da película e revelando detalhes acerca do seu processo de produção.

Outra película sobre os dilemas da juventude reexibida ontem foi «Unknown Pleasures», do “Herói Independente” Jia Zhangke, um filme desencantado que segue as peripécias de dois amigos que se deparam com a falta de perspectivas que marca o seu quotidiano, pouco próspero e promissor.
Recorrendo a um realismo quase documental, apostando em planos longos e num ritmo pausado, Zhangke consegue, por vezes, evidenciar a fragilidade e angústia que vinca o dia-a-dia destes adolescentes, mas «Unknown Pleasures» raramente envolve e arrasta-se durante duas excessivas horas. Monótono e repetitivo, o filme talvez resultasse, contudo, se reduzisse para metade a sua duração e enveredasse por uma narrativa mais escorreita e coesa. O realizador esteve presente no final da sessão, onde respondeu a algumas questões dos espectadores, sobretudo acerca da censura a que as suas obras foram expostas durante vários anos na sua nação natal, a China.

Um dos mais aguardados títulos do festival, «My Summer of Love», de Pawel Pawlikowski, foi o escolhido para a esgotada sessão de encerramento (afinal ainda arranjei bilhete para este). Centrado na peculiar relação de duas jovens que se conhecem numas férias de Verão, a quarta longa-metragem deste cineasta é mais um delicado olhar sobre a adolescência, que se revelou um tema fértil para muitos dos indies da segunda edição do festival.

Antes de «My Summer of Love» decorreu a muito esperada entrega de prémios de um IndieLisboa que contou com vários títulos recomendáveis. Os premiados serão reexibidos hoje nos cinemas King e são os seguintes:

- Grande Prémio de Longa-Metragem: «The Forest for the Trees», de Maren Ade

- Grande Prémio de Curta-Metragem Sagres Presta: «Undressing my Mother», de Ken Wardrop

- Prémio Tóbis para o Melhor Filme Português: «Adriana», de Margarida Gil

- Prémio de Melhor Fotografia para Filme Português Fujifilm AIP-Cinema: «Um Homem», de Laurent Simões

- Prémios 2/Onda Curta: «Phantom Limb», de Jay Rosenblatt; «Fare Bene Mikles», de Christian Angeli; «Undressing my Mother», de Ken Wardrop; «Compassos de Espera», de Pedro Paiva (Menção Honrosa)

- Prémio Amnistia Internacional: «North Corea, a day in the Life», de Pieter Fleury

- Prémio Jameson do Público: Melhor Longa-Metragem: «Private», de Severio Consatanzo

- Prémio Jameson do Público: Melhor Curta-Metragem: «Home Game», de Martin Lund

- Prémio IndieJunior: «Flatlife», de Jonas Geirnaert

Espero ver alguns destes hoje...

INTIMIDADE

Um dos filmes independentes britânicos mais aclamados dos últimos anos, "Amor de Verão" (My Summer of Love), de Pawel Pawlikowski, retrata a relação de duas adolescentes que se conhecem numa pequena localidade inglesa durante umas férias de Verão e geram uma cumplicidade mútua.

Mona, ingénua e rebelde, e Tamsin, astuta e enigmática, provêm de meios sociais e culturais diferentes (a primeira é de origens humildes, a segunda faz parte de uma família rica), mas o isolamento e o sentimento de inadaptação que marca o quotidiano de ambas acabam por funcionar como fortes elementos que originam uma súbita mas densa empatia.

Pawel Pawlikowski apresenta um drama coming of age que foi alvo de alguma polémica devido à relação supostamente lésbica das suas protagonistas, mas o realizador trata a temática da (des)orientação sexual de forma contida e delicada, evitando as armadilhas de um manifesto lésbico e recusando o choque gratuito e inócuo.

O que "Amor de Verão" proporciona é uma sensível perspectiva acerca dos dilemas da adolescência e do turbilhão emocional que emerge quando as fronteiras entre a amizade, o amor e a obsessão se tornam cada vez mais ténues. Pelo meio, há ainda espaço para focar a quebra dos laços familiares, a religião, a morte, a alienação e a identidade através de uma mistura (por vezes desinteressante) de drama e humor.

Embora seja uma obra refrescante e envolvente, a quarta longa-metragem de Pawlikowski acaba por não desbravar tanto território quanto poderia, seguindo situações já abordadas em títulos como "A Outra Metade do Amor" (Lost and Delirious), de Léa Pool, ou "Amizade sem Limites" (Heanvenly Creatures), de Peter Jackson, este último bem mais ousado e memorável.
Por um lado, a narrativa é demasiado irregular e com uma tensão dramática abaixo da esperada; por outro, as motivações de algumas personagens ficam por esclarecer (sobretudo as de Tamsin e as do irmão de Mona), o que origina situações um pouco forçadas.

Apesar dos seus desequilíbrios, "Amor de Verão" impõe-se como uma obra bem conseguida e suficientemente agradável, ainda que não seja nem tão emotiva nem tão inquietante como poderia. A direcção de actores é consistente, com destaque para as protagonistas Natalie Press e Emily Blunt, o argumento cumpre, a realização de tons realistas é adequada e a ecléctica banda sonora entusiasma (indo de Edith Piaf aos Goldfrapp, passando por Mozart e Gilberto Gil & Caetano Veloso), motivos mais do que suficientes para tornar o filme de Pawlikowski num objecto estimável, mas longe de genial.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

BLINKS & LINKS

Obrigado aO Micróbio por me ter blinkado ;)

sábado, abril 30, 2005

UNS DIAS DE RAIVA

Sobre este "Dias de Santiago", a primeira longa-metragem do peruano Josué Méndez, algumas vozes evocavam traços do incontornável "Taxi Driver", de Martin Scorcese, pelo tipo de atmosferas e pelo protagonista numa situação-limite, incapaz de lidar com um mundo em combustão.

De facto, à semelhança do que ocorre com "O Assassínio de Richard Nixon", de Niels Mueller, os fantasmas dessa influente obra passam por aqui, neste retrato desencantado das experiências de um ex-soldado que regressa a casa após anos de combate e se depara com uma realidade pouco auspiciosa.

Santiago Roman observa e analisa os seus amigos, familiares e outros habitantes de Lima, mas não encontra nada de motivador ou esperançoso nestas figuras, recolhendo-se então numa esfera de melancolia, amargura e um carregado nervosismo à beira da explosão, sentimentos que se intensificam num quotidiano vincado pela falta de perspectivas. Um outcast incompreendido pelos que o rodeiam, o protagonista opta, aos poucos, por adoptar uma atitude mais proactiva, de forma a responder a uma sociedade decadente e infrutífera.

Josué Mendez aborda a inquietação da sua personagem principal de forma eficaz, apostando numa realização de tons crus e realistas, contando com uma fotografia de tonalidades apropriadamente rudes e ásperas. Contudo, o recurso a algumas imagens a preto-e-branco em diversos momentos torna-se cansativo, e o ritmo do filme é demasiado irregular, assim como o argumento, que não dispensa uma série de cenas redundantes.

Pietro Sibille foi uma escolha adequada para protagonizar o filme, expondo as doses necessárias de revolta, inocência e genuinidade, embora os restantes elementos do elenco não possuam interpretações especialmente memoráveis, raramente ultrapassando a mera competência.

"Dias de Santiago"
é uma estreia interessante, mas que fica aquém das suas potencialidades, dado que a sua abordagem não fornece nada de novo nem de muito imaginativo. Um filme curioso, ainda assim, mas prejudicado por momentos bastante frágeis, como o desenlace que segue os moldes de um histérico e pouco convincente drama “de faca e alguidar”.

E O VEREDICTO É: 2/5 - RAZOÁVEL

A RECTA FINAL

Já com mais de uma semana e com mais de dez mil espectadores, a segunda edição do IndieLisboa aproxima-se agora do seu final. O nono dia do festival não apresentou filmes inéditos mas constituiu uma oportunidade para (re)ver algumas das obras em exibição.

Em destaque estiveram «Le Conseguenze dell’ Amore», de Paolo Sorrentino; «The Forest for the Trees», de Maren Ade; «Le Pont des Arts», de Eugène Green; ou «Dias de Santiago», de Josué Mendez; entre outros (ver críticas). O soberbo Director’s Cut de «The Big Red One», de Samuel Fuller, um dos maiores destaques desta segunda edição, foi também reexibido, assim como o inclassificável «Tropical Malady», de Apichatpong Weerasethakul, uma das maiores bizarrias que por lá passou.

Entretanto, estão quase a ser revelados os filmes mais votados pelo público e pelo júri, e aguarda-se com expectativa «My Summer of Love», de Pawel Pawlikowski, a película da sessão de encerramento que será exibida hoje à noite e que já se encontra esgotada há vários dias (e para a qual não consegui bilhete...).

sexta-feira, abril 29, 2005

INADAPTADA

Inquietante, esta primeira longa-metragem da alemã Maren Ade. “The Forest for the Trees” segue, inicialmente, um registo de comédia dramática acerca das peripécias de Melanie, uma jovem professora que tenta reconstruir a sua vida após o divórcio. Proveniente de uma localidade rural, a protagonista consegue emprego numa escola de uma cidade e tenta adaptar-se às vicissitudes do espaço urbano, procurando encetar novas amizades.

Contudo, por mais que tente, Melanie não consegue sair de uma esfera de solidão e isolamento, raramente estabelecendo laços com os que a rodeiam. Se a sua vida pessoal é pouco próspera, as suas experiências profissionais são ainda mais frustrantes, uma vez que a professora não conquista o respeito dos alunos e é alvo de troça recorrente.

“The Forest for the Trees”
começa por divertir o espectador, uma vez que as situações embaraçosas geradas por Melanie são cómicas mas bastante verosímeis, comprovando que há por aqui uma realizadora perspicaz e atenta aos detalhes do quotidiano. No entanto, à medida que a protagonista vai entrando numa espiral descendente, essas situações vincadas pelo humor tornam-se cada vez mais difíceis de observar, expondo grandes doses de desencanto e melancolia.

A jovem professora, que no início do filme irradia um optimismo e idealismo surpreendentes, terá de lidar com as consequências da sua ingenuidade e não será poupada a uma série de cruéis episódios à medida que é ignorada, desprezada e ridicularizada pelos outros. Maren Ade aplica à sua personagem múltiplos requintes de malvadez, gerando momentos tragicómicos e tornando o filme numa experiência desconcertante.

Melanie é uma figura incómoda e vítima da sua própria fragilidade, um elemento instigador de situações constragedoras, o que faz com que seja incapaz de criar novas relações, ainda que as suas atitudes sejam sempre (e é isto que inquieta e comove) bem-intencionadas.
A realização crua e despojada de Ade intensifica a carga de realismo que uma obra desta vertente exige, e a soberba interpretação de Eva Löbau faz de Melanie uma das protagonistas mais marcantes de 2005, concentrando amargura e desilusão.

Poderoso retrato das relações humanas, “The Forest for the Trees” começa com um humor ligeiro para enveredar depois por um frio e clínico estudo de personagem, num crescendo emocional asfixiante que se mantém até ao tenso e brutal desenlace.

Se Melanie passa o filme num estado de angústia e desespero que tende a aprofundar-se, o mesmo acontece com o espectador, o voyeur deste retrato de pequenas mas violentas torturas. Por isso, é difícil relacionarmo-nos com este filme, como seria difícil relacionarmo-nos com Melanie, mas há que reconhecer que Maren Ade é uma realizadora a seguir com atenção.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

QUOTIDIANO POUCO DELIRANTE

"Le Conseguenze dell' Amore" centra-se em Titta di Girolamo, um homem de meia idade com ligações à Máfia que passa os dias num hotel há quase dez anos, vivendo uma rotina pouco auspiciosa marcada pelo progressivo distanciamento em relação aos que o rodeiam.

Individualista, silencioso e solitário, o protagonista começa a evidenciar sinais de mudança à medida que se torna mais próximo de Sofia, uma jovem empregada do hotel com quem acaba por criar uma inesperada empatia. Contudo, até que ponto é que esse envolvimento poderá ser seguro e conveniente?

Este drama existencialista cool com traços de suspense começa de forma suficientemente intrigante, contando com a mais-valia de uma convincente banda-sonora (o melhor do filme) e de uma realização sofisticada, mas Paolo Sorrentino não consegue proporcionar uma execução envolvente e "Le Conseguenze dell' Amore" depressa se torna numa obra banal e monótona.

O ritmo é demasiado lento e as personagens permanecem sempre gélidas e impenetráveis, sobretudo o protagonista, interpretado por um lacónico Toni Servillo. Numa curta ou média metragem, talvez o projecto resultasse, mas o argumento árido e esquelético não se aguenta durante hora e meia, e a película só não se torna enfadonha quando Sorrentino se apoia nas composiçõs musicais para gerar alguma vibração e impacto. Um filme desinspirado e inconsequente.

E O VEREDICTO É: 1/5 - DISPENSÁVEL

UMA SEMANA INDIE

O oitavo dia do IndieLisboa foi marcado por três estreias, e a primeira a ser exibida foi «Parapalos», de Ana Poliak, um filme que, apesar de ser proveniente da Argentina, não se encontra inserido na secção “Herói Independente” do festival (que destacou ontem «Modelo 73», «Cabeza de Palo» e «Balnearios»), sendo antes uma das obras em competição.

Outro título em competição apresentado ontem foi «Ono», da polaca Malgosia Szumowska. Ambos os filmes focam o universo da adolescência, mas de forma diferente: «Parapalos» centra-se num jovem do meio rural que viaja para Buenos Aires e torna-se empregado de um salão de bowling, já «Ono» narra a inquietação de uma adolescente grávida indecisa entre assumir o papel de mãe ou abortar.

A outra estreia do dia – uma ante-estreia, aliás, tendo em conta que o filme está confirmado para o circuito comercial nacional – foi «Somersault», da australiana Cate Shortland (na foto acima), uma película que tem sido alvo de múltiplos elogios em festivais internacionais. Abordando as peripécias de uma jovem que tenta enfrentar as suas emoções e os laços com os que a rodeiam, Shortland gera uma notável primeira obra e um dos mais belos filmes deste IndieLisboa. Lamenta-se, por isso, que a afluência do público tenha sido apenas moderada, pois este é um título que merece toda a atenção (crítica mais detalhada em breve).

Bem menos entusiasmante, mas bastante concorrido, «Sund@y Seoul», do coreano Oh Myung-hoon, destacou-se como uma das obras em competição mais aguardadas do dia, dado que o filme não foi exibido na íntegra durante a sua primeira exibição, no passado domingo, pois a cópia do mesmo encontrava-se incompleta.

Baseado em artigos da imprensa sensacionalista, «Sund@y Seoul» apresenta os encontros e desencontros de uma série de personagens onde a tecnologia – os telemóveis e a Internet, sobretudo – desempenha um papel fulcral nas formas de comunicação, e é determinante para que as três histórias que compõe o filme se entrecruzem. Contudo, não é com personagens desinteressantes nem com uma narrativa demasiado dispersa que Oh Myung-hoon consegue tornar esta premissa em algo consistente, e esta sua primeira longa-metragem, apesar de conter algumas cenas intrigantes, arrasta-se sem brilho e não tem nada para dizer. Ser indie não basta, é preciso ter ideias...e boas, de preferência...

quinta-feira, abril 28, 2005

QUEREM (MAIS) UM?

Ele tinha prometido voltar, em Novembro de 2004, perante uma Aula Magna carregada de vibração e entusiasmo. Mais: comprometeu-se a regressar com a banda, embora o seu concerto a solo tenha comprovado que o músico sabe ser eficaz por si só. E assim foi…

Poucas semanas após ter actuado na primeira parte do concerto dos Keane, Rufus Wainwright voltou a palcos nacionais para um concerto no Coliseu de Lisboa no passado dia 24. E desta vez com a sua banda, conforme tinha prometido.

Um nome em ascensão entre nós, o cantor/compositor/multi-instrumentista tem prosseguido um sólido rumo e conta já com quatro álbuns de originais, conquistando, aos poucos, um público cada vez mais alargado. Prova disso é o acolhimento de que goza em território luso, onde a quantidade de fãs dedicados e já considerável (e até surpreendente, tendo em conta o reduzido mercado). No entanto, a sala do Coliseu não se encontrou muito preenchida, o que se deve, provavelmente, às visitas regulares que o músico canadiano efectuou a palcos nacionais nos últimos meses (espera-se que este não seja mais um artista vítima de uma exposição excessiva, que poderá jogar contra si, como ocorreu com os Tindersticks ou os Lamb há uns anos).

A noite de domingo demonstrou, contudo, que apesar de Wainwright se ir tornando já numa cara mais conhecida, mantém ainda um evidente profissionalismo e entrega. “Want Two”, o mais recente disco do músico, foi o principal destaque do espectáculo, o que não impediu pontuais regressos ao passado para a recuperação de temas emblemáticos.

“Agnus Dei” foi o momento inaugural e gerou logo um ambiente marcado por uma concentração quase religiosa (ou não fosse a pop alvo de culto) por parte dos espectadores. Acompanhado por uma banda com instrumentos que englobavam a guitarra (acústica e eléctrica), bateria, violino e violoncelo, o cantor recorreu ainda à fulcral contribuição do piano e apresentou um lote de sólidas canções. “Vibrate” foi um dos primeiros temas de eleição, congregando a mescla de intimismo e emotividade característica do músico, mas o concerto ofereceu outros episódios de boa memória como “Memphis Skyline” ou o marcante “Hallelujah” (a tal cover de Leonard Cohen), dedicados a Jeff Buckley.

Foto: Cotonete

Algo que tem vindo a evidenciar-se nos concertos de Wainwright é a sua faceta de contador de histórias, que tem sido desenvolvida de forma convincente. Aqui voltou a manifestar-se, tanto nos comentários acerca da religião (“Gay Messiah” foi dedicada a todos os Papas, numa curiosa atitude de provocação que já se previa) ou em revelações acerca da sua família, por vezes divertidas e noutros casos mais emotivas. A química com o público surgiu naturalmente, e para além do talento como músico Wainwright exibiu ainda os seus dotes de entertainer nato, irradiando uma boa-disposição contagiante.

Outros momentos cativantes foram “Across the Universe”, a belíssima cover dos Beatles (incluída na banda-sonora de “I Am Sam”) e o indispensável “Cigarettes and Chocolate Milk”, que não poderia ser esquecido. Todavia, a surpresa da noite chegou com os encores, onde não só o músico mas toda a banda começaram, subitamente, a despir-se, deixando o público expectante e intrigado. Wainwright acabou por ficar apenas com um minúsculo fio dental, sapatos de salto alto de um vermelho berrante e asas de borboleta, sendo imediatamente observado, comentado e aplaudido pelos espectadores (morram de inveja, Scissor Sisters!).

“Aposto que os rapazes dos Keane não fizeram isto”, afirmou o cantor, atirando mais um comentário mordaz e irresistível. A animada “Old Whore’s Diet” ficou assim como o momento mais memorável da noite, mas os três (!!!) encores apresentaram ainda “Oh What a World”, “I Don’t Know What it Is”, “Poses” e o muito trauteável “Califórnia”, que o músico interpretou já de roupão vestido.

Embora tenha sido um concerto agradável e competente, não contou com uma atmosfera tão calorosa e intimista como o espectáculo na Aula Magna, no final do ano passado, e, exceptuando o delirante desenlace, não ocorreu nada de verdadeiramente surpreendente e inesperado. Não afecta, ainda assim, uma performance em boa forma, durante mais de duas horas, e a confirmação de um nome a reter e a seguir com atenção, constando já na selecta lista de artistas de culto.

Antes da actuação de Rufus Wainwright, Joan as a Police Woman (que faz parte da banda de Rufus) foi a escolhida para aquecer a noite, mas não conseguiu animar muito os ânimos dos espectadores através da sua morna selecção de canções. Suficientemente afável e cumpridora, apresentou um conjunto de temas razoáveis mas demasiado indistintos, apostando nos moldes mais convencionais das composições dos singers/songwriters. Curiosamente, o momento alto da sua prestação foi o último tema, (merecidamente) dedicado a Elliott Smith, por sinal um dos nomes mais criativos do género durante a última década. No entanto, artistas como Rufus Wainwright comprovam que a vitalidade continuará presente nesses domínios, e a noite de domingo consta já entre as boas memórias musicais de 2005.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM